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34 Baron
Notas iniciais
A porta foi aberta e a figura parada no vão iluminado pela lâmpada do corredor ligou o interruptor do quarto, a luz inundando o ambiente escuro e fazendo os olhos de Wanda arderem, porém ela estava em pânico demais para se importar com toda a claridade.
O homem de 55 anos, quase careca e expressão inflexível deu dois passos à frente, parando com os braços atrás das costas, postura ereta e firme, encarando-a sem esboçar emoção.
— Espero que tenha gostado do vídeo. — Ele proferiu, seu sotaque causando calafrios em Wanda após tanto tempo sem ouvi-lo. — Fiz uma edição especial. — Ele deu mais um passo à frente. — Erik com certeza tinha planos para esses vídeos, mas... ele não pôde concretizá-los. — Wanda arregalou os olhos, pensando na única coisa que nunca pensara todos esses anos, e esse olhar não passou despercebido por Strucker. — O que? Nunca se perguntou por que ele nunca a procurou?
Um flash repentino daquela fatídica noite veio à mente de Wanda. Tão rápido quanto suas lágrimas escorreram por seu rosto, involuntárias, quentes e desesperadoras. Sua garganta seca começou a doer, não conseguia falar.
Aquela noite, a que sua vida fora arruinada. Novamente. A noite envolvendo uma ponte, uma jovem e um homem mais velho que seu pai, trazendo palavras compassivas a convencendo a segui-lo. Aquela noite.
E aquela outra noite. Erik e Charles a resgatando. Sua fuga. Ela não lembrava... até agora. Quando sua memória foi atropelada por esses vídeos feitos por Erik.
Erik...
— Sinto muito ter sido dessa forma. — A voz de Strucker a trouxe para a realidade e ela o olhou com a vista embaçada e um aperto no estômago. — Você não colaborou. — Ele fez uma pausa, fitando-a. Wanda estava encolhida no canto da cama, contra a cabeceira, quase caindo para fora do colchão. — Tome um banho, aqueça-se. Há roupas limpas no banheiro. Depois, quero te levar ao quarto do lado.
Wanda sentiu seu coração errar uma batida. “Ao quarto do lado” não parecia um bom lugar. Esse quarto seria o dele? Ele a levaria para seu quarto? De novo?
— Por favor... — Ela falou, tão baixo e carregado de sotaque que isso trouxe a Strucker um flashback dos “velhos tempos”, fazendo um sorriso brotar no canto de seus lábios.
— Não demore.
Antes que ele fizesse menção de sair, seu olhar repousou sobre a mão esquerda de Wanda, especificamente em seu anel no dedo anelar. Lentamente, ele caminhou em direção dela, dando a volta na cama até alcançá-la, retraída em seu canto, paralisada enquanto o encarava.
Ele sentou na borda da cama, ao lado dela. Tão perto que Wanda jurou sentir o calor de seu corpo antes mesmo de ele estender sua mão, colocando-a sobre a coxa dela, por cima de seu pijama, mas ainda assim lhe causando arrepios com o toque. Wanda sentiu sua garganta trancar e o ar já não circulava em seus pulmões quando ele apertou sua pele.
Quando ela teve coragem de encará-lo nos olhos, sentiu como se sua alma estivesse sendo sugada de seu corpo. Era um olhar aterrorizante. Manchava sua alma.
Então ele soltou sua coxa e pegou em seu pulso. A mão dele era áspera, trazendo lembranças de onde ela estivera anteriormente em sua pele, anos atrás... Antes que pudesse fazer qualquer coisa para impedi-lo, Strucker retirou seu anel de noivado de seu dedo, Wanda nem havia percebido que essa era sua intenção até ele o guardar em seu bolso da calça.
— Não... — Ela proferiu, seu braço automaticamente indo em direção da joia para recuperá-la, mas sendo impedida por Strucker a segurando firmemente pelos pulsos.
— Mein Wunder, você está em casa agora. — Wanda conseguiu mexer os braços minimamente na tentativa de se livrar do aperto dele, mas de nada adiantou, ainda mais quando sua mente não estava funcionando. — Tome um banho relaxante e depois vamos ao quarto ao lado, estão nos esperando.
Strucker se aproximou e pressionou seus lábios contra os dela, um simples beijo não retribuído. Se é que pode ser chamado de beijo. Ele finalmente soltou seus pulsos e se afastou da cama, deixando o quarto em silêncio, trancando a porta ao sair.
Os pulmões de Wanda explodiram em busca de ar. Estava ofegante, não conseguia respirar e seu coração estava disparado. Um pesadelo. Isso é um pesadelo. Só pode ser um pesadelo.
Estavam esperando por eles no quarto ao lado. Quem?
Visão.
Strucker pegou Visão. Seus filhos! Strucker pegou seus filhos! Não. Strucker não iria querer pegar seus filhos, não Tommy nem Billy... Mas Sophia, David e Elizabeth, sim. Como? Como? Quando? Como deixaram isso acontecer? Estavam seguros. Eles estavam. Estavam no loft. Deveria ser seguro! Não estavam há nem um dia em Nova Iorque! Como Strucker chegou até eles? Em Manhattan?! Em Nova Iorque! Em uma cidade grande! Em uma maldita cidade enorme com muitos prédios! Onde eles estão agora? E Visão... Strucker vai machucar seus filhos. Vai machucar Tommy. Vai machucar Billy. Porque ele não se importa em machucar seus filhos. Porque ele é um psicopata. Porque ele só quer Dave, Soph e Lizzie... Ele vai machucar Visão e seus filhos. Vai manter ela e seus filhos presos... Não. Não não não não. Ela não... ela não pode...
Wanda estava desesperadamente buscando por ar, hiperventilando. Não conseguia respirar. Ela precisava se acalmar... ela não conseguiria reagir se não se acalmasse. Pietro... Pietro costumava a acalmar quando ela tinha ataques de pânico, após a morte de seus pais, era ele quem a acalmava. Clint começou a fazer isso após serem adotados, quando Pietro não estava por perto. Clint dizia coisas que às vezes pareciam meio duras na hora, mas era o que Wanda precisava para reagir. Ele a guiou algumas vezes, quando ela quase se perdia. Quando Pietro não estava por perto. Mas após a morte dele, nem Clint pôde ajudá-la. Ainda assim, ela se lembrava que ele a acalmava quando tinha crises de ansiedade. Eles a acalmavam. Porque se importavam.
Porque eram sua família.
Pietro... seu irmão. Seu gêmeo.
Clint, seu pai. Amigo.
Visão. Seu Visão.
Sua respiração diminuiu consideravelmente. Pensar e não pensar ao mesmo tempo, isso a ajudava a manter o controle. Wanda sabia o jogo do Strucker. Ela conhecia de cor o jogo dele. Ela já jogou esse jogo antes. Ela pode jogar de novo. Ela vai jogar de novo. E vai vencer. De novo.
Com esse pensamento em mente, ela se levantou da cama. Ela não sabia quem estava no quarto ao lado. Pressentia, porém, que poderia ser sua família... Para descobrir isso, ela precisava tomar um banho, aquecer-se e acompanhar o Barão Strucker.
Caminhou até o banheiro e acendeu a luz, deparando-se com uma roupa muito bem conhecida: um vestido cinza, simples, idêntico ao que costumava usar cerca de oito anos atrás.
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