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21 Edinburgh


— O que há de errado?

Ele suspirou, a pergunta de seu amigo sendo a abertura necessária para o desabafo.

— Que... Eu só... — As palavras não saiam.

O trio o encarava preocupado. Por um momento, pareceu que ele iria chorar, seus olhos inclusive se encheram de lágrimas. Ele estava sufocando, literalmente, o ar estava preso em seus pulmões. Seu coração parecia querer sair pela garganta, talvez fosse a origem do nó que impedia sua fala.

— Visão, o que está acontecendo? — Perguntou sua amiga, claramente tentando compreender a situação em que o loiro se encontrava.

— Eu não quero mais.

Seus amigos, um homem sino-americano, uma mulher branca de cabelo preto e batom vermelho, e uma mulher negra com cachos proeminentes, entreolharam-se rapidamente, a confusão e preocupação expressa em suas faces, antes de focarem no amigo sentado em sua frente, cabisbaixo.

— Você não quer... o que, exatamente? — Sua outra amiga, a de batom vermelho, questionou.

Visão expirou e inspirou lentamente antes de responder:

— Minha vida inteira eu tive absolutamente tudo. Família. Dinheiro. Tive as melhores roupas, os melhores brinquedos, frequentei as melhores escolas, estudei nas melhores universidades, me formei, tenho um cargo garantido na empresa da minha família, tenho um salário garantido, casa, carro, tudo que eu possa querer, eu tenho. — Ele fez uma pausa, seu coração apertando em seu peito. — E mesmo tendo tudo isso, não é nada do que eu queria. Ou melhor, não é a única coisa que eu sempre quis.

— Que seria...? — Seu amigo indagou.

— Por todos esses anos, eu não sabia o que era. O que faltava. — Tornou a ficar em silêncio por um breve momento; olhava para o carpete do quarto do hotel. Suspirou profundamente antes de concluir sua fala. — Um propósito. Eu nunca tive um propósito e é o que eu sempre quis. — Ele olhou para os amigos a sua frente, cada um com uma expressão diferente, mas os três o olhando. — Preciso sair.

Sem que seus amigos tivessem a oportunidade de proferirem qualquer coisa, Visão pegou seu sobretudo e saiu porta afora.

O caminho entre seu quarto de hotel e a calçada de pedras do outro lado da rua foi como se nunca tivesse feito parte de sua memória. Somente se forçasse sua mente, ele lembraria que desceu pelo elevador na companhia de um casal muito bem vestido, atravessou o salão de entrada com o piso encerado reluzente e cruzou a porta de saída ouvindo um educado “Boa noite, senhor” do porteiro; porém, a única coisa que não teria certeza era se olhou para os lados antes de atravessar a rua, certificando-se de que era seguro fazer a travessia.

Sinceramente, ele não se importava.

Deixou que seus pés o guiassem pelas ruas movimentadas do centro de Edimburgo. De cabeça baixa, desviou de pessoas, seguiu o fluxo de pedestres para cruzar as avenidas e ignorou todos os ruídos exteriores. Se alguém, em algum momento, xingou-o ou repreendeu por atracar-se na frente dos carros ou cortar o caminho de alguém, ele não ouviu.

Em determinado momento da noite, ele percebeu que estava sentado em um banco no meio de uma área arborizada, sendo a única alma viva no local. Estava tão absorto nas lembranças de sua vida tão perfeita que não notou como seu peito parecia rasgar e novamente estava sufocando.

Sufocando.

Com cada letra, na forma mais literal, sufocando.

Sua garganta doeu e seus olhos queimaram quando as lágrimas pingaram deles; inicialmente como navalhas cortando sua pele por dentro, depois como uma suave chuva lavando seu rosto.

Ele chorou ali mesmo, sem censura, embora silenciosamente. Deixou que esse sentimento opressor que lhe afligia fosse parcialmente liberado.

Ele tinha tudo, mas mesmo assim não era o que ele queria, e por isso chorava.

Ele tinha tudo, mas mesmo assim não estava contente, e por isso chorava.

Uma sensação de sufocamento por não ter a única coisa que sempre desejou misturado com o sentimento de vergonha e egoísmo por desejar mais do que já possui, que é muito além do que muitos têm.

Sufocado por seu desejo.

Ele só queria um propósito, apenas isso. Não mais dinheiro, não mais bens materiais, nem oportunidades de conhecer pessoas de elite. Apenas um propósito. Queria ser algo além de um androide projetado pelo ambiente em que viveu, como se sentia desde sempre.

Queria desejar fazer algo tão puramente pelo prazer que seria o fazer. Queria suportar as maiores das mazelas da sociedade por um bem maior. Morreria, se fosse necessário, para ajudar e proteger quem precisasse ser ajudado e protegido. Esse era seu desejo. Ajudar. Os outros, não a si mesmo, não para si mesmo.

E, nesse momento, parecia tão incapaz. Inútil.

Esse sentimento de incapacidade e essa sensação de sufocamento o fez chorar por longos minutos, ou horas, ele não sabia ao certo. Tudo o que Visão sabia é que estava quase adormecendo com a cabeça escondida em suas mãos, cotovelos apoiados nos joelhos, seu corpo pendendo para a frente e podendo muito bem cair no chão.

Com enorme esforço, endireitou-se no banco. Não poderia passar a noite na rua de uma cidade que pouco conhecia, principalmente porque seus amigos, como bons amigos que são, ficariam preocupados se ele não voltasse. Por isso, levantou-se com dificuldade, como se um peso o puxasse para baixo.

Limpando os resquícios de lágrimas de seu rosto, pôs-se a caminhar outra vez pelas ruas desertas da capital escocesa. Por sorte, sua mente pareceu se recordar aos poucos do caminho que fizera até chegar ali, seu subconsciente trabalhando.

Subindo uma rua vazia, o sereno cobrindo o chão, ele ouviu o que parecia um miado baixo. Um gato ali perto. O som foi ficando mais alto e menos parecido com um miado, igualando-se a um choro de bebê. Mais de um. Quando se aproximou de uma loja, teve um sobressalto ao avistar uma figura encolhida no chão contra a parede.

— Deus... — A palavra escapou de sua boca, tanto pelo susto quanto pela penosa imagem à sua frente.

Seu peito se aqueceu quando uma mão repousou sobre ele.

Visão olhou para o lado, onde sua bela noiva se encontrava em um leve sono. Ela parecia pacífica, dormindo tranquilamente, apesar das desagradáveis memórias que ele sabia que a enorme cidade de Nova Iorque lhe trazia.

A luz do sol mal adentrava o cômodo pela porta entreaberta, mesmo em seu auge, porém ainda quebrava a escuridão do quarto o suficiente para que o homem pudesse admirar a mulher com quem compartilhava a cama de casal. A única com quem desejou, em toda a sua vida, compartilhar a cama. E muito mais.

Quando ele disse a Wanda, em seu adorável reencontro, que ela havia lhe salvado também, era sincero. Wanda o salvou. Mesmo que ela pense que não, ela foi a reviravolta que Visão precisava. Se eles não tivessem se conhecido... Por Deus! Wanda poderia estar trancada em algum lugar, nas mãos de Strucker, e Visão poderia ter feito... algo... contra si mesmo para encerrar seu sufocamento.

Ela era tudo o que ele precisava. Tudo.

— Eu te amo. — Ele sussurrou.

Sabia que ela não ouviria, mas a necessidade de proferir tais palavras era absurdamente enorme. Seu coração pareceu dançar uma calma melodia, aquecido, até mesmo aliviado.

Wanda se aproximou e o abraçou, ainda dormindo.

Notas finais
Sufocando to eu achando que essa visão não faz jus ao Visão.