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19 Non-stop Flight
Há momentos na vida em que o tempo parece nunca passar, os ponteiros do relógio parecem estagnados, talvez até mesmo parecem voltar segundo por segundo, lentamente. E há momentos em que você pisca e o tempo acabou.
Quando Wanda abriu os olhos nessa manhã após adormecer junto a Visão no sofá do apartamento temporário, parecia que ainda teria muito tempo em Portland. Somente à noite, quando embarcou no jato particular com outras catorze pessoas, deu-se conta de que seu tempo na costa oeste se esgotara.
Natasha resolvera a questão dos apartamentos alugados – tanto de Wanda, quanto os de Bruce e Sam. Nick Fury já encaminhara todos os documentos para a rescisão do contrato de matrícula escolar das crianças. Carol cuidou de arranjar o jato particular com uma ajuda muito especial de alguém no leste do país. Thor ficou encarregado de levar as roupas, brinquedos e demais objetos para a doação; Wanda e Visão só mantiveram meia dúzia de roupas de cada um e das crianças, bem como alguns pertences essenciais, os brinquedos mais amados pelo quinteto e o álbum de fotografias que o casal tanto prezava, demais objetos, como os pratos que Wanda fizera questão de carregar em uma caixa quando foram expulsos de casa, ficaram para trás.
E assim, quando percebeu, já estava confortavelmente acomodada em uma poltrona a quarenta e seis mil pés de altura, sobrevoando as luzes da civilização piscando sob a aeronave em meio a escuridão noturna.
O jato era muito confortável. Ao entrar, encontra-se a cozinha. Da porta de entrada, à esquerda está a cabine de comando, à direita o banheiro. Transpassando entre o banheiro e parte final da cozinha, há uma porta que separa esses ambientes dos assentos dos passageiros.
À esquerda, Sam estava sentado com sua muleta ao lado, impedido de ser o copiloto de Carol por estar machucado, sendo obrigado a ceder tal posição a Rhodes. À direita, Bucky extremamente cansado da viagem de volta de Las Vegas, dormindo profundamente. Sentado à sua frente, Bruce, que lia algo em seu notebook. De frente para Sam, Nick Fury jogava paciência pacientemente. Na poltrona de costas para a sua, Wanda distraidamente olhava pela janela, sendo admirada por Visão sentado à sua frente. Na poltrona ao lado da do loiro, separada pelo corredor, Thor limpava sua arma, assim como Natasha que estava sentada de frente para ele. Às costas de Thor, havia uma poltrona e outra de frente para esta. As cinco crianças, porém, dormiam no sofá transformado em cama do lado das poltronas vazias, novamente abraçadas umas às outras.
O lugar estava muito silencioso. Ninguém falava nada, as luzes estavam baixas para não atrapalharem o sono das crianças e de quem mais quisesse dormir, não havia turbulência, mal pareciam estar planando no ar.
Visão suspirou e finalmente desviou seu olhar da figura hipnótica de sua amada noiva para observar o homem sentado ao seu lado esquerdo. Thor remontava sua arma agilmente, porém era delicado ao manuseá-la.
— Desculpe. — Disse Visão, chamando a atenção do outro homem. — Mas eu tenho que perguntar.
— Fale, meu amigo. — Thor lhe deu permissão, alternando seu olhar entre Visão e sua arma.
— Qual é o seu nome? Seu verdadeiro nome?
O Capitão sorriu de lado e deu-lhe um olhar divertido, como se sempre ouvisse essa pergunta.
— Thor. — Ele respondeu simplesmente.
— Thor, Thor? O Deus do Trovão?
— Sim. — Ele terminou de remontar sua arma e pôs-se a carregá-la.
— Algum motivo especial para ser nomeado como um deus nórdico?
Thor deu de ombros.
— Eu sou um deus nórdico.
Visão deu uma pequena risada achando que se tratava de uma piada, porém Thor permaneceu sem esboçar graça.
— Sério? Então seu sobrenome é Odinson?
— Sim, e meu irmão se chama Loki e esse é meu Mjölnir. — Ele balançou levemente a arma no ar.
Visão manteve um sorriso no rosto.
— Desculpe pela pergunta, é que seu nome é muito... incomum.
— E “Visão” é comum? — A pergunta retórica de Thor fez Natasha rir baixo enquanto também finalizava a limpeza de sua pistola. — Qual é a sua história? Por que “Visão”? — Ele terminou de arrumar sua arma e colocou-a em seu coldre, virando-se o máximo que podia em sua poltrona para conversando olhando para seu interlocutor.
— Bem, eu não sou um deus, obviamente. — O comentário arrancou um pequeno sorriso dos lábios de Wanda, que agora observava Visão. — Na verdade, meu nome foi uma aposta. Meu pai achava que, como já tinha um filho menino, estava na hora de ter uma menina, e meu irmão, tinha nove anos quando eu nasci, ele dizia que seria um menino. Então eles apostaram, o vencedor escolhia o nome. Já sabem o resultado. — Thor sorriu com o comentário. — No dia do meu nascimento, minha mãe estava na sala de parto e meu pai e meu irmão estavam na sala de espera. Meu pai estava muito impaciente, andando de um lado para o outro, meu irmão sempre lembrava disso. E na sala de espera tinha uma televisão num canto em cima de uma mesinha.
— Não acredito. Seu irmão te deu o nome por causa de uma televisão? — Thor interveio com curiosidade e descrença.
— Mais ou menos. Em vez de ele sentar em uma das cadeiras, ele sentou no chão bem junto da televisão. Além de sentar no chão de um hospital não ser uma boa ideia, sentar muito perto de televisões daquela época poderia prejudicar a vista.
— Estou entendendo...
— E aí, meu pai, ansioso e nervoso com o meu conturbado nascimento, começou a gritar para o meu irmão “Cuidado com a visão! Cuidado com a visão!” — Thor gargalhou não muito alto. — E meu irmão, só para provocar, disse que se ele ganhasse a aposta, seu irmão se chamaria “Visão”. Obviamente, ele venceu a aposta. E nosso pai levou a sério o que ele disse e registrou meu nome como “Visão”.
— Ok... ok... Isso não era o que eu esperava. — Dizia Thor, rindo enquanto falava.
— E sua mãe concordou? — Perguntou Natasha, um sorriso de graça estampado em seu rosto.
— Ela ficou irritada no início, mas acabou cedendo porque meu pai e meu irmão não paravam de rir disso.
— Deve ter sido difícil na escola. — Proferiu Wanda com voz calma e um sorriso sereno nos lábios, recostada na poltrona.
— Digamos que eu não era muito popular... ou era pelo motivo não muito agradável.
Wanda passou seu olhar entre os colegas de voo, notando como a conversa pareceu amenizar um pouco mais o clima.
Era insano pensar que todas as pessoas nesse voo estavam ali para ajudar ela e seus filhos. Ela nunca pediu a ajuda deles, nunca. E mesmo assim, eles estavam ali. Eles a seguiram até Portland e agora estavam a levando para longe de lá, para um novo lugar seguro.
Antes que acabasse por dormir com esse pensamento estranhamente reconfortante, decidiu ir à cozinha buscar algo para beber. Levantou-se da poltrona e atravessou os assentos dos demais passageiros, chegando à cozinha, área comum em que se encontravam o banheiro, a porta de entrada e a porta da cabine de comando.
Retirou de uma pequena geladeira uma garrafa de água e, antes que pudesse voltar à sua poltrona, Rhodes saiu da cabine de comando e a cumprimentou.
— Oi. — Ela disse de volta. Hesitou por um momento antes de voltar-se para ele mais uma vez. — Rhodey. — Ele a olhou enquanto pegava duas garrafas de água e um pacote de alguma comida industrializada. — Eu só queria agradecer pelo que fez. Portland, Seattle... não precisava e nem devia ter ido tão longe por nós.
Dessa vez foi Rhodes quem hesitou, parando de frente para ela, rapidamente focando o chão antes de encará-la.
— Wanda, eu não vou mentir, no início eu não fiz isso por vocês. — Ele começou, voz branda apesar de séria. — Eu fiz isso porque Tony me pediu. Então, pela nossa amizade, eu vim ajudar o irmão dele. — O olhar dela pareceu cair e até mesmo apresentar um pouco do que parecia culpa. — Mas ei. — Ele movimentou a mão em sua direção para chamar sua atenção. — Isso foi no início. Eu ainda não conhecia pelo que a garota da máfia estava lutando. — Ele lhe deu um sorriso de conforto, fazendo a culpa que Wanda sentia se dissipar minimamente. — Vou voltar para a cabine, estou quase convencendo a Capitã a me deixar pilotar.
Ambos riram e Rhodes voltou para seu lugar, deixando Wanda pensando sobre o que ele acabara de falar.
James Rhodes era amigo de Tony Stark. Visão não era exatamente seu Stark favorito, já que quase o aleijou acidentalmente em outros tempos, mas ainda era o irmãozinho de Tony. Foi uma surpresa ele se juntar a Sam, Bruce e Bucky em relação a Portland, mas no final, ele se tornou um bom companheiro de equipe, um amigo.
“Garota da máfia”. Quem que começou com esse apelido?
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