Home
29 “Stark”
Wanda teve um pequeno sobressalto, acordando do leve cochilo.
— Desculpe. — Pediu Visão, tentando deslizar vagarosamente para fora da cama, motivo que despertou Wanda.
— Que horas são? — O sono estava presente em sua voz.
— Tarde. Se não dormirmos agora, amanhã não acordaremos. — Ele proferiu em tom baixo enquanto vestia novamente sua cueca e pijama.
Sem pressa, destrancou a porta do quarto e, em seguida, foi ao banheiro onde Wanda havia deixado suas roupas que vestiria após sair do banho. Aquelas que ela não teve a oportunidade de vestir, por serem completamente desnecessárias naquele momento...
— Sabe, ultimamente todas as lembranças foram muito detalhadas. — Ela disse, apoiando sua cabeça em seu punho fechado e seu cotovelo no travesseiro, olhando na direção do banheiro. — Cada detalhe, suspiros, sentimentos, eu podia sentir até o frio de Edimburgo.
Visão juntou a calcinha e o pijama comprido dela enquanto a ouvia, levando as roupas de volta para a cama. Wanda esboçou um pequeno sorriso quando ele subiu no colchão para vesti-la.
— Eu também. — Ele concordou enquanto deslizava a calcinha dela por suas pernas. — Lembro de cada detalhe daquela noite. — Dispensando o sutiã, ele colocou a blusa por sobre sua cabeça e a ajeitou em seu corpo. — E da nossa primeira noite juntos. — Wanda sorriu novamente, uma mistura de ternura e malícia, sendo retribuída com um olhar e sorriso de igual tom provindo de Visão. — Talvez seja só o momento que esteja trazendo tudo de volta.
Por fim, ele pôs a calça do pijama em Wanda, deixando-a confortavelmente pronta para dormir.
Visão apagou a luz do abajur sobre a mesa de cabeceira e acomodou-se ao lado de sua noiva, abraçando-a pelas costas, aninhando-se junto ao seu corpo sob o cobertor. Ele fechou os olhos e deixou-se embalar pela respiração calma de Wanda... até sentir seu corpo enrijecer em seus braços e um suspiro pesado escapar de seus pulmões depois de um tempo.
— Tudo bem, querida? — Ele indagou próximo ao seu ouvido.
Levou alguns poucos segundos e um novo suspiro antes de Wanda responder.
— Sim, mas... eu tive um sonho estranho esses dias. — Ela sentiu Visão acariciar suas mãos entre as deles, calmamente. — Eu sonhei com Wakanda.
— Mesmo? Como foi?
— Não sei explicar direito. Eu sabia que era Wakanda, não sei como, mas sabia que era. E tinha uma ponte sobre um rio, mas era um rio com uma correnteza muito forte, a água estava muito alta, chegava a passar um pouco por cima da ponte. E você estava lá, olhando para a correnteza, mas você não era você. — Wanda não podia ver o sorriso que Visão dera com sua fala. — Eu sabia que era você, mas você era vermelho. — Mas ela pôde ouvir a pequena expiração em divertimento. — E você era meio... robótico. Não sei dizer, era androide.
— Coincidentemente, eu já me senti um androide em outra época.
Mesmo na escuridão do quarto, ele conseguiu ver a lateral do contorno de um sorriso nos lábios dela um pouco antes de ficar séria novamente e continuar a falar.
— E eu também estava na ponte, te observando, e então você olhou para mim e... eu fiquei triste porque eu sabia que você não tinha sentimentos. Era como se fossemos conhecidos, mas desconhecidos. Era você e era eu, mas não havia sentimentos entre nós dois. No sonho, eu sabia que você queria entender isso, os sentimentos, quem você era. E eu só queria você de volta.
Ela se calou, a velha angústia querendo invadir seu coração novamente. Sentiu Visão a apertar mais perto em seu abraço, o calor de seu corpo a confortando.
— Foi só um sonho. — Ele disse calmamente. — Sonhos são assim mesmo, alguns mais estranhos que outros. Posso garantir que sempre terei sentimentos. Principalmente por você. — Apesar de ela segurar em suas mãos e levá-las para junto de seu peito, ela permanecia rígida em seu abraço. — Algo mais a incomoda?
Silêncio. O tortuoso silêncio que precedia os profundos sentimentos fantasmagóricos que assombravam Wanda.
— Você me desculpa?
A pergunta dela fez a dúvida brotar na mente de Visão.
— Há algo para desculpá-la?
Novamente o silêncio.
— Eu disse que prefiro “Sra. Maximoff”. — Ela fez uma pequena pausa, ponderando sobre o rumo dessa conversa. Ela sentia que iria magoar Visão. Essa conversa o magoaria, ela queria adiá-la por mais tempo, porém, depois do pedido de desculpas de Tony, a questão “Stark” precisava vir à tona. — Eu não quero que nossos filhos se chamem Stark.
Dessa vez, o silêncio veio de Visão. Não estava chateado, não. Ele estava confuso. Sua mente pensando em mil e um motivos para Wanda não querer o sobrenome dele, tanto para si quanto para os filhos. Ele entendia, porém, seu desejo por querer ter uma identidade própria, mas se fosse somente esse motivo, ela não estaria pedindo desculpas.
— Tudo bem. — Ele proferiu em tom calmo e baixo. — Posso apenas saber por quê?
Ele a sentiu tremer. Ele a sentiu tremer? Sim, ela tremeu em seus braços. Por um segundo, rapidamente, seu corpo tremeu e não foi de frio ou excitação, foi de... aflição?
— Lembra quando eu contei como meus pais morreram? — A voz dela saiu extremamente baixa.
— Um míssil atingiu seu prédio. — Ele disse, um tom acima do dela.
— Sim. — A palavra sussurrada quase inaudível. — Estávamos assistindo televisão. — Sua voz aumentou um pouco, embora ainda baixa. — De repente, eu fui jogada para frente, foi tão rápido... Eu não entendi o que estava acontecendo, só lembro de olhar para onde estava o sofá e só ver escombros, não vi meus pais. E então Pietro estava segurando minha mão e me levando para baixo da cama, e o entendimento veio tão rápido. Uma bomba. Nosso prédio foi bombardeado. Eu só ainda não tinha entendido que meus pais haviam morrido. — Ela sentiu um nó na garganta trancar sua fala por um momento, sendo necessário alguns segundos antes de prosseguir. — Um segundo míssil caiu, a um metro dos nossos rostos, mas não explodiu. Achávamos que iriamos morrer.
Visão ouviu tudo atentamente, conseguindo imaginar toda cena em sua mente. Ele sentiu o corpo dela relaxando lentamente, apesar de permanecer inflexível. Ela suspirou, deixou que o ar entrasse e saísse de seus pulmões antes de continuar:
— Ficamos presos por dois dias, olhando aquele míssil com uma palavra escrita na lateral. — Subitamente, Visão entendeu porque ela estava lhe contando isso e o que ela iria dizer em seguida. — “Stark”. Era um míssil das Indústrias Stark.
A respiração de Visão descompassou levemente. As Indústrias Stark, outrora uma empresa bélica, abandonara a fabricação e comercialização de armas há anos, após o primogênito Tony Stark assumir o comando e ter uma nada agradável estadia em um cativeiro de terroristas que queriam usar suas armas para o genocídio. Resgatado do cativeiro, esse foi o gatilho para o encerramento dos produtos letais.
Visão só não sabia que Wanda havia sido afetada intimamente pela empresa de sua família, tecnicamente, sua empresa.
— Sinto muito...
— Eu que sinto. — Ela o interrompeu. — Eu odiei o nome Stark por muitos anos, odiei o seu irmão, sua família. Eu só não conhecia você. — Ela expirou lentamente, seus olhos se fechando nesse processo. — Eu não sabia que você era um Stark quando nos conhecemos. E quando eu soube, fiquei desapontada... mas não consegui odiar você. Então achei melhor ignorar isso, esse sentimento. Mas agora não posso mais. Desculpa. — Ela sentiu lágrimas ameaçarem a surgir, sua garganta queimando. — Posso viver com os Stark, me casar com um, isso nunca seria um impedimento. Posso amá-lo, Visão. Sempre. Um sobrenome não impediria isso. Mas não consigo pensar que nossos filhos... terão o nome do que deu origem à arma que matou seus avós. Meus pais.
O coração de Wanda afundou. Ela sentiu como se tivesse colocado um enorme elefante branco na sala. Aquele que ninguém fala sobre, mas que todos gostariam de perguntar o que fazia ali. Talvez não fosse nada, não querer o sobrenome Stark poderia não influenciar em nada no relacionamento dos dois... ou talvez isso pudesse influenciar em tudo, Visão poderia, de alguma forma, querer...
— Tudo bem. — As palavras, tão simples, carregavam uma enorme calmaria e compreensão. — Não tem problema se nossos filhos se chamarem apenas Maximoff. Eu gosto. — Ele levou seus lábios para o pescoço dela, encostando-os levemente em sua pele, enquanto exalava seu perfume, um calmante natural. — E isso não vai me fazer menos pai deles.
Wanda sentiu as primeiras lágrimas embaçarem seus olhos.
— Não, não vai. — Ela disse, virando-se nos braços dele para abraçá-lo.
Um abraço quente e aconchegante acompanhado do mais puro amor.
Fale com o autor