Hora de Recomeçar
24 Entre Luzes, Postes e Lágrimas
Notas iniciais
Entre Luzes, Postes e Lágrimas
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As lágrimas caíam desenfreadas por seu rosto... Chorava com nunca antes havia feito... Afinal o pranto que não lhe era costumeiro, passou a ser mais frequente nos últimos tempos.
Todas as dores dos últimos anos guardadas na profundeza de sua indiferença vinham à tona indisciplinadas, dominando-o completamente...
Imagem por imagem passavam diante dos seus olhos, ofuscando à visão do trânsito à sua frente... Não sabia nem a que velocidade estava, mas deveria ser bem alta...
O pranto era mais importante que qualquer coisa... Seu peito explodira... Não podia mais segurar tantas coisas sozinho... Nunca imaginou que um dia aconteceria consigo, mas aconteceu... Afinal, por trás de uma máscara de frieza e apatia, sempre havia um coração tão sensível, que se quebraria por qualquer coisa...
Batia com as mãos no volante, enquanto gritava ruidosamente, lembrando de cada coisa que havia deixado para trás, cada erro cometido, cada pessoa perdida, cada palavra que o ferira...
Entristeceu-se com a lembrança da atitude de Milo e Alexei... Os amava tanto, mais que qualquer outro... Os mimou demais, não deixando que eles crescessem... Os dois... Abrira mão de tanta coisa por eles, foram tantos sacrifícios... Até seu melhor amigo... Um arrependimento terrível em seu peito. O amava também, porém o magoara mais...
Porque? Porque havia feito tudo errado na vida? Nunca imaginou que as consequências pudessem ser tão devastadoras a si mesmo... A única coisa que tentava era acertar...
Mas a vida é assim mesmo, não tem manual. Não há como saber o que é certo e errado, somente é possível experimentar e descobrir... Algo muito difícil para alguém cuja a ansiedade de pré-determinar tudo era arrebatadora.
Entendia Shaka melhor que ninguém, o que ele sentia em relação ao mundo... Agora sim podia entende-lo, depois de tanto tempo...
Seu coração parecia derreter-se dentro do peito e talvez chegasse ao ápice de sua dor... E também da compreensão. De alguma forma aquele rompante lhe trouxe um clarão e instantaneamente uma fagulha de esperança, um alívio.
Sua mente questionou-se se ainda haveria tempo de fazer diferente, de buscar uma nova forma de ser feliz...
Talvez não houvesse tempo... O poste estava bem à sua frente e sem aperceber-se, havia perdido o controle do carro... Conformou-se, afinal toda escolha tem sua consequência... Tanto a segura, como a insegura...
Soltou o volante e deixou-se por uma vez ser guiado... Se pela vida ou pela morte, não sabia!
— Perdão! – Foi tudo o que seu coração quis dizer... Fechou os olhos... E tudo escureceu-se...
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Voltou à sua casa para pegar algumas roupas e alguns livros... Pelo menos foi essa a desculpa que deu ao rapaz... A verdade é que queria ficar um pouco sozinho, no seu aconchego... Por mais que intencionasse, não conseguia levar ninguém à casa que era sua e de Shaka, como se lá fosse um Santuário a ser preservado.
Por mais que a humilhação tenha sido grande, não conseguia mais sentir raiva da atitude abusada de Shaka... Algo dentro de si não permitia demonizá-lo, mesmo com a maior das tentativas. Sabia bem da sua parcela de culpa.
Organizou algumas coisas que a diarista deixou fora de lugar e foi até o quarto escolher algumas roupas... Fitou a caixinha de madeira que deixara no criado mudo, e abriu-a. O prendedor de cabelo de sua avó.
Aquilo o fez lembrar-se de Shion e de tudo o que ele representava para si... Sentou-se na cama, hipnotizado pelo objeto, como se ele trouxesse uma força estranha com ele. Meditou sobre sua própria vida... A verdade é que não estava satisfeito consigo mesmo e com suas atitudes. Havia se perdido em meio aos vícios e desejos humanos.
Agia de maneira estranha, desconsoante nos últimos tempos. Depois que conhecera Aiolia. Por mais que estivesse vivendo algo diferente, com pessoas interessantes, num clima juvenil, algo em seu interior reprovava lhe os feitos...
Seria sua consciência? Ou adquirira moralidade demais no convívio com Shaka? Não sabia dizer, mas aquele novo mundo ao seu redor lhe incomodava e trazia uma sensação de escuridão.
Fechou os belos olhos verdes e instantaneamente visualizou a imagem da velha do Tibet. Os pelos de seu corpo se arrepiaram por completo...
Lembrou-se das palavras firmes e convictas que tinha tanta dificuldade de entender.
“Você dá valor ao que não tem, e não consegue enxergar a verdade por trás de cada coisa...”
“Use o que está dentro de você para realizar sua missão e viver com plenitude... Feche os olhos do corpo e abra os da alma”
Não tinha dado real importância a nenhum desses ensinamentos até esse momento. Sabia que já passara da hora de fazê-lo.
Sentiu um calor gostoso e acolhedor perto de si e uma lágrima escorreu por sua face... Devia ser sua imaginação, mas é como se Shion estivesse ali, do seu lado.
Deitou-se na cama tal qual uma criança, encolhido, com os cabelos volumosos espalhando-se por todo o colchão, ainda agarrado a joia da avó, como se fora um amuleto, buscando não perder aquela sensação espiritual de acolhimento e carinho que parecia perpassar todo seu corpo e sua mente...
Ao permitir-se àquelas lembranças e reflexões, de espírito receptivo, percebeu-se arrebatado por algo...
Algo realmente superior que parecia envolver lhe e querer guiar-lhe pela mão para seu real destino. Era simplesmente surreal, mágico, que por mais crente que se acreditava ser, nunca sentira antes... Aquele calor, aquela luz pareciam apenas se intensificar e sentia-se conectado com o Universo.
Deixou o corpo relaxar e se alongar na cama, abrindo os braços e as pernas, apenas sentindo tudo da maneira mais intensa possível...
Algo clamava em seu coração e estava agora resoluto a fazer as coisas de maneira diferente, para poder cumprir a tal missão, fosse ela qual fosse e ficar em paz consigo mesmo...
Com o rosto banhado em lágrimas e êxtase, adormeceu...
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— Mas como ele está moça? Pelo amor de Deus! Ele tá bem né? – Sua voz soava muito mais alta que o normal, quase em gritos, tamanho seu desespero. Sabia que aquilo não ia terminar bem e estava certo. – Ok, estamos indo agora. Hospital estadual, né? Ok, Obrigado!
— O que foi Milo? – Viu o rosto do escorpiano em pranto, ficou apavorado também, por mais que não quisesse transparecer.
— Ele bateu o carro, ele bateu o maldito carro num poste. Estava em alta velocidade. – Passou a mão pelos olhos já inchados, a retirar mais algumas gotas de sal.
— Mas o que aconteceu com ele? — Nunca se perdoaria se qualquer coisa ruim se passasse a Kamus.
— Eu não sei, só me disseram que ele chegou consciente no Hospital. Pelo menos isso Hyoga! — A terrível espera terminara, mas dera lugar a sentimentos muito piores... O medo e a culpa. – Você quer vir comigo?
— Vou sim e deixa que eu dirijo, é melhor! – Conhecendo tão bem o temperamento de Milo, era perigoso terem outro acidente. – Só vou ligar pro Shun avisando.
— Tudo bem, pode ser, mas vamos já! – Levantou-se, correndo ao quarto, pegando apenas os documentos e a chave do carro, logo retornando e a atirando ao jovem. – Vamos Hyoga, rápido! – Tentava manter o controle de qualquer maneira, afinal tinha de ser adulto em um momento tão difícil.
Sempre fora Kamus que lidava com todas as situações delicadas e complicadas, tinha uma posição muito confortável no relacionamento e era a primeira vez que se dava conta disso.
Talvez fosse esse um aviso, um sinal, de que algo estava muito errado...
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Abriu os olhos e viu tudo embaçado, fechou-os novamente. Respirou profundamente, voltava aos poucos à consciência plena. Estava vivo. Isso deveria ser um milagre!
Tentou mexer as pernas de maneira bem sucedida. Não havia perdido sensibilidade. Tentou mexer os braços. Sentiu uma dor aguda ao mover o esquerdo, provavelmente estava rompido.
Se dentro de suas percepções analíticas, estivesse tudo certo, havia ganhado somente um braço quebrado e algumas escoriações. Definitivamente aquilo era um milagre.
Novamente abriu os olhos e dessa vez teve mais paciência para esperar e logo tudo foi clareando. Estava numa enfermaria de hospital. Público provavelmente.
Aos poucos a mente também se aclarava... Lembrou do poste, de largar o volante e tudo escuro... Depois despertou no meio do resgate, onde o socorrista falava que tinha muita sorte pelo carro ter air bags. Desmaiou novamente. Despertou com luzes fortes e pessoas falando alto, o tocando, tentando despertá-lo, provavelmente sua chegada no hospital. Novamente cedeu ao sono.
Isso era toda a lembrança do acontecido. Não sabia se estava sob efeito de remédios, pois sentia-se tranquilo, sem ansiedades ou medo por ter sofrido um acidente. Movimentou a cabeça devagar e viu mais duas camas, com mais duas pessoas internadas.
Em pouco tempo, após conseguir vasculhar com a mente toda a situação ao seu redor, entrou uma enfermeira no quarto.
— Senhor, como se sente? — Perguntou um tanto solicita. Tratava-se de uma moça bem jovem.
— Estou bem, apenas sinto dor nesse braço e algumas ardências, principalmente no rosto.
— Sim, seu braço está quebrado e você teve um corte grande no rosto, mas não foi profundo. Provavelmente não ficará marca.
— Eu não me importo com isso.
— Deveria, é um homem muito bonito! – Disse a moça sorridente, dando uma breve piscadela ao rapaz. – Chegaram dois homens para te ver, se sente bem pra recebe-los?
— Ah sim, meu insano companheiro e meu primo ingrato? Pode deixar sim. – A enfermeira não pôde evitar as risadas, mesmo naquela situação, mantinha o bom humor... Mal sabia ela que aquilo era puro efeito dos remédios...
— Kamy, meu amor, tá sentindo alguma coisa? – Entrou no quarto um esbaforido Milo, esquecendo-se de que hospitais demandavam silêncio.
— Fale baixo Milo, isso aqui é um hospital! – Ralhou o enfermo, já prevendo fortes emoções.
A moça, percebendo a situação, deixou o quarto discretamente, apenas tocando de leve o ombro de Hyoga, que vinha um pouco mais afastado.
— Tudo bem amor... Perdoe-me por tudo. Eu fiquei com muito medo de perder você! – Abaixou-se e deu um breve selinho no francês, que estava mais pálido que o normal. – Nunca mais faça isso, você é precioso demais! O que eu faria sem você?
— É Milo, novamente você, sempre você! Eu preciso me manter vivo porque você quer! – Seu tom era sério, porém suave. Por mais que estivesse medicado, estava tomado pela razão.
— Me perdoa Kamus, de coração, me perdoa! Você está certo e no tempo em que fiquei te esperando, eu percebi o quanto eu sou egoísta. Não quero fazer promessa, porque foram feitas pra serem descumpridas, mas eu digo que vou cuidar de você todos os dias!
— Milo, eu...
— Deixa eu terminar amor! Eu vou cuidar de você de todas as formas possíveis. Vou respeitar suas opiniões, te ajudar em tudo. Estar com você. E principalmente, dividir os problemas. Vou ser um adulto Ka! – Acariciava o rosto do outro trêmulo, com as lágrimas a despejarem-se.
— A culpa é minha, eu não deixei você crescer! – Sorriu com doçura ao ver o companheiro tão angustiado.
— Você sempre foi muito bom comigo! Eu não cresci porque não quis assumir as responsabilidades! Eu sei que é tarde, mas...
— Nunca é tarde Milo, nunca! E me perdoe também, pelo susto que te dei e por toda minha incompreensão. Erramos juntos! – Segurou-lhe a mão, mas logo o braço reclamou e seu rosto sinalizou a dor.
— Que foi amor? O que aconteceu com seu braço?
— Está quebrado! Parece que eu feri o rosto também, mas a enfermeira acha que não vai ficar marcado não!
— Eu te amo de qualquer jeito Kamy, de qualquer jeito! Você foi o melhor presente que a vida poderia ter dado. Obrigado por tudo! E pelo amor de Deus, se cuida!
— Eu também te amo Mi, e te agradeço por tanta alegria na minha vida! Prometo que não vou aprontar de novo. Não chore mais por favor! – Deu uma risada gostosa, sentindo-se bem, aliviado.
Com toda a atenção de Milo, não havia reparado em Alexei na porta, observando tudo, porém dessa vez com um olhar diferente, mais acolhedor.
— Entra Alexei, venha aqui!
— Sim, venha! Desculpa, eu te esqueci aí! – Dissera descontraído, já com o coração acalentado por Kamus estar bem.
— Não se preocupa Milo, tá tudo certo! – Segurou o ombro do mais velho dando uma leve sacudida. – Me perdoa primo, de verdade! O único que importa é que você esteja bem, feliz! Eu não seria nada sem você!
— Você sempre será meu menino mimado! Vai ficar tudo bem!
— Vai sim, eu sei que vai! – Devolveu o sorriso terno que recebera.
— Agora vá buscar e Shun e vão lá pra casa!
— Não é apropriado Kamus, você precisa descansar, precisa de paz! Inclusive, nem tem previsão de alta!
— Hyoga, isso aqui é um hospital público! Eu dei perda total num carro e já saí da UTI, terei alta breve, não tenha dúvida. Veja, prefiro vocês dois seguros lá em casa. Eu não sou um bebê nem estou morrendo, converse com o Shun! – Seu comportamento mais parecia de um pai do que de um primo ou mesmo um irmão.
— Sim, vai ser melhor assim! Façam isso, tem espaço de sobra e... – Fora interrompido ao fundo por uma voz meiga e melodiosa.
— Com licença, posso entrar?
— Claro Shun, por favor, queria mesmo falar com você! O Hyoga contou que vocês vão para um hotel, e isso não é adequado. Quero que vocês vão lá pra casa!
— Kamus, está tudo bem com você? Espero que sim! Desejo melhoras... Seria melhor não incomodar...
— Ele é assim mesmo Shun! O primo é bem teimoso!
— Mas ninguém é teimoso sozinho! – Retrucou o ruivo
— Ok, nós vamos então! — Exibiu seu lindo sorriso, capaz de encantar qualquer um, tal qual um verdadeiro anjo!
— Shun, você é incrível! – O loiro deu um beijo doce na bochecha do namorado e todos riram largamente da espontaneidade do rapaz!
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