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7 Half Red Half White
Notas iniciais
Wanda estava voltando à lanchonete em que passaram a noite quando seu celular tocou em sua bolsa. Ela estava atravessando a rua e quando o pegou em suas mãos, já havia parado de tocar. Era Bruce que havia ligado. Imediatamente ela retornou a ligação.
— Wanda? — Ele indagou do outro lado.
— Bruce? — Ela respirou aliviada por ouvir sua voz aparentemente bem.
— Oi. Como vocês estão? Onde passaram a noite? — Suas perguntas a lembraram que ele havia dito que buscaria suas coisas, mas era cedo demais para já tê-las buscado.
— Estamos bem. Nós encontramos um lugar para dormir. Mas e você? Está bem? Está machucado? Eles fizeram alguma coisa com você? — A preocupação nítida em sua voz.
— Estou bem. Só tenho uma cabeça dolorida e um sofá esfaqueado, mas tudo bem.
— Bruce, eu sinto muito. Eu realmente sinto muito. — A culpa começou a surgir no coração de Wanda. Parecia que todos a sua volta acabavam se machucando de algum jeito.
— Wanda, você não pode se desculpar por algo que não foi você quem fez.
— Eu meti vocês nisso.
— Não dá para querer controlar monstros, Wanda. Ouça. Não venha aqui, ok? Não sei se estão vigiando, mas não acho uma boa ideia. Porém, tenho boas notícias. Muito boas mesmo.
— Quais notícias?
— Será que minha sobrinha desaparecida pode dar um “Oi” para sua tia favorita? — A voz de uma mulher soou no lugar da voz de Bruce.
Wanda paralisou. Nunca em um milhão de anos ela esperaria que Natasha a encontrasse em Portland. Como não? Ela é uma ninja. Wanda sorriu com o próprio comentário pensado e então percebeu que já estava em silêncio a alguns segundos.
— Wanda, ainda está aí? — Dessa vez era a voz de Bruce. — Alô?
— Oi.
— Ah, ótimo. Seguinte, você tem algum lugar para ficar?
— Hã... não.
— Certo. Eu contei a situação para a sua tia e digamos que ela já deu um jeito. Eu vou te mandar um endereço para vocês se encontrarem lá. As suas coisas estão com ela, eles vão levar tudo para o novo lugar onde vocês vão ficar.
— “Eles”?
— Ela veio acompanhada. E antes que pergunte, não são os seus pais.
— Não sei nem como te agradecer, Bruce.
— Só fique segura. Tchau.
Ele desligou e o sentimento de euforia percorrer o corpo de Wanda, entretanto, logo o nervosismo tomou seu lugar.
Reencontrar Natasha depois de dez anos? Ela já pensava no sermão que ia ganhar.
~ ♡ ~
Wanda se aproximou de um prédio com aparência velha, em uma ruela que ela nunca estivera antes, num bairro longe dos que ela costumava andar. A poucos passos antes de chegar à entrada, desceu de um carro três pessoas com roupas neutras e óculos escuros. Uma delas, uma mulher de cabelo metade vermelho, metade branco. Natasha.
A jovem de cabelos castanhos desacelerou, porém não parou. Natasha retirou os óculos e sorriu, abrindo os braços para envolvê-los ao redor de Wanda quando ela a alcançou.
No início, Wanda achou o abraço estranho, mas logo pareceu aconchegante. Uma lembrança antiga ressurgindo em sua mente, quando sua tia a protegia quando ela e seu irmão, Pietro, aprontavam em sua adolescência.
Natasha sentiu suas bochechas esquentarem e seus olhos se encherem de lágrimas. Jurou que mataria Wanda se ela a encontrasse, mas agora, toda a vontade de estrangulá-la cedeu lugar para a saudade e, estranhamente, a melancolia.
Foram bons minutos em um abraço despreocupado e afetivo até que se afastaram, Natasha pondo uma mão na bochecha de Wanda para olhá-la com atenção.
— Igualzinha à última vez. — Ela proferiu com voz suave, um sorriso brotando no canto dos lábios. — Exceto que agora é uma mulher.
Natasha não pode deixar de notar que Wanda parecia ter amadurecido. A garota levemente rebelde e complexada de dezoito anos se tornara uma linda mulher, embora com uma expressão de cansaço no rosto, nítido com as olheiras sob os olhos.
— Igualzinha à última vez. — Wanda repetiu sua frase, um sorriso surgindo em sua face. — Exceto pelos fios brancos. — Ela brincou com a ambiguidade, levando um beliscão na barriga e uma careta de sua jovem tia, que era apenas nove anos mais velha que ela.
A meio ruiva olhou para atrás de Wanda, seu sorriso desaparecendo quando notou um carro preto parado na esquina, arrancando em disparada assim que os olhos da mulher se fixaram nele.
— Temos que entrar. — Natasha disse, guiando Wanda para dentro do prédio velho e sendo seguida pelas duas pessoas que saíram do carro com ela. Subiram três lances de escadas e atravessaram um corredor mal iluminado e cheirando a mofo, até chegaram ao apartamento 3 C.
Natasha o destrancou e empurrou Wanda para dentro, a jovem se deparando com os sacos de lixo, sua grande mala de rodinhas e caixas de papelão espalhadas no cômodo.
Era muito pequeno e apertado. Ao entrar, do lado direito, rente a porta, havia um sofá encaixado perfeitamente no canto; do lado esquerdo havia um tanque para lavar roupas – algo que Wanda não esperava encontrar em um apartamento tão pequeno. Avançando cerca de um metro e meio havia um pequeno fogão à esquerda, separado do tanque por uma fina e curta parede; ao lado do fogão, uma pia minúscula e ao lado da pia, uma pequena geladeira. Já à direita, de frente para o fogão, a pia e a geladeira, uma cama de solteiro se estendia grudada à parede, também sendo separada do sofá apenas por uma fina parede. E no final, reto à porta de entrada, o banheiro que ia da lateral a lateral do apartamento.
Toda a área não passava de 15 metros quadrados. Para seis pessoas, isso era apertado. Mas para quem não tem onde dormir, era de bom tamanho.
— Recolhemos tudo hoje de manhã, havia muitas coisas reviradas, acho melhor que você confira se está tudo em ordem depois. — Natasha a informou, observando-a da porta.
— Obrigada. — Wanda sussurrou, analisando visualmente se todos os sacos e caixas estavam ali do que ela lembrava ter visto no dia anterior.
— Quer que a gente fique lá em baixo? — Indagou a mulher que acompanhava Natasha, uma loira de expressões faciais inflexíveis.
— Daqui a pouco. Wanda, quero te apresentar os meus amigos. — Natasha disse, chamando a atenção de Wanda que se aproximou. — Essa é Carol Danvers. — Wanda assentiu para ela, que retribuiu o aceno de cabeça. — E esse é nosso colega. — Ela indicou um homem alto e forte, de cabelos e barba loiras.
— Prazer, Thor. — Ele estendeu a mão para a moça, que lançou um olhar para sua tia antes de cumprimentá-lo.
— Thor? — Ela questionou, pensando que talvez fosse um apelido.
— Uhum.
— Só Thor?
Carol deu uma risada, o primeiro sinal de qualquer graça esboçado pela mulher.
— Minha namorada fez a mesma pergunta quando nos conhecemos. — Ele afirmou trocando olhares com Carol que sorriu de lado para ele.
— Certo... — Natasha mudou o curso da conversa. — Eles trabalham comigo. Lembra no que eu trabalho, certo? Dez anos não foram o suficiente para esquecer, ou foram?
— Como eu ia esquecer que sou sobrinha da melhor policial de Nova Iorque?
Natasha sorriu, mas era um sorriso triste, como se acabasse de perceber que sua relação com sua sobrinha ficara parada no tempo.
— Capitã. — Ela corrigiu. — Agora eu sou Capitã.
E espelhando o sorriso de sua tia, Wanda teve o mesmo insight de que havia perdido muito durante esses dez anos.
— Capitães. Todos nós somos Capitães. — Thor apontou com o dedo para os três, invadindo a conversa.
— Enfim, provavelmente você tem algumas perguntas para fazer. Vou te dar três respostas, as outras questões você anota num papel e eu respondo quando der. — Ela se virou para os dois colegas e acenou, ambos saindo de frente da porta, Wanda presumiu que ficariam na entrada do prédio. Natasha entrou no apartamento e fechou a porta. — Primeiro: Steve entrou em contato comigo e, ao contrário do que você provavelmente acha, nós todos mantemos contato para garantir a sua segurança e a dos seus filhos. Segundo: Visão tentou enviar dinheiro, mas ele foi confiscado por alguém antes que chegasse a você. — Ela retirou um envelope de um bolso interno do casaco e entregou a Wanda. — Ele mandou isso, disse que será o suficiente até sua volta. — Wanda levantou seu olhar, esperança estampada em seu rosto. — É, seu cavaleiro de armadura reluzente chegará em breve.
— Ele está bem? — As palavras saíram de sua boca sem que Wanda percebesse.
— Eu não falei com ele, mas aparentemente sim. E terceiro: Thor vai ficar por perto, de olho em vocês, cuidando para caso alguém do Strucker tente alcançá-los. Eu e Carol vamos pôr o resto do plano em prática. Aqui. — Ela entregou um celular mais simples para Wanda. — Despeça-se de seu celular e comece a usar esse aqui. É um número seguro e as chamadas são criptografadas.
Wanda assentia com a cabeça, tentando anotar mentalmente as informações recebidas. Ela tinha perguntas, é claro, mas Natasha não estava afim de respondê-las agora.
Parada a sua frente, Wanda parecia algo além daquela garotinha amedrontada, que ansiava por uma vida feliz ao lado de sua família, a qual a ruiva conhecera. Ainda era ela, podia ver em seus olhos, mas não era exatamente a mesma.
Num impulso, Natasha a abraçou. Seus braços apertavam a silhueta magra de Wanda, esmagando-a e quase não a deixando respirar, mas, ainda assim, Wanda preferia que continuassem desse jeito.
Dez anos era muito tempo.
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