Hora de Recomeçar
8 Amores
Notas iniciais
Amores
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— Vamos começar tudo de novo Kamus? Às vezes eu penso que tudo fica melhor quando ele está longe... – Andava de um lado a outro passando a mão nos cabelos enquanto o fitava sentado na beirada da cama, preocupado, distante.
— Não diga isso Milo! Não é verdade! – Por mais que estivesse acostumado à impetuosidade do companheiro, ainda sentia que às vezes era necessário lhe dar limites...
— Ok Kamus, vamos então agir como adultos! – Sentou-se na cama abraçando-o por trás e acariciando aqueles cabelos ruivos que tanto gostava. – Você gosta tanto dele, não seria a hora de pedir perdão? Consertar as coisas?
— Mas... – Seu protesto foi logo interrompido.
— Você errou e sabe disso amor! Tá na hora de admitir! – Sentiu-o remexer em seus braços. Aquela conversa sempre o agitava. – Encare a realidade, por mais que o Shaka se recuse em me dirigira a palavra há mais de 10 anos, não dá pra negar que ele tem razão, pense nisso.
— É tão complicado Milo! – Suas palavras eram marcadas pelo pesar. Por muito tempo tentou evitar aquele assunto, mas sua reação era a mesma toda vez que se deparava com aquele conflito.
Não queria mais se martirizar com tantas lembranças... Relaxou o corpo, deixando-se amparar pelo loiro. Virou a cabeça e o beijou com paixão e desejo, sentindo-o apertar-se mais contra si. Por mais que os anos passassem cada beijo parecia sempre ser o primeiro.
— Chega desse assunto Mi, a gente tem coisa mais interessante pra fazer... – Mudando de posição, virou-se de frente ao amado, sentando-se em seu colo e agarrando seus fartos e ondulados fios loiros com certa força.
— Você sabe me fazer mudar de foco não é? – Forçou um contato maior entre os corpos, numa troca recíproca de carícias cada vez mais intensas.
Após muitos gritos de prazer e promessas de amor, entregaram-se ao descanso... Ou pelo menos era isso que queria que Milo pensasse... Ninou-o até percebê-lo completamente adormecido. Como o amava! Observando-o dormir como um anjo, abraçado ao travesseiro teve a total certeza de que todo seu sacrifício, todo seu sofrimento valera a pena...
Levantou-se e tomou um banho morno, aconchegante. Vestindo seu roupão branco, levou uma taça de vinho consigo até a varanda, observando as fartas luzes coloridas dançando no escuro da noite, naquela cidade que definitivamente não dormia. Ali permaneceu sem precedentes, tentando entender o porquê daquele prenuncio tempestuoso em sua vida...
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Os dias e as semanas passavam tranquilamente, tudo parecia voltar a seu lugar. Continuava com seus atendimentos e suas aulas, na mesma rotina de sempre. A solidão parecia doer menos, talvez estivesse se acostumando...
Dezembro chegara e com ele as loucuras das festas de final de ano e o famoso “espírito natalino” ao qual nunca entendeu ou vivenciou. A verdade é que não gostava dessas datas, as achava tristes e melancólicas, tinha seus motivos... Mas era de se admitir que algo realmente acontecia nessa época, já que os índices de suicídio eram absurdos. Resolveu não mais pensar nessas coisas.
Num barzinho perto da faculdade, tomando uma cerveja solitário recebeu uma ligação que de alguma maneira fez seus sentimentos revirarem.
— Alô, Mu?
— Oi Shaka, incomodo?
— Não, pode falar!
— Então, é que eu vou viajar por umas semanas e queria saber se você pode passar no apartamento de vez em quando para ver se está tudo em ordem.
— Posso sim. Mas está tudo bem?
— Está sim, o tio Shion e eu vamos ao Tibet, de férias.
— Que bom, divirta-se! Fique sossegado, manterei tudo em ordem.
— Obrigado Shaka, sabia que entenderia!
— Você merece Mu.
Saber que ele estaria viajando no período de festas fazia sua solidão se acentuar. Agora sim definitivamente sentia-se completamente isolado... Caso algo lhe acontecesse, não haveria ninguém que sentisse sua falta.
Com o telefone ainda em mãos, sentiu-se vulnerável. Selecionou um número e quase ligou, mas desistiu. Fechou os olhos e tomou um grande gole de sua bebida. Era isso que precisava no momento... Tentar esquecer...
No visor de seu celular aparecia a palavra Mãe.
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— Irmão, porque chegou tão tarde? Estava preocupado! – Olhou-o repreensivo, ou pelo menos tentou.
— Esfriando a cabeça Shun! – Largou a mochila desajeitadamente no sofá, permitindo-se descansar, também se sentando no mesmo móvel. – Pensei que ia sair com seu namoradinho hoje!
— Não, ele não pôde, teve que ficar até mais tarde no trabalho. Mas não desvie o assunto. Você se demorou demais hoje!
— Você sabe onde fui, no túmulo dela! – Sua voz era pesarosa e impaciente. Mas não conseguia esconder seus sentimentos de seu irmão.
— Ikki... – Sentou-se ao lado dele. – Porque faz isso? Você precisa superar. A vida é assim, todos nascem e morrem. Essas coisas tristes não deveriam acontecer, mas acontecem. E não podemos desacreditar da vida e amor por isso!
— Shun, você sabe o quanto sofremos... – Abraçou-se ao irmão, buscando nele seu refúgio, seu único refúgio.
— Eu sei irmão, órfãos... Separados... Vivendo em orfanatos diferentes... Você sofreu muito mais que eu, posso entender. – Seus compassivos olhos verdes o fitavam doces e ternos, tentando passar todo o amor que tinha em seu enorme coração.
— Desculpe irmão, eu não queria fazê-lo sofrer. Mas você sabe como eu sou... – Suas palavras exigiam uma paciência que não tinha, mas que se esforçava para dar a ele, somente a ele.
— Eu pensei que a terapia ia te ajudar irmão, que você poderia curar essas feridas... Como está indo?
— Ah Shun... Ele é bom, mas acho que comigo essas coisas não funcionam... Ele quer que eu fale o tempo todo...
— Mas Ikki, lá é justamente um espaço para você abrir seu coração e falar dos seus sentimentos. Só assim ele vai poder te ajudar. – Convencer o irmão a fazer qualquer coisa não era fácil, mas sabia que era o único capaz de lográ-lo. – Lembra do que o psiquiatra disse.
— Eu sei Shun, tomo os remédios direitinho e me sinto melhor, mas falar de mim... Eu não gosto disso, você sabe. – Por mais que tentasse, não conseguia exprimir suas dores e dividi-las com quem quer que fosse, nem mesmo com seu amado irmão. – Pensei em viajar de novo...
— Viajar não, sumir né Ikki. Eu não quero que se vá de novo! Você precisa parar com isso! Eu preciso de você aqui.
— Você tem seu namorado Shun, e agora só dá atenção pra ele!
— Não seja injusto irmão! Deixe de ser ciumento! Nunca deixei de lhe dar atenção, mas também tenho direito à minha própria felicidade. – Sim, o bom e velho ciúmes de Ikki, era uma de suas características mais difíceis...
— Shun eu prometo que vou tentar ficar mais tempo aqui dessa vez, mas é que...
— O que irmão?
— Nada, deixa pra lá! – Não, dizer aquilo à seu irmão talvez não fosse uma boa idéia, mas não saía de sua cabeça... Ele, seu terapeuta a lembrava tanto... Ou talvez não... Talvez fosse só sua imaginação...
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O via andar de um lado a outro falando ao telefone. Ele era sempre tão ansioso! Tentava não prestar atenção na conversa, mas somente em suas expressões. Não entendia como podia amá-lo cada vez mais, mesmo depois de tantos anos...
Pelo menos sua voz parecia suave, não se alterava. Era quase de se estranhar. Em mais alguns minutos o viu sentar-se a seu lado suspirando profundamente.
— Pronto Dohko, consegui! – Seu olhar forte e impulsivo possuía uma marca mais tranquila, paciente. Talvez algo que os anos estivessem conseguindo lhe ensinar.
— Como foi? Não maltratou muito o menino né? – Sorria compassivo como sempre, conseguindo arrancar um leve arquear de lábios do outro.
— Não, eu fiz o que prometi ao Mu. Fui gentil com o Shaka, até demais... Tenho que admitir que ele foi muito simpático e compreensivo. Nem que eu quisesse, não conseguiria ser duro com ele. – Não fora fácil fazer aquele sacrifício, mas por seu garotinho valia a pena.
— Fico feliz em ouvir isso! Eles já são bem grandinhos para resolverem a própria vida Shion. Vai ficar tudo bem! Agora você precisa se concentrar na viagem. Muito ansioso?
— Você tem razão, eles se resolverão e ele pareceu muito receptivo a tudo que ouviu. De alguma forma sei que ele... – Era nítido que Shaka estava sofrendo e confuso, sentiu-o tão vulnerável que acabou mais se apiedando que qualquer outra coisa. Sabia que aquele não era o ponto final dessa história e de alguma forma sentia-se aliviado mantendo essa crença. — Enfim, a viagem! Sim, estou ansioso, acho que ela vai ser muito importante pra mim e pro Mu. – Era inegável que seus olhos brilhavam diferente toda vez que falava do sobrinho querido.
— Vai sim! Agradeço por compreender meus motivos... Shiryu e Shunrei realmente estão precisando de mim, a situação está difícil... O Regime está quase tomando sua casa... – Os apuros que seus sobrinhos estavam passando eram muito difíceis e não conseguiria se perdoar se não fizesse o possível para tirá-los dessa situação. – Justamente agora que o menino nasceu...
— Dohko, que bobagem! É sua família, precisam de você! Seria indigno se eu sequer questionasse algo. Afinal, tivemos uma vida toda juntos, e ainda temos algum tempinho. – A maturidade trazia marcas ao rosto enquanto dissipava as da alma, isso era fato.
— Tempo muito bem aproveitado... Mais de 37 anos... Antes mesmo de o nosso Mu nascer... Éramos tão jovens e apaixonados... Foi tão duro o preconceito, a rejeição... Mas valeu a pena né meu velho! – Tantas lembranças, tantas alegrias e realizações... Cada vez se convencia mais de que a vida lhe fora muito gentil...
— Eu continuo apaixonado por esse chinês velho, que desembarcou no Brasil em busca de uma vida melhor e tudo o que fez foi conseguir iluminar a minha própria. Eu sempre vou te amar Dohko... – Aquelas palavras eram emocionadas e verdadeiras, que tinha de se segurar para não verter lágrimas contidas. – Você é minha companhia, meu refúgio, minha maior realização.
— Shion, você foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida. Meu amor, meu presente, minha felicidade! Até um filho você me deu! Eu não poderia ser mais feliz... E não importa quantos anos ainda a vida nos reserve, estaremos sempre juntos! – Deixou uma lágrima escapar, mas esta mesma logo foi tomada pelos lábios suaves e macios do outro.
— Obrigado Dohko, por fazer a minha vida ter sentido...
— Eu que te agradeço Shion, por te me mostrado que tudo valia a pena... E valeu, como valeu...
Um abraço suave, um beijo doce e intenso assim como fora o primeiro... Mas este era carregado de histórias, de verdades, de certezas... Provando que existem sentimentos tão profundo capazes de criar uma realidade cheia de ternura, companheirismo e lealdade incondicionais...
O único pesar é que seu menino não tivesse logrado o mesmo destino... Que tinha mais desafios a enfrentar e dores a superar.
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