Hora de Recomeçar
3 Carinho e Apoio
Notas iniciais
Carinho e Apoio
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Não conseguia manter a atenção necessária ao volante. O único que queria era chegar mais rápido à casa de seu sobrinho. Aquela voz trêmula lhe dizendo ao telefone “Tio, ele me deixou, simplesmente fez sua mala e se foi...”. Estava preocupado.
Seus anos a mais de experiência lhe diziam que Mu não estava nada bem. Conhecia suas reações melhor que ninguém e estranhara a atitude de Shaka, nunca imaginou que viveria para ver essa cena. Eles pareciam estar tão bem...
— Shion, olha o farol! – Quase havia ultrapassado o semáforo em vermelho e fora alertado pelo companheiro de toda a vida. – Tem certeza que não quer que eu dirija?
— Com a sua rapidez no volante Dohko, a gente chega lá amanhã. O menino não está bem, tenho medo que ele faça alguma besteira. – Paciência não era seu forte, ainda mais em um momento daquele. Porém sabia que seu chinês poderia suportar.
— Ele não é mais um menino! Tem mais de 30! E ele não é insensato, sei que ele não faria nenhuma besteira. Nós o criamos lembra-se?
— Você tem razão, temos que confiar no trabalho que fizemos. – Respirou profundamente, passando a mãe pelos fartos cabelos castanhos. Diminuiu a velocidade, recordando-se por um momento daquele fatídico dia da morte da família de seu irmão... Parou o carro na primeira oportunidade se atirou n banco, fechando os olhos e permitindo vivenciar tudo aquilo novamente.
Sempre em momentos de crise lhe vinham à tona aquelas lembranças que abria a mesma ferida, que parecia nunca cicatrizar...
O único sobrevivente foi aquele menino tímido de grandes e opacos olhos verdes, que não tinha mais ninguém no mundo além de um tio gay, que vivia distante, que não sabia como encaixar uma criança na sua vida. Não podia abandoná-lo, larga-lo em algum orfanato. Por mais que fosse distante da família, que não aceitara sua opção sexual, aquele menino era o último vínculo com sua origem.
Mais feliz Dohko não poderia ter ficado, afinal teriam uma criança alegrando seu lar. Haviam discutido sobre adoção algumas vezes, mas nada que desse muitos frutos. Aquela criança era o que faltava para serem uma família de verdade, e dedicaram-se totalmente à sua criação. O chinês o amara com se fosse um verdadeiro filho, e Shion se apegara ao garoto de uma maneira inesperada.
— Isso Shion, é assim que deve pensar! – Viu o abatimento nos olhos do outro. Sabia o quanto tudo aquilo ainda o machucava, mesmo depois de tantos anos. Respeitava o temperamento duro e difícil dele, apenas lançando lhe um olhar carinhoso, sem nada dizer.
— Eu não entendo, porque será que ele fez isso? Foi embora desse jeito... Será que ele tem outro? – Nunca fora muito próximo ao “genro”, sempre o achara frio e esquisito, sempre muito distante. Apesar disso lhe creditava algum bom senso e achava tudo aquilo muito estranho. Tinha medo em pensar o que poderia ter acontecido, ou o que ele pudesse ter feito à seu amado sobrinho. Em meio a tantos devaneios, logo sentiu sobre si o olhar terno e reprovativo de seu parceiro.
— Estamos chegando, pare de especular e se acalme. Ligue o carro e continue o caminho tranquilamente. Pare de julgar o Shaka, você sabe que ele não faria uma coisa dessas. Agora retome a sanidade e aja como o velho que você é. Sabe melhor que ninguém que é isso que precisa fazer agora. – Percebeu que sua suave bronca surtira efeito quando vivenciou a mudez do ariano, que apenas obedeceu à seus comandos. Via enquanto o amado buscava respirar com mais pausa e parecer mais sereno. Sorriu a si mesmo e logo mais estacionaram o carro e adentraram o prédio rapidamente, tocando a campainha, com certa insegurança do que iriam encontrar por lá.
— Oi tio, entra! – Seu olhar era abatido, seu rosto pálido, sua aparência era aterradora. Talvez nem em seus piores dias se apresentara assim a quem quer que fosse. Olhando para baixo, assentiu para que os dois homens entrassem. O apartamento estava da mesma maneira que há dois dias, não tinha conseguido fazer nada, sequer limpar a sujeira. O prato com restos de pão permanecia na mesinha de centro. Sentara-se ao sofá. – Oi Dohko tudo bem? Desculpa incomodá-los. Não precisavam ter vindo de tão longe. Está tudo bem! – Tentava disfarçar, pois via a preocupação estampada nos rostos à sua frente, mas por outro lado sentia o alívio de estar entre sua família.
A verdade que apesar de tudo, ainda era um menino grande, que sempre foi cercado de cuidados e zelo por todos os lados. Em toda sua vida pouco se preocupou com seu futuro, pois sempre havia alguém para tomar as rédeas.
— Mu, você não está bem! E nessas horas é que se deve contar com a família. – Seu rosto tentada externar tranquilidade e segurança, mesmo que por dentro estivesse em plena ebulição. Mas sensatez era o tipo de coisa que se aprendia com a idade, afinal esta deveria lhe servir de algo.
— Você nunca me abandonou né tio? Sou muito grato por tudo o que vocês sempre fizeram por mim... Eu sei que sempre estarão do meu lado. – Seu olhar parecia novamente o daquele menino órfão de 8 primaveras. Shion sentiu um nó em sua garganta.
— Filho, eu sempre estarei ao seu lado, seja como for! Agora me diz, o que aconteceu? – Não pode deixar de reparar que ele parecia sujo e não cheirava muito bem, provavelmente estava dias sem comer ou tomar banho. Viu o companheiro levantar-se do sofá e começar a recolher as coisas espalhadas, inclusive o prato que o loiro havia deixado.
— Essa foi a última refeição que ele fez em casa... – Lágrimas invadiram lhe o rosto de uma maneira inesperada. Aquele pranto dolorido emergia mais uma vez, estourando em intensidade. Chorava como um bebê. Após expurgar todo aquele desatino, se recompôs enquanto as lágrimas ainda lhe brotavam. – Ele disse que tinha acabado, que era melhor a gente se separar e... E que ele iria embora. Fez uma mala e foi, sem nem se despedir... – As palavras saíam convulsas entre os soluços. Sentiu-se abraçado pelo olhar amoroso do mais velho.
— Mu, vai ficar tudo bem. Vocês se desentenderam, mas não creio que durará muito. – Seu coração doía ao ouvi-lo, mas tinha que se manter forte para ajuda-lo.
— Sabe, acho que não vai ser assim. É verdade que já esfriamos há muito tempo, que a vida parecia vazia juntos... Mas foram tantos anos... – Secava as lágrimas com as costas da mão, tentando acalmar-se. – É difícil pensar em viver longe dele, é como se faltasse um pedaço de mim, um pedaço da minha vida... Como se tudo não passasse de tempo perdido...
— Não diga isso! Eu sei que você está nervoso agora, mas lembre-se que vocês foram muito felizes, e que valeu a pena sim! – Sua tentativa de ser tranquiliza-lo tinha seu efeito, mas no fundo sentia uma raiva mortal de Shaka, que precisava controlar a qualquer custo.
— Seu tio tem razão Mu, as coisas são como tem que ser. Infelizmente a gente controla pouco de nossas vidas. – O chinês havia deixado o prato de Shaka na cozinha, eliminando os restos de alimento e o lavou. Aquele tipo de lembrança não era necessária naquele momento. Voltou até a sala, juntando-se à conversa.
— E o mundo dá tantas voltas, que nunca sabemos que surpresas nos aguardam pelo caminho.
— Eu realmente não sei o que faria sem vocês!
— Mu, a vida tem que continuar, e você é forte. Não há dor que o tempo não apague. – Suas palavras carregavam a sabedoria dos anos que marcavam seu rosto. Tinha medo de faltar a seu menino, que para ele nunca crescera em verdade. Nesse momento sentiu um leve ataque de tosse acomete-lo.
— Tio, o senhor tá bem? O que o senhor tem? – Seu olhar era ansioso, afinal, nunca o havia visto doente.
— Não é nada! – Disfarçava aquele incômodo que vinha lhe acompanhando por um tempo, mas era orgulhoso em demasia para contar a quem quer que fosse.
— Já faz algum tempo que ele tem esses ataques, o médico disse que era uma pré-pneumonia.
— Tem que se cuidar tio!
— Estou me cuidando Mu, você acha mesmo que ele me deixa relaxar no tratamento? – Apontou ao chinês que mostrava sua soberania natural em qualquer situação. Esse lhe fitou com ternura, mostrando o quanto já estava acostumado com aquele jeito peculiar do outro.
— Mu, vou te fazer uma proposta. Porque você não passa uns dias lá em casa? Terei que viajar a trabalho, assim você faz companhia ao seu tio, fica de olho nele e eu fico mais tranquilo! – A proposta era boa e vinha bem a calhar para todos. Sentiu seu parceiro o olhar agradecido por aquilo.
— O que o senhor acha tio?
— Ficaria muito feliz de viesse conosco!
— Ok, acho que vai ser bom mesmo! – levantou-se para ir ao quarto arrumar suas coisas. Seu tio se adiantou, e pediu que o mesmo parasse.
— Não tio, eu quero fazer isso sozinho! Eu quero entrar lá sozinho! – Essa tarefa não foi fácil. Lágrimas rolaram ao observar cada canto daquele lugar que guardava tantas lembranças, tantas emoções. Nos últimos dois dias havia apenas cochilado no sofá em raros momentos que conseguia relaxar um pouco. Porém com a visita de seu tio, sentiu-se mais fortalecido para realizar aquela tarefa e sabia que era importante encarar tudo aquilo o mais rápido possível, então deixou o pranto rolar enquanto pegou tudo o que precisava. Remexeu em tudo o necessário. Ao passar pela sala, viu o porta-retratos com a foto do casal, fitou-o com toda a força que tinha, e deitou-o virado para baixo na estante. Não queria mais ver nada daquilo, precisava seguir em frente de um jeito ou de outro.
Foram duas semanas repletas de conversas, nostalgia, risadas e confidências. Relembrou seus tempos de infância e adolescência e sentiu-se seguro, amparado. Havia decido voltar pra casa, continuar sua vida. Dohko já retornara de sua viagem e a saúde de seu tio estava estabilizada. Tinha que começar a colocar as coisas em ordem.
Apesar de ainda sentir falta do companheiro, já conseguira compreender a situação. Tinha acabado. Sua vida entrava em nova fase agora e muito havia refletido sobre isso. Precisava rever seus planos e traçar novas metas.
Seu tio o encorajara a correr atrás de seus sonhos, já há tanto esquecidos. Dizia o quanto ainda era jovem e poderia realizar o que quisesse. Afirmara o quanto acreditava em seu talento e em sua inteligência e que mais que nunca aquele era o momento crucial para expandir-se.
Não pôde deixar de pensar que ele havia sido um tanto exagerado, mas o amor que sentia dele, já era confortador e animador o suficiente. Percebera o quanto havia sido ingrato com seu tio, saindo de casa quase fugido aos 20 anos pra viver com o namorado. Ficara um tempo sem falar com ele, porque ele tentava dissuadi-lo que eles eram muito jovens para assumir algo tão sério, uma vida juntos.
Lembrava-se da maneira ríspida como o havia tratado quando decidiu cuidar da própria vida. Mais de um ano sem se falarem, até que com a mediação de Shaka e Dohko, voltaram a se entender. Hoje a maturidade lhe fazia entender os motivos do tio, a admira-lo cada vez mais e perceber que no fim, o companheiro se foi e o tio ficou... E sabia que sempre ficaria... Que ele sempre estaria a seu lado... Sentia-se grato por ter uma família.
Já havia lhe pedido perdão por tudo, mas sabia que o que ele realmente queria era que reagisse, que buscasse viver sua vida e realizar algo, por mais distante ou impossível que parecesse. Por ele, seu tio tão amado, tentaria faze-lo.
Decidiu que a primeira coisa era colocar a casa de seu jeito e para tanto Shaka precisava buscar suas coisas. Pensou que talvez fosse melhor embalar tudo e só chama-lo a buscar. E foi que fez! Pegou algumas caixas de papelão na lavanderia e levou-as ao quarto, começando pelos livros...
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