Honeymoon Avenue
3 Hope?
Notas iniciais
Acordei com meu celular vibrando e tocando no meu bolso. Era Ariana, talvez preocupada porque eu não fui pra escola naquele dia. Como iria explica-la? Resolvi falar que meu pai não estava muito bem e eu tive que passar o dia com ele. Ela me contou que o professor começou uma peça de teatro e que amanhã eu tinha que fazer o teste sozinha já que eu perdi a aula. Seria sobre Romeu e Julieta. Acho que o professor de teatro fez uma parceria com o de literatura, escolheram o mesmo conto.
Em Romeu e Julieta eu gosto muito das citações, mas algumas vezes não entendo os pensamentos românticos de Wiliam. E se eles não precisassem morrer? E se tudo acabasse bem? Será que Romeu conseguiria estabelecer paz entre as duas famílias e casar com Julieta? Afinal, eles tinham alguns — muitos — anos de diferença. Mas a história era tão bonita. Conta sobre amor verdadeiro. Não sei direito o que é amor verdadeiro. Se for sentir o coração quase sair pela boca quando vê alguém, pensar nele em todas as noites eu acho que eu sei o que é amor.
Mas nem sempre esse amor corresponde, e quando corresponde pode ser ou não da mesma forma. Eu queria que todas as pessoas tivessem a chance de ter pelo menos um amor verdadeiro. Eu, por enquanto não tive. Miguel seguiu em frente, e era a minha vez.
Ariana me convidou para ir num restaurante que abriu perto do shopping. Não sei direito onde é, depois ela me explica. Escolhi logo minha roupa e maquiagem e fui avisar pro meu pai onde eu ia. O pai de Ariana foi logo de cara com o meu pai, eles ficaram conversando enquanto a gente ia resolvendo como a gente ia e onde era. O nome da avenida do restaurante era Honeymoon Avenue, que coincidentemente era o nome do restaurante. Achei o nome fofo pra um restaurante. A Ariana estava vestida super bem. Pegamos o taxi e saimos para a noite das garotas.
– Sério, se eu soubesse que você ia vir de sapatilha eu viria também. Esse salto está me matando — Ariana comentou durante o percurso — Moço, vira a esquerda.
– Se eu soubesse que você viria de salto eu viria também. Essa sapatilha está me matando — Eu comentei
Rimos juntas e logo o carro parou. Estranhamos, pois ainda estava meio longe do restaurante. Olhei pra Ariana e ela logo resolveu a situação.
É, a gasolina tinha acabado. Era só o que faltava. Pagamos o que o cara merecia e seguimos a pé. Ariana tirou os sapatos e eu fiz o mesmo. Saímos andando pra qualquer direção e quando vimos, estavamos na Honeymoon Avenue. O restaurante era muito chique e nossos pés estavam muito sujos. Não saberia o que fazer. Mas Ariana simplesmente limpou o pé na varanda de uma casa e colocou os saltos. Fiz o mesmo. O menino que morava na casa ao lado do restaurante riu da nossa situação.
– Ta olhando o que? Perdeu alguma coisa? — Ariana disse, logo percebi que quando estressada ela fica ignorante.
– Posso ajudá-las mocinhas? — Ele se aproximou. Tinha olhos verdes, branco, cabelo preto e tinha um sorriso lindo.
– Nos coloque pra dentro daquele restaurante, uma mesa espera por nós. — Eu disse
– Meu nome é Felipe. Aquele restaurante é do meu pai, qual é o nome de vocês?
– Eu sou Alice. E ela é Ariana. — Eu respondi
Ele discretamente me olhou de cima a baixo, e fez o mesmo com Ariana. Tava bom demais pra ser verdade, ele era babaca como todos os outros. Ele estendeu a mão para nos duas e nós a apertamos. Perguntamos se ele podia pedir pro pai dele nos deixar entrar. Ele disse que só deixaria a gente entrar se jantássemos com ele.
– Você ta brincando comigo né? Vamos amiga. — Ariana já ia me puxando
– Eu to com fome Ariana, aceito. Vem amiga.
Eu e Ariana entramos no restaurante pela porta dos fundos. A gente ficou na cobertura do restaurante, bem lá no alto. Sentamos com esse tal de Felipe e conversamos muito. Descobrimos que ele trabalhava num hospital, que seu pai era realmente o dono e que ele ja tinha se formado em medicina. Ele tinha 20 anos.
Ele era extremamente brincalhão e sorridente, e um pouco atraente. Ok, um pouco não. Ele era super atraente. Era o tipo perfeito de menino que eu sempre sonhei: Inteligente porém não chato, Engraçado porém não bobo, Interessante porém não metido, Irritante porém não insuportável.
Quando estávamos saindo do restaurante, ele pediu meu número de telefone. Trocamos nossos números, e no mesmo dia ele me ligou perguntando se eu já tinha chegado em casa. Ele era realmente um ótimo amigo.
Alguns dias depois...
Eu passei a falar com Felipe todos os dias. E Honeymoon Avenue — tanto a avenida quando o restaurante — passou a ser o nosso ponto de encontro todos os dias. Eu, ele e Ariana eramos inseparáveis. Levantei da cama de manhã feliz, era feriado e eu tinha passado uma ótima semana no colégio. Minha esperança havia aumentado, tinha esquecido a minha doença incurável e tinha parado de me mutilar. Tudo estava bem, até que eu fiquei meio tonta por ter levantado alto, e tudo ficou escuro.
Acordei num ambiente com cheiro de tristeza — hospital — não sabia exatamente o que tinha acontecido comigo.
– O quadro dela piorou, a doença dela dobrou de gravidade. — O médico dizia
– Mas eu estava tão bem — Eu respondi
– Essa doença é silenciosa, Alice, você acha que está tudo bem, mas quando vê já está morta.
– Pare de a assustar desse jeito — meu pai pediu
– Apenas estou passando as informações do exame. John, eu não sei mais o que fazer. Os parasitas estão tomando conta dos músculos mais importantes, principalmente o de respiração. — Eu fiquei super preocupada, apenas fechei os olhos e desejei que isso acabasse.
Eu ainda tinha que passar mais uma noite no hospital. Eu simplesmente odiava hospitais, era tudo estranho e triste. Meu pai dizia que ia ficar tudo bem, mas será que ia ficar mesmo? Eu mal podia levantar de uma cama direito que meu corpo não aguentava. Como eu ia viver daquele jeito? Meu pai trouxe Romeu e Julieta para eu ler enquanto estava no hospital. Adormeci no meio da tragédia que era este livro.
Mais uma vez os Montecchios e os Capuletos se desentendiam, eu nunca entendi direito o motivo das brigas deles. Confesso que sempre fui mais pro lado dos Capuletos, deve ser por que eu amo a Julieta. Julieta só tem treze anos, e vai se casar. Como assim? Páris não era o homem certo para Julieta, não na minha opinião. Julieta era apenas uma criança, não poderia a obrigar se casar. Por isso ela tinha que fingir morrer? Isso fez com que Romeu, com tremenda compaixão, também morresse. Eu fico pensando, e se Romeu e Julieta fosse atualmente? Os Romeu de hoje morreriam por amor? E foi preciso duas mortes para as famílias se reconciliarem? "Jamais história alguma houve mais dolorosa do que a de Julieta e Romeu"
Acordei com cabelos ruivos — que eu reconheceria em qualquer lugar — do meu lado. Era Ariana, ela estava visivelmente preocupada comigo.
– Você tinha que ter me contado sobre a tal de Miastenia. — Ela disse
– Não queria deixar você preocupada.
– Saiba que não funcionou muito. Felipe está desesperado, mandou um beijo. Ele estava aqui desde de madrugada eu mandei ele ir embora e assumir o lugar dele.
– Vocês são os melhores amigos do mundo sabia?
– Garota, você vai ficar bem?
– Não sei amiga, mas eu espero que sim.
Ela sorriu, deu pra perceber que ela tinha chorado. Acho que eu não gostaria de saber que minha melhor amiga tinha chances de morrer. Eu não lembro ainda direito o que aconteceu, só sei que eu desmaiei e apareci aqui. Ela ficou quieta e pediu pra mim dormir de novo.
Acordei pela segunda vez sentindo umas pontadas bem fortes no coração. Chorei, e pedi ajuda. Não sabia o que fazer. Ariana foi logo correndo chamar os médicos. Tudo se apagou e eu entrei num sono profundo.
Narrando: Ariana
Alice tinha entrado num coma. Faziam dois dias que ela não acordava. Eu parei de comer, parei de ir a escola. Ia no médico todos os dias vê-la pra ver se ocorria alguma mudança. Eu sempre ia lá e contava as novidades, com esperança que talvez ela estivesse me ouvindo.
– Sabe amiga, ta muito chato sem você. Por que você não acorda? Eu tenho tanta coisa pra te... — Eu fui interrompida. Ela havia tocado minha mão? Isso significava que pessoas em coma estavam acordando. Eu chamei os médicos, que verificaram o estado dela. Perceberam que ela acordaria qualquer momento. John, Felipe e eu ficamos passando a madrugada, esperando simplesmente ela sorrir e dizer: Boa noite. Era tudo o que eu queria.
Algumas semanas depois...
Alice aprendeu a comer de novo e a andar, logo logo ela estaria em casa. Eu estava realmente preocupada com Alice. Aquela doença não tinha cura, e ela tinha entrado em um coma vegetal. O que eu ia fazer? Não podia perder minha amiga. Seria dolorido demais. Ela acabou de sair de um coma profundo, com 85% de morte. Os médicos já estavam sem esperança nenhuma que ela poderia ao menos sobreviver. Mas afinal, como ela diz: tudo pode acontecer. E realmente ela foi curada, não 100% curada. Mas já estava bem melhor. Alice tinha ficado super magra, palida e perdeu 45% dos músculos. Mas logo os médicos dão um jeito nisso. O rosto dela ficou um pouco desfigurado, mas logo logo volta ao normal.
Eu faria de tudo pra tê-la pra sempre comigo, e eu não aguentaria vê-la partir. A primeira palavra dela pronunciada certo foi: Felipe. Ele ficou super corado, eu acho realmente que o Felipe gosta dela e vice e versa. Eu vi naqueles dias que ele estava realmente preocupado. Eu acho que desde do dia do restaurante ele é apaixonado por Alice. Porém ambos não querem admitir isso. Quando Alice puder sair de casa eu vou perguntar pra eles dois. Eles tem que ficar juntos.
Mas tudo o que tínhamos que ter, era esperança.
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