Honra de Cavaleiro
5 Capítulo IV
Notas iniciais
O sol continuava forte e brilhante no céu de Marchella.
Karina estava em posição de ataque. Com um braço nas costas e o outro erguendo com segurança e maestria um graveto. Mas para ela, aquilo era uma espada.
Uma espada igual a dos cavaleiros.
Todas as vezes que Karina treinava sozinha nos isolados pastos da Vila, ela sentia-se feliz e realizada. Enquanto dava golpes no ar e fingia defender-se de outros imaginados por ela, Karina tentava colocar em prática tudo que via dentro do Forte.
Seu pai disse-lhe uma vez que mulheres não deveriam lutar. Pura besteira, pensava ela.
Mesmo achando estranho seus gostos, Gael levava a filha com muita frequência ao Forte quando ela era criança. Conversava com alguns supervisores e conseguia fazer com que a menina tivesse alguns minutos observando os treinamento dos homens do Rei. Seus olhos azuis brilhavam de alegria.
A rotina fora mantida até os 12 anos de Karina. Após essa data, o pai simplesmente disse-lhe que a partir dessa idade as pessoas poderiam entender errado suas idas até lá. Karina questionou Bianca, que respondeu que a irmã poderia “ficar falada” ou pior, não conseguir um marido por causa disso.
E esse era um dos motivos que faziam com que Karina odiasse a ideia de casar-se: se seu futuro marido fosse proibi-la de fazer o que gosta ou não gostar de vê-la feliz, qual era o sentido de casar-se?
Karina odiava ter crescido. Além de ouvir com frequência tudo que uma moça decente e de família deveria fazer, ela tinha que lidar com sangue escorrendo pelas pernas e seios que insistiam em crescer cada vez mais.
Ali, sozinha nos pastos, ela podia ser ela mesma. Podia inventar gritos de guerra e dar cambalhotas fingindo estar em um campo de batalha. Podia dar seus golpes e afrouxar a roupa. Podia suar e arrancar dos cabelos aquelas malditas tiaras.
Quando sentiu-se exausta, Karina observou o céu. Pela posição do sol, logo anoiteceria. Jogou o graveto para longe, ajeitou a tiara de qualquer jeito, apertou o vestido como pode e começou a correr de volta para casa o mais rápido que conseguia.
Logo na entrada de sua casa, Dandara observava a Vila com impaciência. Quando avistou Karina, suada e aproximando-se sem graça, Dandara riu.
– Olha para você, meu amor – comentou a madrasta, puxando a menina pela mão para dentro de casa – se sua irmã te ver assim, ela te dará uns cascudos.
– Então entrarei na banheira antes que ela me veja – respondeu Karina, divertindo-se com a situação.
– Faça isso – respondeu a mulher, entregando-lhe uma toalha e o sabão — quando sair e se trocar, venha até meu quarto. Bianca já está lá com Mari, Sol, Barbara e Fabi.
Karina estranhou. Normalmente as meninas encontravam-se nos dias de semana apenas nas aulas com o Professor Gastão e nas lições de bordado. Raramente elas vinham em sua casa.
– É um dia especial – disse Dandara, vendo a expressão confusa de Karina.
A menina não contestou. Tratou de lavar-se, pentear os cabelos e se arrumar. Assim que olhou no espelho e deu-se por satisfeita o suficiente para evitar os comentários desagradáveis de Bianca acerca de sua aparência, ela encaminhou-se até o quarto.
As risadas das garotas eram altas e animadas. Espiando pelo vão da porta entreaberta, Karina viu as amigas rodando em frente ao espelho. Experimentavam jóias e mexiam nos cabelos, testando penteados.
Que diabos era aquilo?
– Karina! –exclamou Sol, ao ver a loira entrando no quarto – venha se divertir com a gente!
– O que está acontecendo? – perguntou Karina, curiosa.
Bianca fez menção de explicar, mas Dandara adiantou-se, sabendo que Karina poderia assustar-se com a ideia de um Baile no castelo. Precisavam tomar cuidado com as palavras.
– Meu amor – começou a madrasta, puxando a menina pelas mãos – essa semana todos nós da Vila recebemos um convite. O Rei Lionel e a Rainha Eva irão comemorar o aniversário do príncipe Carlos Eduardo dia 12 em um Baile Real. Todos nós fomos convidados. Não é ótimo?
Karina piscou algumas vezes, tentando entender por que aquilo poderia ser motivo de tanto alvoroço.
– Sempre fico feliz quando o Rei demonstra interesse nos moradores de sua Vila – respondeu a menina – mas não entendo porque vocês estão tão animadas.
– Não é óbvio, Karina? – respondeu Bianca, sorrindo de orelha a orelha – essa é a nossa oportunidade de conhecer todos os rapazes da Vila... e do Reino! Do Reino K!
– Mal posso esperar para ser cortejada por um Lorde – suspirou Sol, olhando esperançosa para o espelho – todos os rapazes juntos em um mesmo lugar. Que não me julguem quando eu aceitar várias danças!
Sol e Mari riram batendo as mãos. Para Karina, aquilo era muita informação.
– No convite diz que o príncipe Carlos Eduardo está procurando uma noiva. Claro que o príncipe é um pouco inalcançável para nós, humildes moradoras da Vila – continuou Sol, visivelmente decepcionada por este fato – ele deve casar-se com alguma filha de um duque ou lorde.
– Plebeias não casam-se com príncipes – completou Bianca, também triste por isso – mas isso é o de menos, meninas. Teremos neste Baile diversos rapazes lindos e elegantes. É nossa melhor oportunidade de arranjarmos um excelente noivo.
Um baque surdo anunciou que Dandara havia fechado a porta. Como se apenas isso não bastasse, a mulher colocou-se em frente a ela, sabendo que Karina poderia tentar fugir.
Karina respirou fundo e tentou manter a calma.
– Eu posso... não ir? – sugeriu ela.
Todas ficaram no mais repleto silencio e a encararam de olhos arregalados.
– Por que, K? – sussurrou Barbara, como se a loira tivesse dito algo desprezível – será tão divertido.
– Não quero me casar – respondeu Karina. Bianca revirou os olhos – não quero ir a este Baile para arranjar um noivo, Bianca!
– Não há necessidade disso. Se não quer arranjar um noivo no Baile, ninguém te obrigará – disse Dandara, acariciando os ombros de Karina com carinho – mas você irá, meu amor. Por favor, não conteste isso.
– Por favor, K. Vamos, por mim.
Karina assustou-se ao ouvir a voz de Fabi. Ela encontrava-se sentada na cama, encolhida. Não havia falado desde que Karina entrara no quarto. Agora, ela se dirigia para amiga e segurava suas mãos. Karina sentiu-se mal ao ver que a menina parecia profundamente triste com algo.
– Não arranjarei um noivo no Baile, pois não sou formosa – disse Fabi, olhando para os próprios pés com mágoa – as meninas irão dançar e ser elogiadas a noite toda. Não há duvidas que milhares de rapazes irão se derreter a seus pés, mas pelo menos você ignorará a todos e poderá me fazer companhia.
– Fabi, não fale assim de você mesma – exclamou Mari – você é linda.
– E ficará mais ainda depois que formos as compras – completou Bianca – K, depois de amanhã iremos visitar algumas lojas da Vila. Precisamos de vestidos, sapatos, tiaras e maquiagens novas. Papai dará dinheiro para a Dandara e ela e a mãe de Fabi irão nos acompanhar.
Karina sentia vontade de gritar de desespero. Além do Baile, teria que passar uma manhã tediosa atrás de vestes, acompanhando as amigas escandalosas. E ela sentia vontade de fingir-se de morta ao lembrar-se que Bianca insistiria em arrumá-la como uma boneca no dia.
Pensou em negar tudo, mas Fabi a olhava com os olhos marejados. Karina achava a amiga linda e uma das melhores pessoas do mundo. Se fosse um homem, escolheria ela para desposar. Mas o fato de estar acima do peso a incomodava muito e aparentemente, afastava os homens. Todos tolos e cegos, pensava Karina.
Deu-se por vencida e aceitou comparecer ao Baile, recebendo um olhar agradecido de Fabi e gritinhos histéricos da irmã, madrasta e amigas.
A manhã de segunda-feira chegou a Marcelha mais rápido do que Karina queria. Passou o domingo todo ouvindo Bianca tagarelar sobre o Baile e vendo o pai e a madrasta ensinando-as a dançar valsa no tapete da sala.
Tudo perda de tempo, pensava Karina. Ela preferia ir ao pasto duelar com sua sombra.
Após o café, todos se encontraram em frente a casa de Mari, que era mais perto das lojas. Caminhavam animadas, apontando para vitrines e dando risadinhas toda vez que alguma rapaz sorria para elas. Karina ia atrás com Fabi, alheia a tudo.
Dandara e Olga, mãe de Fabi, anunciariam que antes de começar a procura pelas coisas do Baile, precisavam ir a uma loja de condimentos. As meninas concordaram, mas optaram por esperar pelas senhoras do lado de fora da loja. Conversavam distraídas sobre as aulas de bordado quando um grupo de rapazes chamaram sua atenção.
Os cavaleiros estavam por ali hoje.
Bianca imediatamente posicionou-se ao lado da irmã, segurando a mão de Karina com força.
– Não os encare – sussurrou Bianca – fique perto de mim.
Eram cinco cavaleiros. Karina sentiu o coração acelerar ao reconhecer o rapaz que a perseguiu no outro dia. Havia mais dois que ela conhecia apenas de vista devido a suas visitas pelo Forte. Arthur estava ali também, com um cavaleiro que ela aparentemente nunca havia visto. Ele estava de costas para ela, impedindo que a garota tentasse reconhece-lo. Ele era mais alto que os outros e usava um uniforme diferente.
Barbara também reparou neste detalhe.
– Não acredito – sussurrou ela, juntando todas em uma roda – aquele deve ser Pedro Ramos.
– O supervisor? – exclamou Fabi aumentando a voz, recebendo pedidos de silêncio – desculpem por isso. Mas jamais o veem caminhando pelas ruas da Vila. Meu tio disse que ele raramente sai do Forte e apenas frequenta o castelo e cidades vizinhas.
O tio de Fabi era um dos cozinheiros prediletos do Rei. Devido ao cargo, sabia quais pessoas frequentavam o lugar.
– Nem sabemos que aparência tem – comentou Bianca – parece bonito.
–Bonito deve ser mesmo, pois meu tio diz que várias moças são apaixonadas por ele – continou Fabi, feliz por estar fofocando – vocês acreditam que a filha mais nova de César Vandergelt interessou-se por ele?
– Jade? A intocável e desprovida de sentimento Jade? – comentou Bianca, impressionada – estamos falando da mesma Jade, Fabi?
– A mesma. Jade Vandergelt. A que recusou o maravilhoso príncipe de Versalles, apaixonada por um cavaleiro. E mesmo Jade tendo sua posição social e sua fortuna e sendo extremamente linda, Ramos não quis desposá-la.
Mari levou as mãos a boca, impressionada. Todos por ali conheciam Jade. Ela era uma Vandergelt, uma das famílias mais ricas e respeitadas de Marchella. Além disso, todos comentavam sobre sua beleza estonteante. Todas as meninas e mulheres da Vila não gostavam dela. Comentavam que ela era metida, arrogante e maldosa.
Karina achava que muitas das que diziam isso, na verdade possuíam inveja. Não conseguia ver tantos defeitos nela. Para Karina, ela parecia constantemente triste, apesar de ser linda e rica.
Interromperam a conversa quando viram Arthur se aproximar, caminhando com as mãos nas costas. O rapaz cumprimentou as meninas educadamente e se aproximou de Karina com um sorriso ainda maior.
– Bom dia, linda – disse Arthur. Ele tirou as mãos das costas e revelou uma flor cor de rosa, que ofereceu a Karina – a cor dela me lembra o tom que suas bochechas assumem quando eu digo que é linda.
Karina tinha a absoluta certeza que ficara corada com o comentário. Arthur riu e a menina observou suas amigas sussurrarem entre si e tentarem controlar as gargalhadas.
– Obrigada – agradeceu Karina, sem graça – não precisava se incomodar, Arthur.
O rapaz riu mais uma vez.
– Gosto de te agradar. Compras para o baile? – comentou ele, vendo as meninas admirando as vitrines.
– Sim – suspirou – não tenho paciência para visitar tantas lojas e experimentar vestidos.
– Tem sorte de não precisar se arrumar para ficar linda. Gostaria de ficar conversando com você, mas hoje temos companhia – comentou Arthur, apontando com a cabeça para o cavaleiro de uniforme diferente – Pedro insistiu em visitar a Vila. Quis comprar novos sapatos. Desisto de tentar entende-lo, se quer saber. Bom, foi um prazer vê-la. Alegrou o meu dia.
Karina sorriu. Arthur beijou-lhe a mão com delicadeza e se despediu das demais. Quando estava longe o suficiente, as meninas refizeram a roda.
– Karina! Por isso não quer se casar! Está sendo cortejada pelo Arthur Delaveiga – comentou Sol.
– Estou feliz por você, amiga – completou Mari – ele é lindo e um excelente rapaz. É possível ver de longe que ele é apaixonado por você.
Karina revirou os olhos, cansada de explicar para todos que entre ela e Arthur havia apenas uma linda e inocente amizade.
– Não digam besteiras – disse ela, irritada – eu e Arthur nos consideramos irmãos. Ele me trata bem, é apenas isso. Se acham ele um bom rapaz, deveriam investir nele. Ficaria feliz de ver uma de vez sendo a esposa dele.
Bianca lançou as meninas um olhar de quem dizia que não adiantava discutir com a irmã. Mesmo desconfiadas, logo trataram de engatar um outro assunto. Karina distraiu-se mais uma vez enquanto elas conversavam sobre as cores dos vestidos.
Enquanto observava os mercadores, sentiu um olhar queimar-lhe a pele. Virando-se, viu com pavor que o cavaleiro que a havia assustado nos campos de trigo a encarava. De novo aquele olhar que Karina odiava. Olhar de quem queria fazer alguma coisa com ela. Ele pareceu notar seu nervosismo, pois sorriu com malicia para ela.
Karina agradeceu aos céus quando Dandara e Olga saíram da loja de condimentos, permitindo que as garotas andassem alguns metros procurando por outras lojas. Karina olhou para trás e o cavaleiro continuava a encará-la.
– Fique tranquila – sussurrou Bianca em seu ouvido. A menina assustou-se ao perceber que a irmã também vira o cavaleiro olhando-a – Arthur está aqui e jamais deixará que ele se aproxime. Além disso, há muitas pessoas por perto. Ele tem uma reputação de homem de honra para zelar.
Karina tentou se acalmar e se distrair. Para isso, acabou cedendo a empolgação das amigas. Pelas horas seguintes, divertiu-se vendo todas experimentarem vestidos e desfilarem em frente aos espelhos das lojas.
Quando todas finalmente estavam com algumas opções nas mãos, Dandara insistiu que era a vez de Karina escolher o seu. Bianca animou-se com a ideia e passou a caminhar pela loja, escolhendo os mais bonitos. Karina respirava fundo ao experimentar cada um deles. Todas as vezes que saia do provador, as meninas e Dandara suspiravam e teciam-lhe milhares de elogios.
– Não tem graça, Karina – reclamou Sol, depois do quinto vestido – você fica deslumbrante em qualquer um que veste.
– Mas eu guardei o melhor para o final – respondeu Bianca, empurrando a irmã de volta ao provador – é agora, K!
Karina vestiu-se com dificuldade. Quando conseguiu enfim fechar o vestido, saiu com receio. A reação de todas foi mais empolgante que de todas as outras vezes. Batiam palmas.
– É esse, Karina – comentou Dandara animada, levando-a para se olhar em um espelho – não há dúvidas.
Ao se olhar no espelho, Karina se surpreendeu. Não se achava grande coisa e jamais entendeu porque todos insistiam em elogiar sua beleza. Para ela, era uma menina normal, como todas as outras amigas. Mas ali, vendo-se no espelho com um lindo vestido azul celeste, gostou do que viu. O tecido era fino, muito elegante e a cor contrastava com seus olhos de maneira magnífica. O modelo tomara que caia e apertado na cintura realçava suas curvas, sem deixa-la vulgar.
– Bom, escolhemos o vestido – disse ela, feliz por ter encontrado algo que a agradava – podemos ir embora para casa? Estou com fome.
Bianca gargalhou.
– Podemos almoçar depois de escolhermos os sapatos – respondeu ela – mas depois teremos que comprar luvas, tiaras, maquiagens... temos horas de compras ainda, minha irmã.
Karina suspirou derrotada enquanto as outras riam.
O restante do dia foi exaustivo. Visitaram diversas lojas e Karina não entendia como o pai deixara que Bianca e Dandara gastassem tantas moedas. A loira tentava recusar itens para ela, mas elas compravam mesmo assim. No meio da tarde, Karina resolveu esperar do lado de fora de uma loja. Já havia escolhido sua tiara e não aguentava mais ficar em um lugar abarrotado de pessoas. Avisou Dandara que estaria logo ali na entrada, tomando um ar fresco.
Karina admirava distraída as ruas quando um garotinho a fez se assustar. O pivete passou correndo e lhe roubou o pacote com sua tiara. Recusando-se a entrar na loja e escolher outra, Karina não pensou duas vezes: ergueu a barra do vestido e correu atrás do menino, que a provocava mostrando a língua enquanto corria.
– Ah, seu pestinha! Volte aqui! – brigava ela, esbarrando nas pessoas enquanto passava.
O menino continuou a correr, levando-a até um beco escuro da Vila. Por ali não passavam pessoas, por não ter lojas ou a feira. O menino dobrou uma esquina, encontrando uma rua sem saída. Mesmo não tendo por onde escapar, o garoto continuou a correr até encostar na parede. Por fim, largou o pacote a seus pés e correu para o outro lado.
– Mas o que...
Karina ouviu passos. Ao virar-se, sentiu o corpo congelar de medo. Um dos cavaleiros entregou algumas moedas ao pivete, que agradeceu feliz ao se retirar. Karina não reconhecia qual deles era, uma vez que o homem estava envolto por sombras devido a escuridão do beco.
– Boa tarde, senhorita Duarte – disse o cavaleiro, com uma voz grossa.
Não era quem ela pensava. O cavaleiro de sábado não possuía uma voz tão grave e forte assim.
– Quem é você? – sussurrou ela. Ao tentar se afastar, acabou encostando na parede.
O cavaleiro riu divertido e começou a se aproximar com passos lentos. Não sabendo ao certo porque fazia isso, Karina virou-se de costas. Quando o cavaleiro estava a menos de um metro de distancia dela, Karina virou o rosto o mínimo possível para poder vê-lo.
Algo nele fez com que ela sentisse a necessidade de respirar fundo. Ele era muito alto, forte, com ombros largos. Os cabelos castanhos caiam-lhe quase nos ombros e Karina teve vontade de sentir em suas mãos a textura deles. A boca bem desenhada se apresentava para ela em um sorriso perfeito. Os olhos, como chocolate derretido, brilhavam mesmo com a falta de luz.
Logo ela, que não via graça nos homens, sentiu as pernas falharem.
– Eu, senhorita, sou Pedro Ramos – continuou ele, divertindo-se com o desespero da garota – supervisor de um dos maiores batalhões da Cavalaria do Rei.
– Prazer, Pedro Ramos – respondeu ela, tentando manter-se firme – pode me deixar passar, por favor?
Pedro riu com mais vontade. Aproximou-se mais um pouco e estreitou os olhos.
– Vire-se para mim, senhorita Duarte. Quero saber se os boatos a respeito de ti são verdadeiros.
– Quais boatos? – assustou-se Karina.
– Vire-se para mim e eu prometo que te conto, dama.
Mesmo desconfiada, Karina respirou fundo e virou-se aos poucos. Permaneceu com a cabeça baixa, buscando coragem para olhá-lo nos olhos. Quando finalmente ficou de frente a ele, Karina viu o sorriso nos lábios de Pedro se desfazer.
Ele a olhava atordoado.
– Não mentiram para mim – disse ele, com a voz baixa – você é realmente uma das mulheres mais lindas que eu já conheci.
Karina sentiu as bochechas corarem violentamente. Sentiu seu corpo tremer ao ver-lhe lançar um daqueles olhares estranhos, que pareciam arrancar-lhe a roupa. Tomada pelo medo, Karina tentou passou por ele. Mas Pedro foi mais rápido, segurando-a com força pelo braço.
– Me deixe ir – pediu Karina, sentindo os olhos marejarem.
– Só quero te admirar mais um pouco – disse ele, divertindo-se com o desespero dela – quero ver se acho algum defeito nesse rosto.
Pedro levou a mão ao rosto de Karina, acariciando lhe a bochecha com leveza. Ao contrário das outras vezes em que era tocada, a menina sentiu seu corpo arrepiar-se com o toque e por um segundo permitiu-se fechar os olhos. Ao abri-los, Pedro ainda a encarava com curiosidade.
– Ainda não entendo o que quer comigo, cavaleiro – perguntou Karina, desviando o olhar.
É claro que ela sabia.
– Não faça-se de tola, dama, porque sei que não é – começou Pedro, afastando-se e ficando sério – não quero que vá ao Forte mais, senhorita. E isto é uma ordem, e não um pedido. Sei que teve problemas da ultima vez que esteve lá. Acabará sendo abusada por um dos cavaleiros. É isso que quer?
– Não – respondeu Karina, apavorada – claro que não! Não quero que seus homens me toquem mais. Eu não gosto...
– Se continuar indo lá, acabará acontecendo coisas piores.
– O senhor não tem poder sobre eles? Peça que não façam isso comigo! – pediu Karina, esperançosa. Ele parecia ser diferente dos demais.
–Não creio que será necessário – respondeu Pedro, voltando a se aproximar – porque se a senhorita aparecer novamente no Forte, é na minha cama que irá parar.
Karina sentiu a garganta apertar e de repente a proximidade dele começou a lhe incomodar. Não era justo. Ele parecia tão diferente, tão mais maduro do que aqueles porcos.
Malditas aparências que enganam, pensava ela.
Pedro atreveu-se a se aproximar um pouco mais. Curvou o corpo e Karina sabia que ele tentaria tomar-lhe os lábios. Sentindo a raiva apoderar de seu corpo, ela o empurrou o suficiente para poder cuspir em seu rosto.
Pedro afastou-se ainda mais e ao contrário do que Karina esperava, começou a rir. Tirou um lenço do bolso e se limpou sem dificuldade.
– Você acaba de ficar mais linda ainda aos meus olhos – retrucou Pedro, voltando a se aproximar.
Mas quando com as mãos dele fecharam-se em sua cintura, pronto para devorar seus lábios, eles escutaram um grito.
– KARINA!
– ARTHUR!
Karina desvencilhou-se de Pedro e correu para os braços do amigo. Tentou puxar-lhe pela mão para saírem dali, mas Arthur não se movia.
– Não acredito que faria isso, Ramos. Justo aqui nesse lugar imundo.
Pedro aproximou-se devagar.
– Estávamos nos conhecendo, Delaveiga – respondeu Pedro, observando Karina – já que não tem coragem de enfrenta-la, eu mesmo o fiz. Está avisada, senhorita. Caso não me obedeça, te espero de braços abertos em minha cama.
E antes que Arthur pudesse acertá-lo, Pedro afastou-se.
Foi inevitável Karina não acompanhar-lhe com o olhar.
Sorriu sem perceber.
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