Hooked on a Feeling
2 Fooled around and fell in love
Notas iniciais
A garota no bar sentada ao lado de Peter Quill era bonita. Um tom de pele alaranjado, cabelos negros e um belo corpo. Só havia um problema: Ela não era uma certa alienígena verde, muito mais atraente e exótica e também a última de sua espécie. E, apesar de sua nova companhia chegar a ser até mesmo agradável e divertida, não tinha a menor chance nos méritos afetivos que a outra dominava com maestria.
De todas as mulheres da galáxia, tinha de ser “a mulher mais mortal da galáxia”? Claro que sim. Afinal ele era o Senhor das Estrelas, o lendário fora da lei convertido a herói. Não poderia ser qualquer garota. Só que... Gamora? Sério? Ele nunca teria uma chance real e sabia que era ridículo, patético por ousar sentir o que estava sentindo por ela. Além do título de “mulher mais mortal da galáxia”, havia uma grande possibilidade de que fosse também a “mulher que mais o achava um grande idiota da galáxia”. E esse não era um título exatamente pouco disputado.
Sua maior vontade naquele momento, enquanto bebia mais daquela coisa quente horrível que diziam ser o drink mais pedido da casa e tentava não fazer careta para a mulher laranja, era que Gamora estivesse ali como sua companhia. Mas isso parecia mais difícil do que segurar a joia do infinito.
Ele simplesmente não conseguia entender como suas cantadas terráqueas e seu charme de ex-fora-da-lei-e-recente-herói pareciam funcionar com qualquer uma, menos com ela. Já havia pensado que esse era o real motivo de sempre se pegar pensando na ex assassina, o motivo era que ela fazia jogo duro e revirava os olhos a cada uma de suas tentativas. Por um tempo Peter achou que todo seu interesse na mulher era parte natural do querer-o-que-não-se-pode-ter. Porém, aquilo era tão inconfundível quanto atípico. Se fosse apenas isso, ele já teria superado com algum de seus casos de uma noite só. O que estava acontecendo era que desde que Peter conheceu Gamora e passou a conviver com a outra guardiã, ele não se interessava mais pelo estilo de vida que costumava ter sendo um mulherengo. Ainda poderia tentar. Peter se sentiu o maior canalha do universo por pensar daquele jeito, mas parecia a forma mais fácil de pelo menos ignorar o problema por hora. Chamou a garota laranja para dançar.
O som da boate era torturante. Peter colocou sutilmente os headphones de volta sob as orelhas. Enquanto uma de suas mãos tocavam a cintura da moça, os dedos da outra procuraram o walkman preso a sua calça e ele colocou a música para tocar. “Fooled around and fell in love”, a mesma música que tinha feito Gamora ouvir em Luganenhum, quando ele quase a beijou e ela quase o matou em resposta. Por vezes quando estava sem sono, vagando pela Milano ou só olhando para o teto no escuro do quarto, ele costumava colocar a música e reviver o momento fresco em sua memória apesar de já terem se passado muitos meses desde então. Peter imaginava como seria se tivesse conseguido avançar. Ele estava tão perto, a faca no pescoço havia sido definitivamente uma surpresa.
O que aconteceu a seguir foi como uma daquelas cenas de filme que te causam muito impacto. O refrão rodava pela segunda vez, apesar da movimentação a seu redor, Peter não ouvia nada além da melodia. Uma silhueta conhecida surgiu na entrada do bar, uma silhueta que logo veio a luz. Ela sempre usava roupas pretas, mas ela própria tinha um brilho que jamais a fazia se perder em qualquer lugar. Não era difícil chamar atenção no meio daqueles fracassados. Alguns ousavam olhar com interesse, outros se encolhiam de medo.
Gamora parou entre ele e a outra garota, apoiando a mão no quadril. Peter fitou seus lábios se movendo. A mulher rolou os olhos e abaixou seus headphones.
— Peter, por onde andou?
Ele levantou as duas sobrancelhas. Voltou a se aproximar do balcão. Esquecendo-se do conteúdo horrível de seu copo, terminou de esvazia-lo num só gole.
— Ahn, eu? Só me divertindo, Gamora.
A encarada que veio a seguir o fez largar o copo e baixar as sobrancelhas na hora.
— Onde estão Drax e Rocky?
— Os dois saíram pra procurar o cara da bateria e eu disse que esperava aqui. Bom, o Rocky saiu pra procurar o cara da bateria. Não tenho certeza sobre o Drax.
Gamora suspirou. Ela era a responsável por manter todos eles na linha, afinal.
Peter percebeu a rápida olhada de soslaio que ela deu para a garota que lhe fazia companhia. Todo o corpo da alienígena verde estava voltado na direção de Peter. A acompanhante estava parada no mesmo lugar em que ele a abandonara, fora de sua atmosfera de alcance. Excluída. Claramente incomodada, a alienígena laranja pigarreou alto.
— Ah... E essa é a minha nova amiga.
Peter não se lembraria o nome dela nem em um milhão de anos.
Sem tirar a mão do quadril, a guardiã se virou para a outra mulher com um olhar que só uma assassina cruel e impiedosa pode dar. Peter sentiu pena da garota, ela não sabia o que fazer e claramente tinha se arrependido por ter tido a ideia de chamar a atenção. O olhar de Gamora não mudou quando voltou a fitar Peter.
— Preciso de alguém na Milano. Agora.
Dizendo isso, a guardiã segurou o braço de Quill, puxando-o pela jaqueta.
— Me liga! — A alienígena laranja gritou para suas costas. Ele não ousaria olhar.
Gamora parecia muito... Muito... Espera...
— Por que precisa de alguém com você na Milano? O que aconteceu?
Ela balançou a cabeça em negação.
— Nada. Era só pra tirar você daquele lugar.
— ... Por que?
Sem resposta. Ela soltou seu braço e continuou a andar sozinha.
— Qual é o problema? Ainda não é um crime beber e conversar com garotas bonitas, ou é?
A verdade era: Peter estava amando a ideia de que Gamora estava com ciúme dele. Era inacreditável mas parecia ser o que estava acontecendo. O Senhor das Estrelas ficou ainda mais esperançoso com a próxima fala da ex assassina. Virando-se para olhá-lo com um fogo nos olhos que só podia ser muita raiva mesmo, ela disparou:
— É melhor que não ligue para aquela garota.
Peter sorriu para si mesmo quando ela tornou a lhe dar as costas. Precisou apressar o passo para tentar ler qualquer coisa na expressão de Gamora quando ele finalmente perguntou:
— Isso é real? Você ta mesmo com ciúme... De mim?
Algo na expressão da outra guardiã se transformou. Difícil dizer o que era exatamente debaixo da luz fraca por onde os dois caminhavam, entre o campo de trigo onde a Milano havia despencado. Quill só sabia dizer que havia mexido com ela de alguma maneira e aquilo o agitava por dentro, fazendo-o se sentir como uma criança.
— De maneira alguma. Só estou evitando que você traga problemas para todos nós.
— Uhum... — Peter engoliu em seco diante do olhar mortal que recebeu após aquele som sarcástico. — Você exagerou um pouquinho. Assustou a pobre garota...
— Quill, eu não estou com paciência de sobra no estoque. Se você continuar falando, eu posso ou não posso quebrar o seu braço em três lugares diferentes.
Não precisava ameaçar duas vezes. Ei! Ela estava usando a expressão dele. Ser ameaçado com sua própria expressão era humilhante de verdade, e Quill concluiu que quando se tem uma garota como Gamora enciumada é e sempre será um grande risco a sua segurança física. Mas sinceramente ele não dava a mínima. Porque, bem... Se ela estava sentindo ciúme, significava que se importava com ele, pelo menos um pouquinho. E o Senhor das Estrelas sabia aproveitar oportunidades, mesmo as pequenas. Ora, é claro que ele sabia. Havia trapaceado Ronan e o derrotado com um suposto duelo de dança.
Seguiram pelo resto do caminho em silêncio. Não havia sinal de Rocky e Drax. Peter foi checar a cabine de Rocky, onde o bebê Groot dormia como um anjinho.
Quill se dirigiu para a sala comum que ficava no centro da nave. Gamora estava sentada no sofá, de costas para ele. Seu sorriso confiante se desmanchou quando a mulher ergueu sua adaga na altura do rosto, o reflexo de seus olhos na lâmina como um espelho encontrando o ex saqueador.
Gamora abaixou a arma, voltando a guardá-la. Peter pensou em desistir, passando reto e fingindo que estava indo na verdade para a sala de comandos. Mas ele acabou dando meia volta num giro repentino e caiu no sofá ao lado da outra guardiã. A mulher não moveu um músculo. Ela olhava para as próprias mãos, pousadas em seu colo. Parecia pensativa.
— Então...
A guardiã balançou a cabeça sutilmente, deixando seus pensamentos para trás. Arqueou uma das sobrancelhas enquanto fitava Quill, esperando que ele continuasse.
Ele não fazia ideia de como continuar.
— ... Então... Então... Enfim... Sós.
— O que você quer, Peter?
— Podemos voltar pra aquela conversa? Sobre o seu ciúme?
O Senhor das Estrelas estava brincando com fogo, mas ele precisava aproveitar a ocasião, ainda que acabasse com algumas fraturas.
Quando pensava que ela não poderia parecer mais assustadora, a filha adotiva de Thanos lançava um olhar mais penetrante do que qualquer um anterior, algo capaz de gelar os ossos.
— Pensei ter deixado claro que eu não sinto ciúme. E para o seu próprio bem é melhor parar de insistir nessa ideia. — Caramba! Até ameaçadora a alienígena permanecia linda.
— É difícil acreditar — Peter continuou, ignorando a ameaça. — Qualquer um que visse aquela cena iria achar o mesmo que eu.
— Por que eu sentiria algo tão sem sentindo como o ciúme... Por... Você? — Ela franziu o cenho, desviando os olhos para o vazio além do amigo. A pergunta parecia estar sendo direcionada a ela mesma.
Se Peter já estava feliz antes com aquela pequena possibilidade de ter despertado algo em Gamora, agora ele lutava para manter o sorriso pequeno no rosto. Sentia vontade de dar pulinhos de alegria.
— Talvez você goste de mim... — Peter sugeriu, erguendo uma sobrancelha. Gamora riu ironicamente e estava abrindo a boca para dizer algo, quando ele concluiu: — Do mesmo jeito que eu gosto de você.
Ela desistiu de falar. Os dois se encararam em silencio e apesar de ter dito aquilo em voz alta, Quill estava estranhamente confortável com a situação. Isso até Gamora desviar os olhos nervosamente. E aquela coisa em sua expressão mudara novamente, como da primeira vez que ele sugeriu que ela estava com ciúme. Ela o achava um idiota? Ela estava com pena dele? Wow, a possibilidade de levar um fora era assustadora. Ele deveria ter ficado de boca fechada.
Mantinha o olhar fixo no rosto de Gamora, tentando identificar o que estava diferente. Sob a luz da Milano, dava para notar o tom de verde mais escuro em suas bochechas. Parecia que estava... Corando? Espera! Peter Quill fizera Gamora, a assassina impiedosa corar? E por que ele se sentia mais desconfortável do que feliz? Talvez aquele rubor não significasse exatamente algo bom.
— Peter — Ela começou a falar. — Eu não...
Ele estava esperando o pior quando a voz estridente e áspera do pequeno amigo felpudo chamou no rádio. De alguma forma, Peter ficou grato por Rocket ter impedido Gamora de terminar a frase e provavelmente quebrar seu coração.
Que droga... Desde quando uma garota quebrava seu coração? Ficava pior a cada segundo.
— Gamora... Quill... Groot?! — Era claro que ele estava com problemas. — Algum dos idiotas ta aí?!
Peter soltou um suspiro impaciente e se dirigiu até a cabine de controle.
— Fala Rocky.
— É me-lhor vocês a-parece-rem a-qui. Rá-pido — Várias falhas no comunicador indicavam que Rocky não estava num lugar muito bom para começar. Além do barulho de tiros que explodiam do outro lado. — RÁPIDO!
Rocky desligou, havia colocado seu rastreador para funcionar. Gamora já estava de pé próxima a porta que rangeu a seu comando. Peter estava na rampa ao lado dela, quando decidiu que era melhor buscar algo em uma das cabines-dormitório. Em seguida, deixou a Milano para trás e correu para alcançar a amiga.
Fale com o autor