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45 Perfect Life
Ele jogou a bola com força na tentativa de seu irmão não a pegar, o que não aconteceu.
— Bela jogada. — Seu irmão disse com um sorriso de quem entendeu a intenção do caçula. — Talvez na próxima você consiga.
— Vai logo, Cooper! Joga logo! — Exclamou o menor.
— Meninos! Para dentro!
Sua mãe ordenou da porta de casa.
— Só mais dez minutos, mãe! — Pediu o garoto, virando-se para ela.
— Dez minutos. E chamem sua irmã para entrar.
Laura voltou para dentro da casa e subiu para o segundo andar carregando consigo um cesto de roupas limpas e secas. Adentrou o quarto de seu filho mais velho, estava um pouco desorganizado, típico dele. Guardou suas meias e cuecas nas gavetas da cômoda, e camisetas e calças no guarda-roupas. Saiu do quarto, parando na porta do quarto de sua filha para fitar a porta fechada do cômodo no final do corredor, há tempos abandonado.
A mulher balançou a cabeça levemente e continuou com seu trabalho, guardando as roupas da filha e depois do seu filho caçula. Por fim, deixou o cesto com somente suas roupas e de seu marido sobre a cama do casal em seu próprio quarto.
Um pensamento incômodo não saía de sua mente. Era como uma vozinha em sua cabeça, bem baixa, chamando sua atenção para algo que ela não sabia o que. Bem, talvez ela soubesse.
Deixou seu quarto para seguir até o final do corredor, naquela porta fechada do cômodo abandonado. Com um suspiro, girou a maçaneta e viu pela primeira vez o interior do quarto dos gêmeos, intocado há anos.
Parou por um momento na soleira da porta, dando uma boa olhada através da penumbra. Deu os primeiros passos devagar, como se estivesse entrando em um lugar desconhecido pela primeira vez. Ficou surpresa ao respirar fundo e, junto com a poeira e o ar abafado, sentir, ainda que fraco, um cheiro familiar. Dos gêmeos.
Atravessou a distância até a parede oposta e abriu a única janela no meio da parede, a primeira vez que aquela sala era iluminada com luz natural durante uma década. Apenas em uma ou duas ocasiões aquele quarto foi aberto, rapidamente, para logo ser trancado outra vez e assim permanecer.
Apesar da luz do sol já estar enfraquecendo pela proximidade do fim da tarde, ainda alguns raios amarelados iluminavam o lugar. Observou as duas camas, uma em cada lado da janela, cobertas por um lençol branco. Entre elas, sob a janela, uma mesa de cabeceira com somente um porta-retratos com a foto de um casal e duas crianças, a família Maximoff, uma das duas fotos que sobreviveram ao bombardeio de seu prédio em Sokovia.
Do outro lado da cama do falecido rapaz, que ficava do lado esquerdo da janela, outra mesa de cabeceira, sobre a qual havia um abajur e uma pilha de DVDs, presente dela e seu marido Clint para animarem os gêmeos, também havia uma televisão mais antiga e um DVD player próximos à parede, ainda do lado dele.
Já do outro lado da cama da gêmea, que ficava do lado direito da janela, também uma mesa de cabeceira com um abajur e outro porta-retratos contendo a foto de dois adolescentes Maximoff, junto do porta-retratos, posto pelo lado de fora cobrindo parcialmente a foto, a outra pequena foto sobrevivente, apenas de um Pietro um pouco mais velho que um bebê, colocada ali por sua irmã após sua morte. Ainda havia um violão no canto do quarto do lado dela.
Olhou rapidamente o guarda-roupas compartilhado pelos dois jovens irmãos, disposto no canto oposto da porta do quarto, com a lateral adjacente a parede da porta. Uma cômoda com um espelho estava junto a parede, de frente para as camas. O quarto não era muito grande, porém parecia enorme sem as duas pessoas que costumavam dormir ali.
Laura sentou na beirada da cama de Pietro, sentindo as lágrimas querendo surgir quando tocou em seu travesseiro. Ela nunca poderia esquecer aquele sorriso convencido quando ele passava por Clint correndo, dizendo sua típica frase “Não me viu chegando?”, fazendo seu marido ficar com uma carranca, apesar de, no fundo, ele adorar ouvir o rapaz dizendo isso, era a piada interna dos dois. Pietro sempre foi muito protetor com seus irmãos. Como esquecer dele lembrando que era doze minutos mais velho que sua irmã gêmea?
Wanda.
Laura olhou para a cama de sua filha. Intocada, como a garota deixara há dez anos. Aquele dia em que Wanda nunca desceu para tomar café da manhã. Que nunca respondeu quando seu pai a chamou. O dia em que apenas um pequeno bilhete escrito “Desculpe” foi encontrado sobre seu travesseiro. Aquele dia.
O som de passos correndo e vozes no andar de baixo chamou sua atenção. Ouviu seu marido dizer para seus filhos irem tomar banho, sua voz mais próxima enquanto ele subia as escadas.
— Amor?
— Aqui. — Laura limpou uma lágrima que ela nem sentiu escapar de seu olho.
Clint surgiu na porta, expressão levemente cabisbaixa. Seus olhos vagaram brevemente pelo local, um nó se formou em sua garganta quando sua visão recaiu sobre a mão de sua esposa ainda sobre o travesseiro que pertencia ao seu filho.
— Você está bem? — Ele perguntou a ela, tentando ao máximo desfazer a garganta embargada.
Ela balançou a cabeça afirmativamente.
— Apenas recordando. — O silêncio reinou por um tempo, até ser quebrado por ela. — Depois de dez anos, eu achei que havia superado. Então entrei no quarto deles e... percebi que não. — Uma pausa para evitar com sucesso que mais lágrimas caíssem. — Nunca superei, caso contrário, eu teria entrado aqui antes.
Ela levantou o olhar para seu marido, que a olhava claramente triste.
— Acho que eu também não. — Ele afirmou.
Pela primeira vez eles estavam falando sobre o assunto. Nunca esqueceram Pietro, nem sua morte.
Era como algo combinado sem ser dito. Na data de seu aniversário, Laura cozinhava os pratos favoritos dele ou às vezes apenas fazia um bolo, Nathaniel insistindo em cantar parabéns algumas vezes, pois sabia quem era o salvador de seu pai. Já Clint sempre propunha aos filhos uma corrida à tarde, e o trio adorava vencer “o coroa”, e à noite todos sentariam na sala para ouvir músicas já conhecidas e repetidas todos os anos.
Na data de sua morte, Laura sempre vestia uma peça de roupa azul, cor que seu filho mais usava. Naquele dia, ninguém assistia televisão ou saía da fazenda, geralmente tomavam um chá à noite em completo silêncio após observarem, ao lado de fora da casa, as estrelas despontarem no céu.
Em dias de chuva, a corrida era substituída, excepcionalmente, por algum canal de séries antigas na TV, e a observação do céu noturno se tornava em observação à chuva, embora Clint ainda saísse de casa apenas para estar do lado de fora naquela data, não se importando em ficar completamente molhado.
Eram atos singelos, pequenos, porém significativos. Entretanto, em nenhum momento falavam sobre sua morte, o luto ou qualquer coisa relacionada a isso.
Clint adentrou o quarto, vagarosamente, quase timidamente, mãos nos bolsos e cabeça abaixada. Sentou-se ao lado de sua esposa e segurou em sua mão que estava sobre sua perna. Um suspiro precedeu seu silêncio.
— Há algo errado. — Ela disse em tom baixo e sereno ao sentir a tensão de seu toque, olhando para ele com atenção. — O que aconteceu?
Ele se manteve olhando para o chão e suspirou antes de responder:
— Não... Eu... Não, eu não sei... — Ele fez uma breve pausa. — Nós finalmente temos tudo o que queríamos. Casamento, casa, filhos... Mas sei lá. Temos a vida perfeita. — Outra pausa e ele olhou para ela. — Então por que eu sinto que está incompleta?
Foi a vez de Laura suspirar. Seu olhar era compreensivo, transmitia calmaria.
— Nós finalmente alcançamos o que considerávamos “vida perfeita” antes da Wanda e do Pietro. — Levou um segundo para continuar, os nomes dos gêmeos sendo proferidos depois de tanto tempo. — Mas agora, depois que conseguimos tudo o que queríamos, depois deles, percebemos que a definição de “vida perfeita” mudou. — Ela apertou sua mão e lhe deu um sorriso fraco. — É por isso que ainda parece incompleta.
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