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20 Big Apple
O carro parou bruscamente junto ao meio fio.
— Mas que... — Proferiu uma mulher com o rosto para fora do carro, sentada atrás do volante.
Um homem sino-americano saiu do veículo e correu até eles. Wanda não resistiu mais e deixou que Visão retirasse delicadamente seus bebês de seu colo, entregando um a um ao outro homem, aparentemente amigo de Visão, para que ele os levasse para o carro.
Visão prontamente pegou Wanda no colo, ela choramingava e gemia baixo, estava suando frio, sua pele muito gelada. Suas mãos estavam em sua barriga, segurando-a protetoramente. O loiro a levou para dentro do carro, no banco de trás, encostada contra a outra porta, e entrou em seguida, sentando junto de seus pés de frente para ela.
O choro dos bebês tornava tudo muito enérgico, agitado. Os dois sentados na frente viraram-se para os encarar, o homem sino-americano segurando espantado os dois pequeninos.
— Certo... para o hospital? — Perguntou a mulher de cabelo escuro e pele branca.
— Não, de volta para o hotel. — Visão ordenou antes de Wanda gemer alto mais uma vez, perdendo o fôlego no final. — Tudo bem, apenas respire. — Ele disse a ela, que o olhou com expressão aterrorizada.
A motorista pôs o carro em movimento e isso só piorou muito as contrações de Wanda.
— Eu... — Ela deu um curto e baixo grito.
Levou sua mão para entre suas pernas e trouxe-a para cima novamente para avaliar quanto de sangue havia perdido. Muito. Muito sangue. Mais um grito, dessa vez mais alto. Uma pontada aguda em seu útero, era como uma faca a perfurando e rasgando.
— Eu acho que...
— Tem certeza que não quer ir a um hospital? — Indagou o homem no banco da frente, interrompendo Visão, sua voz ligeiramente nervosa.
— Acho que está na hora de você começar a empurrar. — Visão ignorou o amigo e sugeriu à Wanda. Ele estava esmagado contra a outra porta para que ela tivesse espaço para esticar ao menos um pouco as pernas, que não ficaram bem esticadas, mas um pouco abertas. — Você vai ficar bem, seu bebê vai ficar bem. Você só precisa empurrar. — Ele dizia com voz calma. Delicadamente, sob o olhar atento de Wanda, ele retirou sua calcinha encharcada de sangue e a colocou num canto. — Pronta?
— Não... — Wanda choramingou, as lágrimas ainda escorrendo por suas bochechas e misturando-se com o suor. — Eu não consigo.
— Tudo bem, você consegue. — Ele alcançou sua mão e apertou-a gentilmente. — Vamos lá... Um, dois, três, empurre.
Sem pensar, Wanda seguiu sua ordem, forçando seu interior a trabalhar. Mais gritos, mais lágrimas, mais choro de seus dois outros bebês.
A mulher que dirigia permaneceu em uma velocidade constante para não fazer paradas bruscas, já que havia um parto em andamento no banco de trás.
Wanda empurrou mais uma vez, ficando sem forças quando não conseguiu mais manter o ritmo, e recostou-se na porta. Seus olhos quiseram se fechar, por pouco não fizeram. Então novamente a dor atravessou seu ventre e era como se uma garra estivesse a rasgando por dentro. Seu bebê se mexia, porém a sensação era de que ele também estava desfalecendo.
Ela fechou os olhos, sentindo além da dor por um momento. Uma mão quente sobre sua barriga, outra mão segurando na sua. Respirou fundo e fez o máximo de força que conseguia, por um tempo que pareceu absurdamente longo até que...
Um terceiro choro de bebê, mais baixo, preencheu o interior do carro.
Completamente exausta, encostada na porta, cabelos grudados em seu rosto, Wanda lentamente abriu os olhos, um sorriso surgindo em seus lábios quando viu o pequeno ser humano nos braços daquele desconhecido chamado Visão.
— Floreio. — Ele disse num suspiro, olhos arregalados, um sorriso tímido crescendo em seu rosto.
Ele a olhou diretamente nos olhos, apesar da penumbra do veículo. Com muito cuidado, ele colocou a recém-nascida em seus braços, um pouco ensanguentada. Ela era minúscula, parecia extremamente frágil, mas respirava, chorava, estava viva e parecia bem.
Wanda sentiu alguém tocar seu ombro. Deixou a vista da enorme janela e virou-se para ver Visão sorrindo levemente para ela.
— Você está bem? — Ele perguntou, sua mão subindo para acariciar sua bochecha. Ela se reclinou em seu toque e sorriu.
— Sim. — Respondeu em tom baixo. — Ultimamente estou tendo muitas lembranças.
— Lembranças ruins? — Ele se aproximou, seu semblante se tornando preocupado.
— Algumas, outras não. Continuo lembrando de quando nos conhecemos... Edimburgo, o nascimento da Lizzie... — Um suspirou escapou por entre seus lábios antes de sua atenção ser atraída ao quinteto que pulava em suas camas na parte de cima do loft. — Eu acho que gostaram.
Visão afastou sua mão e olhou em direção aos seus filhos, sorrindo com a cena. Eles riam com seus walkie-talkies em mãos, pulavam nas camas – o que em outras ocasiões eles seriam advertidos por isso, porém dessa vez estava liberado – e falavam todos ao mesmo tempo, sendo quase impossível entender o que diziam.
— Bom. Espero que não tenham problemas para dormirem ali. — Visão proferiu, virando-se para Wanda em seguida. — Fiquei pensando se deveriam dormir em beliches ou não, o espaço diminuto exige isso, porém eles ainda não têm a idade ideal para dormirem nesse tipo de cama. Também achei que a escada poderia ser um perigo, mas acredito que nenhum deles seja sonâmbulo. Poderíamos ter uma babá eletrônica para caso algum deles precise de nós durante a noite, apesar de não serem mais bebês. Pensei que talvez Tommy e Billy pudessem sentir medo... talvez a babá eletrônica seja uma boa opção. Também comprei camas com essas proteções laterais para que não caiam delas durante o sono, e também...
— Vis. — Wanda o calou com um rápido beijo em seus lábios. — Eles vão ficar bem. Adoraram o quarto. — Ele não disse mais nada, apenas sorriu para ela. — E eu amei o nosso. — Ela sussurrou, suas palavras carregando um significado um pouco além da mera apreciação.
Apesar da vontade luxuriosa de agarrá-lo e beijá-lo, o coração de Wanda logo ficou apertado novamente quando tornou a olhar através da janela para os edifícios de Manhattan. Uma sensação estranha na boca do estômago, um sentimento hostil, algo desconfortável, talvez até mesmo opressor. As lembranças que aquela cidade lhe trazia, mesmo com algumas poucas boas, as desagradáveis preponderavam.
A única coisa que poderia lhe trazer algum conforto seria o abraço de Visão. Como se ele tivesse lido sua mente, seus braços envolveram seu corpo e ele a apertou gentilmente, sua respiração quente fez cócegas em seu pescoço e sua pele formigou com a deliciosa sensação de seus lábios sobre ela.
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