Notas iniciais
Olá gente linda que eu amo! Sei que o último capítulo encheu a todos de emoções! Agradeço o carinho e interação de vcs! Confesso que estou vivendo momentos muito difíceis e precisando tomar as decisões mais duras da minha vida nesse momento de pandemia! A fic me faz abstrair um pouco... Espero que todes estejam bem e se cuidem muito! Afinal, mais emoções virão! Mil bjs no ♥ de vcs!

Dor e Desespero

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O velório estava tão vazio que podia ouvir os próprios passos, por mais discretos que fossem... Nunca vira um funeral tão abandonado... Não havia ninguém na sala 06, apenas o caixão, algumas velas e duas coroas de flores, sendo uma enviada por si próprio.

Ao pé do caixão simples, seu coração disparava... Não tinha coragem o suficiente de aproximar-se e vê-lo mais uma vez, só que agora em um rosto pálido e sem vida. Tocou de leve na madeira áspera e quase desacreditou do que vivia... A verdade é que preferiria que fosse apenas um sonho ruim, como o da noite passada.

Uma pontada forte de dor atingiu seu peito, puxando-lhe o ar, fazendo-o se afogar. Era culpa... Uma sensação enorme de culpa lhe invadiu a alma, junto com a certeza de que poderia ter feito melhor, de que poderia ter evitado aquele final...

Fechou os olhos e com as mãos deslizando firmes pela madeira, caminhou até a ponta do caixão, apertando mais forte a madeira, abrindo os olhos repentinamente... Uma imagem que nunca gostaria de ter visto...

Seu rosto sereno pela primeira vez... Aquilo era no mínimo curioso... Parecia realmente descansar em paz.

Estranhamente sorriu ao vê-lo tão tranquilo... A vida ás vezes era incompreensível.

Ouviu algum barulho e se distraiu, olhando para trás. Acreditou que alguém havia entrado. Engano. Por um momento distraiu-se de Ikki e pensou o quanto era triste um funeral tão solitário.

O seu, um dia, talvez fosse igual ou mesmo pior... Ikki ainda teve um irmão para preparar tudo, algo que não tinha... Na verdade talvez fosse enterrado como indigente, pois não havia ninguém para reclamar seu corpo. Pensamentos que o afligiam tanto quanto se constatavam. Por um instante pensou em Mu, em Kamus e em sua irmã. Voltou os olhos a Ikki, talvez fosse o melhor a se fazer.

— Shaka? O que faz aqui? – Aquela voz lhe era familiar. O tom imperativo. Mas tinha impressão de que antes soara mais infantil. Virou a avistar seu interlocutor silencioso.

— Hyoga, sou eu mesmo! Quase não reconheço sua voz! – Viu que abraçado ao belo rapaz loiro, havia um outro tão belo quanto, porém mais delicado e doce.

— Doutor Shaka, muito obrigado por ter vindo, sou o irmão de Ikki, Shun. – Estendeu a mão em gentileza. Gostaria de ser mais atencioso, mas a situação não lhe permitia. – Eu não sabia que vocês dois se conheciam.

— Shun, eu realmente sinto muito. Inclusive me coloco a disposição para o que precisar. E não precisamos dessas formalidades, pode me chamar de Shaka. – Foi breve, porém solicito. Fez o melhor que podia. – Eu estudei com o primo de Hyoga, o Kamus.

— Sim Shun, nos conhecemos a muitos anos, quando eu ainda era criança. – O tom não apresentava muita sociabilidade, afinal em qualquer rompimento, os terceiros sempre tomam alguma parte. – Como está Shaka? Bem, por grande coincidência sou namorado de Shun.

— Estou bem Alexei. E bem, como pode imaginar, eu era o terapeuta de Ikki.

— Pensei que o Mu viesse com você, e como ele anda? Sempre foi tão divertido. – Tentava suavizar o clima, tinha um primo psicólogo e imaginou que para Shaka também não deveria ser fácil uma perda de paciente, ainda mais daquela maneira.

— Eu e o Mu não estamos mais juntos, faz alguns meses, mas creio que ele esteja bem. Esses são meus votos.

— Dout., quer dizer Shaka, como vê meu irmão não tinha amigos, alguns poucos dos meus estão pelo local, para solidarizar. Sua presença realmente é importante! – Percebeu que a conversa começara a ficar desconfortável e decidiu por mudar de prosa.

— O que realmente aconteceu, Shun? – Não que estivesse curioso, mas era algo que precisava saber.

— Ele tomou uma cartela inteira do psicotrópico que o médico tinha receitado e saiu para caminhar pelas ruas à noite, como sempre gostou. Foi escolha dele... Bem, ele deixou uma carta dizendo que seria melhor pra ele e pra todos a seu redor. Ele quis assim. – Deixou algumas lágrimas teimosas escaparem, abraçando-se mais ao namorado.

— É surpreendentemente triste. Eu realmente sinto muito. Um rapaz tão jovem... – Falava mais para si mesmo do que para o outro, quando viu que a atenção do rapaz de cabelos castanhos era requisitada por uns amigos. – Por favor Shun, não se preocupe comigo, ficarei até o final para o que precisar...

— Obrigado, de coração Shaka! Ele era muito grato à tudo o que você fez!– Disse o rapaz com um sorriso triste, porém sincero.

— Até mais Shaka, obrigado! – Disse o loiro, com um olhar desconfiado e um tom seco.

Virou-se ao caixão novamente. – Agradecido Ikki? Pelo que? Por ajuda-lo a pôr fim à sua própria vida? Até aqui, você carrega sua ironia... De qualquer maneira, sinto por tudo. Adeus!

Resoluto, saiu da sala do velório para não mais entrar. Já tinha a imagem do moreno guardada em si, para sempre. Sabia que jamais esqueceria aquele rosto... Como prometido, ficou até o final em respeito ao irmão, que era tão diferente de Ikki, agora podia entender a adoração que o mais velho tinha. Era um anjo...

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Depois de várias discussões, estavam em momentos mais tranquilos... Não sabia por quanto tempo... Admitia que estava sem paciência para Milo, porém vinha demasiadamente se esforçando. Reconhecia a importância de todos aqueles anos e não se permitiria perder tudo o que haviam construído.

Escutou a campainha tocar, porém o loiro sinalizou que ia atender. Era alguém que estava esperando. Salvou o arquivo que escrevia e foi à sala.

— Sinto muito Hyoga, imagino que deve estar sendo muito difícil pro Shun! Ontem eu realmente não consegui sair da clínica, mas irei visita-los breve. – Abraçou o rapaz que para ele era como um filho. O que doía nele, doía em si.

— Sinto muito também Hyoga, de verdade! – Por mais que sempre tenham tido suas controvérsias, principalmente por causa de ciúmes, sabia ter bom senso... Apenas quando queria...

— E como ele está? Você não o deixou sozinho, não? – Aquele olhar de repreensão seria o mesmo, não importava quantos anos se passassem, ou quanto Hyoga fosse adulto, isso nunca mudaria.

— Claro que não! Tem uns amigos com ele, ajudando-o a embalar os pertences, enfim, como já sabe, vamos morar juntos e decidimos apressar as coisas, não é bom pra ele ficar mais tempo naquela casa...

— Mas já alugaram? Tão rápido?

— Não, estamos vendo alguns imóveis e vamos ficar num hotel por alguns dias...

— De maneira nenhuma Hyoga, venham pra cá! – Mais que um convite, parecia uma ordem.

— Não Kamy, não vamos incomodar vocês, atrapalhar sua rotina! – Por mais que quisesse aceitar, a casa não era só de Kamus.

— Eu reforço o convite Hyoga, afinal, família deve estar unida em todos momentos, principalmente os mais difíceis.

— Obrigado mesmo, vou falar com ele... Não vou prometer nada ainda... – Era de se considerar, mas deveria consultar o namorado também.

— Bem, o livro que me pediu está aqui Hyoga. – Foi ao braço do sofá e pegou o livro que já havia separado. – Espero que seja útil.

— Obrigado! Vai ser sim! – Fitou o livro e pensou em toda a generosidade que Kamus tinha consigo. – Ah primo, aconteceu algo estranho no funeral.

— O que foi? – Voltou-se a ele preocupado.

— Seu amigo estava lá!

— Que amigo Hyoga? – De repente o coração bateu acelerado e sentiu o sangue subir rápido para a cabeça.

— O Shaka.

— Shaka? O que ele fazia lá? – Sentiu que algo realmente ruim havia acontecido... O que explicava a falta dele no dia anterior sem explicação prévia. Shaka nunca fora de faltar a compromissos, principalmente sem avisar, então sabia que tinha algo de errado acontecendo.

— Ele era o terapeuta do irmão do Shun. – Não esperava uma reação tão intensa no rosto do primo.

— Me diz uma coisa, qual o nome do irmão do Shun? – Um nome se passava por sua mente, internamente rezava para que não fosse...

— Ikki.

— Ikki? Mon Die non é possível! O Ikki se suicidou? – Começou a andar de um lado a outro, em desespero, passando a mão pelos cabelos ruivo, despenteando-os. Seu nervosismo era óbvio, pois sempre que se descompensava, o sotaque francês que tanto lutara para perder, voltava com força total.

— Sim, ele tomou uma cartela de remédios! Porque você ficou tão afetado?

— É o caso que você supervisionava Kamus? – Constatou um intrigado Milo.

— Sim, isso mesmo, Ikki, o Ikki! – Não conseguia se conter, estava irrequieto, sentia um desespero enorme lhe consumir ao pensar em como Shaka deveria estar.

— Você supervisionava? Sabia que o Shaka atendia ele? Nossa Kamus! – Fora um choque, era algo que não podia esperar! Chegara a culpar Shaka por incompetência, por mau trabalho... Agora era o trabalho de Kamus exposto.

— O Shaka, por isso que ele faltou ontem na supervisão! Eu preciso falar com ele, non deve estar nada bem! – Buscou o celular no bolso e não o encontrou. – Onde eu deixei o...

— Calma amor, o Mu vai cuidar dele direitinho!

— Mas eles non estão juntos Milo! Ele me disse que estão separados há alguns meses.

— Como assim Kamus? Você não me disse que ele tava sozinho! – A ira tomou conta de si.

— E o que isso importa? – Naquele momento, tudo o que não precisava era de uma crise de ciúmes, tinha problemas muito maiores a se dedicar.

— O que importa? Você se encontrando com ele, sem dizer que tava solteiro... Se eu descobrisse iria estragar seu romance?

— Cala a boca Milo! Non, agora non é hora pra essas palhaçadas! Se você non pode ver o tamanho desse problema, cala a boca! Ele precisa de mim mais que nunca! – Seu tom era ríspido e impaciente. Esse não era seu perfil, mas a situação havia lhe deixado à beira do descontrole.

— Kamus, deixa o Shaka, ele é adulto, se vira. Só tá colhendo o que plantou! Que tipo de atendimento será que ele deu, pro cara se matar?

— Nunca mais repita isso Alexei! Eu non admito que você aja dessa maneira! – Disse as últimas palavras pausadamente, olhando furiosamente para o mais novo. Não passou anos de sua vida cuidando dele para ouvir uma estupidez daquela. Foi em direção ao corredor, buscar seu telefone.

— Ele não aceita que se fale mal do amante dele Hyoga! O Shaka sempre foi mais importante que qualquer pessoa. – Sua face estava vermelha, ardente.

— Sou obrigado a concordar com o Milo dessa vez, deixa o Shaka, ele já te fez tão mal, ainda virou a cara pra você!

— Isso non é da conta de vocês! — Gritou já entrando no quarto sem mais dizer palavra e buscou seu telefone, voltando para a sala.

— Você é um cretino Kamus! Você me traiu! – Batia com o punho cerrado na porta da sacada.

— Primo, não estraga a sua vida por causa...

— Calem a boca os dois! – Bradou alto. – Estou cheio dessa palhaçada! Eu dediquei toda a minha vida a vocês, fiz tudo por vocês. Até do meu melhor amigo eu abri mão, eu o magoei. E vocês dois, os dois, nunca estão satisfeitos. Querem mais, mais e mais! – Um homem que sempre fora tão centrado, gritava com nunca fizera antes. – Você nunca olha pra mim Milo, só praquilo que te interessa, a vida toda eu que me foda! Se você está satisfeito, tá tudo bem. – Lágrimas escorriam pela face rubra como os cabelos, e a revolta, mesclada com a mais profunda tristeza tomava conta de seu olhar. – E você Alexei, non entendo porque faz isso comigo. Seu egoísmo me decepciona! – Pegou a chave do carro que estava na mesinha de centro e não pensou duas vezes. Além de toda angústia que sentia por conta do suicídio de Ikki, ainda era obrigado a lidar com o egoísmo e ciúmes daqueles dois ingratos! Estava cansado, verdadeiramente exausto de tudo aquilo.

— Kamus, não sai desse jeito, é perigoso! – Nunca vira o companheiro tão transtornado em todos esses anos, e de repente veio um aperto no coração, arrependimento.

— Primo, você tá nervoso e... – Só ouviram a porta bater, não haveria diálogo tão cedo.

Entreolharam-se com cumplicidade pela primeira vez... E culpa também! Sabiam que haviam exagerado e passado dos limites... O ruivo realmente tinha razão.

— O que nós fizemos Hyoga! Estou realmente preocupado! – Passou a mão pela testa, sentando-se no sofá, inconformado.

— É melhor a gente esperar Milo! Se formos atrás dele, vai ficar mais nervoso e pode ser mais perigoso. Precisamos manter a calma. – Sentou-se ao lado do mais velho e segurou sua mão. – Vou ficar aqui até ele voltar! É culpa minha também!

— Obrigado! – Abraçou o rapaz, pela primeira vez... Além de uma trégua, aquele momento parecia um recomeço para eles.

Só poderiam esperar... Não havia nada mais tortuoso que isso...

Notas finais
Bem, mas um cap emocionante! Cenas fortes virão, mas enquanto isso vamos viver o luto da morte do nosso Ikki! Bjs imensos em todos os corações! ♥