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47 On The Floor Below
Notas iniciais
Quando entraram na casa dos Barton, Wanda se sentiu nada menos que uma criança assustada, com medo de levar uma bronca por ter fugido de casa.
Ela pareceu se encolher ao lado de Visão, abraçando firmemente David pelas costas com um braço e segurando na mãozinha de Tommy com mais força que o normal, mas não o suficiente para machucar.
Parados, na sala de estar, os Barton sorriam. Era como se estivessem maravilhados em observar um ídolo ou uma majestosa deusa, inalcançável e intocável.
Em verdade, estavam sim felizes, não por verem um ídolo nem uma deusa, mas por verem a filha e irmã que partira e só voltara após dez anos.
— Eu preparei o jantar. — Laura disse, tentando quebrar o gelo, sem conseguir parar de sorrir. — Bem, na verdade eu só tive quinze minutos antes de saber que vocês chegariam... Então eu improvisei.
O cheiro de ovos, bacon e torradas preenchia o ar. Era café da manhã.
— Não se acanhem. — Clint disse, talvez ele próprio estivesse um pouco acanhado de interagir novamente com Wanda, mesmo querendo.
Nenhum movimento foi feito pela família.
Natasha sentia o desconforto dos dois adultos e das cinco crianças pairando na atmosfera.
Após alguns instantes parados, os mais novos, Tommy e Billy, com seus desejos ainda incontroláveis da tenra idade, pareciam ansiosos para jantar.
Tommy olhou para a mãe, puxando levemente sua mão. Billy olhou para seu pai, olhinhos arregalados e um sorriso no rosto. Eles estavam com fome.
— Obrigado. — Visão disse finalmente, dando a Laura e a Clint um sorriso singelo antes de gentilmente guiar Lizzie e Soph, que seguravam cada uma em uma mão sua, para frente em direção a mesa.
Wanda, parecendo aliviada por Visão dar o primeiro passo, seguiu-o junto dos meninos.
Cada um tomou um lugar na mesa, ocupando todas as cadeiras. Wanda em uma ponta, Visão na outra, seus filhos no meio.
Exceto David, as crianças começaram a devorar a comida avidamente. Wanda e Visão, não.
Apesar de estarem com fome, parecia que a comida poderia não descer pela garganta. Haviam muitas coisas em suas cabeças, e isso deixava seus estômagos embrulhados, mesmo em frente a um banquete muito cheiroso e apetitoso.
Além disso, os olhares sobre eles eram deveras desconfortáveis.
David cutucou a comida. Não que ele não gostasse do cheiro ou da aparência, mas sim a escolha de refeição para o jantar.
Ele olhou para sua mãe, que observava os seus irmãos com olhar cabisbaixo.
— Mãe. — Ele a chamou, então se inclinou para se aproximar mais dela, visto que estava sentado ao lado dela, e sussurrou. — Café da manhã no jantar?
Ela sorriu. Um pequeno sorriso de graça e balançou a cabeça afirmativamente, como se dissesse "Não é usual, mas é seguro comer".
Então o garoto comeu, lentamente, sua janta.
Clint, Laura, Cooper e Lila pareciam ansiosos para que aquela família comesse, mas Nate estava muito ansioso para que eles terminassem logo, pois assim ele poderia brincar com seus novos amigos.
Isso não seria possível, entretanto, ao menos não no lado de fora. Uma chuva iniciou timidamente até parecer uma cachoeira lá fora.
Natasha olhou através da janela; muita chuva para voltarem para... qualquer lugar. Isso é bom. Hora de encarar o que deve ser encarado, sem fugir.
Bruce estava distraído, pensando que provavelmente era o que menos tinha alguma coisa a ver ali. Era só o "médico da família", enquanto todos os outros eram família.
Steve se sentiu incomodado. Sabia que todos os olhares sobre as pessoas sentadas à mesa provavelmente eram intimidadores, por isso desviou o olhar para o chão enquanto mantinha os braços cruzados.
E Tony, ele se perguntava mentalmente quando iam oferecer o jantar para ele também e quando poderia subir, tomar um banho e deitar em uma cama para descansar após a viagem.
Laura saiu de onde estava e foi animada até a mesa, passando por Wanda e parando entre ela e Tommy. Pegou a jarra com suco de laranja e serviu o copo do garoto, acariciando seus cabelos loiros no processo. Ela realmente não conseguia esconder o sorriso em seu rosto.
— Obrigado. — Ele disse.
E ela sentiu seu coração derreter.
Ele disse "obrigado". Aquele garotinho agradeceu. Era algo tão simples, mas extremamente significativo. Aquele garotinho, filho da sua filha, falou com ela.
Laura não pode, e não quis, parar de pensar que essas crianças lembravam muito Wanda. E ao mesmo tempo, ao menos fisicamente, lembravam muito o Visão.
— De nada. — Laura falou, em seguida serviu o copo de Wanda também, a qual a encarava calmamente.
— Obrigada. — A moça disse à senhora Barton.
Deus! Ela disse "obrigada". Ela falou e notou sua presença.
Talvez, e apenas talvez, Wanda ainda seja um pouco aquela garotinha que chegara à casa dos Barton aos catorze anos de idade, junto de seu irmão gêmeo.
— De nada. — Laura disse, mais feliz que antes, e serviu todos os copos dos demais.
O resto do jantar se seguiu em silêncio; Wanda e Visão conseguiram mordiscar alguma coisa ou outra. Então, finalmente foram para um banho enquanto os outros – Natasha, Tony, Bruce e Steve – jantavam.
Após cada criança tomar banho, e enfim os adultos, era hora de dormir.
A fatídica hora de dormir.
"Fatídica" porque Wanda estava indo dormir em seu antigo quarto.
Laura e Clint disseram que poderiam dormir no quarto de Cooper ou de Lila, mas ela recusou.
Ela precisava entrar lá.
— Certeza? — Visão perguntou sussurrando, e Wanda assentiu com a cabeça.
A porta foi aberta. Wanda deu um passo tímido em frente, seus filhos a rodeando, confusos, mas sabendo que sua mãe tinha que ser a primeira a entrar.
Visão acendeu a luz e as lembranças vieram genuinamente velozes.
Como se Pietro tivesse passado correndo por ela.
Não me viu chegando?
Wanda sorriu com o pensamento. Um sorriso triste. Um sorriso de dor. Mas, acima de tudo, um sorriso de amor.
Ela adentrou mais a fundo o quarto e eles se prepararam para dormir, com cautela, sem pressa, não precisavam mais correr.
E pouco a pouco, Wanda foi relembrando das manhãs acordando Pietro na cama ao lado, nas tardes em que ele a arrastava para fora do quarto em um dia de sol e nas noites dormidas com a certeza de que veria os cabelos platinados de seu irmão na manhã seguinte.
Mas depois que as crianças dormiram – um colchão reserva colocado no chão seria dividido pelos mais velhos, enquanto Wanda dormiria com Tommy na cama que era de Pietro, e Visão dormiria com Billy na que era de sua noiva –, Visão desceu as escadas até o andar de baixo para buscar um copo com água. E ainda não havia voltado.
Então, delicadamente, Wanda se desenlaçou de Tommy e saiu do quarto, com cuidado para não acordar ninguém enquanto atravessava o corredor e...
— O que ela tem feito, tudo parece muito... impulsivo.
Ela ouviu vozes no andar de baixo, uma voz feminina primeiro, Natasha.
Parou no topo da escada e sentou no primeiro degrau.
— Como assim? O que quer dizer?
Era a voz de Visão.
— Visão... Não me leve a mal. — Era Bruce. — Mas em Portland Wanda me procurou muito agitada, querendo falar com você... Sabe... O que eu quero dizer é que ela está...
Ele pareceu se interromper.
— Impulsiva.
Tony completou a frase de Bruce.
— Ela está assustada. — Soou a voz de Steve, calma.
— Assustada ou não, ela tem cometido muitas falhas. — Natasha rebateu.
— Falhas? Ela e as crianças dormiram na rua. — Tony retrucou.
— Em uma lanchonete.
— Oh, lanchonete. Me desculpe. Você tem razão, é menos pior. Ela dormiu no chão sujo de uma lanchonete desconhecida.
— Tony.
A voz de Visão repreendendo seu irmão soou firme.
— O que vocês estão querendo dizer, exatamente? — Era Clint perguntando. — Que Wanda não está bem?
— É... é isso. — Steve que respondeu.
— E que ela... — Era Bruce de novo, e de novo se interrompeu.
— E que ela...? — Clint pareceu perguntar.
Houve silêncio.
— As crianças... bem. Ela não tem exatamente cuidado direito delas, não?
— O que... — A voz de Visão pareceu cortada. — Wanda não é uma mãe relapsa.
— Não dissemos que ela é uma mãe relapsa. — Natasha contrariou.
Wanda sentiu seu coração apertar.
A casa pareceu quente demais.
As paredes pareciam grandes demais.
O corredor pareceu estreito demais.
A escada parecia nauseante demais.
O silêncio no andar debaixo parecia muito extenso.
E as vozes voltaram. Mas Wanda não conseguia entender direito o que diziam, parecia um murmúrio.
Ela precisava sair dali.
Pé por pé, ela desceu as escadas torcendo para que os degraus não rangessem.
Ela foi direto até a porta e muito devagar a abriu, saindo para um ar frio e uma chuva torrencial no lado de fora.
Pensou não ter sido notada, mas não percebeu que Visão a viu saindo.
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