Hooked on a Feeling
3 Safe and back to Milano
Notas iniciais
Dava para ouvir o barulho da luta de longe. O lugar até onde o rastreador de Rocky os levou era uma espécie de casa gigantesca toda feita de pedra, que para Peter lembrava um castelo. Logo que os dois guardiões correram para dentro, encontram um corpo flácido e inerte no meio do caminho. Gamora abaixou e rolou o homem que estava de bruços. Ele era um nativo daquele planeta, como dava para notar por sua pele alaranjada.
Uma explosão em algum lugar ao longe fez Peter se encolher e logo ele estava gritando e pulando de susto quando o homem morto de repente se debateu.
— O que está acontecendo aqui? — Gamora questionou.
O homem a olhou atordoado.
— O animal e a… A mulher! — Ofegou. — A mulher libertou todos eles! Detenham-na!
Peter estalou a língua e balançou a cabeça, aquilo era inútil e Rocky estava precisando de ajuda naquele momento. Ele continuou a andar, parou quando percebeu que a amiga não se mexeu.
— Que mulher? — Gamora estava genuinamente curiosa, Peter notou.
— A mulher… A mulher..
— Gamora, isso importa? O Rocky precisa…
— Como ela é? Descreva! — A alienígena gritou, de repente furiosa.
— Ouvi falar sobre ela — Disse o homem com certo esforço. — É a filha de Thanos. A de olhos negros.
Uma onda de choque percorreu com rapidez a expressão outrora raivosa e dura de Gamora. Ela largou o homem e avançou, passando por Peter.
— Nebulosa. O que ela quer?
— O que ela ta fazendo aqui?!
Eles correram e dobraram mais alguns corredores. O lugar era totalmente bizarro, com tralhas espalhadas por todos os lados. Lembrava o covil do Colecionador, só que mais modesto e se era possível, mais estranho.
— Até que enfim! — Era a voz de Rocky.
Peter se jogou para o lado quando um vulto avançou em sua direção. Ele sacou a arma, atirando várias vezes na direção da… Serpente gigante. Era uma criatura que parecia ter saído direto de um dos seus pesadelos de quando tinha oito anos. Nunca havia visto uma coisa tão assustadora e para ele custava muito dizer aquilo. Quando o monstro com o qual lutava caiu ao chão, ele mirou alguns tiros na direção de outro parecido que atacava Gamora. Logo, outro monstro parecido com um lagarto gigante, sem olhos e com uma boca enorme composta por várias camadas de dentes afiados o estava atacando.
— Rocky! O que diabos são essas coisas?
— Só demônios de outra dimensão que a irmãzinha da Gamora libertou — Rocky estava no topo de uma escadaria, atirando sem parar nas criaturas que passavam por um tipo de espelho que só se conseguia notar se prestasse muita atenção. Gamora estava refletida, saltando e esfaqueando qualquer monstro que entrasse em seu caminho.
Um lagarto mutante pulou para fora, e bang, Rocky o deteve. Mas outros dois conseguiram escapar da sua mira e desceram para o encontro de Peter e Gamora.
— Olha pessoal, eu tô ficando sem munição então se vocês puderem me cobrir pra tentar fechar essa coisa…
— Nebulosa! — Gritou Gamora, sem parar sua luta. — Onde ela está?
— Do outro lado do portal. Não dentro, na outra sala. Ela abriu depois que passou e o Drax conseguiu ir atrás dela.
Num de seus pulos super humanos, a alienígena estava no topo da escada. Diferente de Rocky, nada escapava da espada de Gamora.
— Anda!
— Ta legal gente… Eu me viro sozinho — Peter murmurou ao se ver encurralado pelos "demônios".
Ele continuou atirando e desviando dos ataques enquanto ouvia os cortes da espada de Gamora ao longe.
— E se essas coisas chegarem na cidade?
— Quando eu fechar o portal, todos eles vão ser sugados de volta pra sua maldita dimensão.
Algumas criaturas escapavam, outras continuaram na sala, mas Peter havia conseguido deter todas elas a certa altura. Exceto um pequeno bichinho de uns cinco centímetros que chamou a atenção do meio terráqueo pelo canto de seus olhos. O animal era uma bolinha de pelos marrom.
Peter se inclinou, apoiando as mãos nos joelhos para observar de perto a coisinha fofa. Piscou os olhos e se viu arremessado na parede no outro instante. Um barulho de vidro quebrado distinto chamou sua atenção. Era um vaso se quebrando.
— Groot… — Murmurou meio tonto.
A "criaturinha" havia se transformado numa gigantesca aranha, que estava prendendo Peter na parede com o que parecia um esguicho de teia. Cada vez mais apertado. Ele não conseguia respirar direito, e estava ficando tonto. Olhou para cima quando ouviu Rocky gritar:
— Ajuda o Quill! Eu tô quase acabando com a festa dessas coisas feias!
— Não! Preciso chegar até a Nebulosa!
Peter sugou o ar pela última vez e percebeu que não poderia fazer aquilo de novo. O seu olhar suplicante encontrou o de Gamora, e ela o olhou de volta. Mas não foi da alienígena verde que Peter conseguiu ajuda. De repente, a aranha mutante que o atacara foi envolvida por vinhas, muitas vinhas que se enrolavam no corpo do monstro e o prendiam, o impediam de continuar a sufocar Peter. Ele viu seu salvador, era Groot, que parecia estar de pé em duas pernas. Peter até daria um sorriso se conseguisse. Ele estava ficando inconsciente pela falta de ar.
Rocky conseguiu fechar o portal, e como ele dissera que aconteceria, todas as criaturas foram sugadas para dentro novamente. Com sua visão periférica, o Senhor das estrelas podia ver o vulto que parecia um redemoinho de monstros sendo lançados para sua dimensão novamente.
— Gamora! Não terminei aqui! Ajuda o Quill!
O espelho não estava mais lá. O corredor tinha livre acesso e Gamora tinha dado um passo em sua direção quando ouviu Rocky. Seu olhar se cruzou com o de Peter. Esse, por sua vez, lhe suplicava em silêncio por ajuda.
A última coisa que Peter viu, foi o brilho da espada de Gamora cortando a espessa camada de teia que lhe prendia a parede.
Quando recobrou a consciência novamente, o Senhor das estrelas sentia que havia dormido fazia anos, mas foram só algumas horas. Quill percebeu estar numa Milano em movimento. Ótimas notícias.
Mesmo acordado Peter não abriu os olhos. Porque havia algo acontecendo. Alguém segurava sua mão cuidadosamente, usando o polegar para afagar as costas da mesma. Ele sabia ser Gamora. Não era uma mão áspera e grosseira como a de Drax, nem felpuda e pequena como a de Rocky, e muito menos os raminhos do recém ambulante Baby Groot. Era a mão macia e delicada da ex assassina. Era uma verdadeira controvérsia que uma mão tão suave e delicada tivesse sido usada tantas vezes para infligir dor e até matar.
Peter abriu os olhos lentamente e finalmente, mas Gamora não percebeu. Seus olhos estavam fitando a mão de Quill, sua expressão carregava um pensamento profundo.
Todavia os olhos de Gamora subiram para o rosto de Peter numa fração de segundos quando a alienígena percebeu que estava sendo observada, e Quill teve a inútil reação de fechar novamente seus olhos, fingindo ainda estar dormindo.
— Peter, sei que está acordado.
Mais uma vez, perdeu o jogo. Os olhos azuis do homem se abriram, fitando os densos e escuros olhos da alienígena. Ele suspirou. Ele não queria que aquilo acabasse. Ele...
Quill precisou inclinar o pescoço de leve, para certificar-se de que aquilo não era coisa de sua cabeça. Mesmo depois de acordado, Gamora não havia soltado sua mão. Ela continuava a segurá-la gentilmente e o afago com o polegar também continuava.
— Você está bem? — A mulher quis saber. — Rocky conseguiu reparar a nave.
— Não foi nada. Eu tô legal.
Ele lhe deu um sorriso calmo e confiante, mas Gamora desviou os olhos. Havia algo além em sua expressão. Algo errado.
— Por que você queria tanto alcançar a sua irmã? Saudade da família?
A tentativa de piada fora frustrada. Gamora não alterou sua expressão. Ela deixou um leve suspiro escapar pelos lábios verdes e em seguida disse:
— Eu coloquei a sua vida em perigo. Eu sinto muito.
— Gamora... Você salvou a minha vida. E não é a primeira vez que isso acontece. Eu tô bem, não tô?
Os olhos de Gamora voltaram a fitar o rosto de Quill. Finalmente, um sorriso.
— Está.
Foi então que Peter ousou fechar seus dedos em volta da mão de Gamora, dando um aperto leve enquanto fazia. Ele soube que a princípio a hesitação e a ideia de recuar foi a primeira coisa em que a mulher pensou, mas por algum milagre isso não aconteceu. Ao invés disso, Gamora também fechou os dedos em torno da mão de Peter.
— Já te contei sobre como minha mãe morreu...
— Sim. Ela estava doente.
— É, ela morreu por causa da doença... Mas não te contei como foi.
— Peter, não precisa lembrar...
— É importante pra mim.
Gamora o fitou nos olhos. Abriu a boca, mas desistiu do protesto. O silencio não durou muito tempo.
— Eu tinha oito anos, estava sentado na sala de espera com o Walkman e meu avô me avisou que ela queria me ver. Mas eu era um garoto egoísta. Minha mãe era linda, Gamora — Um sorriso genuíno se desenhou nos lábios de Peter, apesar de seus olhos marejarem. — Nem a Alyssa Milano, não chegava nem perto. A minha mãe, Meredith Quill, era a mulher mais bonita e elétrica e... Eu não queria vê-la naquele estado, definhando numa cama e falando coisas que eu achava serem sem sentido.
Ouve uma pausa. Ele respirou fundo.
— Ela me pediu pra segurar a mão dela. “Peter, pegue a minha mão”, ela pediu... Mas eu não segurei porque eu sabia que era uma despedida. E aí ela morreu. E o fato de eu ter me negado a segurar a mão dela... Sempre me destruiu e me assombrou e eu nunca me perdoei — Ele olhou fundo nos olhos de Gamora. — Até o dia da batalha de Xandar. Você me pediu pra segurar a sua mão, Gamora. Você podia morrer comigo, mas você se arriscou por mim. Eu vi a minha mãe representada em você, me salvando, me perdoando e me dando uma nova chance.
Durante todo o tempo em que Peter falava, Gamora era incapaz de esconder o afeto nos olhos e a expressão de compaixão.
— E a culpa desapareceu. Eu tive coragem de abrir o presente que ela me entregou naquele dia. Pensei que nunca teria coragem. Então, Gamora... Obrigado por ter segurado a minha mão.
Gamora inclinou de leve a cabeça para o lado, com um sorriso no canto dos lábios.
— Peter... Você fez tanto por mim. Não me agradeça. Nós estamos unidos nessa corrente e ela não vai quebra.
— Gostei da metáfora... — Peter falou com riso na voz.
— Vocês estão presos? Aonde? Posso resolver isso. É uma bobagem, não existe corrente inquebrável.
A voz de Drax assustou a ambos. Mais a Peter, é claro.
— Drax, o que está fazendo com isso?
Só depois da fala de Gamora, Peter percebeu uma pequena caixa que Drax carregava nas mãos.
— O que é isso?
— Uma coisa que eu peguei da irmã de Gamora — Ele caminhou para perto do leito de Quill, e entregou-lhe a caixa. — Isso sim é inquebrável.
— Tentou abrir quebrando?! — Exclamou Gamora.
— Se eu não consegui, nenhum de vocês vai conseguir.
Peter analisou a caixa, percebendo algo curioso.
— E aí Quill, o que é isso? — Rocky apareceu do nada, pulando nos pés da cama.
Ele sabia o porquê da pergunta. O símbolo de um sol que havia estampado nas armas de Quill estava estampado também no centro dos seis lados da caixa.
— Eu não tenho ideia.
— Bom, existe uma razão para a Nebulosa querer tanto essa coisa.
Peter deu mais uma boa olhada no objeto, se sentindo realmente intrigado. Tinha a sensação de que aquilo lhe pertencia. Mas afinal, que coisa era aquela? O que tinha dentro?
Ele olhou Gamora.
— Nós vamos descobrir.
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