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5 In The Park


O sol se escondia no horizonte, deixando nuvens laranjadas e avermelhadas pintando o céu.

Wanda conseguiu pegar dois sacos de roupas, uma dela e outra com as dos gêmeos mais novos, e equilibrou uma caixa no outro braço, contendo o que ela não poderia deixar para trás correndo o risco de ser surrupiado. Ela reorganizou a caixa para que coubessem um prato para cada um, talheres, copos, algumas joias e o mais importante: o álbum de fotografia.

Mesmo que Wanda nunca mais visse seus outros pertences, ela ainda teria o que era essencial. Ordenou que cada um dos três filhos mais velhos reorganizassem um saco de lixo com roupas, brinquedos e materiais escolares. Obviamente não havia muito espaço para tudo e foi extremamente difícil para que escolhessem apenas um ou dois brinquedos, arrancando choro e protestos de todos.

Até Wanda quase deixou lágrimas escaparem, mas ela não poderia chorar na frente dos filhos, isso só pioraria a situação. Como toda mãe e pai, ela precisava ser uma rocha para eles. O incrível e desgastante trabalho de parecer serem feitos de ferro quando, na mais pura verdade, os pais não são. É por isso que muitas vezes é tão excruciante.

Para não demorar muito, eles pegaram os sacos e suas mochilas, ainda fungando e soluçando, e seguiram a mãe que ainda não tinha um rumo para ir.

Wanda estava desnorteada. Não fazia ideia de o que fazer ou para onde ir. Ela deseja que Visão estivesse ali, talvez ele soubesse como controlar a situação. Mas ele não estava e já fazia seis meses em que a decisão estava somente nas mãos dela. Não havia com quem trocar ideias, analisar suas ações, era apenas ela seguindo seus próprios instintos.

Ela já seguia seus próprios instintos antes dele, mas depois dele tornou-se um trabalho mais árduo. Acostumou-se a trabalhar em conjunto, sempre fora assim: primeiro com seu irmão até a morte dele; depois com Strucker até sua fuga; e enfim com Visão até ele precisar se esconder. Agora é só ela. Cinco vidas nas suas mãos. E ela estava perdida.

Caminharam tanto, o céu ficou acinzentado, os postes de luz das ruas iluminando a área residencial. Já haviam se afastado bastante, porém ainda não chegaram ao centro. Wanda não sabia ao certo se deveria ir ao centro com sacos de lixo, uma caixa de papelão e cinco crianças, era muita agitação para que cuidasse de tudo.

Ao chegarem em um parque, a leste de seu bairro, quase no final, os seis se sentaram em um banco, largando os sacos e suas mochilas a sua frente no chão. Haviam algumas crianças brincando e pais os supervisionando, alguns olharam para Wanda e seus filhos, mas não se aproximaram ou disseram nada.

— Podem ir brincar se quiserem. — Wanda sussurrou para os menores.

Quando nenhum de seus irmãos levantou, todos de cabeça baixa, David pegou a mão de Tommy e Billy.

— Vamos. — Ele disse os guiando até os brinquedos, suas duas irmãs os seguindo ainda cabisbaixas.

Wanda soluçou e prendeu a respiração, olhando para cima na tentativa bem-sucedida de não chorar nesse momento. Buscou por seu celular em sua bolsa, foi quando notou que suas mãos estavam tremendo levemente. Sem parar para pensar muito nisso, procurou pelo nome de Agnes na lista de contatos e apertou o botão de chamada, balançando a perna incessantemente para cima e para baixo enquanto ela não atendia.

— Alô?

— Agnes? É a Wanda.

— Sim?

— Eu estava pensando se... talvez se nós pudéssemos...

— Querida, não é uma boa hora.

Ambas ficaram em silêncio. Oh não.

— Agnes...

— Na verdade é uma hora terrível. Duplamente terrível. — Ela deu ênfase em “duplamente”, talvez quisesse indicar alguma coisa. Dois capangas de Strucker? — Está tudo bem, mas você não deve vir aqui. Sinto muito.

E Agnes encerrou a ligação.

A mente de Wanda travou de tantos pensamentos abarrotados.

Primeiro Sam, depois Bruce, agora Agnes. Quem seria o próximo? Não havia mais ninguém na cidade em quem Wanda confiava. Rhodes e Bucky não estavam aqui, não havia para quem mais ligar ou algum lugar para ir.

Ela segurou o celular entre as mãos em seu colo, elas tremiam incontrolavelmente e lágrimas trilhavam por suas bochechas, seus cabelos pendendo de sua cabeça abaixada, cobrindo seu rosto.

Wanda nunca se odiou tanto quanto agora. Ela nunca, nunca, deveria ter voltado a Sokovia e se envolvido com Strucker. Se arrependimento matasse, Wanda já estaria fossilizando há sete palmos do chão.

Qualquer pensamento que estivesse passando por sua mente foi interrompido com David chegando ofegante até sua mochila e procurando por algo dentro dela. Ele retirou sua bombinha de asma e inalou duas vezes, sua respiração regulando-se.

Wanda o olhou preocupada.

— Você está bem? — Ele a olhou com tristeza expressa em seu rosto e assentiu sem sorrir. Wanda abriu os braços o chamando para um abraço e logo ele se aninhou a ela, sentando ao seu lado no banco. — Eu sinto muito. — Ela sussurrou em seus cabelos loiros, as lágrimas escorrendo lentamente.

David ficou abraçado a sua mãe. Não sabia o que estava acontecendo, do porquê terem sido expulsos nem para onde iriam, mas sabia que algo estava acontecendo. Ele era só uma criança, tinha apenas nove anos de idade. Não fazia ideia da proporção dos problemas que estavam e estariam enfrentando em breve. Tudo o que ele sabia nesse momento é que haviam sido expulsos e não tinham para onde ir.

— Onde vamos dormir essa noite?

Essa era uma pergunta que Wanda não sabia responder. Ela levantou o rosto e afrouxou seu abraço, olhando aqueles olhos azuis profundos. Wanda pensou e fitou seus outros filhos.

— Chame seus irmãos, por favor. — Pediu e o menino prontamente obedeceu, logo retornando com seus irmãos em seus calcanhares. Wanda colocou Tommy e Billy sentados cada um em uma de suas pernas enquanto Elizabeth sentava ao seu lado e David e Sophia ficaram parados a sua frente. — Crianças, nós precisamos conversar sobre um assunto bem sério. — Ela começou devagar. — Pelos próximos dias, mas principalmente por essa noite, eu preciso que vocês façam o que eu disser. Tudo bem?

Acenos de cabeça e “Uhum” foram sua resposta.

— Nós não podemos mais ir para casa? — Perguntou Elizabeth. Ela tinha apenas oito anos, era tão doce e inocente, certamente não entendia o que estava acontecendo tanto quanto seus irmãos mais velhos.

— Não, nós não moramos mais lá.

— E onde iremos morar? — Questionou Sophia com a cabeça abaixada como se estivesse envergonhada.

Wanda suspirou levemente.

— Ainda não sei, mas logo vamos encontrar um lugar.

— E onde vamos dormir hoje? — Novamente a pequena Elizabeth indagou.

Wanda ficou em silêncio por um momento antes de continuar.

— Tragam as coisas para mais perto. — Ela mandou que os filhos fizessem e os dois que estavam de pé arrastaram os sacos de lixo e s mochilas para amontoá-los aos pés da mãe. — Agora venham aqui. — Ela disse se ajeitando para o lado para que Sophia e David sentassem junto a ela também, enquanto Elizabeth estava de seu outro lado. — Essa noite nós poderemos dormir bem juntinhos, o que acham?

As crianças não responderam.

Tommy e Billy se acomodaram em seu colo e Wanda abraçou o máximo que pode as outras crianças.

Seria uma noite desconfortável, fria e angustiante.

Ela pensou em ir à um hotel, porém ela lembrava das estratégias de Strucker. Os hotéis e motéis eram os primeiros lugares em que ele mandava um capanga para vigiar. A essa hora não haviam pessoas para que pudesse negociar o aluguel de um apartamento ou algo semelhante.

Wanda sinceramente não sabia o que era pior: procurar um lugar carregando um monte de sacos de lixo e correndo o risco de se deparar com os capangas de Strucker ou ficar parada em um parque sem nenhuma proteção.

De qualquer forma, ela escolheu o parque, por ora.

Esse definitivamente foi um dia terrível.