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22 Teachers
Wanda estava completamente surpresa.
Em sua frente, parado a dois metros de distância, no corredor do lado de fora do apartamento, o gênio, bilionário, playboy, filantropo Tony Stark.
— Posso entrar? — Ele perguntou, não se importando com a resposta não dita, apenas adentrando o mediano loft acompanhado por três outras pessoas, um homem razoavelmente velho, uma mulher de idade aparentemente próxima a do homem, e uma mulher mais jovem.
Wanda fechou a porta e os seguiu até a sala de estar onde os quatro pararam, Tony analisando o lugar superficialmente, sem parecer impressionado.
— Lugar bacana. — Tony disse, finalmente olhando-a. Seu olhar quase falhou ao olhá-la corretamente depois de tantos anos, negou para si mesmo a surpresa de vê-la não como aquela jovem mãe desesperada de vinte anos, mas como uma mulher adulta, não tão indefesa e amedrontada como costumava ser. — Então... meu irmãozinho está por aqui?
Não precisou de mais de alguns segundos antes de Visão aparecer, vindo do quarto, vestindo uma calça de moletom cinza e uma camiseta branca simples, mais adequadamente vestido que sua noiva, que só usava um robe por cima do pijama.
— Olá, Tony. — Visão proferiu sem esboçar qualquer expressão de agrado ou desgosto. — A que devo a honra de sua visita?
— Sou só um tio preocupado com a educação de seus sobrinhos. — Ele deu um sorriso sarcástico. — Onde estão os projetos de seres humanos? Soube que são cinco, então não deve ser fácil de escondê-los, certo?
— Chegamos cedo, o fuso horário desregulou nosso sono. — Visão falou, ainda impassível, porém cordial, ao lado de Wanda que se manteve em silêncio desde o início. — Eles ficaram bem agitados de manhã, estão exaustos.
— Uhum. Bem, acorde-os. — Tony ordenou como se tivesse ignorado o que Visão acabara de dizer. — Eles têm que conhecer seus novos professores. — Ele sinalizou para o trio ao seu lado. — Dr. Hank Pym, sua esposa, a Dra. Janet van Dyne, e sua filha, a Srta. Hope van Dyne.
— É um prazer conhecê-los, apesar de que eu tenha passado de entomologista e físico para professor de ensino fundamental. — Dr. Hank disse com leve desagrado na voz.
— Se você é capaz de ensinar física avançada para universitários de vinte anos, é capaz de ensinar multiplicação para crianças de dez anos.
— Nove. — Wanda corrigiu Tony. — Oito e nove anos. E tem os de cinco.
— Isso aí. — Ele deu de ombros. Sua atenção foi atraída para o mezanino, onde uma pequena figura arrastava seus pés em direção às escadas. — Essa é a de nove?
— Oito. — Visão respondeu enquanto a menina se aproximava dele e abraçava sua cintura, ainda um pouco sonolenta, quase se escondendo atrás dele. — Essa é a Lizzie. — Visão acariciou o topo de sua cabeça, mais como forma de descontrair seu próprio ânimo do que para afastar a timidez da filha.
— Oi, garotinha.
Um menino se esgueirou pela escada e correu para abraçar sua mãe, seu rosto, assim como de sua irmã, denunciavam que acabaram de acordar de um sono pesado.
— Esse é o David. — Wanda apresentou o filho. — Crianças, cumprimentem os professores.
Levou alguns poucos segundos para os dois proferirem em uníssono um baixo “oi”.
— Dois já foram, faltam três. — Tony bateu duas palmas bem altas. — Hora de acordar!
— Tony, eles estão cansados. — Visão interveio antes que Tony batesse mais palmas e gritasse novamente.
— Talvez devêssemos voltar na segunda-feira. — Sugeriu Janet van Dyne, olhando para Tony.
— E ter feito vocês perderem a viagem? De jeito nenhum. — Tony recusou, voltando a olhar para seu irmão em seguida. — As crianças podem fazer uma rápida avaliação, só para ver o que eles sabem, enquanto isso nós conversamos. — Ao terminar sua frase, sua expressão não era de sarcasmo ou diversão, estava sério e seu tom de voz diminuiu.
— Tudo bem. — Disse Wanda, tocando o braço de Visão. — Afinal, se dormirem demais agora, não dormirão à noite. — Visão assentiu para ela. — Vou acordar os três.
Ela deu uma rápida olhada para o cunhado antes de se desvencilhar de David e subir no mezanino, gentilmente acordando Sophia, Tommy e Billy. Quando Wanda desceu com os outros três filhos, sonolentos tal como seus irmãos, Hank Pym suspirou aparentemente frustrado.
— Bem. — Ele começou. — Eu fico com o mais velho, que é...?
— David e Sophia. — Visão falou, empurrando levemente David, que estava ao seu lado, para frente.
— Certo. — Ele olhou ao redor e sentou-se no sofá, os gêmeos mais velhos se aproximando e sentando perto dele.
— Eu fico com essa moça. — Janet disse sorrindo para Lizzie.
— Eu vou ficar com os menores? — Hope perguntou discretamente à sua mãe. — Não sei alfabetizar.
— Relaxa, é só ensinar o alfabeto e contar até dez. — Ela respondeu em tom baixo, tentando ser discreta também. — Depois a gente troca. — Ela voltou sua atenção à menina que a observava. — Vamos lá? — Estendeu a mão para que a pequena a segurasse e as duas sentaram em um outro pequeno sofá de dois lugares que ficava ao oposto do sofá de três lugares onde Hank e os gêmeos estavam.
— Acho que vamos ficar no mezanino. — Hope proferiu, deixando que os caçulas subissem em sua frente enquanto os seguia.
— Fiquem com os remelentos, nós já voltamos. — Tony anunciou, ganhando um olhar descontente de seu irmão e de sua cunhada, mas ignorando-os. — Podemos conversar em algum lugar?
Visão e Wanda se entreolharam rapidamente antes de caminharem em silêncio para seu quarto, Tony indo logo atrás.
Ao fechar a porta atrás de si, Tony alisou o terno caro e analisou o casal através de seus óculos de sol. Pareciam tensos. Wanda mantinha os braços cruzados sobre o peito, na defensiva, porém seu rosto não demonstrava nenhuma raiva como ele esperava ver, dado seu histórico de conversas não muito agradáveis. Já seu irmão estava sério, a um passo de distância da moça, encarando-o como se implorasse para que se comportasse.
— Nossa, vocês não estão muito a fim de conversar hoje, não é mesmo? — Tony disse na tentativa de descontrair um pouco o clima. — Eu vim na paz, certo? — Ele levantou levemente as mãos. Realmente, o tom de voz que estava usando não era agressivo nem o usual sarcástico, era brando.
— Tony. — Visão começou, porém ficou em silêncio tempo o suficiente para seu irmão tomar a palavra outra vez.
— Eu vim... — Ele pigarreou. — Pedir desculpas. — Proferiu lentamente, talvez mais baixo do que pretendia. Suspirou profundamente, quase como se estivesse frustrado consigo mesmo. — Eu vim pedir desculpas a você, Wanda.
A moça nem notou que levantara momentaneamente as sobrancelhas em surpresa pelo que acabara de ouvir, um gesto que não passou despercebido pelo homem.
— Certo, isso é difícil e um pouco complexo, então vamos separar em tópicos para simplificar. — Ele retirou seus óculos para segurá-lo entre as mãos. — Número um. — Tony disse, levantando um dedo. — Isso tudo é uma grande merda confusa. Estou falando do lance da máfia, Hydra, crime organizado, essa coisa toda que você se meteu e acabou nos arrastando junto.
— Tony. — Visão o chamou em forma de repreensão, porém seu irmão prosseguiu com sua fala.
— Dois. — Ele levantou outro dedo. — Isso é tão confuso que vocês passaram os últimos oito anos fugindo de algo que vocês não deveriam precisar fugir.
Wanda suspirou e olhou para o lado, essa conversa se tornando um tanto quanto opressora.
— Acho que você poderia ter parado no pedido de desculpas. — Visão disse, mas Tony levantou sua mão de maneira que pedia para ele ter calma.
— O que eu quero dizer, é que as crianças não têm amigos.
— Eles têm amigos. — Wanda o contrariou, voltando a olhar para ele.
— Mesmo? Então devem ter chorado muito ao se despedirem de seus amigos antes de virem para cá. — O casal nada disse e Tony já sabia a resposta. — Vocês nunca ficaram tempo suficiente em um lugar para que criassem laços afetivos. Eu até diria que se, em algum momento ficaram tempo suficiente em qualquer lugar, logo tiveram que se despedir e as crianças se acostumaram a essa mudança repentina em que às vezes nem poderiam dizer “Adeus” às pessoas de quem eram próximas, estou certo?
O olhar de Wanda voltou a focar o chão, assim como Visão, que se aproximou um pouco dela e pôs uma mão acalentadora em suas costas. As palavras proferidas pelo homem eram afiadas como facas de açougueiro, cortando o coração dela e fazendo lágrimas de culpa ameaçaram surgir em seus olhos.
Um novo suspiro pesado precedeu a fala de Tony.
— Só queria enfatizar o fato de que estão vivendo com medo. — Ele fez uma breve pausa para olhar os dois a sua frente. — Eu fui muito duro com vocês, especialmente com você, Wanda. — Ela hesitantemente o olhou de lado. — Eu disse coisas para você que eu não deveria ter dito. Me desculpe por isso, e por tudo o que eu fiz e não fiz quando deveria não ter feito ou feito. Bem, eu esqueci em qual tópico parei. — Ele desviou seu olhar enquanto mudava de lugar de onde estava para tentar quebrar um pouco o clima consideravelmente pesado.
— Dois, tão confuso que passamos oito anos fugindo. — Visão o lembrou, um tom amargo em sua voz, um semblante sério em sua face.
— Três: crianças sem amigos, sem laços afetivos. — Ele voltou a levantar os dedos. — Quatro: vivendo com medo. Cinco: acho que as crianças precisam de uma folga. — Um rápido olhar de confusão despontou no rosto dos outros dois. — Estou falando da escola e tudo mais. — Ele abaixou a mão. — Eu entrei em contato com os professores porque achei que você ficaria brava se eu dissesse para tirá-los da escola e trancar sua educação por um tempo. — Ele olhava para Wanda. — Mas, minha opinião é de que o mundo para eles é perigoso com um psicopata querendo pegá-los, então continuar os estudos parece um pouco arriscado. — Silêncio. — Em uma escola. E em casa também, acho que eles mereciam umas férias, só isso.
— Eles não vão parar de estudar. — Wanda contradisse.
— Você quem sabe, os professores já estão aí, então não vamos nos estressar com isso. Aliás, só para deixar claro, eu também sou pró-estudo. — Ele manteve o olhar abaixado durante sua fala, em seguida estalou o pescoço e mudou novamente de lugar antes de continuar. — E agora, o que eu já adiei demais: meu singelo pedido de desculpas. — Ele a olhou, ela mantinha os braços cruzados e ainda não o encarava ameaçadoramente, na verdade, o olhar em seu rosto o fez sentir culpa por tudo que já havia lhe dito de negativo até então. — Desculpe, por tudo. Eu fui um babaca.
Wanda involuntariamente deu um pequeno sorriso, muito mais satisfeita por ouvir Tony Stark confessar que foi um babaca do que com seu pedido de desculpas, embora isso lhe tenha agradado também.
E lá estava o coração da moça, dividido. Um lado gritando sobre tudo o que o Stark representava, sua empresa, toda a dor que ele indiretamente lhe causou; e o outro lado, aquele mais amaciado pelo seu único Stark favorito, Visão, dizendo-lhe para aceitar o pedido de desculpas aparentemente honesto.
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