Honeymoon Avenue
2 Revelations
Notas iniciais
O som da voz do professor de literatura estava me fazendo adormecer, eu amava literatura, mas passei a odiar graças ao Mr.Beans. Olhei para o relógio, 11:30. Faltavam apenas 5 minutos para o almoço, graças a Deus. Depois voltávamos para casa, como é o primeiro dia de aula é tudo mais rápido. Ele nos passou um livro para ler, se eu não me engano é Wiliam Sheaspeakere, eu simplesmente amo e me inspiro nele. Mas não estava nem um pouco a fim de escrever alguma coisa sobre Romeu e Julieta, já tinha lido várias vezes, e chorado várias vezes.
A história de Romeu e Julieta me faz pensar se um dia eu morreria de amor, será? Acho que não. Pensei em Miguel, pensei que talvez nesse mesmo dia ele esteja numa escola nova, conhecendo pessoas novas, se interessando por coisas novas. Eu devia fazer o mesmo? Ou deveria ter esperança que talvez um dia ele retornaria para os meus braços, sentindo o meu calor e ficaria comigo, tipo para sempre?
O sinal logo tocou e eu arrumei meu material depressa. Esperei Ariana arrumar o dela e fomos para os nossos armários. Guardei o material de literatura e peguei minha carteira. Eu e Ariana descemos depressa para o refeitório, onde já estava muito cheio.
– Ei, menina! — Um garoto que parecia ser uns dois anos mais velho estava nos chamando a atenção, virei para perguntar o que ele queria. Ele apenas se abaixou para ficar na minha altura, se aproximou e disse:
– Você é muito feia.
Eu apenas ignorei as risadas estranhas dos meninos de lá, menino nunca cresce cara. Ele devia ser do 3° ano e tava implicando com meninas do 1° ano. Calouras ainda por cima.
– Ignore eles, eles são ridículos. Estou aqui desde do primário, sei bem como eles são. — Ariana tentou me animar
– Você é veterana? Então por que estava sozinha? — Estranhei
– Desde do primário eu nunca tive amigos, digamos que você é a minha primeira.
Fiquei boquiaberta com aquilo. Até eu, que era muito tímida, conseguia fazer amigos. Claro que depois de uma semana, duas semanas.
O almoço daquela escola era estranho, eu peguei uma carne gigante, com um molho grudento. Conforme ia andando esse molho ia espirrando por tudo, até pelo meu refrigerante. Eu pensei em trocar, mas já não pude fazer nada.
Depois que pegamos nosso almoço, sentamos em uma mesa, que já estava cheia. Ariana disse que não era uma boa ideia sentarmos naquela mesa, eu perguntei o por quê. Mas ela não me respondeu.
– O que estão fazendo em nossa mesa? — Uma menina de cabelos escuros, magra, corpo escultural. Vestida toda de rosa, que dava vontade de vomitar quando olhava pra ela.
– Não sabia que tinha lugares marcados aqui. — Eu disse, na maior inocência do mundo.
– A garota cai de paraquedas na NOSSA escola e ainda fica de ironia com a gente, quem você pensa que é garota escrota? — Ela se aproximou de mim com seus olhos enchendo de fúria.
Fui puxada pela Ariana, que explicou que aquela garota sofria de bipolaridade. Ela conseguia ser amável e... digamos, odiável. Eu fiquei realmente com pena daquela garota, como ela conseguia ter amigos?
Depois de ficar meia hora olhando pra minha comida, resolvi não comê-la. Ariana teve de ir embora, e eu logo liguei pro meu pai me buscar. Fiquei na secretaria o esperando, pois não queria ficar esperando dentro da escola como todo mundo.
Uma mulher que trabalhava no colégio se aproximou de mim.
– Por que você não está lá com todo mundo? — Ela perguntou
– Eu não gosto daquelas pessoas. Eu não sou aceita aqui dentro.
– Claro que é, você logo vai se enturmar. É sempre assim.
Sorri e agradeci a ajuda daquela mulher, não sei porque eu achava ela familiar.
Ignorei aquela sensação estranha, como eu ia achar alguém do Rio de Janeiro familiar? Eu sempre morei em Minas Gerais. Ela tinha cabelos loiros que nem os meus, e olhos castanhos. Ela era realmente bonita. Quando parou um carro preto, que era o de meu pai, eu saí em disparada pra porta de saída. Entrei no carro e respirei fundo. Meu pai me perguntou como foi o meu dia, eu simplesmente saí contando tudo pra ele. Desde do menino estranho, até a garota bipolar.
Quando eu parei de falar, pude perceber o olhar do meu pai. Ele estava com um semblante triste no rosto. Parecia que tinha chorado. Perguntei se ele conseguiu alguma inspiração pro próximo livro. Ele me disse que ficou um bom tempo pensando e não conseguiu criar nada. Bufei, estava com bloqueio criativo também. Quando eu tinha Miguel do meu lado, escrever era tão mais fácil.
– Me ligaram do seu orfanato hoje, temos que ir no médico fazer um exame para ver se você está bem. — Meu pai anunciou
– Eu estou ótima, você que não parece bem
– Estive cortando cebolas para o jantar, aquilo me faz chorar mais do que filme romântico
Eu ri. Meu pai então pegou um caminho diferente, tínhamos que ir no hospital.
Eu simplesmente odiava o cheiro do hospital, eu dizia sempre que tinha cheiro de tristeza. Eu não precisei esperar muito, já que era um hospital particular. Entrei e meu pai ficou conversando alguma coisa com o doutor, e eu fiquei observando uma menina da sala ao lado.
Ela parecia ter a minha idade, ela era bem bonita. Mas aí ela virou o rosto. Espera! Uma parte do rosto dela era perfeita e a outra desfigurada. Eu fiz uma cara horrorizada, o doutor deve ter percebido, ele se aproximou e fechou a cortina. Eu voltei a minha atenção pra eles. Eu tinha que fazer um exame pra ver se eu tinha alguma coisa. Mas é claro que eu não tinha nada, eu sempre tive a saúde muito boa.
Depois de um tempo dele me examinando, eu tive que me retirar, beber água enquanto ele dava o meu exame pro meu pai. Meu pai saiu da sala com uma cara assustada, perguntei o que tinha acontecido, no que o exame tinha solucionado e ele simplesmente não me respondeu. Passou quase que a viagem pra casa toda em silêncio, quando chegamos no nosso apartamento, fui pro meu quarto ler Romeu e Julieta.
Meu pai entrou no meu quarto e deixou o exame em cima da minha mesa, e ficou aguardando eu ler. Eu apenas peguei aquele papel e li a letra horrível do doutor.
É, eu estava doente. Eu tinha Miastenia Grave. Eu mal sabia o que era, só sei que era ruim. Apenas olhei pro meu pai, esperando alguma explicação sobre aquele exame.
– Você teve alguns problemas no seu crescimento, problemas na respiração, na deglutição. O seu médico me passou um remédio, que suspendia esses sintomas por um ano inteiro. Todo começo de ano você tomava esse remédio. Eu sempre o escondia nas suas bebidas, pois ele não tem cor nem gosto.
Depois que meu pai me explicou tudo, eu fui para a internet pesquisar sobre essa tal Miastenia. Eu descobri que o sistema do meu corpo criava anticorpos que atacavam o meu organismo muscular. Não podia ser fatal, só se fosse os músculos de deglutição ou respiração. Respirei fundo, e eu não conseguia entender.
Eu nunca, nunca, nunca mesmo imaginaria que eu tinha uma doença grave daquele jeito. Tinha cura? Se tivesse, eu faria qualquer coisa. Eu não podia ficar a minha vida toda tomando um remédio para simplesmente ficar bem por um ano. Eu também não pude acreditar que durante 15 anos meu pai nunca me contou aquilo. Também, como eu nunca percebi aquilo? Aí, ele vem me contar só hoje?
Desabei de chorar, eu era doente. Já não bastava meu pai perder a Marília, que se parece muito comigo, tinha que me perder também? Eu era doente... Pra que viver então? Eu podia dar um basta naquilo e simplesmente cravar uma faca em meu peito. Eu era doente, eu trazia tristeza para as pessoas.
Eu era doente de verdade.
Depois de tanto chorar, adormeci.
Acordei com olheiras enormes e olhos inchados. Tudo o que eu pude fazer foi tacar corretivo em meus olhos. Não estava bem para ir pra escola hoje. Tinha um bilhete do meu pai que dizia que eu não precisava ir pra escola, e que ele tinha que ir no banco e só voltaria de noite. Tinha algumas instruções de como me comportar. Eu apenas ri. Eu resolvi dar uma volta na praça hoje, tomar um sorvete.
Eu coloquei uma roupa fresquinha, e desci.
Várias pessoas estavam lá na rua, indo pra escola e pro trabalho. Chegando na praça, sentei em uma das mesinhas. Precisava conversar com alguém, precisava falar o que eu estava sentindo. Se alguém aparecesse pra conversar comigo seria uma boa...
Naquela hora o meu celular tocou. Era a Priscila.
Priscila era a irmã do Miguel, ela era a minha melhor amiga lá em Minas Gerais. Mas um dia antes de eu viajar, a gente teve um desentendimento. Eu era muito orgulhosa e ela também, por isso não pedimos desculpas uma para a outra. Por que será que Priscila estava me ligando?
– Alô? — Eu atendi
– Oi — Escutei a voz de Priscila. — Eu sinto a sua falta
– Eu também sinto a sua — eu respondi — Como está ai em Minas?
– Muito chato e sem graça sem você. Eu liguei pra dar uma notícia.
– Ai meu Deus, mais notícias. É boa ou ruim?
– Pode ser boa e ruim. O Miguel está namorando.
– Como isso pode ser bom? — Eu não podia acreditar, por que de repente tudo estava dando errado?
– Pode ser bom se você já o esqueceu, mas pode ser ruim se você ainda não o esqueceu.
Eu não podia ter reação nenhuma, eu apenas desliguei o telefone e fiquei boquiaberta. Eu estou o tempo todo pensando no Miguel, e o quanto eu sinto a falta dele, pra saber que ele já tinha seguido em frente? O pior que eu não podia nem reclamar com ele. Ele estava vivendo a vida dele sem a minha presença, eu devia estar fazendo o mesmo. Mas que menino aqui vai querer me namorar? Ninguém.
Eu não podia acreditar, eu estava cansada daquelas revelações o tempo todo. Eu não tinha mais nenhuma razão pra respirar. Eu vivia só pelo Miguel, com a esperança que um dia vivêssemos juntos. Eu voltei para casa, correndo, para não chorar na frente de todo mundo. Entrei no meu quarto, coloquei meu pijama de novo e apenas deitei na cama.
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