Honra de Cavaleiro
4 Capítulo III
Notas iniciais
Bianca piscou algumas vezes. Foi incapaz de dizer alguma coisa. Gael levantou-se e passou a caminhar pela sala, enquanto organizava seus pensamentos.
– Foi difícil para mim, um homem, criar duas meninas sozinho – começou ele – houve momentos em que achei que não iria conseguir. Mas vi as duas, minhas pequenas crianças, virarem moças absurdamente lindas.
Bianca sorriu com o comentário.
– Dandara me ajudou muito com vocês duas quando aceitou tornar-se senhora dessa casa – continuou Gael, olhando através de uma janela – foi de certa forma a mãe que não tiveram. Enquanto for possível, vou proteger vocês duas de tudo e dar até mais do que vocês precisam. Mas não vou viver para sempre... e preciso garantir que vocês estejam bem quando eu não mais estiver. Por isso, decidi que é hora das duas se casarem.
– Mas não entendo papai – começou Bianca, engasgando nas próprias palavras – já suspeitava que o senhor fosse conversar comigo sobre casamento em breve, por causa de minha idade, mas Karina acaba de completar 18 anos...
– Mas você, ao contrário de sua irmã, tem juízo – respondeu Gael, voltando a se sentar – jamais me deu problemas. Karina é uma boa menina, mas não possui juízo. Ela me preocupa.
Bianca estava em choque. Seria impossível seu pai saber do que havia acontecido naquele dia, pois não se passaram nem vinte minutos. Além disso, sabia com toda certeza, que se seu pai desconfiasse do que Karina tinha aprontado, essa hora a irmã já estava sendo castigada pelo cinto do pai, mais uma vez. Mas era inegável que Karina dava muito trabalho ao pai: não obedecia, aventurava-se sozinha por lugares perigosos e se recusava a se comportar como uma mulher crescida.
– Está querendo se livrar dela, papai? – respondeu Bianca, sem conseguir se controlar – quer jogá-la nos braços de um homem para ele frear seu comportamento?
– Não use essas palavras, Bianca – retrucou Gael, repreendendo a filha – amo sua irmã e apenas penso em seu futuro. Tenho medo de quanto mais deixarmos o tempo passar, mais tornará difícil casá-la devido ao seu gênio. Beleza torna-se dispensável se ela um homem imaginar que pode controlá-la.
– Ela não quer se casar, papai – respondeu Bianca – nem agora... nem nunca.
Gael riu com gosto.
– Isso não é ela que decide, minha filha. Todas as moças precisam se casar e constituir uma família. É a ordem natural das coisas.
– E o que senhor está planejando? – perguntou Bianca – já está procurando por pretendentes?
Bianca não conseguia evitar sentir-se feliz. Seu maior desejo era casar-se com o príncipe dos seus sonhos. Ela imaginava alguém lindo, trabalhador, que quisesse uma família grande e a amasse mais que tudo. Para Bianca não importavam riquezas ou jóias caras, mas sim o amor verdadeiro.
– Na verdade, sim – respondeu o pai, sorrindo para a filha mais velha – sempre pensei em alguns rapazes dignos de receber as mãos de minhas lindas filhas. Conversei com Dandara há alguns dias atrás e ela me alertou sobre a necessidade de apresenta-las a sociedade de Marchella. Quase não saímos daqui, costumamos festejar com nossos amigos das ruas próximas. Vocês precisam conhecer mais pessoas.
– Então não será filho de algum amigo seu?
– Pode ser que sim, pode ser que não – respondeu Gael – hoje recebemos um convite que será a oportunidade de apresentar todos vocês ao restante de Marchella.
Gael sorriu mais uma vez. Abriu uma das gavetas e estendeu um pedaço de pergaminho para a filha mais velha. Bianca o pegou nas mãos e logo reconheceu o brasão da família real no topo da página. Olhou assustada para o pai.
– Leia – ordenou ele.
E assim Bianca fez:
“Excelentíssimo Senhor Duarte e família;
É com imensa honra que o Rei e Rainha de Marchella convidam o senhor e sua família para o Baile Real.
No próximo sábado, dia 12 de agosto, os portões da Residência Real serão abertos a todos para um dia de comemorações, danças e bebida.
Os governantes de Marchella comemoram o aniversário de 21 anos do príncipe Carlos Eduardo e esperam que o Baile o ajude a encontrar sua futura princesa.
Além disso, o Reino comemora a chegada à Marchella do filho primogênito de Lorde César Vandergelt, Ricardo.
Esperamos com entusiasmo suas presenças"
Os olhos de Bianca brilhavam. Sonhava todos os dias com a oportunidade de poder entrar no grande castelo do Rei Lionel. Era como um daqueles contos de fadas que Dandara lhe contava quando pequena.
– Todos da Vila foram convidados, já verifiquei – comentou Gael – Dandara e eu chegamos a conclusão que este Baile será uma excelente oportunidade para as pessoas a conhecer melhor. Poderá ser cortejada pelos rapazes presentes no Baile e escolheremos para você aquele que eu e sua madrasta acharmos mais apropriado aos nossos princípios. Será excelente, pois haverá no dia rapazes do Reino e da Vila.
– Eu e Karina, certo? – perguntou Bianca, estranhando o fato do pai referir-se apenas a ela.
Gael suspirou e aproximou-se mais da filha.
– Na verdade, Karina já está prometida – contou Gael, vendo a filha arregalar os olhos – pense um pouco e saberá de quem falo. Ele corteja sua irmã com muita frequência, mesmo que ela não perceba suas intenções.
É claro que Bianca sabia.
– Delaveiga? Arthur Delaveiga? – arriscou a moça, recebendo um aceno de cabeça positivo do pai – sempre soube que ele se interessava por ela além da amizade, mas como assim ela já está prometida a ele?
– Arthur me procurou há alguns dias atrás. Ele sabe que está chegando a hora de Karina se casar. Confessou seus sentimentos, disse que a ama mais que a própria vida. E de fato, eu sou velho, mas não tolo. Sempre soube que o jovem Arthur era apaixonado pela sua irmã – Gael suspirou antes de continuar – o pai dele, grande amigo e parceiro de negócios, me procurou junto com o filho. Eles me convenceram de entregar a mão de sua irmã para ele. A família é excelente, trabalhadora, humilde, temente a Deus e ao Rei, com uma boa situação financeira. Arthur é um excelente garoto, dedicado, obediente, honesto. É uma honra para nós um cavaleiro do Rei ter se interessado pela nossa Karina.
– E quando ela irá se casar? – perguntou Bianca, tentando se acalmar. Ela tinha medo da reação da irmã.
– Não é assim, filha – comentou Gael, rindo do desespero da filha – Arthur teve pressa em garantir a mão dela, pois sabe que aparecerão muitos pretendentes para sua irmã. Mas não queremos assustá-la. Todos sabemos que Karina recusa-se a crescer. Obviamente, você deverá se casar primeiro. Arranjaremos um noivo, faremos a cerimonia e depois pensaremos no noivado de Karina.
Bianca sorriu para o pai. Sabia que Karina não aceitaria se casar e provavelmente aprontaria algo para tentar impedir. O único medo de Bianca era que a irmã fosse obrigada a se casar com alguém desprezível. Mas Arthur era excelente, pois além de ser lindo e um bom rapaz, era louco pela irmã.
Mais cedo ou mais tarde, Karina aceitaria. Não havia escolha.
Longe dali, Arthur cavalgava em direção ao Forte de Marchella. Desceu do animal logo na entrada e ofereceu suas rédeas a um rapaz que cuidava dos cavalos dos cavaleiros.
– Rodolfo chegou antes de você – comentou Alan, seu velho amigo, assim que Arthur entrou no Forte – foi direto para a sala do supervisor do nosso batalhão. Ficaram uns vinte minutos conversando e ele saiu, sorrindo vitorioso.
– E eu com isso? – retrucou Arthur, encarando o amigo com seus profundos olhos castanhos – todos sabem que eles são amigos. Não haverá punição para aquele ato desprezível.
– Ele quer te ver na sala dele – sussurrou Alan, antes de se afastar.
Arthur respirou fundo e pensou na possibilidade de ignorar o chamado. Mas sabia que seria pior. Era melhor enfrentar o que fosse preciso agora. Caminhou cansado até a sala do supervisor, sabendo que ele a culparia, pois estava ali no meio de tantos homens por livre e espontânea vontade. Casos parecidos como aquele sempre aconteciam dentro do Forte. Mulheres e meninas sedentas por sexo procuravam os cavaleiros com frequência, sabendo que não seriam negadas e o mais importante, sabendo que nada do que aconteceria sairia dali. Elas entravam no Forte fingindo alguma coisa e logo se jogavam nos braços fortes dos homens.
Arthur mesmo já havia se aventurado com várias dessas mulheres. Elas o procuravam e ele simplesmente as satisfazia e se dava prazer, assim como todos os outros.
No final, todos sabiam que não havia nada demais nisso. Elas procuravam.
Mas eles não entendiam as intenções de Karina e se algo chegasse a acontecer com ela, não haveria culpados, não haveria punições.
E agora, mais do que nunca, era seu dever protege-la.
Foi preciso apenas uma batida na porta para ele ouvir a voz grave de Pedro liberando sua entrada. Fechou a porta com cuidado e sentou-se de frente para ele, notando seu olhar debochado. Pedro levantou as pernas, as apoiou na mesa e usou a mão direita para apoiar seu queixo. Seu comportamento era do mais puro tédio.
– Boa tarde, Delaveiga – cumprimentou Pedro, com uma falsa educação – por que tão tenso?
– Boa tarde, Ramos – respondeu Arthur – já sei o motivo pelo qual me chamou. Vamos direto ao assunto.
Pedro riu sem humor e continuou a encará-lo.
Arthur era um excelente cavaleiro. Muito disciplinado, forte e corajoso. Mas a mania insuportável de tentar desafiá-lo a todo custo o irritava. Arthur vinha de uma linhagem completa de cavaleiros. O pai aposentou-se da profissão cedo depois de uma lesão na coluna e precisou abandonar o cargo, dedicando-se hoje ao ramos dos tecidos. Mas enquanto servia o rei, foi um dos melhores, assim como o restante de suas gerações.
Pedro era apenas três anos mais velho do que Delaveiga e Arthur com frequência questionava o motivo de Ramos ter assumido a frente daquele batalhão. Era ele quem cresceu ao redor dos cavaleiros, era ele quem desde pequeno já sabia sobre todos os princípios.
Pedro chegou bem depois. Mas Pedro era o melhor.
– Vou ser muito breve, pois como supervisor deste batalhão, possuo assuntos muito mais relevantes para resolver – começou Pedro – quem é a moça?
– Chama-se Karina Duarte. O pai é um fabricante de tecidos da Vila. Não possui títulos nobres, mas a família possui excelente condição financeira. Karina é sua filha mais nova. Foi criada junto com a irmã mais velha apenas pelo pai, pois a mãe morreu em seu parto.
Pedro apenas acenou com a cabeça.
– E por que ela insiste em ultrapassar nossos muros e se insinuar para os cavaleiros?
O sangue de Arthur ferveu e com muito custo ele conseguiu não se exaltar.
– Não sei o que Rodolfo e os outros lhe contaram – respondeu Arthur – mas ela não é assim. Karina é fascinada por histórias de guerra, admira as lutas. Seu defeito é a curiosidade. Seu único proposito é assistir os treinamentos e não se insinuar para os homens.
– Mas concorda que uma moça decente não deveria vagar sozinha pelo Forte, não concorda Delaveiga? – perguntou Pedro, encarando o cavaleiro – por mais inocentes que sejam suas intenções, ela não poderá reclamar quando um dos homens conseguir finalmente pegá-la. Ela entra aqui porque quer.
Pedro encarava Arthur com curiosidade. Pelo que Rodolfo havia dito, ele provavelmente tinha sentimentos pela garota. Afinal, sempre a defendia e nunca deixara que nenhum dos cavaleiros se aproveitasse dela.
– Rodolfo me disse que a tal moça é magnífica. Concorda, Arhur? – indagou Pedro, atento as reações do outro.
– Karina é uma das mulheres mais lindas que Marchella já conheceu – respondeu Arthur, pensativo – eu não sou nem capaz de explicar como ela é.
Pedro segurou o riso diante da feição maravilhada de Arthur. Resolveu provocar.
– Se é tão linda assim, seria um desperdício não deixar os homens aproveitarem...
– Ela é minha futura noiva – respondeu Arthur elevando a voz, visivelmente irritado pelo comentário – ninguém vai tocar sequer um dedo em seu corpo.
Houve um estrépito quando Pedro empurrou a mesa com os pés com força. Levantou-se depressa e contornou o móvel, abaixando o tronco para ficar na altura do rosto de Arthur, que continuava sentado, mas visivelmente assustado pela reação do supervisor.
– Está apaixonado pela moça rebelde? – indagou Pedro. Arthur desviou o olhar – responda, estou ordenando!
– Devo-lhe obediência quanto aos assuntos de guerra e de proteção do reino, Ramos. Meus sentimentos não lhe dizem respeito – retrucou Arthur, com firmeza.
Pedro soltou uma risada debochada, mas logo voltou a ficar extremamente sério.
– Você gostaria de ter sua linda noivinha intacta e pura para sua noite de núpcias? – sussurrou Pedro.
Arthur permaneceu em silêncio, sentindo suas mãos formigarem. Sua vontade era acertar o rosto de Ramos.
– É claro que gostaria – continuou Pedro – vejo que não consegue controlar o temperamento de sua futura noiva, Delaveiga. Se ela te desobedece agora, não te obedecerá quando for sua mulher.
– Já te disse que isso não lhe diz respeito! – esbravejou Arthur, perdendo a paciência.
Arthur levantou-se e resolveu por um fim naquela discussão. Tentaria conversar com Karina novamente e caso não conseguisse lhe convencer a ficar longe do Forte, continuaria a fazer o que sempre fez: impedir que qualquer cavaleiro a tocasse.
Mas antes que pudesse abrir a porta e sair da sala, Pedro o puxo com violência pelo braço e jogou seu corpo de encontro a uma parede. A mão direita de Pedro foi com agilidade para o pescoço do rapaz, prendendo-o com firmeza ali.
– NÃO SE ATREVA A ME DAR AS COSTAS – gritou Pedro – a partir do momento que sua amiga atrapalha meu batalhão a ponto de tirar a concentração dos cavaleiros e causar intriga entre nós, passa a ser meu problema.
Arthur tentou escapar das mãos de Pedro, em vão.
– Escute bem o meu aviso, Delaveiga – continuou Pedro, com firmeza – se eu souber que a tal Karina Duarte continua a vagar pelo Forte, eu pessoalmente tomarei uma providencia. Eu a pego antes que ela possa sequer gritar por socorro e eu te juro que devolvo sua noiva sem o precioso hímen.
Os olhos de Arthur arregalaram-se. Com um impulso, conseguiu livrar-se de Pedro. Massageou o pescoço dolorido e encarou o supervisor com ódio.
– Você é contra estupro, Ramos – disse Arthur, com a voz fraca – não faria isso com ela.
– Acontece que se minhas suspeitas a cerca do caráter da moça estiverem corretas, não precisará ter estupro – respondeu Pedro, com um sorriso debochado – está dispensado. E avisado.
Pedro saiu de sua sala antes de Arthur. Caminhou rapidamente pelos corredores de pedra, bufando de ódio. Odiava quando as coisas saiam de seu controle. Não era a primeira reclamação que recebia acerca da tal moça. Arthur tinha razão, ele era completamente contra abuso. Se a moça tivesse parado no Forte por acaso uma única vez, ele culparia os cavaleiros por seu comportamento medíocre. Mas essa não era a realidade. Karina Duarte continuava a frequentar o lugar com muita frequência, mesmo após os ataques dos cavaleiros contra ela. Ou ela era tão segura de si a ponto de não possui medo algum do que poderia acontecer ou fazia-se de inocente, mas queria insinuar-se para os homens.
Isso era um pequeno problema que acabou tornando-se grande e estava começando a incomodá-lo. Não importava o motivo, providencias deveriam ser tomadas para por um fim na confusão. E ele mesmo se encarregaria disso. Se a moça se atrevesse a aparecer por ali novamente, ele mesmo trataria de fazê-la entender de uma vez por todas que não tinha permissão para estar ali. E se por acaso descobrisse que suas intenções não eram inocentes, ele aproveitaria. Afinal de contas, estava curioso para saber se a moça era tão linda assim.
Virou em corredor mais iluminado e encontrou um de seus guardas parado em frente a uma das grandes janelas do Forte.
– Benjamin – chamou Pedro, vendo o guarda se aproximar logo em seguida – conhece a tal Karina Duarte? Uma moça que tem dado problemas para os guardas e para os cavaleiros por invadir o Forte com frequência?
– Sim, senhor – respondeu o homem.
– Quero que reforce a guarda. É lamentável uma pirralha conseguir ultrapassar uma barreira de guardas do Rei.
– A moça é esperta, senhor – defendeu-se o guarda – e pequena. Não tem medo de cair ou se sujar como as outras moças. Ela se esgueira pelos fundos e por passagens estreitas. Quando nos damos conta, ela já está correndo pelos corredores.
– Não me interessa, reforce – retrucou Pedro, impaciente – e se por acaso ela conseguir entrar aqui novamente, quero ser avisado imediatamente. Não a deixem escapar como todas as vezes. Fechem toda a fortaleza e a prendam aqui até eu chegar.
– Certamente, senhor.
Pedro agradeceu ao homem e continuou a caminhar pelos corredores.
Que os céus protejam Karina Duarte e lhe deem juízo, pensava Pedro.
Porque ele, não teria piedade.
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