Hora de Recomeçar!
10 Amores que vem e vão
10. Amores que vem e vão.
O relógio do pequeno apartamento marcava a hora exata, 2:35 da madrugada. O silêncio na rua só era quebrado por alguns ruídos causados pelo vento forte, indicando que o inverno já estava chegando. Com olhos bem abertos, direcionados à janela, observava, deitado em sua cama, as luzes que brilhavam ao longe, por toda a cidade. Não havia se quer cochilado aquela noite, rolava na cama de um lado para o outro e já havia consultado o relógio inúmeras vezes. Seus pensamentos não permitiam que o sono chegasse e por toda a noite uma única imagem vinha em sua cabeça.
Não suportava aquela situação, tantas incertezas ...
Já haviam se passado duas semanas desde que aquele encontro em seu apartamento aconteceu. Nada havia se confirmado, apesar de ter pensado que tudo ficaria bem claro. Mas existia uma barreira e ele não conseguia vencê-la. Seiya não compreendia as atitudes de Saori, já não tinha certeza do amor que a garota demonstrara em tantas ocasiões. Aquela dúvida o estava corroendo por dentro, não suportava mais a espera, precisava de uma palavra, algo que expressasse o que realmente a Deusa sentia por seu cavaleiro.
Em um gesto quase mecânico, se levantou de sua cama, acendeu a luz de seu quarto, pegou o telefone e discou o número da mansão Kido.
– Alo! – Tatsume atendera o telefone com uma grande dificuldade, já que ainda parecia estar dormindo, afinal de contas, quem ligaria a uma hora dessas?
– Alo ... por favor a Senhorita Saori? – Seiya disfarçava a voz para não ser reconhecido pelo mordomo.
– O que? A uma hora dessas? Quem ousa incomodar a Senhorita durante seu sono sagrado?
– É urgente.
– Pode falar comigo mesmo e darei o recado a ela.
– O assunto é pessoal.
– Um assunto pessoal às 3:00 da madrugada? Ora, volte a ligar quando amanhecer, não incomodarei a Senhorita Saori. – Tatsume desligou o telefone antes mesmo do cavaleiro poder dizer algo ofensivo que provavelmente gostaria de dizer.
"Mordomo imbecil" pensava Seiya enquanto procurava na agenda o número do celular de Saori. O fato do celular ter tocado somente uma vez confirmava a idéia de que a garota também não estava conseguindo dormir.
– Alo? Quem fala? – a voz de Saori não transparecia sono algum.
– Oi ... oi Saori ... Sou eu, Seiya ...
– Seiya, por que está me ligando a essa hora? Algum problema?
– Não ... quer dizer, sim. É que ... bom, acho que sabe do que se trata!
– Seiya eu ...
– Não Saori, permita que eu fale, por favor. É que preciso saber ... O que aconteceu em meu apartamento aquele dia? Nos beijamos e depois não mais conversamos. Eu queria entender, por que está fugindo de mim? A dias que te procuro mas você se esconde! Por que? Afinal, o que foi aquele beijo? Um engano ou um desejo que a muito nós reprimimos?
– Seiya eu ... eu acho que é melhor conversarmos depois ...
– Não Saori, terá que ser agora. Não agüento mais esperar.
– Não pode existir nada entre nós, Seiya. Eu sinto muito, mas não podemos ficar juntos – enquanto falava, Saori permitia que lágrimas escorressem por sua face.
– O que está dizendo Saori? O que nos impede de ficarmos juntos? Pensei que ... que você me amasse!
– Ah Seiya, e eu te amo, não duvide disso ... jamais.
– E então?
– Apesar das batalhas terem chegado ao fim, eu ainda sou a reencarnação da Deusa Atena e você é o cavaleiro de Pégasus. Não é permitido Seiya, entenda, por favor ...
– E quem nos impede? Saori essa proibição é ridícula! Por favor pense bem, reconsidere.
– Eu sinto muito Seiya. É impossível. Não podemos ficar juntos. O melhor que podemos fazer é esquecer o que aconteceu entre nós. Não pense que vou ficar bem ... não pense que não vou sofrer com esta situação. Você é alguém muito especial em minha vida, e eu gostaria de estar sempre com você, ser sua, somente sua ... Mas antes de meu desejo como mulher, vem a minha obrigação como reencarnação de Atena. Por isso não posso alimentar esse amor. Por favor, não me procure mais ... não me atormente mais com esse assunto ... Estou sofrendo muito, meu amor. Mas terá que ser assim. Entenda...
– Mas Saori, espere por favor. Eu te amo ... você é tudo pra mim ... só quero estar com você, amar você ... não me negue isso, eu te imploro.
– É o destino quem nos condena a isso, Seiya. Você estará sempre em meu coração, mas não posso te oferecer mais nada ... Eu te amo, meu amor. Adeus.
Saori desligou o celular e se jogou na cama. Estava justamente pensando em Seiya quando o telefone tocou ... Sentiu um frio na espinha ao ouvir a voz do amado, pois sabia que aquela conversa seria definitiva. E agora, após dizer "adeus" ao amor que sentia, teve a impressão de estar vazia, incompleta. Se entregou às lágrimas, agarrada ao travesseiro como uma garotinha que sente medo do escuro. Amava Seiya, e amaria sempre. Mas a tristeza e a solidão eram os únicos sentimentos que Saori enfrentaria por ter ousado se apaixonar por um de seus cavaleiros.
Seiya ouviu o adeus de Saori antes mesmo de poder dizer algo.
Na verdade, sabia que não havia mais o que dizer, a garota demonstrou tanta certeza do que dizia, estava com uma voz tão firme ao telefone, tão decidida, que não restava a Seiya nada mais além de aceitar aquela situação. Permitiu um par de lágrimas cair de seus olhos. Deitou-se novamente em sua cama, mas não dormiu. Sentia-se traído, abandonado. Percebeu que um sentimento estranho de rancor tomou conta de seu corpo. Pensou em Saori como uma garota mimada, egoísta, insensível. Sentiu-se um verdadeiro idiota por ter acreditado naquele amor. Afinal, por que uma garota cheia de mimos e riquezas se interessaria por alguém tão simples como Seiya? Tudo fora uma ilusão e Seiya estava certo disso. Fechou os olhos e adormeceu, talvez devido a grande mágoa que guardava em seu coração.
O dia amanhecera mais depressa. Os tímidos raios de sol, poucos devido ao inverno, já transpareciam sob a janela do quarto de Hyoga. Não foi preciso que o relógio despertasse para que o cavaleiro percebesse que já era hora de se levantar. Após arrumar a cama, se dirigiu ao banheiro para tomar um longo banho quente, afinal naquela época do ano isso era o mais recomendável, até para alguém como o Cisne. Shiryu já estava na cozinha preparando o café da manha quando Hyoga saiu do banho: torradas com queijo e chocolate quente, o cheirinho denunciava que tudo estava uma delícia, e rapidamente o estômago de Cisne deu sinal de que não só a vontade mas também a fome já estavam perturbando.
– Bom dia Hyoga!
– Bom dia Shiryu!
– Muito frio hoje, não?
– É, realmente. Até mesmo eu que estou acostumado a gélidas temperaturas percebi que hoje o tempo está para blusas de frio e chocolate quente – disse Cisne já servindo o café da manha.
– Planos para essa noite? – perguntou Shiryu com um ar de mistério.
– Não. Aliás, nem sei quando foi a última vez que fiz algum plano para uma noite de sexta-feira.
– Bom, convidei Shunrei para jantar aqui esta noite – disse Shiryu corando levemente a face – vou preparar alguns pratos típicos que comíamos lá na China. É que a Shunrei sente falta de casa e imaginei que essa seria uma boa maneira de animá-la.
– Que bom, parabéns pela iniciativa, já estava pensando que você havia desistido da garota. Quanto a mim, não se preocupe. Ligarei para Shun e marcarei alguma coisa ou então sairei por aí sozinho mesmo, não há problema. Vou deixar vocês dois bem a vontade – Hyoga exibia um sorriso malicioso nos lábios.
– Ah, não. Não permitirei que você saia. Não estou comunicando a você sobre o jantar para que nos deixe a sós. Na verdade, tomei a liberdade de convidar Eire também, assim, vocês dois podem fazer companhia um para o outro. Além disso, será uma boa oportunidade para vocês se conhecerem melhor.
– Como assim? Por acaso está insinuando alguma coisa? – agora era Cisne que estava completamente vermelho.
– Não, não estou insinuando nada. Só imaginei que poderia conversar um pouco com a Eire, é que até agora ela não fez muitas amizades e Shunrei me disse que ela anda muito triste, ainda se sente muito sozinha...
– Ah, claro, será um prazer. Tentarei animá-la nem que seja um pouco, prometo.
– Hyoga, Eire é uma garota muito bonita, não é?
– O que? Ah, sim, é ... ela é muito bonita Shiryu.
– Isso não desperta nenhum interesse em você?
– Está querendo me arrumar uma namorada, meu amigo?
– Não que você precise de ajuda para isso, mas é que se de repente eu puder contribuir para a sua felicidade de alguma forma ... Ah, vamos lá amigo, a Eire pode ser a garota que você tanto espera!
– Só a beleza externa não faz com que um homem se apaixone por uma mulher. É preciso conhecê-la primeiro, encontrar nela as qualidades que procuro. Só então saberei se é especial.
– Não saberá nunca se não procurar conhecê-la melhor. Talvez ela seja melhor do que você consegue imaginar. E então, o que me diz?
– Acho melhor não começar com isso Shiryu. Já me fez sair com várias garotas e nunca me senti muito a vontade com nenhuma delas.
– Está com medo de se apaixonar?
– Não.
– Então tente uma última vez. Prometo que essa será a última garota que coloco em seu caminho. Só abra espaço para uma conversa agradável com Eire, hoje no jantar pode ser uma boa oportunidade para você a conhecer de verdade. Por favor, faça esse esforço por mim ...
– Tudo bem, Shiryu. Eu prometo tentar uma última vez. Sabe que ... que talvez tenha razão ... A Eire parece ser um boa pessoa. Talvez, só talvez, eu possa encontrar nela o que tanto procuro. – Cisne dizia enquanto discretamente pensava na garota.
– Ótimo, é assim que se fala, amigo. Então está combinado, hoje ás oito horas da noite. Garanto que será inesquecível – disse Shiryu piscando um dos olhos.
Por alguns instantes Hyoga permaneceu imóvel. Seus pensamentos ecoavam as palavras de Shiryu: "Você está com medo de se apaixonar?" Medo. Definitivamente 'medo' era uma palavra que Hyoga não conhecia. Será mesmo? De repente se sentiu sob uma enorme nuvem de dúvidas. Primeiro pensava que se não conseguira ainda se apaixonar verdadeiramente por uma mulher era devido ao fato de não ter ainda encontrado alguém que realmente valesse a pena. Mas agora, depois das palavras do amigo, percebeu que os motivos iam além disso. Talvez fosse verdade. O cavaleiro de Cisne, destemino e corajoso em inúmeras batalhas, temia o amor, sentimento muito menos perigoso que os inúmeros oponentes. Se o amor é tão inofensivo, então porque Hyoga se esconde dele? Talvez para Cisne, o amor signifique dor, tristeza, ilusão, decepção ...
Ele sabia que precisava se livrar deste bloquei, mas não sabia ao certo como. Estava cansado de ficar sozinho. Precisava de uma mulher. De uma mulher especial. Então, como que de um sobressalto, resolveu realmente procurar em Eire as qualidades que nem ele mesmo estava certo de que possuía. Mas algo em Eire despertava nele uma sensação diferente, agradável ... Sentiu uma imensa vontade de descobrir o que havia de tão atraente naquela garota. Dirigiu-se á seu emprego com a certeza de que a noite, no jantar, Eire abriria as portas para um mundo novo, que Hyoga estava pronto para conhecer.
Se por um lado Hyoga começava a estar certo de que seu destino estava mudando, Ikki, por sua vez, sentia-se mergulhado em um mar de confusões, que misturavam as lembranças ternas e doces de Esmeralda às visões reais e agradáveis de Ágata. Um turbilhão de sentimentos desconhecidos e sensações estranhas tomavam conta de Fênix. Parado na entrada da faculdade podia ver a silhueta inconfundível e atraente de Ágata. Os vários livros que novamente carregava em seus braços indicava que a garota realmente tinha conteúdo. Será que era realmente isso que chamava tanto sua atenção? Ikki sabia que esse era apenas um detalhe. Havia algo mais, com certeza.
– O que está esperando? Vai logo falar com ela. – dizia Shun percebendo logo o olhar pouco discreto do irmão em direção a garota.
– Nem sei do que está falando – Ikki acordara de seus devaneios e agora tentava disfarçar, inutilmente.
– Tá bom, até parece que não sou seu irmão ... Se ficar aí pensando demais vai acabar desistindo. Não seja covarde, ela está esperando por você.
– Como pode ter tanta certeza?
– Eu não tenho. Mas posso sentir.
– Ah, vai arrumar algo pra fazer e me deixa em paz.
– Tudo bem. Depois não diga que não avisei.
Andando em direção a entrada da faculdade foi inevitável que Shun passasse ao lado de Ágata. Quanto já havia passado por ela, o caçula virou-se em direção a Ikki e, apontando para a garota, moveu silenciosamente os lábios, sinalizando duas palavras que seu irmão pode entender muito bem. Ikki apenas fez um sinal negativo com a cabeça, sem conseguir conter um sorriso que brotou de seus lábios inesperadamente. Shun conhecia Ikki melhor do que ele mesmo. Encheu-se de coragem e foi finalmente cumprimentar a garota.
– Olá Ágata.
– Oi Ikki, que bom ver você. Tudo bem? – a garota havia corado levemente as bochechas, o que Ikki não deixou de perceber.
– Eu estou ótimo, e você?
– Muito bem, apesar do frio – Ágata sorria meigamente.
– Será que ... será que posso acompanhar você até sua sala? Assim posso ajudar você com esses livros – Ikki arriscou.
– Ah, claro. Eu aceito sua companhia sim, e sua ajuda também.
– E então, muito difícil a área de estudos que abrange seu curso aqui na faculdade? – Ikki tentava puxar assunto enquanto caminhavam.
– Sim, na verdade Relações Internacionais não é um curso muito fácil. Mas também não chega a ser nada aterrorizante. Penso que seja um desafio agradável de se enfrentar.
Me parece um curso muito interessante.
Tão desafiador quanto o seu curso de Administração, acredito.
– É, talvez seja. Sua sala é esta? – disse Ikki desanimado por já ter chegado até ali, afinal, esperava conversar mais com a garota.
– Sim, é aqui mesmo. Eu agradeço por carregar meus livros, você foi muito gentil. Agora preciso entrar, minha aula já vai começar.
– Tudo bem. Ah, Ágata ... – Ikki chamou por impulso, surpreendendo a si mesmo pela atitude inexplicável.
– Sim?
– Eu ... gostaria de saber se você ... quero dizer, se estaria interessada em ... – (ai, não acredito que estou fazendo isso) pensou Ikki.
– Algum problema Ikki?
– Não, é que eu pensei que talvez você gostaria de almoçar comigo hoje. É que essa é a minha maneira oficial de te pedir desculpas pelo incidente no corredor.
– Eu já desculpei você pelo incidente. Sem ressentimentos, lembra?
– Claro que me lembro – Fênix respondeu desanimado.
– Mas se estiver realmente me convidando para almoçar, mesmo que não seja no intuito de conseguir o meu perdão, eu aceito o convite com muito prazer – Ágata disse depressa antes que perdesse a coragem, estava completamente vermelha.
– Então aceita? Que ótimo. – Ikki comemorava – Encontro você ás 12:30 na entrada da faculdade, pode ser? – estava completamente sem jeito.
– Combinado então. Nos vemos mais tarde. Até lá!
– Tchau.
Quando entrou em sua sala e fechou a porta, tendo certeza de que Ikki não a via mais, Ágata soltou um suspiro de comemoração. Sentia as pernas um pouco bambas, indicando que o convite mexera com suas emoções. Mal conhecia o rapaz, mas já se sentia atraída por ele.
Ikki também comemorou. Apesar de não saber ao certo o que estava fazendo, sentiu-se feliz por Ágata ter aceito o convite. O que estava sentindo? Ele não sabia explicar. A sensação de experimentar algo novo tomou conta do cavaleiro. Ágata mexeu com Ikki de uma forma inexplicável. A atitude de convidá-la foi um impulso, se houvesse pensado nisso antes certamente não o teria feito. Será que deveria desistir? Não. Agora já a havia convidado, teria que seguir em frente. Uma mistura de medo, insegurança e ansiedade tomou conta de Ikki e ele passou a contar cada segundo em seu relógio. Logo a hora marcada chegaria. Fênix mau podia esperar...
(continua ...)
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