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8 Temporary House


A chuva caia incessantemente do lado de fora, gotículas de água cobrindo o vidro da janela. Observando as luzes dos carros na avenida, a jovem se perguntava se estava pronta.

Pronta para que? Para amadurecer.

Era assim que ele havia lhe descrito todo o “ato”. Como amadurecimento. E ela queria imensamente isso.

Pessoas adultas sabem lidar com a dor. Ela estava quebrada, estilhaçada, agonizando com tamanha dor que sentia. Metade de seu coração havia sido arrancado, destruído. E a outra metade, esfaqueado várias e várias vezes.

Pietro morreu.

Não havia volta para a morte e isso a consumia lentamente. Torturava-a. Corroía-a. Matava-a.

Morrer não parecia uma ideia tão ruim. Até que ele lhe apresentou outra perspectiva.

Não morra, mate.

Não se afogue em sua dor, supere-a.

Amadureça.

Ela era tão jovem e ele mais velho que seu pai. Porém, mesmo assim, lá estava ela. Ele a levara até seu quarto, em um edifício renascentista.

Ela tirou suas roupas e vestiu um roupão, como ele ordenara. Posta em frente à janela, ela viu o reflexo da luz atrás de si apagar, o abajur e a janela sendo agora as únicas fontes de iluminação do ambiente.

Sentiu as mãos dele tocarem seus ombros e afastar o roupão, expondo seu pescoço e clavícula, onde ele depositou beijos ásperos e lentos. Suas mãos desceram para segurar em sua cintura, virando-a para encará-lo. Ele sorria maliciosamente, contendo um certo ar de superioridade.

O homem a guiou vagarosamente até a cama, empurrando-a com cuidado até que estivesse sentada e, em seguida, deitada. Os olhos dela não saíram um segundo da figura turva dele – vestido com um roupão azul marinho mal fechado –, acompanhando silenciosamente cada movimento.

Ele subiu na cama, ajoelhado, cada perna de um lado de seu corpo esguio, e suas grandes mãos abriram o roupão dela, expondo o jovem corpo de sua acompanhante...

Duas batidas na porta, uma pausa, outra batida.

Wanda se desfez de seus devaneios e levantou da cama onde estava deitada, descansando, mas não dormindo, e abriu a porta.

— Isso era o que estava na lanchonete, os donos foram resistentes. — Informou Natasha carregando dois sacos de lixo, um em cada mão, para dentro do apartamento minúsculo. — Você não disse nem o seu nome para eles? — Wanda apertou os lábios em vez de responder e levantou os ombros. — Boa garota. — Natasha deu uma piscadela em cumplicidade, como se Wanda tivesse acertado parte de algum treinamento que recebera.

Thor surgiu atrás dela com mais sacos de lixo.

— Isso é tudo. — Anunciou, largando os sacos no chão sem muito cuidado.

— Obrigada. — Wanda o agradeceu antes que saísse do local.

Natasha notou que Wanda parecia inquieta, observando os sacos e caixas sem muita atenção.

— Ei, você está bem? — Ela indagou tocando no braço de Wanda para chamar sua atenção.

Wanda balançou um pouco o corpo para o lado e suspirou, antes de olhar para Natasha.

— Sim... eu só estava pensando nas crianças. — Seu olhar caiu para suas mãos juntas na frente do corpo. — Eu quase os fiz dormir na rua. Dormimos no chão da despensa de uma lanchonete, e, aparentemente, ratos haviam passado por lá. — Ela voltou a olhar para a tia que estava com os olhos atentos nela. — Eu disse para eles não contarem nada para ninguém na escola. — Outro suspiro. — Eu amo tanto Dave, Soph e Lizzie. — Seus olhos se encheram de lágrimas. — Mas eu queria não ter me envolvido com o pai deles. — Ela soltou uma risada de escárnio. — “Pai”. — Ela quase fez uma careta ao falar a palavra. — Strucker. — Corrigiu, baixando o olhar novamente.

— Erros... acontecem. — Natasha começou devagar. — Não podem ser mudados, mas podem ser remendados. — Ela pôs os cabelos de Wanda para trás, deixando seu rosto livre para ser observado. — Seus filhos te amam mais do que você imagina, independente do que aconteceu no passado.

Wanda levantou os olhos marejados e esboçou um sorriso fraco para Natasha, que o retribuiu sem demora.

— Obrigada por não me dar um sermão.

— Não pense que escapou dele. Quando tudo isso acabar, nós conversaremos. Agora, eu vou voltar ao que estava fazendo. — Ela virou de costas, pronta para sair, dando uma última olhada para Wanda. — Quanto às crianças, não se preocupe. Carol irá garantir sua segurança. — Saiu, batendo a porta atrás de si.

Wanda começou a organizar o máximo que podia das caixas e sacos, porém não havia nenhum armário para guardar suas roupas, restando o espaço sob a cama como esconderijo da bagunça.

Era um apartamento temporário, pelo que Natasha lhe contara. Só ficariam ali até Visão chegar, depois se mudariam para outro lugar temporário. Eles não teriam uma casa fixa até que toda essa situação estivesse resolvida.

O dinheiro que Visão enviara – muito dinheiro, por sinal – seria o suficiente para pagar todas as contas, as mensalidades da escola dos filhos e ainda sobraria bastante. Wanda sentia em seu âmago que Visão estava por trás do tal plano de Natasha. Talvez Visão soubesse antes dela mesma que Strucker os acharam. Bom, certamente foi isso, já que ele saíra de Wakanda há duas semanas. Mas... por que ele não voltou para ela antes?

~ ♡ ~

— Mãe, quem são eles? — Sussurrou Lizzie perto de Wanda, referindo-se a Carol e Thor que caminhavam logo atrás deles.

Wanda ponderou rapidamente em como se referir a eles.

— Esses são amigos da Nat, irmã do meu pai. — Essa era uma das raras vezes em que Wanda mencionara seu pai ou sua família.

— Amigos da sua tia então?

— É, isso mesmo.

— Você tem uma tia? — Indagou David sem discrição, fazendo uma atenta Carol Danvers sorrir com a desinformação do garoto e o rumo da conversa.

— Sim.

— E o que ela é nossa? — Perguntou Sophia, curiosa.

— Hm... tia-avó. — Wanda sorriu ao imaginar Natasha como uma “quase avó” antes dos quarenta anos de idade.

— Ela está aqui? — Lizzie questionou.

— Uhum.

— E o seu pai também?

— Ele é nosso avô, certo, mãe? — Comentou David como se fosse algo desconhecido para eles. E era.

Wanda ficou em silêncio por um momento, sua mente se distraindo momentaneamente ao sentir as pequenas mãozinhas de seus gêmeos segurando nas suas.

— Ele não está aqui. — Ela respondeu apenas a pergunta de Elizabeth.

— O Sr. Quill nos ajudou a escolher um projeto para a Feira de Ciências. — David mudou de assunto de repente, não de forma intencional. — Christian Smith e Jacob Flang queriam fazer um vulcão em erupção, mas nós escolhemos primeiro. — Ele e Sophia fizeram um “bate aqui” em companheirismo.

As crianças começaram a contar animadas sobre seu dia, esquecendo-se dos problemas da noite anterior. Mal perceberam quando pegaram outro caminho que não aquele para a lanchonete onde dormiram, só notando tal desvio quando chegaram ao prédio onde agora morariam provisoriamente.

— Por que estamos aqui? — Sophia perguntou enquanto Wanda destrancava a porta, Carol e Thor não haviam subido com eles.

— Essa é nossa nova casa, por enquanto. — Ela abriu a porta e as crianças entraram uma por uma.

Ao adentrar o apartamento e fechar a porta atrás de si, percebeu o quão pequeno era o lugar. Mal podiam se mexer ao mesmo tempo ali dentro.

— Nossas coisas ficaram na lanchonete?

Wanda largou a bolsa sobre o sofá e foi caminhando por entre os filhos para chegar ao banheiro.

— Não, já estão aqui, embaixo da cama. — Ela foi até a pia e lavou as mãos e o rosto, já as crianças se ajoelharam no chão e puxaram os sacos de lixo e caixas, abrindo-os e procurando por suas coisas. — Talvez possamos pedir pizza para a janta, o que acham? — Não obteve resposta, apenas ouviu um murmúrio não entendível. — Oi? Querem pizza?

Secou as mãos e o rosto, então voltou para o outro cômodo.

— Pai? — Proferiu David, as lágrimas surgindo em seus olhos e a voz tremida, enquanto segurava junto a orelha o celular que Natasha entregara mais cedo.