Notas iniciais
Olá minha gente linda! Tive uma quinzena difícil, mas estamos aqui novamente! Esse é um cap triste, reflexivo. A vida de todo mundo tá virada de ponta cabeça! Mas vamos ver como nossos amadinhos se saem! Espero que gostem! Mil bjs no ♥ de vcs!

Desesperança

E mais um dia havia se passado e ele continuava daquele mesmo jeito... Distante, evasivo. Há anos não o via afetado de tal maneira. Mesmo lidando com pacientes terminais, mutilados, desfigurados... Ele não se abalava. Não entendia o porque ele estava assim agora.

Um caso complexo na clínica. Aquilo não lhe parecia fazer o menor sentido. Sua paciência nunca fora das maiores e já havia esgotado. A qualquer custo descobriria o que estava acontecendo, apesar de ter uma certa suspeita...

Somente em pensar que o motivo poderia ser ele já lhe fazia o sangue ferver... Mesmo distante ele, estava sempre perto... Parecia o único que conseguia desestabilizar Kamus, arrancar dele rompantes emocionais, abalá-lo, fazer seu olhar desfocar... Sentia ciúme dele, pois nunca tivera esse mesmo efeito sobre o companheiro... Bem, pelo menos era isso que pensava.

Passou a mão pelos longos cabelos cacheados e sentou-se à seu lado no sofá, onde o ruivo parecia assistir alguma coisa, porém sem muito interesse. Não o tocou nem o olhou, sabia que ele não lhe daria atenção de qualquer jeito.

— O que está acontecendo Kamus? Você está estranho.

— Eu sou estranho Milo! – Sabia que por mais que resistisse, nada lograria, porque sabia que o companheiro não sairia daquele sofá sem uma resposta.

— Está mais que o de costume! – Sim, aquela noite seria longa, mas era obstinado, nada deteria sua busca por explicações.

— Nada importante, coisas da clínica.

— Kamus, fala a verdade, você está assim por causa dele. – Seu tom de voz já se alterara um pouco e novamente passara a mãos pelos cabelos, demonstrando todo seu desconforto.

— Não sei do que está falando! — Mentia, sabia muito bem de quem Milo estava falando.

— Não se faça de idiota Kamus, toda vez que ele entra na sua vida é assim, ele tira sua razão, seu sossego. Tem um poder inacreditável sobre você. – Incrédulo, o fitava ainda concentrado no televisor, o que somente fazia sua raiva aumentar.

— E não importa quantos anos passem, você ainda tem ciúmes dele e fantasia sobre o que nunca existiu. – Aquela noite seria longa, assim como tantas outras o foram nesses anos todos...

— Mas é que...

—Mas é que nada! — Decidiu voltar sua atenção ao loiro, já que este já o tirava de sua santa paciência. – Foi assim a vida toda! Você tanto que fez, conseguiu me afastar dele pra sempre. Agora já não tem mais volta! Nosso vínculo é somente profissional e eu não vou negar-lhe ajuda Milo, não seria justo! – Suas palavras eram frias e seu olhar cortante.

— Você sempre teve uma paixão secreta por ele! Você nunca admitiu isso! A influência que ele tem sobre você é maior do que a de qualquer outra pessoa! – Seus olhos já expeliam algumas lágrimas que se misturavam ao olhar magoado e rancoroso.

— Influência maior que a sua, é isso que te irrita né Milo? O fato de não ser a única pessoa importante pra mim te enlouquece! Porque você sente que não sou sua propriedade assim como gostaria. Talvez você nunca amadureça e seja capaz de perceber as coisas e ver como elas realmente são!

— Eu sei que ás vezes sou um pouco possessivo, mas eu sempre tive medo de que você...

— De que eu fizesse o que você fez comigo! Trair! Estou cheio da sua hipocrisia Milo! Parece que não adianta nada fazer tudo o que faço por você, você sempre quer mais! – Levantou-se do sofá de maneira brusca, voltando a fitar seu companheiro. – Eu te amo Milo, esses anos todos eu fiz tudo por você! Passei por cima de todos que me importavam, passei por cima de mim mesmo e non me arrependo. Mas agora, eu decidi que eu vou ajudar o Shaka e eu irei até o fim, porque isso é pouco perto de tudo que eu devo a ele e se você tivesse consciência não seria tão ingrato com ele!

— Kamus, não é que... – Conhecia aquele olhar, tinha medo... Sabia que ele havia chegado ao seu limite... Não que fosse a primeira vez, mas vinha sendo mais frequente.

Non Milo, chega! Agora você vai ouvir! Por amor e dedicação a você eu abri mão do meu melhor amigo, a única pessoa que me entendia de verdade, que fez tudo o que pôde por mim e por você também! E a única coisa que ele recebeu foi ingratidão!

— Ele nunca foi tão bom assim...

Non fala Milo, non fala! Por mais que você fale que eu devo pedir perdão a ele, basta que ele se aproxime e você vira o cão! Eu non vou abandoná-lo Milo, non dessa vez! Ele realmente precisa de mim e estarei com ele até o fim, mesmo que ele me despreze! – Desapareceu pelo corredor entrando no banheiro e lá se trancando.

Não teve tempo de dizer mais nada, ele se afastou e sabia que era impossível qualquer aproximação nesse momento... Tinha ciência de que Kamus no fundo, estava certo. Mas não sabia explicar aquele sentimento... Sempre fora ciumento, mas quando se tratava de Shaka tudo parecia pior, porque talvez fosse a única pessoa que pudesse competir em nível de igualdade o coração do francês. E em hipótese alguma admitiria perder... Porque preferia perder a vida à ver seu amado em outros braços...

Sentou-se no vaso e lá ficou com a cabeça apoiada nas mãos, suando frio de tanto nervoso. Estava cansado. Era tão bom em auxiliar os outros a administrarem as suas vidas e a sua própria era tão complicada. A situação já lhe era dolorosa o suficiente e Milo a fazia se tornar pior, a relembrar mais detalhes, a sentir mais culpa... A sentir mais medo.

Deixou as lágrimas saírem silenciosas tornando o coração cada vez mais resoluto. Amava Milo, mas dessa vez não iria deixa-lo lhe atravessar a frente. Sabia o que era correto, justo e iria até o final. Lidar com o peso do remorso pela injustiça cometida era grande e essa era seu único arrependimento na vida. O mimo ao ego do seu amado lhe custou muito caro. Mesmo sabendo que o tempo não voltaria atrás e algumas coisas não tinham solução, tinha claro para si que não se permitiria errar dessa forma de novo.

Dessa vez estaria ao lado de Shaka, e pagaria o preço, qualquer que fosse ele...

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Por muitas semanas pensara, e acreditava estar tomando a atitude correta... Seria melhor para si, seria melhor para todos... Porém seu coração apertava ao saber que o deixaria sozinho... Não havia outra maneira, isso seria bom para ele também, precisava amadurecer um pouco...

Olhou por todos os cantos, tocou a parede e viu que sentiria uma falta enorme de cada centímetro daquela casa... Tudo ali parecia contar sua história... História de felicidade, de amor, de verdade. Não conseguia sentir tristeza ou desalento, somente carinho e saudade. Mas era hora de um novo rumo, novas experiências, uma nova missão. Seria bom, faria bem à sua alma poder ser útil a alguém.

Viu seu menino sentado no sofá... Seria muito difícil contar a ele...

Sentou-se a seu lado e segurou sua mão, fitando seus olhos. Ele o havia procurado, então provavelmente tinha algo importante a dizer. Beijou suavemente a mão branca e macia, sorrindo-lhe com todo carinho que possuía.

— Diga filho, posso te ajudar de alguma maneira?

— Eu tenho uma notícia muito boa pra te contar! O livro já está praticamente pronto e em um mês será o lançamento! – Como uma criança, sorria deliberadamente e acariciava a mão do mais velho.

— Que coisa boa Mu! Fico tão feliz por você! Vai ser um enorme sucesso! – Aproximou-se mais e pegou uma mecha dos cabelos amendoados entre os dedos... Mu parecia nunca envelhecer...

— Esse era o grande sonho do tio... Pena poder realiza-lo só agora. – Os olhos encheram-se de lágrimas, que tentava não verter.

— Ele está feliz, ao nosso lado sempre, dentro do nosso coração. E com certeza não quer lhe ver pesaroso. – Enxugou uma gota que saiu espontânea do rosto de seu menino, seria muito duro deixa-lo, ainda mais nesse momento.

— O senhor tem razão! – Ergueu a cabeça tratando de espantar a tristeza. – Bem, vou verificar tudo o quanto antes e te aviso com antecedência, pro senhor se programar.

— Mu, foi bom que você veio aqui. Preciso lhe falar uma coisa muito séria. Eu não vou poder ir no seu lançamento. – Respirou fundo, preparando-se para dar a notícia de maneira tranquila e carinhosa.

— Tá acontecendo algo? Dohko, me fala! – Ficou preocupado, algo acontecia e ele não sabia... Não podia ser nada grave, não aguentaria mais uma perda.

— Filho, eu tomei uma decisão muito importante... Consegui uma transferência e vou voltar pra China. – Como aquelas palavras eram doloridas...

— Vai... Embora? Não pai, o senhor não pode ir embora! – O pranto consumiu-lhe o rosto, sentindo um grande vazio dentro de si. Sua voz era fraca, quase sussurrada. – Eu não quero ficar sozinho!

— Mu, me dói muito deixa-lo. As coisas estão muito difíceis pro Shiryu, e eu sinto que preciso estar perto, ajuda-lo. E você filho, você está bem, sua vida está caminhando e nunca ficará sozinho. Eu sei que Shaka sempre cuidará de você, de uma maneira ou de outra.

— Eu sei, desculpe se sou egoísta, mas eu gostaria de tê-lo sempre por perto. Já fez muito por mim, mais que eu merecia... – Dohko era tão incrível, que sua admiração apenas crescia por ele a cada dia... Seu altruísmo não tinha limites.

— Deixe de bobeira Mu! Você é meu filho! – Segurou-lhe o rosto pelo queixo com delicadeza. – Meu único filho e sempre será assim. Eu te amo tanto! Sempre farei tudo por você, mas sei que agora você está bem e não precisa tanto de mim. Sou mais útil lá na China, espero que não fique chateado comigo, filho.

— Claro que não! Entendo que seja melhor ir pra sua terra natal, sei que o tio faz muita falta pro senhor! Sei que lá eles precisam de sua ajuda e eu fico feliz que queira seguir sua vida. Vou sentir muita falta, mas estarei feliz pelo senhor!

— Filho, se precisar de alguma coisa, se acontecer algo, eu venho pra você! Sempre será minha prioridade! – O puxou para si, abraçando carinhosamente e sentiu-o se aninhar em seu peito.

— Desejo toda sorte e toda a felicidade para o senhor e para os primos lá da China, de verdade! Ninguém merece mais a felicidade que o senhor! Sentirei saudades, mas estarei feliz se o senhor estiver bem. Mande notícias constantemente.

— Claro que mandarei, não se preocupe. Sempre quero estar perto de você, mesmo estando longe! Partirei em 15 dias. – Sentiu-o deitar-se em seu colo, assim como quando era criança. – Vai ficar tudo bem Mu!

— Vai sim, eu sei. – Enxugou as lágrimas e tentou abrir um sorriso. – O que o senhor que eu faça, feche a casa ou a alugue?

— Alugue Mu, e use a renda para lhe ajudar nas despesas.

— Não, pare com isso. Já tenho o aluguel da casa dos meus pais no interior e agora, sinto que as coisas vão mudar! Essa é a sua casa pai, vou lhe mandar o dinheiro todos os meses e não quero discussão! Já fez demais por mim a vida toda e nunca conseguirei agradecer...

— Sou eu que deveria agradecer toda a luz que você trouxe pra minha vida! – Beijou-lhe a cabeça e tomando-o nos braços por completo.

— Então eu quero aproveitar esses últimos momentos e ficar bem perto pai! – Envolveu-o com os braços permanecendo grudado a ele enquanto pôde. Era uma fase de muitas mudanças e amadurecimento para si, e teria de enfrentar.

Sentiu um vazio imenso e dilacerante em seu peito. Algo parecido com o que sentiu quando se viu sozinho no abrigo até ser resgatado por Shion. Aquilo o desestabilizou.

Sempre fora um menino grande, manhoso e carente. Cuidado por todos á seu redor, nunca tinha enfrentado de verdade as responsabilidades da vida adulta. Quando Shaka o deixou, passou a se sustentar sozinho, não foi tão difícil... Agora tinha de estar por si, inclusive emocionalmente. A provação era grande, mas sentia-se na obrigação de vencê-la. Por Dohko... Por Shion...

Não sabia como, mas precisava faze-lo. Afinal não tinha mais escolhas. Estava só.

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Sentado em sua cama, olhava fixamente o objeto em suas mãos... O rosário de seu pai. Por mais que o tenha evitado durante anos, que tenha se esforçado por deixar tudo pra trás... Ainda carregava aquela cicatriz... E de alguma maneira olhá-lo lhe trazia algum conforto.

Poderia ser bobagem sua, mas ás vezes, em momentos de fragilidade voltava a ser como aquele menino que imagina que em algum lugar distante havia um pai que o amava, que pensava nele, que lhe acolhia a alma em meio à tanta dor e descaso...

Aquilo era só imaginação, mas ás vezes sonhar fazia bem pro espírito... E se permitia sair um pouco da realidade para acalentar o próprio coração...

Não se deu conta na quantidade de tempo que ficou ali, absorto em seus devaneios quase infantis... Mas toda aquela conversa com Kamus o havia abalado... Trouxe novamente a questão paterna à sua vida.

Percebeu que não conseguiria fugir daquilo... De uma maneira ou outra sempre voltava, e agora de uma forma perigosa, que interferia em sua profissão e na vida de outra pessoa.

Simplesmente não sabia o que fazer e pedia uma resposta ao Universo...

Sentia-se frágil... Sensível...

Notas finais
Pois é, poderia dizer que é uma pseudo calmaria que precede a tempestade, mas não tem calmaria nenhuma nesses corações... E tem uma tempestade chegando! Espero que tenham gostado! Mil Bjs no coração de vcs! ♥