Hora de Recomeçar
9 Lembranças III
Notas iniciais
Lembranças III
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Era estranho entrar sozinho naquele apartamento que abandonara pouco mais de mês... Os móveis eram os mesmos, mas dispostos de maneira diferente. Entendia as razões de Mu, tudo estava carregado de lembranças, talvez realmente fosse melhor mudar...
Passou pela estante e viu aquele porta-retratos deitado, virado de cabeça para baixo. Conhecia aquela foto muito bem... É, ele não queria vê-la... Chegou a tocar o objeto, mas tampouco teve coragem de desvirá-la. Só não entendia porque ele não a havia tirado de lá... Não importava.
Tocava em todos os móveis, como que para acreditar que eram realmente reais, que estavam ali... Tentando reconhece-los... Reconhecer-se... Abriu a janela da varanda e apoiou-se na grade olhando para baixo. A vertigem veio instantaneamente, havia esquecido sua fobia de altura...
Retornou ao interior da casa, e passou todos os cômodos, chegando por fim à porta do quarto de visitas... Onde não entrava há mais de 10 anos... Essa era sua condição, nunca mais entrar naquele lugar que lhe causara tanta dor... E assim o fez!
Decidiu que talvez fosse essa a hora de amadurecer mais um pouco e lidar com aquilo. Colocou a mão na maçaneta, trêmulo. Abriu devagar e olhou timidamente para dentro, não vendo nada além de um quarto comum... Uma cama de casal... Ainda não podia evitar, por mais que não tivesse vivido aquela situação, visto aquela traição, não conseguia não imaginar a cena... Sentou no chão próximo à porta, não conseguindo evitar que más lembranças aflorassem em sua mente.
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— Shaka, é tão difícil! Você é tão cabeça dura! Faça isso por mim! – Estava irritado, andava de um lado a outro com as mãos na cabeça.
— Eu não posso Mu! Eu não vou conseguir ficar lá dentro, ouvindo horas de discurso antropológico... Mu, é demais pra mim! – Tentar explicar-lhe seus motivos pela milésima vez era cansativo e desgastante, ele simplesmente não queria entender...
— Mas é o dia mais importante da carreira do tio, é a defesa do Mestrado dele!
— Eu já falei Mu, você deve ir, precisa ir. Depois faremos uma comemoração especial com ele. – Tentava remediar a situação, mas cada coisa que dizia, parecia piorar a situação.
— Você não entende mesmo Shaka! – Estava cansado, irritado, rouco de tanto falar ao vazio.
— Mu, naquele mesmo lugar onde ele vai defender o mestrado... É onde minha mãe defendeu o dela e no final olhou bem nos meus olhos e disse que se não fosse por mim, ela teria feito antes, que já estaria no doutorado. Que eu devia ser eternamente grato por ela se dedicar mais à mim do que àquela maldita antropologia... E ele... Ele deu risada... Não dá, não dá! – Aquelas palavras eram sofridas, não podia esquecê-las.
Apenas lembrar daquele dia, o fazia suava frio e sentir o corpo amolocer, revivendo a vergonha que sentia, a humilhação pública... Aquele homem rindo de seu constrangimento... As pessoas ao redor lhe olhando com aquela maldita e deplorável pena... era apenas um menino de 9 anos... Quer queria viver, ser uma criança...O único que lhe segurava era sua irmã especial, presa em uma cadeira de rodas, que apesar de não falar, expressava a única fagulha de amor que sentira até então pelo olhar.
—Eu não vou insistir Shaka! Você vive de passado, você vive preso, amarrado, bitolado. Por causa das suas frescuras, eu nem me visto mais como gostava, tive que praticamente aposentar minhas batas e meus jeans surrados! Tudo te irrita, tudo é insuportável, tudo é ruim em mim... Não sei porque se casou com um sociólogo. Você nos odeia, nos acha ridículos, imbecis e imorais né? Tô de saco cheio disso! – Saiu de casa batendo forte a porta. Estava ficando atrasado e não iria perder mais tempo com as bobagens do outro. A convivência já não era fácil há algum tempo.
Passou àquele dia todo desolado, pensativo. Era difícil se relacionar com alguém que não podia, não queria entender suas dores, suas limitações... Tentava fazer o máximo possível para agradá-lo, mas não sentia retorno... Quanto tempo pensou e remoeu o assunto, disse a si mesmo que deveria ir àquela maldita defesa... Simplesmente não conseguiu e não teve seu coração compreendido... Novamente. Aquilo só reforçava sua crença de que eles eram todos iguais... Irresponsáveis, incompreensíveis e desregulados...
Ficaram mais de uma semana se comunicando apenas sobre o indispensável. Ninguém queria ceder, o orgulho era mais forte... Capaz de estragos permanentes...
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Ficou ali parado por horas e horas, relembrando tudo aquilo que fazia mal, que trazia ao coração dores e sofrimentos... Definitivamente não estava bem, mas acreditava ser importante reviver aqueles momentos, pôr para fora. Talvez isso aliviasse um pouco...
Encolheu-se mais e abraçou as próprias pernas, como se fosse uma criança carente...
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— Mu me desculpe, mas... – A verdade é que não tinhas reais justificativas... Realmente havia algo de errado.
— Você não me deseja mais, não me quer. Faz mais de dois meses que você me evita... Isso está sendo frequente, com intervalos cada vez maiores... Dá pra contar nos dedos das mãos quantas vezes fizemos amor no último ano... – Para si aquela situação era desagradável, humilhante até.
— Acho que estou com a cabeça muito cheia, muitos problemas, muitas preocupações... E sinceramente você não coopera...
— Ah, você não quer transar comigo e a culpa é minha? Tenha dó!
— Você percebe? A sua atitude? Apenas cobranças, discussões, patadas... Assim não há quem tenha tesão! – Palavras ásperas, alteradas e irracionais eram trocadas veementemente.
— Ah Shaka, por favor!
— Mu, de verdade. Não tá dando!
— Depois você ainda diz que não sabe porque eu transei com ele, né? Quem não tem em casa procura fora! Talvez esteja na hora de sair à caça de novo! – Aquelas palavras não continham verdades, mas apenas uma única intenção de machuca-lo.
Porém a única coisa que conseguiu foi feri-lo mais e faze-lo perder completamente o controle.
— Seu vadio, seu puto! É isso que você é, sempre foi! Nunca me respeitou de verdade! Nunca mereceu o meu amor, a minha dedicação! Tudo, tudo o que eu faço por você não tem valor nenhum! – A revolta consumia seu interior, não conseguia mais manter o autocontrole que sempre preservara tão bem.
Aquelas palavras eram realmente inaudíveis, num ato de fúria, partiu para cima do loiro com a mão levantada, pronto a atingi-lo.
— Quem você pensa que é pra falar assim comigo? – Sentiu seu braço ser segurado pelo outro, automaticamente empurrado contra a parede.
— Escuta aqui Mu, tudo tem um limite. Eu aceito qualquer bobagem, mas pense duas vezes antes de levantar a mão para mim, ou a situação pode ficar muito complicada, fui claro? – Pressionou-o contra a parede segurando seu braço enquanto a outra mão o prendia à parede pelo ombro. Seus olhos faiscavam raiva, queria esgana-lo, mas mesmo no auge da insanidade, o bom senso e a integridade lutavam ardentemente e o continham.
Tentava contê-lo da forma menos agressiva possível, pois tinha medo de uma reação. Apesar de serem da mesma altura, Mu sempre teve um físico mais avantajado e sabia que a probabilidade de se machucar muito em um entrave corporal era grande.
Mas ele não reagiu...
Foram dias, meses... Foram anos difíceis... Brigas frequentes por nada realmente merecedor de atenção. Farpas e espinhos trocados diariamente... Poucos momentos de paz, de harmonia. Exaltação do orgulho, da prepotência...
Aquela temporada amarga deixou danos irreparáveis, que mesmo depois conseguindo atingir um equilíbrio, nunca mais foram os mesmos...
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Depois de algumas horas, parou com o auto martírio e se achou injusto... Por mais que tivessem tido problemas, mágoas e decepções, viveram também muitos bons momentos.
Levantou-se e foi ao quarto que dividiram por tantos anos... Mentalmente tentou justificar os erros que cometeram... Ambos estavam completamente frustrados profissionalmente, com dificuldades para manter o sustento... Essas coisas sempre afetavam as relações... Pelo menos era isso que sempre ouvira dos casais.
A vida não lhes sorriu como desejavam. Tinham tantos sonhos, tantas ambições, mas as primeiras decepções levaram à desistência, ao comodismo...
Sentou-se na cama e não resistiu. Deitou-se nela, abraçando um dos travesseiros... Ainda estava com o cheiro dele... Lembrou-se das incontáveis reconciliações que viveram entre aqueles lençóis... Aquelas sim eram lembranças dignas de serem revividas...
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— Shaka, me desculpa! – Deitou-se a seu lado na cama, abraçando-o por trás como sempre fazia.
— Tá tudo bem, me desculpe também. Admito que não fui justo. – Era bom sentir que as coisas estavam se ajeitando. Definitivamente discussões, brigas e afins lhe faziam um mal exacerbado, sua resistência era baixa para esse tipo de situação.
— Eu sei que isso não faz bem pra você. Dói-me o coração ver você aí todo encolhido. Eu te amo Shaka, mas você sabe com ás vezes sou impulsivo, perco a cabeça.
— Mu, eu não gosto de brigar com você. Gosto que a gente fique sempre bem, em paz. Precisamos nos esforçar amor, para sermos mais felizes juntos. Eu preciso tanto de você! – Esses momentos eram os únicos em que se permitia ser manhoso e carente.
— Eu sei amor, vai ficar tudo bem! – Puxou-o levemente pelos ombros, virando-o para si e acariciando seu rosto. – Vai ficar tudo bem Shaka, vou voltar pra cá hoje! Pra nossa cama, de onde nunca deveria ter saído. Senti muito a sua falta, o seu calor nesses dias...
— Também senti sua falta Mu, seu abraço na hora de dormir! – Entrelaçou os dedos naqueles cabelos volumosos que tanto amava, sentindo o coração doer ao fitar aqueles olhos verdes tão sublimes.
Aproximaram-se magneticamente e se beijaram doce e apaixonadamente, abraçando-se com desespero, com urgência. Suas almas necessitavam daquelas carícias, daqueles beijos, daqueles toques ousados.
Carinhos plenos, mãos percorrendo os corpos freneticamente, como se fosse esse o último dia de suas vidas...
— Shaka, me ama! Eu quero, preciso te sentir em mim! – Seu pedido era sincero e intenso. O puxou para cima de si apertando-o contra seu corpo. – Não me negue isso, por favor!
— Nunca poderia negar Mu, eu preciso de você mais que qualquer coisa. – Beijava-o intensamente enquanto tirava sua camisa delicadamente e tocava seu peito. – Meu Mu, eu não quero mais ninguém que não seja você...
Enlouquecido de desejo, tirou-lhe também as calças e a roupa íntima, observando-o completamente nu. Caminhou com os lábios e as mãos por todo seu corpo, querendo senti-lo por inteiro.
— Ah Shaka, isso meu amor... – Delirava de desejo ao sentir todas aquelas carícias, se contorcia na cama num pedido mudo por mais. – Sabe que eu adoro...
Levantou-se retirando a própria roupa, louco por satisfazê-lo. Sabia que ele tinha pressa, urgência... Mas não iria abrir mão das preliminares... Voltando a cobrir seu corpo, agora nu, tomou a ereção do ariano entre os dedos movimentando suavemente enquanto mordicava seu pescoço, arrancando gemidos enlouquecidos.
Grudou suas mãos em suas costas, massageando-as intensamente. Sua pele tão branca agora era preenchida por marcas de amor, enquanto o arranhava suavemente. Sim, Shaka sabia torturar quando queria, nada era mais típico dele, alguém que se transformava na cama... Alguém que sabia dar e sentir prazer... O único momento que diluía todas aquelas travas...
— O que você quer que eu faça? – Completamente entorpecido pela cobiça, buscava seduzi-lo e satisfazê-lo... Deixava a luxúria guia-lo enquanto sussurrava em seu ouvido.
— Me toma Sha, agora! – Seu tom era quase imperativo, não aguentava mais esperar por senti-lo por completo.
— Mas tão rápido assim? – Diminuira a intensidade da masturbação, tentando tirá-lo completamente da razão.
— Agora, eu preciso agora. Meu coração precisa agora! – Seu olhar doce e amoroso encantou o loiro que entendeu a real necessidade do outro... Era como se ali pedisse perdão...
Ajeitou-o melhor no travesseiro e se posicionou em sua entrada acariciando seu rosto com delicadeza. Beijou-o ternamente começando a penetrá-lo devagar, sentindo-o reagir.
— Eu sei, também preciso do seu amor mais que tudo nessa vida! – Tomou-o por completo, investindo tranquilamente, para que seu corpo cedesse mais facilmente. Via-o arquear suavemente as costas com a movimentação, o desejo dominando suas expressões.
A sensação de possuí-lo era indescritível, queria mais e mais... Aumentou o ritmo das investidas percebendo tocar a sensibilidade do outro que gemeu alto chamando por seu nome. Uniu mais ainda os corpos debruçando-se completamente sobre Mu, sentindo intensamente o contato das peles aquecidas. Concentrou-se em repetir o toque especial constantemente vendo-o fechar os olhos e gritar de prazer.
— Mais Sha, mais de ti... – Era torturante e bom, realmente seu loiro sabia lhe dar prazer e amor simultaneamente. Segurava-lhe os cabelos, beijando-o enlouquecido. Definitivamente aquela era a melhor sensação do mundo...
Continuou em ritmo estável, apenas aprofundando mais os toques. Não queria que fosse tão rápido, queria senti-lo em seus braços pelo maior tempo possível. Ignorava seus protestos, sabendo que valeria a pena. Em seu próprio corpo percorriam correntes elétricas fazendo-o estremecer.
A excitação era mais forte que qualquer outro estimulo. Abriu os olhos e se maravilhou com a visão dele sobre si, o rosto contorcido de prazer, os olhos azuis nublados de desejo. Os corpos em total atrito pressionando sua ereção que já latejava por alívio. Agarrou-lhe os cabelos com força e num grito alto e rouco sentiu seu ápice chegar junto com as lágrimas em seus olhos. Segurou-se fortemente enquanto se remexia sem controle. Era como se atingisse o céu.
— Mu, meu Mu... – Sentiu seu abdômen molhado ao mesmo tempo em que ele se contraia intensamente em si dificultando imensamente sua movimentação.
Poucos segundos depois se sentiu derramar por completo dentro do amado com tremores por todo o corpo. Largou-se sobre seu corpo quente e úmido tentando regular a respiração. Com os rostos colados, sentia seu pranto banhar o rosto.
— Não chora meu amor!
— São lágrimas de amor Sha! Do que sinto por você! – Viu-o fitar-lhe com aqueles belíssimos e brilhantes olhos azuis que tanto amava e passou a lacrimejar mais.
— Só felicidade Mu, só felicidade...
— Para sempre Sha...
Muitas outras juras de amor foram trocadas naquela noite, assim como beijos, abraços e carícias. Adormeceram exaustos como há muito não ficavam...
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Aquelas lembranças sim lhe faziam bem. Sentiu seu coração chorar enquanto abraçava mais o travesseiro, buscando seu cheiro a qualquer custo.
Sem aperceber-se adormeceu profundamente, e como uma criança descansava intensamente e sem preocupações ou os pesadelos que lhe acometiam desde que decidira que aquela não mais seria sua cama... Mesmo que inconscientemente, ali se sentia seguro, amparado.
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