Hora de Recomeçar
18 Grande Lançamento
Notas iniciais
Grande lançamento
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Como o tempo passava rápido! Já estavam no meio do ano! Parecia até mais acostumado à nova realidade. Se alimentava melhor e o trabalho seguia tranquilamente. Porém, esse era um dia importante! Era o lançamento do livro de Mu e seria feito em uma grande livraria da cidade... O mesmo fazia questão que comparecesse, e não o decepcionaria.
O dia transcorreu tranquilamente, porém no final da tarde começou a cair uma terrível chuva... Elas não eram comuns a essa época do ano, porém São Paulo não era uma cidade muito previsível.
Logo seu último paciente chegara, Ikki. As últimas sessões haviam sido inúteis. Ele decidira não falar nada relevante, talvez para irritá-lo, talvez não.
E essa última sessão não foi muito diferente... Apenas banalidades entrecortadas por períodos longos de silêncio.
A chuva caía forte e assustadora, com direito a granizo e trovoadas, uma verdadeira tempestade.
A sessão finalizava e percebia um olhar estranho em Ikki, que logo se levantou e caminhou em direção à porta sem nada pronunciar. Porém ao invés de ir embora, trancou-a, assustando o terapeuta que imediatamente se levantou da poltrona.
— O que você está fazendo? – Viu-o se aproximar devagar e resoluto, sentia que começava a correr perigo, mas não poderia demonstrar medo.
— Preciso falar algo muito sério e não posso ser interrompido. Shaka... – Olhou profundamente nos olhos, de pé frente a ele. – Eu quero você, me apaixonei e preciso te tocar... – Levantou a mão para tocá-lo no rosto, porém logo percebeu o desvio dele.
— Ikki, acho que você deve estar confundindo as coisas e isso deve ser apenas um momento mais frágil... – Esquivou-se, posicionando atrás da poltrona, apoiando-se nela, tentava controlar o coração que parecia querer sair pela boca.
— Eu não estou em um momento frágil, eu sei bem o que quero, e sei que você me corresponde. – Aproximou-se novamente, viu o desconforto em seus olhos tão claros...
— Ikki, eu não sinto o mesmo por você, é apenas um equívoco, apenas lhe vejo como meu paciente e nada mais. – A tempestade não cessava e aquilo já estava se estendendo demais... Começava a se atrasar para o lançamento...
— Você não pode me dizer isso, é mentira. Eu sei que você me corresponde! Você não pode me negar desse jeito! – Seu tom imperativo quase saía de controle e percebeu que assim não conseguiria nada com o loiro. – Me desculpe, me descontrolei. – Acabou por acalmar-se e voltar a si.
— Olha Ikki, eu sou seu terapeuta e apenas isso. Jamais acontecerá nada entre nós além do processo terapêutico. Podemos conversar melhor sobre isso na próxima sessão, mas agora não será possível.
— Tá com pressa de ir embora? Vai se encontrar com alguém? Você se separou há alguns meses, não gostaria de ter concorrentes. – Sua frase não parecia irônica, chegava a ter uma expressão assustadora.
— Ikki, vá e ponha sua cabeça em ordem e entenda que entre nós somente há uma relação terapêutica. Dirigiu-se a porta e a destrancou e abriu, em convite mudo para que o outro se retirasse.
Sem mais nada dizer, saiu irado da sala, olhando o loiro de maneira provocativa. Ele não havia aceitado bem... Seria difícil, pois realmente entregara seu coração, e não aguentaria não ser correspondido. Outra vez a vida parecia lhe dar uma rasteira.
O terapeuta respirou aliviado ao vê-lo sair. Tudo parecia mais complicado a cada sessão. Voltou a sentar em sua poltrona esperando que o paciente deixasse o prédio, e também na esperança da chuva diminuir um pouco. Já estava atrasado, então pouco minutos não lhe fariam a diferença. Precisava se tranquilizar...
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Andava ansioso de um lado a outro... Aquela chuva vinha em hora errada, justo na hora de seu lançamento... Mas não deixaria esse detalhe estragar o brilho daquela noite. A decoração era sóbria, como pedia o evento. Um elegante coffe break e uma mesa organizada, onde distribuiria autógrafos e dedicatórias. Foram convidadas algumas pessoas importantes do ramo e tudo estava certo para recebê-los. Estava tudo pronto, perfeito.
Mas admitia que o que mais lhe deixava nervoso era o fato de Shaka ainda não ter chegado. Ele sempre era o primeiro a chegar, não era de se atrasar... Talvez estivesse preso no trânsito ou na chuva, afinal pelo barulho que ouvia, a cidade deveria estar um caos com toda aquela água que caía.
Não mais suportando a ansiedade, acabou por ligar para o ex companheiro.
— Oi Shaka, aqui é o Mu...
“ – Mu, tive um contratempo e acabei de sair do consultório, já estou no trânsito, chegarei breve!”
— Tudo bem Shaka, estou te esperando! – Sentiu-se mais aliviado ao ouvi-lo dizer que estava a caminho.
Logo começaram a chegar alguns convidados da editora e deveria fazer seu papel de anfitrião... Essa noite seria determinante para seu sucesso ou fracasso...
Atendendo a todos, não percebeu a hora passar... Definitivamente o lançamento estava sendo um grande sucesso... Percebeu que Aldebaran não foi... Provavelmente estivesse magoado com aquela última conversa. Enviou o convite, mas já esperava por sua ausência... E Shaka não chegava nunca... Começava a ficar preocupado...
De repente olhou para a entrada e quase desacreditou... Aproximou-se para ter certeza e viu que era ele mesmo. Abriu um grande sorriso e acolheu nos braços o moreno.
— Aiolos, eu não acredito que você está aqui! Há quantos anos! – Era muito feliz em ter um amigo numa hora dessas, principalmente alguém como ele, um velho companheiro de profissão.
— Desde a faculdade Mu! Faz muitos anos mesmo! – Retribuiu o abraço de maneira forte e carinhosa, estava muito feliz pelo reencontro.
— Claro, você sumiu aí pelo mundo afora! Mas me diz, como você ficou sabendo? – Soltou o abraço o fitando alegre.
— Não se fala em outra coisa no nosso meio! Todo mundo comentando de um escritor que iria levar a sociologia para o povo! Linguagem simples, mas bem estruturada e inovadora. Você acha que eu perderia? – Mu parecia radiante e quase tão jovial como quando o conhecera.
— Realmente estou muito feliz que tenha vindo... – De repente reparou que ele não estava sozinho... Viu um rapaz uma década mais jovem, de cabelos mais claros, mas quase igual ao mais velho, porém com porte mais altivo e atlético. – Não me diga que esse homem tão bonito é o...
Antes que pudesse terminar, o rapaz passou à frente e lhe estendeu a mão, com um olhar extremamente sedutor.
— Aiolia, eu sou o Aiolia. Eu era um menino, mas me lembro de você... Não mudou nada na verdade. – O anfitrião era um jovem maduro, mas parecia ainda um rapaz de beleza doce e delicada, beleza que o encantava desde criança. Não conseguia disfarçar seu olhar de interesse.
Retribuiu o cumprimento apertando a mão forte que era oferecida e logo a sentiu ser beijada pelo mais novo. Interpretou o gesto de maneira muito feminina e isso não o agradou...
De repente seu celular tocou e quebrou o contato visual e físico com o rapaz, sentindo-se mais aliviado de alguma maneira...
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A chuva torrencial lhe atrapalhava a visão e dificultava seu desempenho na direção do veículo... Estava longe, o caminho ainda seria longo e teria que passar por importantes vias da cidade, o que apenas atrapalhava sua locomoção.
Dirigindo com prudência, algo típico seu, deparou-se com um acidente grave pouco carros à frente do seu. Trânsito interditado... Não tinha como ir pra trás e não podia ir pra frente! Irou-se, espalmando com força as mãos no volante, deitando a cabeça sobre o mesmo acionando a buzina acidentalmente.
Teria de despender toda sua paciência, a verdade é que não tinha o que fazer... Ligou o rádio do carro e tentou tranquilizar-se... Já se iam às 9 e meia da noite e a pista ainda não tinha sido liberada. Com muita dor no coração, tirou o celular do bolso.
— Alô Mu! É o Shaka! — Sua voz era fraca e contida.
“- Oi Sha, tá tudo bem? Aconteceu alguma coisa? – Não fez questão de pedir licença à seus convidados, na verdade sua ansiedade não lhe permitiu tal movimentação.”
— Acabei pegando um acidente grave e não consegui desviar. Tá tudo interditado e eu ainda estou parado aqui. Me perdoe.
“- Não se preocupe, eu sei que você fez de tudo para estar aqui. O importante é que você esteja bem! – Sentia-se um tanto decepcionado por Shaka não ter conseguido chegar, mas entendia que não era culpa dele.”
— Perdoe mesmo! Eu quase desci do carro para pegar um táxi, mas a chuva está perigosa. Eu queria estar aí. – Era um mal-estar tremendo ter falhado dessa maneira com Mu, não conseguia se desculpar.
“- Por favor! Nem pense em se arriscar nessa tempestade! Já está acabando, foi um sucesso. Depois eu vou te levar um livro autografado Sha! Eu sei que em coração você está aqui! Obrigado por tudo!”
— Eu que agradeço por entender! Prometo que vou recompensá-lo por isso! Desejo que seja mais que sucesso! Até mais!
“- Até breve Shaka, se cuida por favor!”
Uma dor profunda invadiu seu peito, a ponto mesmo de colocar a mão sobre ele. Tudo que não queria era magoar Mu, justo num momento importante como esse... Principalmente pelo fato de Dohko já ter partido...
Estava cansado, exausto na verdade. Um dia carregado de emoções pesadas e contraditórias... Tudo o que queria era ir logo pra casa, tomar um banho e dormir...
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— Mu, eu não acredito que você ainda tá com aquele loiro metido à besta! Meus Deus! – Riu abertamente, mesmo soando um tanto inconveniente.
— Não Olos, ele não é metido à besta e não, não estamos mais juntos. Nos separamos a pouco mais de 6 meses, mas somos amigos. – Era acostumado à irreverencia de Aiolos, mas ficara envergonhado pela presença do mais novo.
— Irmão, não fale bobagem! Hoje é um dia de felicidade pro Mu, então não seja chato. – Olhou novamente de maneira indiscreta para o anfitrião, fazendo este corar mais ainda... Mas isso não fora motivo o suficiente para ele não corresponder...
— Obrigado Aiolia, seu irmão sempre foi terrível! Mas vamos até à mesa, e sintam-se à em casa. – Não pôde deixar de reparar no olhar malicioso do mais novo, e também não deixou de respondê-lo... Era um homem lindo e sedutor, um verdadeiro sonho para qualquer interessado no gênero...
A verdade é que o rapaz não parecia homossexual, mas o interesse em si era evidente... Sentiu-se atraído por ele como não sentia há anos... Uma nova emoção parecia invadir-lhe o peito... Era algo novo... Tinha cheiro de aventura... Tinha cheiro de prazer...
O resto do evento transcorreu normalmente, com várias trocas de olhares entre Mu e Aiolia, o que não passou desapercebido pelo irmão do mais novo e nem pelos outros convidados... Algumas palavras com dúbio sentido, alguns discretos toques e muita conversa entre eles... De repente a meteorologia ou mesmo as notícias do jornal pareciam fazer interessantes... O clima de paquera estava no ar.
Ao final da noite, estava feliz, porém cansado! Tudo o que queria ver era a cama! Mas antes necessitava se despedir dos últimos convidados... Os irmãos...
Na porta da livraria despediu-se com toda festividade de Aiolos, que preferiu ir ao carro enquanto o irmão se despedia.
— Mu, realmente eu gostaria de lhe parabenizar pelo sucesso do lançamento! Desde a infância, te olhava e via algo de especial em você. Agora sei que é a sua beleza e simpatia... – A chuva havia cessado, deixando a noite fresca e suave... Estavam em um lugar discreto à frente da livraria.
— Aiolia, você é muito gentil, tão jovem... – Viu-o se aproximar de si de maneira felina, vibrante... Sabia que não conseguiria evita-lo, simplesmente porque não queria...
— Sou adulto o suficiente para reconhecer que você é um tesouro que não pode ser desapercebido e que pede por ser conquistado... – Abraçou-o pela cintura, colando seu corpo ao dele...
O silêncio era irrelevante, pois os olhares pareciam se tragar... Não fez esforço para escapar-lhe, mas acabou por enlaçá-lo pelo pescoço... A distância perigosa foi rompida e logo num gesto quase hipnótico os lábios de tocaram levemente... Arrepios pelos corpos... Uma sensação que parecia não mais conhecer, a do primeiro beijo...
Em breve, o ósculo intensificou-se e o abraço se estreitou... O corpo forte e o cheiro másculo do mais novo o embriagavam e deixou-se levar por aquela sensação, entregando-se àquele beijo que lhe invadia o corpo e a alma, acariciando os revoltos cabelos claros enquanto suas costas eram tocadas com força...
E aquele momento de loucura e desejo teve seu ápice e seu fim... Os olhos perdendo contato e os corpos de afastando... Era verdade que estava um pouco constrangido, mas seu ímpeto de tentar deixa-lo sem nada dizer mais tinha a ver com uma dose de charme que qualquer outra coisa...
Obviamente o rapaz impediu àquele desatino, segurando-o pelo pulso, abraçando-o novamente.
— Eu vou te procurar Mu! Isso não acabou aqui! – Sua fala era sensual e provocativa, fazendo o outro romper em delírio, atirando-se em seus braços e voltando a beijá-lo, logo separando-se e desaparecendo pelo corredor, apenas com uma rápida virada e um sorriso...
Ah, aquele sorriso, as esmeraldas vibrantes... Iria até o inferno se fosse preciso, mas o veria de novo...
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