Home
35 Should Not
Notas iniciais
Se fosse um desenho animado, uma lâmpada apareceria em cima da cabeça de Wanda. Ou engrenagens funcionando apareceriam no lugar de seu cérebro. Ou até mesmo um cérebro animado, de óculos quadrado, estaria sentado em uma cadeira rabiscando em um caderno sobre uma pequena mesa, empolgado e com a língua para fora.
Era isso que Wanda pensava enquanto penteava os cabelos, observando seu reflexo no espelho. Essa imagem era uma que não desejava ver novamente, mas é onde ela se encontra neste exato momento, repetindo a visão de há cerca de oito anos: um vestido cinza cobrindo seu corpo e os cabelos compridos caindo sobre os ombros. Se tivesse o pulso enfaixado, estaria igualzinha àquela época.
Ouviu a porta do quarto ser destrava e aberta. Deixou o pente sobre o balcão da pia e saiu do banheiro, encontrando Strucker parado ao lado da porta do cômodo, mesma postura de antes, porém agora ele segurava seu próprio pulso na frente do corpo, punhos fechados. Um sorriso se instalou em seus lábios ao encarar Wanda, provavelmente tendo a mesma lembrança que ela sobre as semelhanças com anos atrás. Ela só notara agora que ele permanecia usando seu típico monóculo no olho direito.
— Mein Wunder...
— Não me chame assim. — Ela o cortou friamente.
Algo na mente de Strucker despertou instantaneamente. Wanda não costumava contrariá-lo. Oito anos... foi tempo para que ela mudasse, ainda que tivessem se visto uma outra vez após a fuga, esta era a primeira vez que ela prontamente se impôs. Com uma fala tão simples.
Bem, ela não é mais uma criança.
Em vez de se pronunciar novamente, Strucker apenas fez um sinal com a mão, indicando a porta aberta. Com o semblante sério, Wanda desviou o olhar dele para o caminho que fazia até o corredor e esperou que ele estivesse ao seu lado para continuarem andando, desconfortavelmente suportando a mão dele em suas costas.
Poucos metros separavam as portas entre o quarto onde Wanda estava e o quarto ao lado para onde se dirigiram. A porta foi aberta e três crianças, sentadas sob as cobertas na grande cama, olharam para quem entrava.
A postura firme adotada anteriormente por Wanda para encarar Strucker fraquejou momentaneamente enquanto, quase correndo, foi até seus filhos que já estavam prestes a pular para fora do colchão, segurando-os em um abraço.
Ininteligíveis palavras misturadas com baixos soluços e choramingo preencheram o ambiente, mas Wanda entendia exatamente o que seus filhos queriam dizer. Ela mesma murmurava palavras em sokoviano para acalmá-los, perfeitamente compreendidas pelas crianças.
Sentada na beirada da cama, Wanda se afastou o suficiente deles para poder olhá-los.
— Vocês estão bem? — Ela perguntou em voz baixa, olhando para cada um.
Em resposta, David acenava afirmativamente com a cabeça, Sophia proferiu um baixo e choroso “Sim” e Elizabeth não respondeu, apenas segurou mais firme na mão de Wanda, todos os três buscando novamente abraçá-la.
Wanda, em um misto de vigilância e nervosismo, vagou seu olhar discretamente para a mesa de cabeceira ao lado da cama ao mesmo tempo em que trazia seus filhos para um novo abraço, eles escondendo seus rostinhos contra sua mãe. Nesta ágil vistoria nos objetos sobre a mesa de cabeceira, o destaque era para um nebulizador. Alertas soaram na cabeça de Wanda.
Ela se afastou mais uma vez dos filhos e desceu da cama, ajoelhando-se no chão na frente deles, e segurou nas mãos de David, atentamente olhando em seus olhinhos azuis contornados por lágrimas.
— Você está bem? Está conseguindo respirar bem? — Ela indagou e ele apenas afirmou com a cabeça.
— Ele teve uma pequena dificuldade para respirar, mas já está bem. — Strucker disse de onde estava parado, de braços cruzados, no meio do caminho entre a cama e a porta. — Apenas um efeito colateral do gás que inalaram, provavelmente. — Acrescentou e Wanda o fuzilou com os olhos.
— Você poderia tê-lo matado. — Ela proferiu rispidamente, ainda o encarando. — Ele tem asma, você quase o matou!
A expressão de Strucker mudou por um momento. De certa forma, ele não queria matar seus filhos, não foi para isso que ele os queria perto dele.
— Eu não sabia. — Ele descruzou os braços e pôs as mãos nos bolsos da calça.
Wanda estava com raiva. Ela olhou em direção à mesa de cabeceira novamente, o relógio sobre ela marcava a data e a hora. Já fazia dois dias que estavam ali. Dois dias! Se estivessem em algum lugar com o mesmo fuso horário de Nova Iorque.
Seus filhos deviam estar tão aterrorizados quanto ela, talvez até mesmo mais, por estarem sozinhos em um lugar completamente desconhecido, sem seus pais ou outros irmãos. Foi quando Wanda olhou para a cama, atrás onde seus filhos estavam sentados haviam desenhos, brinquedos e jogos de tabuleiro, alguns dos objetos intocados, provavelmente fornecidos ao trio para passarem o tempo.
Ela voltou a olhar para seus filhos, segurou o rosto de David com uma mão e apertou a mãozinha de Elizabeth com a outra, dando um fraco sorriso tranquilizador para Sophia sentada entre os dois irmãos, repetindo em um sussurro as palavras “Tudo bem, vai ficar tudo bem.”
Ela ouviu os passos lentos de Strucker se aproximando, ele passando logo atrás de suas costas e parando ali. O som de algo como um embrulho soou em seus ouvidos atentos e logo o de algo sendo partido.
— Quer um pedaço? — Ele ofereceu e Wanda viu seu braço estendido em direção a Elizabeth, um pedaço do que parecia chocolate em sua mão. — Gosta de amendoim?
Ela rapidamente segurou com firmeza em seu pulso e empurrou sua mão para longe da filha.
— Está tentando matá-la? Ela é alérgica a amendoim! — A mãe bradou e a expressão de Strucker se enrijeceu.
— Como eu poderia saber?
Não poderia. Simples assim. Nem deveria. Mas Wanda não disse isso, ela só o encarou tão profundamente e com tanta raiva, porque mais uma vez Strucker quase matou um de seus filhos. Não importa se ele não sabia. Não importa se ela garantiu para que seus filhos nunca soubessem que ele era seu pai biológico. Não importa o que ele faça, ele é e sempre será um dos demônios que assombram Wanda. E ela não vai deixar que ele assombre seus filhos também.
— Saia. — Ela ordenou em voz baixa, porém ameaçadora. Era um aviso de que nada proveitoso poderia sair de um diálogo entre eles neste instante. Certamente, nem haveria a possibilidade de um diálogo.
Mas Strucker não passou oito anos perseguindo sua amada e seus bebês à toa. Ele sairia, por ora. Deu um sorriso duro e arrogante para Wanda, antes de caminhar a passos firmes para fora do quarto.
Fale com o autor