Hora de Recomeçar
11 Natal
Notas iniciais
Natal
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Era Véspera de Natal... Decididamente não gostava muito dessa época do ano, pois não conseguia participar daquele espírito de amor e bondade que se apossava das pessoas, pelo contrário, sentia-se triste, pesaroso, angustiado.
Decidiu sair um pouco para tomar um ar, afinal dezembro era um mês quente e abafado. O sol já tinha dado lugar ao brilho intenso do luar e aos pequenos pontos de luz lançados pelas estrelas.
Uma brisa suave tocava sua face, quase num gesto acolhedor. Acendeu o cigarro, chegando a engasgar-se levemente com a fumaça. Estava desacostumado, há anos não fumava... Prometera a ele que não mais o faria... Agora já não havia impedimentos... A nicotina o acalmava.
A essa hora a cidade já se encontrava vazia. Todos em suas casas alegremente conversando, trocando presentes e alegrias, por motivos que ainda hoje, depois de tantos anos, não conseguia entender e muito menos viver aquelas emoções.
Lembrou-se de todas as estatísticas concernentes ao aumento considerável de casos de suicídio nessa época do ano... De alguma forma, poderia dizer que compreendia o sentimento de desistência, frente a tão agressiva imposição social de felicidade e confraternização. Muitos não tinham isso, e os corações mais frágeis, ás vezes não podiam aguentar...
Em sua própria adolescência chegara a cogitar essa possibilidade por diversas vezes, chegou perto de algumas tentativas, porém pensava que era isso mesmo que eles queriam, seu fracasso... Mas não podia nem queria corresponde-los... Tinha de ser forte, aguentar... Talvez um dia a vida lhe recompensasse com um sentimento verdadeiro...
E recompensou. Porém o mesmo parecia ter se diluído em rancor, descaso e desunião... Sentia-se vazio de novo...
Estava regredindo... Chegara a um ponto específico de sua vida e ao invés de continuar, sentia-se andando para trás... Não sabia o que fazer, simplesmente não conseguia fazer aquilo parar...
Não pôde deixar de admirar a suntuosidade do Theatro Municipal totalmente iluminado... De alguma forma a visão das luzes aquecia seu coração e discretamente sorriu. Tocou levemente em algumas estátuas da Praça Ramos, sem desaperceber do cheiro tão típico de poluição, misturado á urina humana e cigarros de maconha. O centro de São Paulo era isso.
Tudo parecia diferente com a calmaria da noite... Desceu lentamente às escadas, podendo observar moradores de rua e usuários de drogas por alguns cantos ocultos... O cenário parecia aterrador, porém nada daquilo o assustava... Nada fazia real diferença... Tem certas coisas às quais nos acostumamos com o tempo.
Sentou-se ao pé da escadaria, observando o Vale do Anhangabaú deserto... Parecia ser o único solitário da noite no centro de São Paulo. Encostou-se na parede, passando as mãos pelos braços, onde já arrepiados os pelos, por conta da brisa que agora era mais fria. Fechou os olhos, sendo invadido por lembranças do passado...
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Assim como toda criança, ansiava pelo Natal e a chegada do Papai Noel com o presente que havia pedido. Sabia que deveria se comportar bem o ano todo, e assim o fez! Finalmente o tão aguardo dia havia chegado.
Na escola, seus amiguinhos contavam sobre as festas de Natal de suas famílias... Seus pais não faziam festas... Mas aquele ano seria diferente, pois na escolinha lhe disseram que o Papai Noel o visitaria!
Porém, não viu movimentações em sua casa durante todo o dia... Tudo parecia tão... Igual. Passou o dia em ansiedade, e no final da tarde não resistiu e saltitante perguntou.
— Mamãe, mamãe! Hoje não é o dia que o Papai Noel vem? Porque a senhora não está fazendo a festa? – Desde pequeno destacava-se em beleza, pelos longos e lisos cabelos loiros e os olhos tão azuis quanto o mar. Era obediente e responsável, um orgulho para qualquer família.
— Não filho, o Papai Noel não vem! Ele não existe! – Seu tom era indiferente e distante. A verdade é que nunca teve muita paciência com crianças ou mesmo intenção de ter filhos, e aquele “acidente” de percurso por muitas vezes lhe trazia aborrecimentos.
O que era intrigante é que esse pensamento não se estendia à filha caçula de 3 anos apenas, com paralisia cerebral grave e que demandava muito mais atenção do que o primogênito.
— Mas ele não vai trazer o meu presente? – Logo os olhinhos tão brilhantes tomaram um tom de desesperança.
— Não, não somos cristãos, não comemoramos o Natal! Você não vai ganhar presente, isso é apenas uma forma de manipulação comercial! Agora me deixa resolver minhas coisas! – Deu as costas à criança, que com os olhos rasos d’água aproximou-se do pai, sentado no sofá.
— Papai, eu não vou ganhar nada?
— Não Shaka, não vai! E não me chame de pai, já conversamos sobre isso! Não sou seu pai. – Disse ríspido. — Verena, tira o menino daqui, está me atrapalhando! – Logo a mãe puxou o garoto pelo braço levando-o a seu quartinho e o deixando lá sozinho.
— Fica quietinho aí Shaka e se comporte como rapazinho!
E lá sozinho ficou, abraçadinho a seu travesseiro, chorando baixinho... Não sabia muito bem o que significava ser pai, mas queria ter um... Se perguntou se talvez àquele que era seu pai de verdade o amasse, se importasse com ele... Fantasiava como toda criança, imaginando como seria aquele homem que seu padrasto tanto odiava e afirmava ser seu genitor...
Não entendia porque era tratado com tanta rispidez. Não era um mal menino, pelo contrário, buscava fazer tudo para agradar, para não dar trabalho. Tirava boas notas na escola e não haviam reclamações de comportamento. Não sabia o que era, mas sabia que tinha algo em si que era ruim, que não tinha valor...
Tinha apenas 7 anos, mas o pequeno Shaka já conhecia bem o significado do desprezo, do abandono, da falta de amor e compreensão, da solidão... Marcas a serem carregadas por toda uma vida...
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Essa, como tantas outras lembranças, perpassaram sua mente... Tantos Natais com Mu e sua família, que sempre lhe cobraram uma atitude mais alegre e expansiva, e por mais que tentasse e se esforçasse, não logravas grandes resultados... Sabia que isso magoava seu companheiro, mas simplesmente não conseguia...
Lembrou-se do abandono de sua família, dias antes do Natal... Apenas 16 anos, já sozinho na vida. Seus pais decidiram ir à Europa em busca de tratamentos para a irmãzinha deficiente. A amava e sentia falta dela, que da sua maneira parecia reciprocá-lo... Optaram por não leva-lo... Nunca o amaram...
Não mais tinha lágrimas para chorar... O líquido havia se transformado etéreo, percorrendo seu corpo e alojando-se no coração... Criando assim, um reservatório de dores, tristezas e decepções, que por mais que tentasse, não conseguia verdadeiramente superar...
De repente, viu o céu se iluminar... Eram os fogos... Meia-noite. Assim como àquela criança triste e abandonada um dia, sentiu certo conforto e esperança com o brilho colorido e mágico dos artifícios de Natal...
Ali mesmo adormeceu abraçado a si mesmo, de alguma forma acolhido pela atmosfera da cidade cinzenta que tinha fama de abraçar todos sob sua custódia, sem importar as condições... Fora desperto pelos primeiros raios do sol. Assustou-se em perceber onde estava... Mas no final das contas, não havia sido tão ruim assim. Era hora de voltar para casa e realmente descansar.
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Definitivamente, no Tibet não se comemorava o Natal! Tinha de confessar que nunca fora cristão, mas tinha grande apreço pelo aniversariante e via essa data como propícia para expandir o amor entre os entes queridos.
Pena que Shaka nunca conseguiu ver dessa forma... Era demasiadamente apegado a seus traumas, pensava... E sim, era inevitável não pensar nele... Por mais que estivessem separados e não sentisse mais quase nada daquele amor que teve um dia, ainda restava uma forte ligação.
Não quis imaginar como ele havia passado o Natal, provavelmente sozinho. Por mais que tentasse, não havia como não se preocupar, em seu íntimo pedia a Deus que estivesse tudo bem com ele.
— Não adianta, você não consegue deixa-lo lá, não é mesmo? – Apesar de entender os sentimentos do sobrinho, seu tom era reprovativo.
— Desculpe tio, mas não tem como não me preocupar! O senhor sabe como essa data é difícil pra ele. – Seu olhar era opaco e doce, quase infantil.
— Eu sei filho, me lembro muito bem daquele Natal terrível! A atitude dos pais dele foi deplorável! – Aquelas lembranças o faziam abrandar o coração e pensar no loiro de maneira mais piedosa.
— Sabe tio, quando o Sha falava da família dele, eu achava um exagero. Mas depois de conhece-los... Daquele dia... A cara de desgosto... Estavam ali apenas para cumprir uma “obrigação”, conhecer o companheiro do filho. Praticamente não o olharam, mal falaram com ele, somente o necessário e algumas críticas descabidas... Não tinha amor...
— Não, não tinha... E ver o jeito amoroso que ele tratava a irmã, era realmente tocante... Uma pena, um rapaz tão correto, honesto e responsável que qualquer pai deveria ter orgulho... Ás vezes penso que poderia ter feito mais por ele. – A conversa com o velho Lamden lhe trouxe à reflexões profundas sobre sua vida e muitos de seus atos.
— Ele é muito fechado! O senhor fez o que pôde, e sempre se relacionaram bem... – Começara a emocionar-se e tudo o que não queria era instaurar um clima mórbido àquela manhã de Natal. — Vamos mudar de assunto? Que tal dar uma volta? A noite de ontem foi simples e sem graça, queria passear um pouco! – Mesmo sabendo que não o enganava, aparentou desonestamente estar mais tranquilo.
— Ele vai ficar bem...
— Tomara tio.
Saíram a caminhar tranquilamente pelo vilarejo, recebendo o sorriso sincero das pessoas... Por fim haviam se acostumado ao tratamento diferencial...
Decidiram ficar mais tempo por lá, visitando todos os dias a aldeia de seus ancestrais, numa busca quase arqueológica por suas próprias identidades... E lá, sentiam-se diferentes... Mais espirituais, mais sensíveis... O reencontro com a própria natureza perdida e abafada pela vida desajustada do mundo ocidental.
Caminhando tranquilamente, admirando aquela paisagem que passara a conhecer bem nos últimos dias, algo lhe chamara atenção... Um olhar profundo, lhe chamando. Virou-se... Era uma senhora bem velhinha, numa pequena banca de ervas medicinais. Seu rosto marcado revelava a vida longa e sacrificada. Sentiu-se atraído magneticamente a ela e pedindo suave licença a seu tio, foi quase hipnotizado a seu encontro, ajoelhando-se frente a ela, que estava sentada, ficando assim à sua altura exata. Fitou-lhe fundo os olhos negros e fortes.
Parecia surreal e estúpido, mas sentia-se entorpecido por uma sensação que diria ser espiritual...
— O que a senhora deseja me dizer? Sei que quer falar algo!
— Vejo que está conseguindo desenvolver seu dom. Isso é bom, menino! Mas você ainda precisa enxergar muitas coisas... Além...
— Como assim? O que preciso ver? – Seu coração estava acelerado, quase pulando fora do peito. Podia ouvir as batidas descompassadas sem muita dificuldade.
— Sua missão nessa vida vai muito além das coisas do dia-a-dia... Como todos de sua descendência, precisa enxergar além e auxiliar os que entram em seu caminho a se encontrarem verdadeiramente... – Segurou o rosto do homem com as duas mãos e aproximou-se de seu olhar verde tão intenso. – Há uma história em sua vida, que parece ter acabado, mas não acabou... Vocês não cumpriram seus destinos nem juntos, nem separados... Terão de retomar de alguma maneira...
— Como sabe dessas coisas? A senhora não me conhece... – Estava assustado, pois conseguia entender o que a velha queria dizer...
— Mu, eu carrego um dom, tal como você! É meu dever orientá-lo jovem... Preste atenção no que verdadeiramente é real, o que não é perene... Pare de perder tempo com bobagens temporárias, com ilusões falsas...
— Ilusões?
— Você dá valor ao que não tem, e não consegue enxergar a verdade por trás de cada coisa... Nem consegue enxergar seus verdadeiros sentimentos... – Tocou-lhe devagar os pontos sensíveis na testa, fazendo-o se arrepiar por completo. – Use o que está dentro de você para realizar sua missão e viver com plenitude... Feche os olhos do corpo e abra os da alma, esses daqui... – Novamente passou a mão por sua marca de nascença. – Entenda que nada que aconteceu na sua vida foi acaso, mesmo as tristezas e as perdas tiveram sua razão de ser... Use disso...
— Mas... – tremia ao ouvir aquelas palavras... Por mais que o significado parecesse metafórico, sentia que havia razão naquilo tudo.
— A vida lhe dará outra chance de cumprir seu destino, voltar ao caminho... E com ela, trará provas duras e doloridas... Onde você terá que aprender o significado da humildade e da renúncia, ainda tão distantes de seu coração... Precisará aprender o valor do sacrifício, do auto-sacrifício... Para ultrapassá-las terá que ter gravado na mente que só vale a pena aquilo que não é perecível, e o infinito é tudo aquilo que é invisível e intocável... – Soltou-lhe o rosto, quebrando o contato místico que mantinha com aquele forte e penetrante olhar. – Agora volte a seu caminho!
Parecia acordar de um sonho, nunca antes vivera algo tão místico em sua vida... Sentia-se leve, flutuante, mas pensativo... Não encaixava aquelas palavras em sua vida, mas sabia que uma hora elas encontrariam seu lugar. Ainda sentia aquele torpor inicial, e não sabia se estava confuso ou o que era, mas momentaneamente tudo ao redor parecia mais colorido, mas vívido. Sacudiu levemente a cabeça e percebeu que a velha não lhe dava mais atenção, voltando às suas ervas, levantou-se e foi de encontro a seu tio ainda atônito, que o viu pálido e trêmulo.
— Filho, tá tudo bem? O que ela te disse pra te deixar assim?
— Tudo bem tio, não se preocupe.
Mesmo sem gostar da situação, não insistiu no assunto e passaram a tarde tranquilos, conversando amenidades. Sabia que aquele lugar trazia experiências impactantes a todo momento e lhe deixaria viver as dele.
Na manhã seguinte voltaram à sua vila uma última vez, pois deveriam começar os preparativos de retorno. Um aperto no coração em deixar aquilo tudo para trás, mas era necessário voltar.
Ao fim da vila, havia um belo lago, límpido e cristalino. Mu pediu ao tio que o acompanhasse até lá e parando-se defronte a ele, tomou suas mãos entre as suas.
— Tio, obrigado por tudo que fez por mim! Essa viagem realmente foi especial e mudou a minha vida... Me perdoa por tudo, pelas rebeldias juvenis, as palavras ásperas... Por ser ingrato e te abandonar... Perdoa por todo trabalho que dei! Hoje, já um homem feito, posso perceber o quanto ganhei de ti. E por favor, aceite toda a gratidão que posso oferecer! Hoje percebo o presente que foi ser teu filho! – Não queria deixar os olhos verterem todo amor acumulado em seu peito.
— Não há o que perdoar filho! Apesar de parecer bondoso e tranquilo, sua alma sempre foi indomável assim como a minha! Você foi a benção de Deus no meu caminho! Te amo mais que minha própria vida! – Acariciava-lhe os cabelos amendoados com ternura extrema, sorrindo-lhe abertamente.
— Pai, te amo! Por favor, esteja sempre comigo! Preciso do senhor na minha vida mais que tudo! – Beijou carinhoso as mãos do mais velho.
— Escute filho, estarei ao seu lado sempre, seja como for, não importa o que aconteça ou o quão longe pareça estar... Eu sempre estarei lá... – Abraçou-o como se faz a uma criança. Sentia-se ligado a Mu de maneira única, plena. Entendia mais claramente as palavras do velho Lamden... Sentia-se preparado para a próxima etapa de sua existência...
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