Hora de Recomeçar
5 Lembranças I
Notas iniciais
Lembranças I
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Foi à estante de livros e retirou o primeiro exemplar: A Interpretação das Culturas – Clifford Geertz. Sua memória voltou ao passado, segundo ano de faculdade... Realmente não acreditava que Shaka ainda guardava aquele livro...
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Terceiro semestre do curso de Sociologia na faculdade, muitas expectativas e sonhos. Trabalhava período integral em uma ONG dentro de uma comunidade carente e depois ia para a faculdade, já muito cansado, mas almejando um grande futuro: pesquisas, descobertas, livros...
Porém as quartas-feiras não eram tão agradáveis assim, pois tinham de dividir a sala com a turma do Terceiro semestre de Psicologia, na matéria Antropologia. Os embates às vezes eram fortes, cada um defendendo sua linha de segmento. Para atingir os objetivos dessa mistura que era a troca de conhecimentos sob pontos de vista diferentes, a professora pediu um trabalho que constava em uma etnografia por dupla, sendo que estas seriam sorteadas por ela obedecendo uma ordem: um aluno de cada curso. Aquilo não seria fácil.
Sua sorte não foi das melhores aquele dia, sendo que havia sido sorteado junto com um dos menos simpáticos da turma de psicologia. Um loiro exótico, que falava muito pouco e sempre andava bem vestido, aristocrata. Decidiu aproximar-se dele para escolherem o tema.
— Olá, você é o Shaka né? Acho que vamos trabalhar juntos! – Sua vestimenta habitual era sempre uma bata estilo indiano, com alguma calça leve ou jeans surrado e all star preto. O futuro sociólogo contava com alguns adereços alternativos no pescoço e nos braços. Isso não passou desapercebido pelo outro, que o olhou com certo desdém.
— Sim, sente-se. Vamos definir o tema. – Sempre bem trajado, elegante, sentiu-se muito azarado por ter que fazer um trabalho com um hippiezinho doido da Sócio. Aquela aula era realmente torturante...
— Bem, meu nome é Mu.
— Prazer Mu, você tem algum tema em mente?
— Olha, eu ouvi falar de uma comunidade que tenta levar uma vida mais zen e natural em meio a esse caos de São Paulo e...
— Desculpa, mas não podia ser algo menos... alternativo? – Nenhuma atração sentia por esse tipo de coisa, tinha um opinião um tanto radical sobre a juventude “revolucionária maconheira” de classe média. Achava-os inconsistentes.
— O que você sugere então?
Após dias de discussão sobre o assunto, chegaram a uma conclusão e fizeram a etnografia em uma nova vertente do movimento religioso cristão. Foram há dois eventos e fizeram suas anotações.
Alguns dias depois, encontraram-se na casa de Mu para fazer a finalização do trabalho, já que Shaka morava numa pensão horrível e quase inabitável no centro da cidade, informação que havia espantado Mu, que à primeira vista o havia julgado por algum riquinho arrogante. Por trás das roupas formais e da aparência elitista, havia alguma história de vida que lhe instigava.
Sentados à mesa discutiam os tópicos de um livro proposto pela professora.
— Eu ainda vejo que ele está mais voltado para uma percepção subjetiva da comunidade através do olhar de cada indivíduo. – Aprendera a tolerar Mu e percebera que ele não era tão desmiolado quanto parecia. Ele era divertido, agradável. E tinha uma beleza rara, diferente. Estava realmente apreciando sua companhia.
— Shaka, veja bem! A antropologia fala do conjunto social como estrutura e não do individual. O que realmente importa é o coletivo! – O loiro era menos irritante do que imaginara, e suas ideias eram coerentes. Gostava de escuta-lo, às vezes. E não podia negar que ele era lindo, charmoso, enigmático.
Estavam se tornando mais próximos com aquele trabalho, tanto que até já tinham saído para beber alguma coisa depois da faculdade. Suas conversas sempre terminavam em embates filosóficos sem fim. Mesmo sempre antagônicos, havia um interesse mútuo que os aproximava cada vez mais.
— Estamos a quase duas semanas discutindo a mesma coisa Mu, e sinceramente não vai adiantar, nosso modo de pensar é contraditório, não sei se isso pode dar certo! – Admitia estar começando a se desgastar com aquelas discussões, aquilo tudo não parecia dar em nada.
— Dialética: Tese, Antítese e Síntese! – Ria do desespero do outro, que parecia não se conformar.
— Sabia que Marx ia entrar no meio... Ele sempre entra!
— Mas a teoria da dialética é do Hegel!
— Desisto! Eu me rendo Mu! Acho que não é possível! – Virou-se para o outro, admirando seus volumosos cabelos que tinham um lindo tom amendoado. Nem loiro, nem castanho. Dono de um sorriso lindo, encantador e tão leve que lhe convidava a flutuar.
— Sabe Shaka, eu discordo novamente, acho que é possível sim! – O olhava profundamente, quase hipnotizado, enquanto percebia que ele desviava o olhar.
— Mas a gente não consegue nem definir as bases principais do texto!
— Eu não estou falando do texto, estou falando de nós! – Discretamente tomou sua mão entre as suas. – Você sabe que tá rolando um clima diferente...
— Mu, é que... Bem... Tá, tá rolando sim, você tá certo! – Não era de muitos rodeios e já que ele tocou no assunto, porque não esclarecê-lo de uma vez? – Mas a gente é tão diferente...
Estava nervoso, não estava acostumado com aquele clima. Nunca pensara em romances ou coisa parecida apesar dos hormônios da juventude lhe cobrarem mais atitude. Preferia focar toda sua energia para melhorar suas condições de vida e atingir seus objetivos profissionais. Porém aquele rapaz de sorriso fácil e vida descomplicada ameaçava suas defesas.
— E tão parecidos... Somos idealistas, argumentadores, mas sabemos nos respeitar também!
— É, pode ser... – Não mais resistindo tocou seu rosto delicado, sentindo-o aceitar de bom grado. Aproximaram os rostos a ponto de sentirem as respirações um do outro.
— Você quer tentar Mu? – Pôde ver um brilho tão intenso vindo daqueles olhos esmeraldinos que já tinha sua resposta.
Um leve roçar de lábios fê-los ansiar por mais, e tomando a iniciativa, Shaka o beijou docemente, segurando-o pelo rosto. Uma sensação incrível tomou conta de ambos, que se aproximando, se abraçaram, aprofundando o ósculo, lutando por um espaço na boca do outro. Podiam sentir o magnetismo que os unia cada vez mais forte... Sentiam que aquele momento poderia se estender pela eternidade.
Shaka nunca havia sentido nada parecido. Era uma emoção que lhe arrebatara por completo. Talvez pela primeira vez em sua vida pudera relaxar... Sentia entorpecido pelo cheiro doce emanado do outro...
O coração de Mu parecia saltar pela boca de tanta emoção... Sentia-se eufórico e interessado como nunca antes... Tudo o que queria era beija-lo mais e mais.
De repente escutaram um barulho de chaves na porta, e assustados, romperam bruscamente o contato e quebrou-se todo aquele encanto e torpor que os dominava. Era seu tio Shion, chegando a casa.
— Acho que já está na minha hora Mu! – Estava nervoso, sem saber o que fazer, o que dizer. Começou a arrumar suas coisas sem encará-lo, tinha certeza que estava vermelho e desalinhado.
— Tudo bem Shaka, mas eu quero que fique com isso... – Estendeu-lhe o livro de Geertz, com um olhar doce e divertido. – Pra você entender melhor a Antroplogia.
— Olá Mu, não sabia que tinha visita! – Entrando em casa o homem se deparou com dois rapazes um tanto desconcertados. Conhecia aquele clima e de alguma forma lhe gerava uma ponta de preocupação.
— Oi tio, eu te disse que ia trazer um colega para fazer um trabalho! Esse é o Shaka! E esse é o meu tio Shion.
— Fique à vontade rapaz, seja bem vindo.
— Obrigado senhor, mas eu preciso ir, já está tarde. Prazer em conhecê-lo. Mu, obrigado pelo livro! – Levantou-se, passou por Shion olhando-o rapidamente e se foi. Estava encabulado, sem saber o que fazer... Tudo muito novo e confuso...
— Mu, tá tudo bem? Vocês pareciam estranhos... – Desconfiou do olhar cumplice que os havia visto trocar momentos antes.
— Tio, tudo o que eu faço pro senhor é estranho! Tá tudo bem! – Tentara disfarçar, mas sabia que o tio tinha um faro apuradíssimo e não se iludiu ao tentar despista-lo, sabia que não funcionaria, apenas teria efeito momentâneo.
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Já estava velho, amarelado e um tanto empoeirado, mas aquele livro sempre trazia vivacidade aos seus olhos... Talvez fosse a única pessoa que se lembrava de um primeiro beijo com alguém através de um livro do Geertz... Olhou-o com carinho, tirou com a mão a fina camada de poeira da capa e o colocou na caixa, assim como fez com tantos outros.
Após encaixotar os livros, dirigiu-se ao guarda-roupa. Ia dobrando tranquilamente cada peça, antes de guarda-las.
Encontrou o suéter azul que havia comprado no ano anterior.
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Fazia tempo que não saíam juntos. Decidiram ir ao shopping comer alguma coisa, se distrair.
Notou que Shaka fixou sua atenção em um suéter azul marinho muito fino e elegante em uma vitrine, mas passou direto.
Após comerem, compraram algumas coisas que necessitavam e enquanto Shaka ficava na fila de uma loja, para passar no caixa, disse que iria até o banheiro, mas voltou àquela loja, a do suéter.
— Mu, você demorou, já paguei e estava aqui te esperando. – Viu uma sacola ser estendida em sua direção. – O que é isso Mu?
— É o suéter que você estava paquerando na vitrine.
— Mas...
— Shaka, eu conheço cada um de seus olhares...
— Amor, estava muito caro e eu nem tenho onde usar algo tão refinado...
— Não se preocupe, são algumas economias e... Tenho certeza que vai ficar lindo em você, é a sua cara! – Sorriu-lhe carinhosamente recendo um olhar terno e agradecido em troca.
— Obrigado! – Tomou-lhe as mãos, fitando seus olhos verdes e cristalinos com admiração. – Ninguém me conhece e me entende melhor que você! Eu sei que estamos com rotinas agitadas, com pouco tempo pra ficar junto... Mas tenha sempre certeza de que você foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida Mu!
Sem se importar com o público, se abraçaram carinhosamente como já não faziam há certo tempo... Aquele suéter nunca foi usado...
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Talvez as roupas fossem as mais difíceis de se empacotar, pois traziam as maiores lembranças... Podia sentir o perfume amadeirado que lhe era tão característico impregnado em cada peça. Não podia evitar as lágrimas... Talvez fosse até bom que viessem, para derramar de uma vez toda aquela dor...
Depois de uma tarde inteira de recordações, quando estava prestes a fechar as caixas, viu algo brilhante, bem no fundo de uma das gavetas abertas que lhe chamou atenção. Foi até lá e encontrou aquela pequena réplica do Torre Eifel que Shaka havia ganhado de Kamus, quando se reconciliaram do primeiro afastamento...
Depois de tudo, percebera que conhecia menos dele do que esperava... Mesmo após tudo o que ocorreu entre ele e o francês, não conseguia se desfazer das lembranças... Por mais que hoje aquele laço parecia rompido para sempre...
E sabia que ele nunca mais tinha sido o mesmo depois de tudo o que aconteceu... Suspirou... Aquele momento vinha sendo muito revelador e pôde perceber nuances que não havia visto em anos...
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— Shaka, eu gostaria de me desculpar com você! Fui injusto! – Não sabia muito bem o que esperar, mas não queria perder seu melhor amigo pra sempre.
— Tudo bem Kamus, o que importa é que esteja bem... – Sentia-se desconfortável com aquela situação, aquela visita surpresa justo em seu aniversário, mas não podia negar que estava feliz por isso...
— Eu tive que voltar à França, por uma herança deixada por meus pais. Bem, ela nos ajudou muito e eu e Milo financiamos um apartamento. Enfim, trouxe um souvenir pra você, pra te dizer que não esqueci nossa amizade e tudo o que fez por mim... Eu sempre me lembro de você!
— Me desculpe também, o que importa é que está tudo bem agora!
Um longo abraço foi trocado, mostrando toda a saudade que a distância de uma verdadeira amizade pode provocar...
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Sorriu ao guardar o souvenir em uma das caixas e pensou em como nada na vida é eterno... Compreendeu que o que resiste ao tempo é o que é alimentado, cuidado, respeitado... O restante se perde... Assim como eles haviam se perdido... Assim como a amizade de Shaka com o francês havia se acabado, por uma decisão errada guiada por um coração magoado e um ego ferido...
Tudo lacrado, respirou fundo e olhou ao redor... Tudo parecia diferente, mais vazio... Mas era assim que seria agora... Tinha de se acostumar...
Pegou seu telefone celular e o fez antes de pensar... Pois talvez se pensasse, não faria...
— Shaka? Sou eu, o Mu! Estou ligando pra avisar que você precisa pegar suas coisas... Já separei e empacotei tudo, espero que não se importe...
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