Notas iniciais
Boa leitura!

Não haviam raios nem trovões, mas a chuva era constante e abundante, como se alguém tivesse ligado um chuveiro e esquecido de desligá-lo.

O vestido que Wanda colocara após o banho já estava encharcado e seus cabelos eram lavados novamente pela tempestade.

O lado bom: as lágrimas de Wanda se misturavam à chuva.

Ela correu. Correu pelo pátio até a estrada que dava acesso a casa, e continuou. Percorreu o caminho de terra e pedras salientes com uma sapatilha fechada extremamente errada para a ocasião. Mas isso não importava, Wanda continuou correndo.

Correu até cair no gramado ao lado da estrada. Apoiou-se com as palmas das mãos na grama.

Wanda chorou.

Em todos os momentos em que lágrimas escorreram por seu rosto, em que verdadeiramente chorou, nenhum foi tão doloroso quanto esse.

Porque essas lágrimas eram por todas as outras lágrimas.

Por seus pais.

Por Pietro.

Por Visão.

Por seus filhos.

Pelos Barton.

Natasha, Steve, até mesmo Tony.

Por Monica, Darcy e Jimmy.

Por Agnes e Erik.

Por desconhecidos, os guardiões dos Guardiões da Lanchonete, em Portland, Oregon.

Por todos aqueles que se envolveram, de alguma forma.

Mas especialmente, muito especialmente, por sua família.

Tommy e Billy. Elizabeth. Sophia e David. Visão.

Eles... eles tiveram que aguentar o inferno com ela, por ela...

Tantas vezes que estiveram em perigo. Tantas vezes em que Strucker esteve muito perto de machucá-los. Se não fosse por ela, nada disso teria acontecido com eles. Nenhum deles nunca teria que ter medo.

Wanda chorou. Lágrimas que eram acolhidas pela chuva.

E o mundo parecia muito longe para ela.

Tanto que não vira Visão correndo às suas costas em sua direção.

Quando a alcançou, ele se aproximou devagar e sentou ao seu lado, virado em sua direção.

Wanda não queria olhá-lo, não agora, enquanto chorava incessantemente, enquanto sentia tanta dor e tanto ódio de si mesma. Porque estava envergonhada. Com vergonha de mostrar a ele o rosto da pessoa que causou todos os seus problemas nos últimos oito anos.

— Wanda...

Um soluço de Wanda, alto o suficiente, interrompeu a fala dele. E Visão decidiu esperar ela chorar.

Era tanta água caindo do céu, tantas lágrimas caindo dos olhos de Wanda... Não era possível identificar o que era o que no rosto da mulher.

A noite tinha uma claridade própria, era possível eles enxergarem um ao outro na penumbra.

— Desculpa. — Ela disse. Quase gritou. — Eu sinto muito. Eu tentei... eu tentei consertar tudo, mas eu só baguncei. Desculpe.

Ela olhava para suas próprias mãos com os dedos fincados na grama.

— Não. — Ele disse em voz alta. Wanda o olhou. — Não posso te desculpar por coisas que você não fez.

— Eu fiz! Eu baguncei tudo! Mais de uma vez! Eu só... Eu só queria... consertar tudo! Por favor, me desculpa. Por favor.

Visão olhou em seus olhos, negros na baixa luminosidade, e sentiu seu coração doer.

— Eu baguncei tudo também, mais de uma vez, há muito tempo. — Ele disse, alto o suficiente para sua voz se sobressair ao som da chuva. — Mas eu encontrei você e tudo foi uma loucura! — Ele deu ênfase na última palavra. — Foi o caos perfeito! Porque eu finalmente comecei a acertar.

— Eu machuquei pessoas...

— Eu machuquei pessoas também, Wanda, mas desde você eu tenho machucado muito menos pessoas. Wanda.

Ele colocou sua mão esquerda sobre a mão direita dela.

— Eu amo você, Visão. Só quero que saiba disso.

O choro que se seguiu foi mais alto e inibidor de qualquer diálogo subsequente.

Visão se moveu até que estivesse encostado ao lado de Wanda e a envolveu em seus braços. Ela tremia e chorava, e estava agarrada a ele.

Foram muitos minutos sob uma chuva fria que potencialmente poderia desencadear um resfriado até que Wanda se acalmou e Visão foi capaz de a pegar no colo e a carregar de volta pela estrada em direção a casa.

Porém, quando estavam no pátio, ela pediu que não entrassem. Então Visão foi em direção ao celeiro.

Apesar de ser desconfortável dormir no chão e sobre um pouco de feno, eles se aconchegaram nos braços um do outro e se encaminharam para um necessário sono.

Eu amo você, Visão. Só quero que saiba disso.

Fora a primeira vez que ela disse essas palavras.

Eu amo você, Visão.

Essa seria uma das memórias mais memoráveis que Visão guardaria no fundo de sua mente, de seu coração e de sua alma.

— Eu amo você.

Ele disse a ela em um sussurro. Os olhos dela brilharam, sua expressão mudou suavemente de um sorriso para o que parecia... surpresa?

— Você...

— Por favor, não diga nada. — Ele pediu. — Não ainda. Não se não estiver pronta. Eu só quero que você saiba disso.

— Você quer ser pai, Visão? — Ela perguntou, deixando-o nitidamente confuso.

— Bem... eu já me considerava pai. — Ele sinalizou para uma parede, onde muitos metros e alguns quartos os separavam de seus três filhos pequenos.

— Você é, mas quero dizer... Você quer ser pai de novo?

Ela sorriu ao final da pergunta enquanto observava a confusão persistente no rosto dele.

— Estou tentando formular uma equação...

— Não precisa de equação, Visão. — Wanda pegou a mão de Visão e a colocou sobre sua barriga ainda plana. — Você quer ser pai de novo?

Alguns segundos para o cérebro de Visão processar a informação.

— Você...?

Wanda balançou a cabeça, confirmando a pergunta não dita.

Um sorriso bobo e genuíno surgiu devagar nos lábios de Visão.

— Você me pediu para ficar. — Ela disse. — Eu estou ficando.

Visão podia sentir o amor de Wanda.

E agora ela havia o proferido.

O sono foi embalado por essa lembrança, tão vívida quanto tantas outras.

A noite passou e eles dormiram sem interrupções.

O dia clareou na manhã seguinte, e Visão levou longos minutos até que conseguiu abrir minimamente os olhos, identificando de onde vinha o cheiro de café: Clint Barton estava escorado em uma viga do celeiro, segurando uma xícara com um fraco rastro de fumaça exalando de dentro dela.

— Depois do café da manhã, nós dois vamos conversar.

Clint disse, então se desencostou da viga e saiu do celeiro.

Notas finais
Ambas as cenas da chuva e do Clint falando com o Visão que iriam conversar já estavam em construção há um bom tempo. Embora o diálogo na chuva tenha fugido do que eu pretendia originalmente (eu esqueci como seria o diálogo!), uma coisa não mudou: Wanda dizendo ao Visão que queria que ele soubesse que ela o ama :3 Gente, eu não vou me cansar de dizer que a Vanilla tem histórias chamadas Haven e Keep Me que são MARAVILHOSAS. E, apesar de Keep Me ser um pouquinho (bastantinho) angustiante em certos momentos, as duas histórias são incríveis e reconfortantes! Não esqueçam de dar uma passada por lá! Um beijão para todo mundo e em breve volto com mais capítulos! ^_^