Home

6 Breakfast


— Drax, será que você pode vir aqui um minuto? A porta está emperrada.

— Não, não abre...

Wanda se sentou no chão, encostada na parede, segurando seus filhos que ainda dormiam ao seu lado. Ela encarou a cara de espanto de uma mulher de ascendência coreana. O homem logo parou ao seu lado.

— Quem são esses e por que estão dormindo na despensa? — Ela questionou olhando para o homem, não parecia agressiva, apenas confusa.

— Uns mendigos que eu achei ontem à noite.

Ela os olhou com pesar, analisando cada uma das crianças.

— Oi, eu sou Mantis. — Ela disse com um sorriso amigável, porém Wanda não foi capaz de retribuir. — Qual seu nome?

— Ela não disse. — Drax respondeu em seu lugar. — Acho que estão com problemas, mas quase fugiu quando eu disse que chamaria a polícia.

— Será que está drogada? — Ela sussurrou para ele, não adiantando de nada pois Wanda ainda pode ouvir.

— Não sou drogada. — Ambos a olharam, era a primeira vez que ela falava qualquer coisa para qualquer um deles. Wanda suspirou, seu corpo inteiro doía e ela ainda estava tentando resistir ao cansaço. — Que horas são?

Os dois ficaram um tempo encarando ela até que Mantis olhou para o relógio em seu pulso.

— 06:58. — Ela respondeu com a testa franzida.

— E aí, galera? O que estão olhando no armário? Não vão dizer que os ratos roeram as caixas de cereal de novo. — Wanda ouviu uma voz se aproximando e um homem de cabelos escuros surgiu atrás dos dois em pé a sua frente. — Mas que porra é essa?

— Rocket, dá um tempo! — Berrou Drax em seu ouvido.

— Isso aqui virou motel, foi? Tem crianças aqui?!

Wanda começou a ficar nervosa com as pessoas que pareciam gigantes sobre ela. Seus filhos se mexeram e começaram a acordar, desorientados e vagarosos.

— Acho que ela precisa de ajuda. — Comentou Mantis para os dois amigos.

— Não, está tudo bem. — Wanda negou rapidamente, tirando devagar a cabeça de Tommy e Billy de suas coxas e deitando-as delicadamente no chão, em seguida levantando-se. — Agradeço por ter deixado que dormíssemos aqui. — Ela olhava diretamente para o tal Drax. — Por favor, não chamem a polícia e nem contem nada a ninguém. Nós já estamos indo. — Seu olhar suplicava sigilo para eles.

Os três se entreolharam, compaixão circulava entre eles, e Drax a olhou novamente e assentiu com a cabeça.

— Se quiser, podem tomar um banho no banheiro dos fundos, o chuveiro funciona, só não esquenta muito. — Ofereceu a mulher chamada Mantis.

— É, vocês estão precisando de um banho, estão fedidos. — Comentou o homem chamado Rocket, levando uma cotovelada de Drax. Wanda acenou com a cabeça em agradecimento e ajoelhou-se no chão para acordar os filhos. — Depois alguém confere pra ver se eles não comeram toda a comida da despensa. — Rocket comentou novamente, recebendo um olhar de desaprovação dos outros dois.

Após tomarem banho e realizarem toda a rotina matinal, a mãe e seus filhos foram até a área de alimentação da lanchonete ainda fechada.

— Querem comer alguma coisa? — Mantis ofertou detrás do balcão. — Nós já vamos abrir, se quiserem, podem tomar café da manhã antes de irem.

— Isso seria ótimo, obrigada. E nós vamos pagar. — Wanda informou dando uma rápida olhada para os dois homens ao lado da mulher.

Wanda guiou as crianças até uma mesa e sentaram-se. Seus filhos pareciam cansados e ela se sentia péssima por tê-los deixado dormir no chão.

Onde estava com a cabeça?! Crianças não devem dormir no chão! Sua mente a torturava.

— Então, o que vão querer? — Perguntou Mantis segurando um bloco de papel e uma caneta.

— Eu quero só um café, por favor. — Ela olhou para os filhos. — Podem pedir o que quiserem.

David a olhou, seu olhar caído.

— Eu gostaria de um sanduiche de pasta de amendoim, por favor. — Ele falou e olhou rapidamente para sua mãe sentada a sua frente do outro lado da mesa, encarando-o, e desviou o olhar para baixo em seguida.

— Eu também. — Disse sua gêmea de cabeça abaixada.

— Eu também. — Afirmou Elizabeth.

— Você é alérgica a amendoim. — Lembrou David à irmã do meio.

Wanda sabia o que estavam fazendo. Estavam tentando economizar mesmo que ela não tenha dito para fazerem isso. Seus filhos, principalmente os três mais velhos, já passaram por mais situações desagradáveis do que as crianças deveriam passar. Vê-los escolhendo um café da manhã mais barato era de partir o coração.

— Escolhe mais alguma coisa. — Ela mandou e David ergueu seu olhar hesitante. — Por favor, escolham mais alguma coisa. — Wanda lutou internamente para não derramar nenhuma lágrima como fizera a noite inteira enquanto seus filhos dormiam. O menino e suas irmãs permaneceram em silêncio, então Wanda olhou para cima em direção a Mantis que aguardava pacientemente. — Waffles e ovos mexidos para os três, e só waffles para dois. E suco de laranja para os cinco, por favor.

Mantis anotou tudo e saiu.

Em pouco tempo Rocket virou a placa de “Aberto/Fechado”, indicando que o horário de expediente havia começado. Logo mais Mantis trouxe os pratos e bebidas das crianças, deixando o café de Wanda por último.

— Obrigada. — A jovem mãe respondeu, porém Mantis continuou ao seu lado.

— Precisa de mais alguma coisa? — Ela indagou, não se referindo a comida.

— Não, obrigada. — Wanda negou sem olhá-la.

Mantis se virou para Drax e Rocket que estavam atrás do balcão, ambos compartilhando a mesma expressão de preocupação que ela. Deixou a família tomar café da manhã em paz e retornou para junto de seus amigos.

— Não acham que ela está com problemas com a polícia, acham? — Ela sussurrou para os outros dois, baixo o suficiente para que nem Wanda nem as crianças pudessem ouvir.

— Quem garante que são mesmo filhos dela? — Indagou Rocket. — Vai ver ela sequestrou as crianças para tráfico internacional.

— Não fala besteira, idiota. — Interviu Drax no raciocínio errôneo do colega. — Acho que foram expulsos de casa, trouxeram um monte de sacos de lixo com roupas, eu vi.

— Quem expulsaria crianças de casa? — Questionou Mantis com um semblante triste.

— Vai saber. Tem cada gente maluca nesse mundo. — Comentou Rocket.

~ ♡ ~

— Eu posso deixar nossas coisas aqui? Só por algumas horas, depois venho buscar. — Wanda pediu ao trio. As crianças estavam com suas mochilas e ela com sua bolsa.

— Claro, não vamos bisbilhotar. — Respondeu Rocket.

— Obrigada mais uma vez.

Os três assentiram e observaram ela sair junto com os filhos.

— Estamos atrasados. — Avisou David enquanto alisava seu suéter amassado do uniforme.

— É, eu sei, por isso temos que nos apressar. — Wanda agarrou a mão dos mais novos e acelerou o passo junto das crianças.

Embora a primeira ideia dela fosse evitar gastar com transporte público, eles pegaram um ônibus para se locomover até o centro e não chegar tão atrasados na escola.

O pânico inicial de não ter para onde ir e ao mesmo tempo estar fugindo dos capangas de Strucker diminuiu desde que tomara o café da manhã. Ela pensou em todas as suas possibilidades e não era tão ruim, tirando o fato de seus amigos terem sido ameaçados – e espancados.

Ela ainda tinha dinheiro, alugaria um pequeno apartamento. A sorte deles nunca fora maior – com uma exceção – do que na noite anterior, quando aquele homem musculoso e careca, com tatuagens no braço, aproximou-se dela bem na hora em que outro homem não muito bem encarado caminhava a passos largos em sua direção segurando alguma coisa em sua mão.

O tal do Drax o impediu de alcançá-los, conversando amigavelmente e mandando que recuasse. Wanda não sabia se eram conhecidos ou não, aparentemente era alguém do bairro.

No início, alarmes soaram na cabeça de Wanda e sua primeira reação foi tentar proteger seus filhos quando aquele homem careca parou em sua frente. Ele perguntou como ela estava, se precisava de ajuda e disse que chamaria a polícia, mas de pronto Wanda recuou.

Então ele ofereceu um canto na lanchonete para que dormissem. E por algum motivo, talvez por ele ter mostrado a foto de sua família em sua carteira, ela acabou aceitando sua ajuda. Nessa noite, seus filhos não dormiram na rua, e isso era um alívio.

Algum tempo depois, desceram apressados do ônibus e praticamente voaram para dentro do colégio, já com os corredores vazios.

— Parados! — Gritou um homem bem à frente deles com a mão levantada no ar sinalizando para que parassem. — Sr. e Srta. Barnes. Estão atrasados. — Ele proferiu já com o tom de voz normal, olhando para os gêmeos mais velhos.

— Desculpa, Sr. Quill. A culpa foi minha. — Wanda se desculpou na tentativa de que seus filhos não fossem penalizados.

— Nós não toleramos atrasos nesta escola. Exceto duas vezes por mês. — Ele falava em um tom que não parecia agressivo, mas sim pairando a leve advertência e até mesmo um toque de graça. — Algum motivo especial para o atraso?

Wanda sorriu para esconder o nervosismo e negou com a cabeça.

— Apenas perdemos o horário, sinto muito.

— Uhum. — Ele colocou as mãos com os punhos fechados na cintura e olhou para cada uma das crianças, arregalando os olhos e fazendo uma careta. — Certo, vão à secretaria pegar um passe para entrarem na sala. E que isso não se repita. — Ele concluiu abrindo caminho para a mãe e as crianças passarem em silêncio.

Na pressa, Wanda nem notara um carro preto a seguindo assim que saiu da escola.