Hora de Recomeçar
22 Momento Último de Lucidez...
Notas iniciais
Momento Último de Lucidez...
(Atenção: Gatilho — Suicídio)
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Após tantos anos de dúvidas e conflitos, havia por fim encontrado suas respostas... Não exatamente o que esperara, mas sim o que era verdadeiro... Bem, de alguma maneira isso não era exatamente frustrante, afinal nunca fora sentimental... Apenas traçava novas formas de ação... Levava a uma profunda reflexão sobre seu papel no mundo...
Isso antes não fazia diferença... Mas agora tudo parecia diferente... Depois de conhece-lo tudo ficou diferente... Afinal de contas a terapia fez efeito e lhe mostrou a si mesmo quem era... Riu de si mesmo e do que constatou. Quase insanidade, quase veracidade...
Os comprimidos laranjas dançavam à sua frente, como se algo comemorassem... Sua vitória incontestável sobre a sanidade abjeta... Sim, elas tinham todo poder para si... Poderiam determinar qualquer coisa... Continuavam alegres dançando sobre o envelope branco, ávidas por uma decisão, por construir ou destruir... Tudo dependia da forma como fossem usadas? Não. Tudo dependia da forma como eram significadas... Tudo dependia de uma escolha...
Não, aquilo não era uma auto-libertação, mas sim a alforria de outros, presos aos grilhões de um amor fatal e corrosivo, que a única coisa que poderia trazer era sofrimento!
Respirou profundamente e tomou todo o conteúdo da cartela entre as mãos. Fitou mais uma vez o envelope e sentiu pesar sobre ele... Lembrou-se deles e deixou uma solitária lágrima escapar... Fitou os comprimidos uma vez mais e riu-se irônico... Bem, não era isso que o mundo lhe exigia? Cada uma das laranjinhas tinha a fórmula da normalidade... Tomaria para si todo o ajustamento que a sociedade lhe exigia, de uma só vez... Não, um meio termo não cabia, afinal sempre fora homem de intensidade, e jamais trairia seus princípios e faria diferente... Levou-o ao máximo de si a ponto de fartar-se de tanta sanidade, levando-o ao ápice e a exaustão... Para sempre...
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Revirou-se por toda a madrugada. Definitivamente não conseguia dormir. Frequentes falta de ar lhe ameaçavam o descanso e lhe tencionavam a alma... Pesadelos estranhos invadiam seu sono de maneira assombrosa, chegou a levantar-se apavorado, temeroso... Definitivamente isso não lhe era comum, algo parecia anunciar uma tragédia.
Acendeu às luzes e serviu-se de um copo de whisky, sentando-se à poltrona velha, buscando recompor-se. Passou a mão alva e magra repetidamente sobre o peito, como se lá se formasse um nó, e retirou da testa fina camada de suor frio, que fazia seus cabelos longos incomodamente prenderem-se ao seu rosto. Não queria pensar em nada ruim, lutava contra si mesmo, nada poderia piorar para si, não é mesmo? Talvez não estivesse tão certo disso. Quis rezar, mas lembrou-se que não sabia... Nunca fora religioso, nunca acreditara em Deus, afinal se esse realmente existisse era injusto por nunca ter olhado para si.
Caminhou até o banheiro enfiando-se baixo uma ducha gelada, sem preocupar-se em se despir... Apenas queria que se dissolvesse na água aquela impressão ruim que parecia invadir lhe e instalar-se dentro de si.
“Não!”— disse a si mesmo – “Você nunca foi supersticioso Shaka, não está acontecendo nada de ruim, vá dormir e amanhã verá que não está acontecendo nada.”
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Após uma sequencia de discussões bobas, enfim estavam num belo momento de paz... Aproveitaram o domingo de calor para um breve piquenique no parque. Estava realmente precisando relaxar e parar de pensar no irmão... Por mais que não pudesse admitir, Hyoga tinha certa razão, precisava viver a própria vida...
Brincaram, sorriram, amaram... Amaram da maneira mais pura e doce que podia ser o amor! Tudo parecia tão perfeito! Agora era só voltar pra casa, tomar um banho refrescante e aproveitar o restante da noite com um filme leve e conversas banais, de nada mais precisava.
Chegando em casa, sentiu arrepios em seu corpo ao abrir a porta. Havia algo estranho ali.
Deu mais um passo, estremecendo novamente. Era a sensação de um filme de terror...
— Hyoga, o cheiro dele. O cheiro de Ikki, ele esteve aqui! – Por uma intuição momentânea não se alegrou com tal constatação. Logo assustou-se com o telefone, que parecia tocar na ocasião mais inapropriada.
— Deixa que atendo, Shun! – Em seu interior previu que vinham más notícias por aí, era melhor atender ao telefone.
Continuou rumo ao sofá, quando viu um envelope branco na mesinha de centro, escrito seu nome, com a letra do irmão. Estava tão nervoso que não ouviu o diálogo de Hyoga ao telefone, apenas pegou a carta e viu sobre ela certa poeira laranja... Com cheiro de... Remédio... Começou a tremer involuntariamente, quando de repente, ouviu seu nome ser chamado pelo namorado. Fitou-o rapidamente e seu olhar de lamento lhe explicou tudo... Não se aguentou nas próprias pernas cedendo ao chão, chorando convulsivamente. Logo foi amparado pelo loiro, que disse tantas palavras das quais nenhuma pôde ouvir, a dor de sua alma ressoava por todo o corpo, roubando-lhe os sentidos...
— Eu sabia que ia terminar assim, eu sabia! Meu Deus! Não acredito que ele fez mesmo isso Hyoga, eu não acredito! – Aos poucos recompôs-se, precisava ser forte, afinal agora estava sozinho... Apertou o pingente de estrela que carregava consigo, era o presente mais querido, que representava aquele elo... Que nunca iria acabar, de uma forma ou de outra.
A carta escorregou por seus dedos... Não sabia se tinha força o suficiente para lê-la... Mas sabia que precisava fazer isso, de uma maneira ou de outra...
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Querido irmão,
Espero que um dia possa me perdoar, por mais que seja difícil.
Minha atitude deve lhe parecer incompreensível, mas saiba que fiz de mais alta consciência.
O que sinto por você é infinito e o levarei para onde quer que eu vá, nunca duvide disso.
A vida nunca foi generosa conosco, mas nos deu um ao outro, o que sem dúvida foi um grande alivio! Você é a criatura mais doce e perfeita que Deus pôs nessa terra! Você sempre foi meu anjo terno e assim continuará, sempre velando por mim.
A verdade é que passei anos tentando compreender o que acontecia comigo, minha falta de capacidade de conviver com o resto do mundo, e você sempre esteve a meu lado, me ajudando a encontrar respostas, principalmente depois que ela se foi.
Você foi o único motivo que eu tive pra continuar vivendo depois da morte da minha Esmeralda, a qual espero estar ao lado no momento em que estiver lendo essa carta.
Mas a cada dia, ficava tudo mais difícil e os remédios, esses faziam tão mal a mim, tentando me transformar em uma pessoa que verdadeiramente não sou.
Como último recurso encontramos a terapia, onde acreditei fracassar novamente, mas não foi bem assim...
Pude encontrar alguém que realmente se dispôs em estar comigo e me ajudar, mesmo eu confundindo os sentimentos... Shaka foi muito especial, honesto e acolhedor.
Ele me fez ver quem eu era de verdade, eu pude me entender e compreender que definitivamente esse mundo não é para mim!
Percebi que qualquer esforço seria inválido e que a única coisa que poderia esperar dessa vida seria sofrer e causar sofrimento àqueles que amo.
Não adiantaria mais fugir para qualquer lugar isolado que fosse, o meu problema era comigo mesmo e uma hora não seria capaz de suportar a mim mesmo.
Num momento de lucidez, percebi que já estava na hora de parar com todo esse ciclo de dor, tanto para mim como para você... E também para o Shaka...
Instinto de sobrevivência nunca fez parte da minha vida, mas agora vejo que o senti pela primeira vez... Pois se continuasse, eu iria me anular, até não existir mais.
Peço que me entenda, o que fiz foi por amor. Amor a vocês. Amor a mim mesmo, pela primeira vez!
Cuide-se e não me esqueça. Você terá uma bela e tranquila vida, sem mais preocupações e será muito feliz!
Peço que nunca culpe o Shaka por nada, muito pelo contrário, o agradeça por tudo, pois sou muito grato.
E a você meu irmão, mais que minha infinita gratidão, meu mais infinito amor...
Eu sei que nunca disse isso.
Te amo Shun!
Ikki
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Chegou apressado ao consultório, não gostava de se atrasar, mas acabou por ter um sono tranquilo às altas da madrugada e a necessidade de descanso foi mais forte que o despertador.
Seu primeiro paciente já deveria estar chegando e o transito não colaborava , o que o fazia apenas se irritar mais... Ainda por cima tinha supervisão com Kamus pela tarde... Aquela segunda-feira prometia ser mais longa que gostaria...
Entrando às pressas no consultório, ouviu sua secretária inquieta ao telefone...
“- Pode deixar que eu aviso e passo direitinho pra ele... E bem, meus sentimentos...”— A frase soou tão fraca, quase inaudível. Viu o patrão aproximar-se com sua típica expressão preocupada.
— Bom dia Tânia, o que aconteceu? – Objetividade sempre fora seu forte.
— Olha Shaka, o irmão daquele seu paciente, o Ikki, ligou e pediu pra eu te passar esse endereço. Ele ficaria grato se puder comparecer, mas também disse que entende se não for. – Estendeu o pedaço de papel onde anotou o recado, sem jeito de falar, deixando que ele mesmo interpretasse.
— Endereço, mas que coisa... – Olhou de relance ao que estava escrito. – Não! Isso não pode ser...
— Eu sinto muito Shaka!
— Tânia, desmarque todos os pacientes de hoje. Diga que algo urgente ocorreu, mas não dê detalhes de nada. Vou para lá agora! – Sua palidez que já era típica, se intensificou mais... Entrou em sua sala, escorando-se pelas paredes, com o peito em estilhaços. Isso definitivamente não poderia estar acontecendo... Faltava-lhe o ar... O suor frio escorria indiscriminadamente pelas têmporas... O mundo parecia acabar-se ali e um emanharado de emoções desconexas lhe invadiam, fazendo-o segurar-se na parede com se essa fosse sua única salvação...
— Shaka, tá tudo bem? – A simpática morena aproximou-se da porta, mas não teve coragem de entrar, sabia que Shaka prezava muito sua intimidade.
— Está sim Tânia, eu já estou saindo!
— Quer que eu vá com você? – Empatia sempre fora algo inerente de si e portanto sabia como o loiro deveria estar afetado por aquela terrível notícia.
— Não precisa não, só peço que faça o que te pedi e está dispensada, pode fechar a clínica. – Se recompôs de imediato, afinal autocontrole sempre fora seu sinônimo. – Tânia, ele disse o que aconteceu?
— Não, estava bastante abalado!
— Claro, que bobagem a minha! – Logo apareceu pela porta mostrando sua capacidade ímpar de reagir racionalmente a situações emergentes, mesmo estando aos pedaços por dentro.
Mas dentro de si, tudo aquilo parecia um pesadelo tão terrível como os que tivera na noite anterior...
Aquela agonia da madrugada agora fazia sentido... De alguma forma, avisava-o de que uma tragédia o acompanharia...
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