Home

30 Glass Walls and Open Doors


Foi em meados de 2009.

Ele despejou o líquido dentro do copo de vidro e suspirou bruscamente enquanto deixava a garrafa no lugar e pegava o copo em sua mão.

— Chame a polícia. — Ele disse, virando-se para seus ouvintes.

— Não podemos. — O alto homem loiro, seu irmãozinho, negou.

— Isso não é problema nosso.

— Tony, nós não podemos chamar a polícia. — Visão afirmou observando Tony beber um longo gole de sua bebida.

— Uhum. — Ele girou seu corpo em direção ao outro homem na sala, que estava escorado na borda da mesa, de braços cruzados e expressão séria, pensativo. — E você, Capitão? Alguma opinião?

O homem expirou calmamente, fitando Tony com olhar em discordância.

— Devemos considerar que a polícia pode não ser a solução no momento.

— Uau! Você não quer chamar a polícia? — Tony balançou a cabeça lentamente. — Então devemos considerar que essa garota... — Ele olhou rapidamente através da parede de vidro da sala, em direção à figura da moça junto de um carrinho de bebê e ninando sua filha em seus braços. — Não te pediu ajuda intencionalmente? — Ele olhou para Visão. — Quer dizer, devemos considerar que ela não sabia que você é um Stark, que se deparar com você foi mera coincidência?

— Oh, não. — Visão balançou a cabeça. — Eu realmente acredito que ela planejou a minha viagem de três meses pela Europa para apresentação do novo software, me fez sair do meu quarto de hotel à noite e voltar por uma rua vazia de madrugada, só para me conhecer e me extorquir.

Tony revirou tanto seus olhos para cima, desprezando o sarcasmo incomum de seu irmão, que o Capitão achou que os olhos não voltariam para o lugar.

— Tony, isso está ficando ridículo. — Proferiu o terceiro homem na sala, ainda na mesma posição de braços cruzados sobre o peito. — Nós não podemos deixar de ajudá-la.

— A polícia ajuda. — Tony contrariou outra vez.

— Você ouviu o Visão...

— Os bombeiros ajudam.

— Tony.

— Há pessoas que trabalham com esse tipo de situação...

— Temos que considerar que ela...

— Que são pagas para...

— Está em perigo...

— Resolver esse tipo de problema...

— E precisa da nossa ajuda.

— Ela vai ficar bem.

— Mas pode não ficar.

— Só dar algum dinheiro.

— Não acredito.

— O dinheiro resolve tudo.

— Sempre, quando eu acho que você vai entender...

— Não é a primeira vez que eu vejo pessoas pedindo “ajuda”...

— Você sempre faz isso...

— Eles sempre pedem isso.

— Você não consegue ver o outro lado.

— Ela se meteu nisso.

— Ela é uma criança!

— Dá um tempo, Rogers!

As vozes cessaram. O clima na sala pesou tanto quanto uma manada de elefantes africanos.

Visão estava imóvel, um braço sobre o peito, o outro apoiando-se nesse enquanto segurava seu queixo entre o polegar e a lateral do dedo indicador. Expressão pensativa, porém séria, desaprovando a discussão dos outros dois ao mesmo tempo que desapontado por essa situação estar longe de se resolver. E seu irmão não colaborar para a solução.

Tony respirou profundamente, depositando seu copo sobre a mesa e apoiando as mãos no encosto de uma das cadeiras. Fitou o chão através do vidro da mesa por um longo tempo, assim como Rogers mirava o piso sob seus pés.

De súbito, Tony se endireitou e expirou lentamente, direcionando-se para Visão.

— Ela foi estuprada? — Ele perguntou sem rodeios. Não havia um pingo de graça ou desdém em sua voz, somente a seriedade.

Visão o mirou por um momento, antes de olhar para Wanda através da parede de vidro, focada apenas em seus filhos, alheia à conversa dentro da sala. Ele não sabia como responder àquela pergunta, então foi o mais sincero possível:

— Eu não sei. — Ele suspirou e encarou seu irmão com um olhar fraco. — Ela não disse. — Uma pequena pausa, seu olhar vagando brevemente para seu primo, que o observava silenciosamente, antes de cair para o chão. — Mas eu acho que sim.

O suspiro de Tony foi pesado. Frustrado ou preocupado. Provavelmente nem ele sabia o que se passava em sua mente.

— Tudo bem. — Ele esvaziou os pulmões antes de enchê-los novamente. — Já que você e o Capitão América aí estão tão contra a polícia, o que faremos com a garota da máfia? Escondê-la?

— Quanto a isso, tenho que concordar com o Tony. — O Capitão atraiu os olhares dos dois homens para ele, inclusive fazendo a mulher loira que abria a porta parar no caminho para ouvi-lo também. — Ela tem três bebês, não é tão simples assim. São quatro vidas sob nossa responsabilidade. — Rogers olhou para Visão. — O que você pretendia fazer quando a trouxe aqui, Visão? Qual o seu plano?

O alto homem loiro levantou os ombros. Ele não tinha um plano.

— Eu esperava conseguir um abrigo seguro e provisório enquanto planejava o que fazer a seguir.

— Ótimo. — Tony resmungou, jogando a cabeça para trás e suspirando extremamente frustrado.

— Tony. — A mulher loira o repreendeu de braços cruzados.

— Só estou sendo realista, Pepper. A Indústrias Stark é mundialmente conhecida. Atrai holofotes. Se a máfia russa, alemã, italiana, canadense, o diabo a quatro quiser encontrar essa garota, eles conseguem. É perigoso para ela e para nós.

— Perigoso ou não, ela é nosso problema agora e precisamos encontrar a solução. — Pronunciou-se novamente o Capitão.

— Eu discordo. Ela é um problema, mas não nosso e, definitivamente, não meu. — Os dois se encararam, desavença sempre circundou as relações entre eles. — Não dá pra querer salvar todo mundo, Capitão.

— Eu sei. — Ele fez uma pausa. — Mas isso não me impede de tentar. É por isso que os manteremos aqui até que encontremos um lugar realmente seguro para levá-los.

Tony revirou os olhos mais uma vez.

— Concordo com o Steve. É uma boa ideia. — Proferiu Pepper, fazendo Tony ficar em silêncio, ainda contrariado.

— Obrigado. — Visão agradeceu ao primo antes de se virar para seu irmão. — Deixá-la agora seria crueldade. — Ele não sabia ao certo porquê proferira tais palavras, sequer havia pensado nelas, mas elas já haviam sido ditas. E isso arrancou um olhar falho de seu irmão antes de Visão caminhar em direção à porta. — Senhorita Potts. — Ele assentiu com a cabeça.

— Visão. — Ela deu um fraco sorriso antes de dar espaço para ele passar.

Quando finalmente levantou o olhar procurando a jovem moça com seus bebês, sentada no sofá da área de espera, ele não os encontrou.

— Happy. — Ele chamou o homem que vinha em sua direção. — Você viu aquela mulher que estava aqui?

— A com os bebês? — Indagou Happy e Visão confirmou com um aceno de cabeça. — Ela saiu.

— Saiu? Do prédio?

— É, saiu. Pegou o carrinho e foi para o elevador. — O rosto de Visão empalideceu, fazendo Happy ter a sensação de que fez algo errado. — Eu não devia tê-la deixado ir?

— Quando ela saiu? — Perguntou Visão, um alarme soando em sua mente, como se algo extremamente ruim pudesse acontecer caso Wanda saísse de sua supervisão.

— Agora mesmo. Eu posso... — Mas Visão já apertava o passo para o elevador sem ouvir as palavras do amigo de seu irmão. — Bem... foi mal.

Notas finais
Espero que não tenha sido difícil de acompanhar a cronologia desses últimos três capítulos. Eu queria contar a história do que aconteceu, mas sem ser uma lembrança, sem ser de um único ponto de vista.