Hora de Recomeçar
12 Mais um ano começa...
Notas iniciais
Mais um ano começa...
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Tentara disfarçar sua preocupação, seu abatimento. Afinal era o primeiro Réveillon que passava com a família de seu namorado. Mas não conseguia deixar de pensar no irmão que sumira outra vez. Logo agora, que ele começara a tomar a medicação corretamente e parecia aderir à terapia...
Porém havia decidido não mais parar sua vida por isso. Se esse era o caminho que ele tinha escolhido para si, tudo bem. Iria adiante, cuidando do próprio futuro, afinal nunca sabia quando podia contar com ele...
Entretanto, havia outro olhar perdido naquela festa. Aquele homem tão sério e elegante não parecia muito contente ou mesmo presente naquele lugar.
— Oga, seu primo não me parece bem. – Comentou preocupado.
— Olha ali o companheiro dele Shun, emburrado no canto também. Aquele idiota deve ter aprontado alguma com o Kamy de novo! – Sua voz era grave, mas continha certo tom de irritação.
— Eles brigam muito? – Abraçou-o de leve, enquanto via o pequeno Isaac correr e pular de um lado a outro.
— Meu primo é muito bobo! Apesar de parecer frio e distante, tem um coração enorme e esse trouxa sempre abusa. Isso vai pra mais de 10 anos, uns 15 eu acho. E o Kamy sempre perdoa no final.
— Família é complicado mesmo Oga! Tantos anos juntos, ele devem ter a própria maneira de se entender.
— Eu sei Shunny! Depois que os meus tios morreram lá na França, o primo veio morar com a gente e cuidou de mim pra mãe poder trabalhar. Ele é mais que um irmão pra mim, e fico muito triste quando o vejo sofrer assim, ele não merece! Por causa daquele traste folgado... – Seu rosto ficara vermelho, cerrando os punhos, expressando seu desgosto por aquela situação. Definitivamente não conseguia gostar da presença de Milo em momento nenhum. Era difícil entender aquela escolha do primo, um homem tão bom e responsável com um mimado idiota.
— Calma Oga, vai ficar tudo bem! – Tirou da face do outro uma revolta mecha, colocando-a atrás da orelha. Não havia o que dizer, ele era realmente lindo e encantador... Aqueles cabelos tão loiros que quase não pareciam reais.
— Só você pra trazer paz ao meu coração anjo! – Instantaneamente modificou o tom de voz, despejando ternura em suas palavras. Tocou seu rosto com carinho. – Mas não gosto de ver esse olhar tão triste...
— O Ikki não toma jeito! Não consigo não me preocupar...
— Eu sei, mas ele está bem! Esse seu irmão problema... – Se colocava a pensar como os homens mais incríveis que conhecera na vida estavam totalmente presos a outros tão vis e estúpidos. Aquilo lhe parecia ridículo e angustiante.
— Não fale assim dele Oga!
— Desculpe Shun, você é a melhor pessoa desse mundo. Nunca vi um coração tão puro! – Ninguém além dele, conseguia amolecer tanto seu coração. Desejava dividir toda a sua vida com ele, porém de maneira tranquila e agradável. Evitaria cometer os mesmos erros de seu primo. – Eu te amo, Shun! – A declaração saíra sincera e descompromissada.
— Eu também te amo Oga! – Apertou o abraço segurando a emoção para as lágrimas não caírem. Era a primeira vez que ouvia aquelas doces palavras de sua boca, e pareceu tão real, tão espontâneo. Hyoga realmente o fazia muito feliz, apesar de ter um gênio um tanto difícil.
Sentiu-se puxado mais para perto até seus lábios serem docemente capturados. Porém logo se separou e o alertou.
— Oga, aqui não! Sua família está aqui! Isso é falta de respeito, principalmente com o pequenino. – Apontou Isaac, o caçulinha pintando e bordando pelo quintal.
— Você está certo Shun, como sempre. Temos a vida toda para nos beijar! – Aqueles olhos verdes e brilhantes o transportavam para o céu.
Logo Natássia chega alegremente ao local avisando que faltavam poucos minutos para meia-noite.
Mais um ano se iniciando! Novas possibilidades, novos desafios, novas histórias, velhos problemas... Estava terrivelmente desanimado com tudo. A vida lhe parecia dar voltas em círculos. Não importavam quantos anos se passassem, eram sempre as mesmas brigas, pelos mesmos motivos. Por mais que amasse Milo, sentia-se cansado.
Meia noite! Todos festejando, se cumprimentando e desejando um ano cheio de saúde, paz e realizações. Após o momento de confraternização, retirou-se à um canto, observando a lua brilhante, com o coração em oração. Sentiu a presença dele, sentando atrás de si e o enlaçando pela cintura, apoiando o queixo em seu ombro.
— O que está fazendo Kamy? — A briga foi feia, palavras rudes e agressivas trocadas. Acusações, coisas do passado... Era um jogo onde não havia ganhadores.
— Pedindo força aos céus...
— Me perdoa...
— Milo... – Foi interrompido, antes que pudesse continuar.
— Me perdoa Kamy, só isso. De novo.
— E de novo, de novo, de novo...
— Eu sei que não sou um bom companheiro. Que te faço sofrer e sou injusto às vezes. Mas eu te amo! Eu prometo que vou me esforçar mais. – Não havia nada mais difícil para si que admitir erros, mas pelo amor de sua vida estava disposto a quaisquer sacrifícios... Afinal esse não era o primeiro nem o mais importante.
— De novo, de novo, de novo...
— Não faz assim Kamy, você sabe que é pra sempre... Não podemos ficar um sem o outro. – Sussurrou de maneira que o outro não pudesse resistir.
— É um vício, e como todo vício, impossível resistir. Por mais que às vezes eu tente, não consigo parar de te amar cada dia mais. Você me magoa Mi, mas meu amor é mais forte. Eu sempre vou te perdoar. – Como sempre, derrotado pelo próprio coração.
Sentiu-se puxado pelo braço e virou-se completamente defronte a ele. Simplesmente olhá-lo já fazia suas pernas tremerem... Mesmo após tantos anos... Sentiu sua nuca ser tomada pelas mãos do outro, aproximando os rostos. Sentia agora a respiração do loiro próxima a seu ouvido. Aquilo o fazia arrepiar por completo. Uma lágrima tímida e solitária escorreu pela face.
— Você é minha vida Kamy, nada mais faz sentido sem você! – Sussurrou quase sem voz, para que ele pudesse ouvir com o coração. Limpou a lágrima e em seguida fez uma trilha de beijos pela linha do maxilar até chegar à sua boca, tomando-a com ferocidade.
As reconciliações eram sempre tão intensas quanto às brigas, ás vezes até mais... Aquilo tudo nunca mudaria, nem o bom, nem o ruim. No final das contas, acreditava que devia ser grato, afinal Milo trouxe à sua vida tantas cores e emoções, que sabia impossível obter de outra maneira.
— Você consegue o que quer de mim, sempre.
— Porque você me ama assim como eu te amo. Não dá pra esconder! Vamos pra casa ficar juntos, fazer o que a gente sabe de melhor. – Seu olhar era extremamente malicioso e lascivo.
— Hoje você me paga por tudo que me fez sofrer nesses últimos dias! – Seu olhar sério se contradizia com o tom provocativo de sua voz.
— Pago Kamy, pago por tudo! Essa noite você faz de mim o que quiser, eu me entrego a você de corpo e alma... Porque na verdade, já faz muitos anos que me tornei um eterno escravo do teu amor...
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— Após a pausa das festas, ele não apareceu para a última sessão, mas veio nessa semana. Apenas disse que tinha viajado, porém me pareceu mais complexo que isso. – As supervisões estavam sendo boas e úteis. Definitivamente não haveria ninguém melhor que Kamus para auxiliá-lo.
— Porque diz isso? O que te leva a pensar em algo mais complexo Shaka? – Aquele caso parecia cada vez mais interessante, tanto quanto perigoso.
— O irmão dele me ligou, perguntando se ele tinha aparecido ou mesmo dado notícias. Afirmou que ele desapareceu sem avisar logo depois do Natal, e ainda não tinha entrado em contato. Me disse também que ele faz isso com certa frequência, sendo que os períodos de sumiço variam de dias até meses, uma das causas que não o deixa se manter nos empregos.
— E você o inquiriu sobre isso?
— Não.
— Porque não? — Realmente estranhara aquela atitude, era ilógico não adentrar em um assunto tão importante dentro do processo terapêutico.
— Ele demonstrava extremo transtorno. Falou muito pouco e caminhou pela sala quase o tempo todo. – Aquele paciente era sem dúvida o mais desgastante de todos, porém o desejo de ajudar-lhe demandava mais esforço que o real necessário. – Preferi deixa-lo livre. Talvez o único que conseguisse seria transtorna-lo mais.
— Entendo sua posição, porém, isso é algo que deve ser explorado Shaka. Esses sumiços podem revelar muitas coisas. Ele parece apresentar um quadro grave de inadequação social. Ele faz acompanhamento psiquiátrico?
— Nunca comentou, mas acredito que sim. Às vezes parece estar sob efeito de remédios, mais tranquilo. Seu comportamento é instável demais.
— Já pensou em fazer uma sessão, uma conversa com o irmão dele? – Pensou que talvez fosse uma boa saída.
— Sim, já havia cogitado essa possibilidade, mas também pode ser desastroso. Meu receio é que ele sinta sua vida invadida em demasia e desista do processo terapêutico. Também não sei se ele sequer é maior de idade. Tem uma voz tão suave, quase infantil. – Qualquer método alternativo para esse caso era inviável ou muito arriscado, o que impedia o descobrimento de informações importantes para compreensão.
— Estamos entrando num corredor estreito Shaka.
— Sim, estamos.
— Ele não conduziu novamente a conversa para um rumo mais sedutor? – Poderia haver omissão de informação, já que acreditava estar certo em sua hipótese concernente à dificuldade de Shaka conduzir o caso.
— Não. Ele me olhou e tratou com desprezo. Parecia estar irado com o mundo.
— Investigue mais. Tente deixa-lo o mais confortável possível, mas não perca a oportunidade de colher informações. Essa é a única chave para um processo efetivo Shaka. – Teria de conduzi-lo o mais próximo possível, pois o loiro não demonstrava o domínio necessário para a situação.
— Eu sei, não se preocupe. Volto na próxima segunda. – A verdade é que não gostava de tanta intromissão, mas o caso parecia cada vez mais absurdo e intrigante. Outro olhar era importante. Tirou a carteira do bolso e começou a pegar o dinheiro.
— Paga na recepção Shaka.
— Ok, como preferir... Boa semana. – Levantou-se e partiu.
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Estava impaciente, inquieto. Não queria ficar em casa, mas também não sabia muito bem pra onde ir. Lembrou-se de um barzinho tranquilo e aconchegante que frequentava na época da faculdade. Será que ainda existia? Iria arriscar.
Sentiu vontade de se arrumar como há tempos não fazia... Colocou uma roupa bonita, se perfumou e prendeu delicadamente os volumosos cabelos amendoados.
Chegando ao local, reparou que tudo estava como antes, nada havia mudado. O sentimento de nostalgia invadiu-lhe o peito e sorriu. Adentrou e percebeu que tocavam as mesmas músicas de 10 anos atrás. Buscou uma mesa para sentar-se e mirando ao redor, quase não acreditou no que viu. Se aproximou, tocando-lhe levemente o ombro, logo aparecendo em seu campo de visão.
— Oi Shaka, nunca imaginaria te encontrar por aqui! Tudo bem com você?
— Olá Mu, senta! – Indicou a cadeira frente à mesa. – É, meu repertório não é muito extenso, então apostei no velho conhecido. – Sorriu suave. Não esperava encontra-lo ali e sentia-se um tanto desconfortável.
— Eu também, fiquei sem saber aonde ir, resolvi arriscar. Não vou incomodar? – Disse antes de se sentar.
— De maneira alguma! Por favor! – Não pôde deixar de reparar na beleza do ariano. Estava tão arrumado, tão descontraído. Seus olhos brilhavam como antes... – Como foi de viagem?
— Muito bem! Descobri muitas coisas sobre mim, refleti muito. Foi um momento muito especial para mim e o tio. – O loiro ainda parecia abatido, isso o preocupou. – Sha, você está bem? Emagreceu né?
— Tô sim, tudo tranquilo. Perdi algum peso, mas a saúde está em dia. Fico feliz em vê-lo bem, animado. – Tentava disfarçar, mas realmente não se sentia bem, já ia a altas doses de whisky e estava um pouco zonzo.
— Sim, logo voltam as aulas e admito que estou revigorado. E você, algum projeto em especial pra esse ano? – O garçom aproximou-se e o interiorano pediu uma bebida.
— Não, só colocar a vida em ordem mesmo. Talvez escrever um pouco mais. – Queria poder sorrir para ele, mas não conseguia. Estava realmente incomodado e sem saber como agir. Aquela situação era deveras constrangedora, principalmente por ver o outro tão desembaraçado com a situação. Mas a verdade é que ele sempre fora assim.
— Bem, o tio insistiu muito e eu resolvi apresentar um artigo para uma revista universitária antes de viajar, e... Sairá na próxima edição. – Reparou no jeito estranho do outro. Sabia que o loiro não combinava com álcool, e aquela não deveria ser a primeira dose.
— Espera alguém? Estou te atrapalhando? – Fez menção em levantar, mas foi impedido pelo outro.
— De jeito nenhum Mu, não espero ninguém. Você não incomoda nada, ao contrário, me alegro em ver que as coisas estão dando certo pra você, de verdade. – Jamais seria desagradável com ele ou qualquer outra pessoa, e realmente ficava feliz em vê-lo fazer algo por si.
— Sha, quero te pedir uma coisa, não bebe mais hoje! Tô vendo que você já não tá legal. – Com carinho, afastou o copo da mão do outro e a segurou. Sabia que ele não estava bem e que o álcool lhe deixava mais depressivo do que já era por natureza.
Sentiu um aperto no peito por vê-lo daquele jeito, cabisbaixo, um tanto distante. Percebia-o incomodado com o toque e se recordara de quanto o mesmo era retraído e fechado. Bem sabia que o loiro era de fases e algumas dessas poderiam ser bem ruins... E parecia que estava numa dessas agora.
De repente se entreolharam de maneira distinta, como se quisessem dizer alguma coisa simplesmente através do olhar. O tempo congelou por alguns instantes, como se estivessem em outra dimensão, se encontrando um ao outro como há muito tempo não acontecia.
Porém tanto o contato físico como o visual foram quebrados com a chegada do garçom. Também uma voz estridente, ao longe chamava o nome de Mu. Logo o estranho se aproximou e tomou forma.
— Oi Mu, oi Shaka! Como estão? – Percebeu que a situação parecia constrangedora, mas agora não tinha como voltar atrás.
— Bem Aldebaran, muito bem. Me desculpe, mas já estava de saída. Com licença. – O ariano tentou impedi-lo, mas seus olhos verdes foram amplamente ignorados, não permitindo-lhe dizer palavra. O loiro levantou e se foi sem mais nada acrescentar.
— Desculpa Mu, eu não queria ser inconveniente, não sabia que minha presença o irritava tanto. – Até podia compreender, afinal ninguém gostava da presença de ex-namorado.
— Não é nada disso! Senta Alde! – O indicou a tomar o lugar que era do outro.
— Não quero atrapalhar a relação de vocês, Mu!
— Não se preocupe, não estamos mais juntos. – Instantaneamente baixou o olhar.
— Se separaram? Não creio! O que aconteceu? – Aquela notícia sim era no mínimo inusitada. Parecia muito pouco provável.
— Já andava ruim há muito tempo... Há uns meses, numa discussão, ele decidiu ir embora de casa. Disse que era melhor pararmos antes que perdêssemos o respeito e a admiração mútua. Na verdade ele tem razão, se continuássemos como estava, nos tornaríamos inimigos. – Essa era realmente sua opinião.
— Mas então, o que faziam aqui juntos? Tentativa de reconciliação? – Alguma esperança surgiu junto com aquelas palavras e torceu para que a resposta à sua pergunta fosse negativa.
— Não, nos encontramos por acaso e estávamos conversando. Ele já tinha passado um pouco na bebida, e ele definitivamente deveria passar longe do álcool, o deixa transtornado. – Brincava com o enfeite do copo, mas não conseguia beber. – Enfim, como você foi meu namorado, ele deve ter achado que tínhamos marcado um encontro e se retirou. Típico dele. Por favor, não repare.
— Com você assim, todo arrumado e cheiroso, eu também teria ciúmes se estivesse no lugar dele! – O moreno gargalhou alto, fazendo o outro sorrir.
— Que bobagem Alde! Ele nunca foi ciumento. Eu percebi que ele não tá bem, muito magro, abatido. Acho que ele está numa fase difícil, de novo.
— Será que ele se arrependeu e quer voltar?
— Acho que não. Ele é direto, se quisesse, já teria proposto. Deve estar buscando paz, se encontrar. Ele sempre foi complicado, teve uma infância difícil... Sabe Alde, eu peço a Deus o melhor pra ele, é uma ótima pessoa. – Seu rosto não escondia a admiração e ternura que sentia por ele.
— E você, gostaria de voltar? – O que o moreno tinha de grande e forte, tinha de gentil, agradável e sabia conduzir uma boa conversa.
— Sabe Alde, o que quero agora é dar um rumo diferente pra minha vida. Correr atrás daquilo que eu deixei de lado. Minha vida parou, admito que fui acomodado. O Sha sempre tomou a frente e se esforçou para nos dar uma boa vida. Agora sozinho, preciso tomar as rédeas da minha vida e quem sabe realizar alguns sonhos? – Sorriu de leve, com um brilho no olhar que não possuía há anos.
— Então boa sorte! Se precisar de alguma coisa, me procure. – Estava encantado, Mu parecia o mesmo rapaz que conhecera na adolescência, porém a maturidade lhe dava um ar ainda mais encantador.
Apesar de terem um término tranquilo, decente e manterem a amizade, a verdade é que o moreno nunca o havia esquecido, apesar de ter seguido sua vida e tido diversos outros relacionamentos. Agora uma chama se lhe abria novamente em seu coração e com seu bom gênio, tentaria se aproximar novamente dele, aos poucos que fosse.
— Obrigado Alde! – Abriu agora um grande sorriso e segurou suas mãos fortes...
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