Hopeless
8 Recaída
Notas iniciais
Desculpem :x
Thalia juntou o resto das forças que lhe restavam e atravessou a rua correndo entrando no beco onde Luke estaria. Antes de vê-lo, ela o ouviu:
— Thalia?
O mundo pareceu rodar e a garota sentiu-se cair, Luke segurou-a antes que esta pudesse atingir o chão.
— Você esta bem?, o que aconteceu?
— Luke… Luke, você precisa… me dar.
Logo em seguida começou a tossir de modo sufocado, o loiro, prevendo o que vinha a seguir trocou-a de posição em seus braços de modo que o vomito seco e mal-cheiroso caísse na calçada e não a asfixiasse.
Thalia começou a chorar e a soluçar.
— Tudo bem, tudo bem, é só uma crise de abstinência. Vai passar.
Os soluços continuaram, Luke acomodou-a em seus braços e acariciou seus cabelos repicados.
— Vai passar… — sussurrou — vai passar…
...
Annabeth encarou o teto, acompanhando as linhas desiguais da pintura desgastada, tendo plena consciência de Percy deitado ao seu lado na cama, segurando sua mão e desenhando pequenos círculos na palma. O toque era delicado, assim como o beijo anterior, não aprofundado, apenas um encostar de lábios duradouro. Percy apanhara sua mão, erguera-a e entrelaçara os dedos com os seus, pressionando a testa contra a sua, as bochechas coradas e um sorriso no rosto.
Annabeth se virou de modo que ficasse de frente para o garoto, que já a observava, um sorriso se desenhou em seu rosto que foi logo acompanhado pelo outro. Ela tinha, ao mesmo tempo, nenhum e todos os motivos para sorrir.
O momento era perfeito, o cheiro de maresia dominava seus sentidos, o toque delicado de suas mãos, a corrente elétrica entre os dois…
Annabeth suspirou, fechando os olhos pesados.
— Durma — sussurrou ele
— Você vai estar aqui quando eu acordar?
O outro suspirou. E aninhou-a com os braços.
— Estarei sempre com você. Exceto essa noite. — ele riu suavemente — Minha mãe precisa de mim.
A garota fez biquinho, ele riu e a beijou, de verdade dessa vez.
— Boa noite — sussurrou.
Annabeth adormeceu em meio a eletricidade e maresia.
...
Ao acordar Annabeth percebeu que o outro lado da cama estava frio demais. De repente ela se sentiu incompleta. Se sentou lentamente, soprando uma mecha de cabelo loiro de seu rosto, frustrada, teria sido um sonho? É claro que não, o cheiro de maresia ainda pairava no quarto.
Annabeth inspirou profundamente e se levantou, se preparando para mais um longo dia. Fez sua higiene matinal, vestiu um suéter, e fez o café da manhã do pai tentando ignorar os roncos, depois comeu seu próprio café da manhã reduzido e saiu.
Percy estava lá fora, encostado no carro com um sorriso no rosto, a loira sorriu e corou, o garoto a puxou para perto de si e beijou seus lábios, depois, sorrindo bobamente, entrou no carro.
— Então… como foi sua manhã? — perguntou Percy.
— Incompleta — murmurou Annabeth — e a sua?
— Incompleta, — ele sorriu dirigindo mais devagar que dirigia usualmente — mas minha mãe realmente precisava de mim, cheguei e ela estava dormindo na mesa de jantar com um prato intocado a frente, o dia anterior era de plantão.
— Ah! Sua mãe é medica.
— Sim — ele sorriu — não é nenhuma nutricionista, mas foi ela que me disse como tratar sua bulimia.
Annabeth deu um sorriso fraco, ela não estava totalmente curada, sabia disso, a verdade é que se sentia inchada, lotada.
Percy estacionou na sua vaga de sempre, e calmamente desceu do carro, Annabeth o acompanhou. O garoto a esperou perto do carro e entrelaçou seus dedos ao dela.
— Pronta? — ele respirou fundo.
— Não — admitiu ela — mas vamos de qualquer jeito.
A verdade era que Annabeth havia passado metade da manhã pensando nisso. Qual seria a reação de todos ao vê-los juntos? Sobretudo a reação de Rachel Sanguinária? Infelizmente, era hora de descobrir.
O casal caminhou lentamente em direção a entrada, já recebendo olhares estranhos das pessoas, principalmente para Annabeth, os alunos sussurravam, apontavam e cravavam os olhos em seu suéter. Ninguém estava surpreso. Ninguém questionou.
Quando adentraram na escola o coração de Annabeth falhou uma batida. Estavam em todos os lugares. Espalhadas nos armários, nas paredes, no quadro de avisos, no chão… centenas delas.
Soltou a mão de Percy, sentindo as lágrimas encherem os olhos, e ela se obrigou a não chorar. Não. Ela não ia ser fraca.
Ela se virou para o garoto, que olhava em volta assustado.
— Mostre-se ao mundo. Certo? — ela disse entre os dentes, repetindo as palavras de Percy na noite passada — você conseguiu. Conseguiu!
Annabeth virou as costas e saiu andando em passos duros antes que Percy pudesse dizer qualquer coisa.
Atordoado, o moreno estava prestes à ir atrás dela quando seus olhos encontraram a cabeleira ruiva familiar. Rachel. Ela segurava a foto que estava espalhada em todos os lugares, a foto de Percy e Annabeth se beijando na praia, com todos os hematomas da loira expostos.
Ninguém ali sabia a verdade sobre a origem dos hematomas, todos apenas achavam —como Rachel— que Annabeth era algum tipo de marginal, ninguém entenderia, e a garota odiava se sentir exposta.
Percy caminhou lentamente em direção a ruiva, que sorriu vitoriosa.
— Então? Como vai o namoro com a marginal? Já foram presos?
O moreno se segurou para não acertar Rachel, sua respiração foi ficando mais pesada.
— Você não entende, não é? — disse ele entre os dentes, lívido — hoje à noite, você vai visitá-la e vai pedir desculpas.
— Ou o que? — disse ela sorrindo
— Ou eu conto aos seus pais o que você faz quando não esta em casa.
Rachel empalideceu e deixou a foto cair no chão.
— V-voce não faria isso.
— Ah! Eu faria, um colégio interno faria bem pra você. — ele virou as costas, indo se juntar a Thalia, que observava em silencio, com uma das fotos na mão.
...
Annabeth vomitou tudo, ela não acreditava que estava muito acima do peso, mas precisava extravasar sua raiva, tirar todo aquele peso de cima dela. Percy a enganara, ele fora tão bom com ela… teria sido tudo fruto de uma aposta? Para arruinar sua vida mais do que já estava arruinada?
Ela se sentou no chão do banheiro e chorou. Chorou por Percy, chorou por sua mãe e por seu pai, chorou por sua vida, chorou por Thalia, chorou por sua doença, chorou pela dor, chorou por estar chorando e permaneceu chorando, parando e chorar e chorando de novo por um tempo que lhe pareceu incrivelmente longo,
...
Rachel tocou a campanhia e respirou fundo, engolindo seu orgulho. A porta se abriu a sua frente e Annabeth surgiu, a surpresa estampada em seu rosto. A ruiva quase se sentiu culpada ao constatar os olhos vermelhos e inchados de tanto chorar.
— O que você está fazendo aqui? — sussurrou a loira olhando por cima do ombro.
— Olha, nós precisamos conversar — Rachel abaixou os olhos, fitando o chão.
Annabeth suspirou pesadamente:
— Não é uma boa hora.
Rachel ergueu o rosto, se obrigando a encarar aqueles olhos cansados e intimidadores. Ela se encolheu, queria acabar logo com isso.
— Sim, é uma boa hora.
Annabeth a encarou.
— Use a escada de incêndio até a janela do meu quarto, é a primeira à esquerda. — ela continuava a sussurrar. Rachel assentiu, sem entender o que Annabeth estava escondendo, porque sussurrava e porque ela não podia entrar pela porta da frente.
...
Annabeth fechou a porta e disse ao pai que fora engano, voltando ao seu quarto e deixando-o resmungando.
A loira se sentou na cama com as pernas cruzadas, esperando que Rachel desistisse e fosse embora, mas um minuto depois ela estava entrando em seu quarto pela janela, se mantendo perto da mesma.
— Olhe, não vá me atacar, certo?
Revirou os olhos, todos achavam que ela era uma delinquente agora, ou algo assim.
Rachel inspirou com força.
— Eu queria pedir desculpas.
Annabeth ergueu as sobrancelhas surpresa. Desculpas?
— Pelo que?
— Pelas fotos.
A loira não ficou surpresa dessa vez.
— Então você foi a cúmplice do Jackson e tirou as fotos! Aliás, ele pediu para você vir pedir desculpas?
— O que? Não! Cúmplice? O Perseu gosta de você. Eu não sei por que, já que você não tem nenhum atrativo e… — Annabeth cruzou os braços — tudo bem, por algum motivo não aparente, ele gosta de você, não vai durar muito tempo porque ele logo vai perceber que eu sou o melhor para ele, maaaaas, sim, ele me obrigou a pedir desculpas pra você, e eu também acho que peguei pesado, então… me desculpa?
Annabeth sorriu. Percy não a enganara, Rachel fora uma idiota (novidade) e armou para expô-la. Ela não perdoava, é claro, principalmente por que milhões de conseqüências viriam a seguir, mas queria a ruiva o mais longe possível dela:
— Tudo bem, agora você já pode ir.
Rachel fez biquinho, meio aliviada, meio ofendida, e estava prestes a sair quando a porta do quarto se escancarou.
Annabeth arregalou os olhos, pegou a garota pelo braço e empurrou-a para dentro do banheiro, congelando-se em seguida ao ver Frederick andar rapidamente em sua direção e a empurrar contra a parede. Seu rosto estava vermelho de raiva.
— Você. Não. Comprou. A. Minha. Cerveja? — ele falou pausadamente do jeito de sempre, como um retardado.
Annabeth engoliu em seco, estivera tão mergulhada na própria dor que esquecera que a cerveja do pai acabara, e que isso iria causar mais dor ainda.
— E-eu esqueci. — gaguejou.
— ESQUECEU FOI? — ele a pegou pelo braço e jogou-a contra a parede de novo, fazendo a dor explodir em suas costas — AGORA EU VOU FICAR SEM MINHA CERVEJA POR QUE VOCÊ ESQUECEU?
Annabeth tentou desesperadamente fugir, mas o pai a pegou pela gola da camisa e a jogou no chão. A loira machucou varias partes do corpo ao cair e derrubar alguns móveis e livros.
Fechou os olhos cheios de lagrimas, erguendo os braços e protegendo o rosto dos chutes que veriam a seguir. Sua ultima visão foi de Rachel escondida no banheiro. As mãos sobre a boca, os olhos arregalados e lacrimejantes.
O primeiro chute acertou a boca do estomago, fazendo-a tossir e sua cabeça girar, de modo que ela mal registrou o outro chute no quadril. Ela estava se preparando para o próximo quando, de repente, ouve um barulho oco de alguém sendo atingido, mas a dor do chute não veio. Annabeth abriu os olhos a tempo de registrar Percy entrando pela janela atrás dela e acertando um cruzado de direita em Frederick.
O agressor recuou, as mãos no rosto, Percy avançou, passando por Annabeth e acertando um soco no estomago de seu pai. A loira não poderia permitir, quando Frederick se recuperasse do choque iria machucar o moreno, machucar muito.
Com muito esforço ela conseguiu se levantar e deu um passo em direção aos dois, mas braços finos envolveram sua cintura, puxando-a para trás. Rachel.
Annabeth gritou, tentando se desvencilhar, mas a outra continuou segurando-a e sustentando seu corpo mole para mantê-la fora do combate, que naquele momento se desenrolava horrivelmente. Percy era rápido e Frederick lento, de modo que o moreno continuava batendo e seu pai apanhando. Então, quando Frederick jazia no chão, desacordado, os olhos verdes do garoto encontraram os seus, selvagens.
Percy cambaleou e caiu logo em seguida. Perdendo a consciência.
Rachel a soltou e Annabeth tropeçou para frente, caindo no chão e tossindo. A ruiva correu em direção ao moreno e começou a gritar para ele acordar, Annabeth queria desesperadamente ir até lá, mas não conseguia se mover, talvez um dos chutes tivesse causado uma hemorragia interna, um osso quebrado.
Rachel pegou um celular e ligou para a ambulância enquanto fazia massagem no peito de Percy, os olhos da ruiva encontraram Annabeth e se arregalaram ao perceber que ela estava prestes a perder a consciência também. As últimas palavras que a loira entendeu foram:
“O coração parou”
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