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3 A Slice of Pie
Notas iniciais

As crianças já deviam estar esperando por ela.
Após sair do hospital, Wanda foi ao banco para descobrir que só possuía duzentos dólares na conta, dos quais ela só sacou cinquenta. Após isso, pôs-se a procurar um emprego. Ela não poderia se dar ao luxo de lamentar a demissão por mais de um dia; enquanto o dinheiro de Visão não chegasse, ela precisava trabalhar.
Ao meio dia, ainda desempregada como era de se esperar, ela apenas engoliu um sanduiche. Deveria ter ido para casa, mas isso significaria gastar com ônibus ou caminhar muitas e muitas quadras, exaurindo-se e perdendo tempo.
As más notícias só pareciam aumentar. Era como se o universo estivesse conspirando contra ela. Não fazia nem três horas que saíra do banco e seu gerente ligou avisando sobre o encerramento de sua conta. Questionando o porquê, ele desconversou e disse “O Ultron Banks prefere assim, é melhor”. Wanda podia estar exagerando, mas teve a impressão de que o gerente estava com receio de falar com ela.
A voz dele soou como a de seu antigo chefe quando foi demiti-la. Lamentou, enrolou-se para explicar os motivos da demissão, pediu desculpas e disse “Infelizmente é o melhor a ser feito”. Seu olhar também era de receio, medo.
A mente de Wanda começava a criar mil e uma teorias do porquê tudo parecer desabar justo no dia de hoje, e sua conclusão era sempre a mesma: Strucker. Ela não sabe explicar como, mas ela sabia que ele tinha algo a ver com isso.
Qualquer um que olhasse de fora diria que é um absurdo ou que ela só estava paranoica, mas após passar quase dez anos fugindo de um homem que conseguia encontrá-la até no canto mais escondido do mundo era de se esperar que a fonte de seus problemas sempre fosse a mesma.
Passou o início da tarde resolvendo o assunto do banco, conseguindo que sua conta só fosse encerrada quando o mês acabasse – o que estava perto.
E para completar esse dia terrível, uma ligação da escola perto do horário de buscar as crianças comunicava que sua filha mais velha, a menina de apenas nove anos, havia tido uma crise de ansiedade e ainda não havia se acalmado.
Levou cerca de vinte minutos para Wanda finalmente chegar à esquina da escola.
Ela desacelerou, respirando rápido enquanto tentava regular seus batimentos cardíacos e se aproximava da entrada do colégio. Quando subiu os degraus da entrada que davam para um pátio repleto de crianças correndo e brincando sob a supervisão de professores e auxiliares, Wanda logo avistou o quinteto sentado um do lado do outro em um largo banco de madeira.
A pequena Sophia tinha os olhos vermelhos, resultado de vários minutos chorando, e bebia água de um copo entregue por sua professora.
— Olá, Srta. Barnes. — A professora a cumprimentou. Bucky Barnes emprestara seu sobrenome para os novos documentos de Wanda e das crianças, para garantir a discrição, afinal, Barnes era mais comum que Maximoff.
— Oi. — Wanda disse e se abaixou na frente da filha que mantinha a cabeça baixa, mas que olhou imediatamente para sua mãe quando ela segurou suas mãos. — Ei, o que aconteceu? — Ela perguntou com voz serena.
A menina possuía olhos muito azuis, assim como de seu gêmeo, e eles eram uma lembrança constante de seu progenitor, embora o tom de azul fosse diferente. Mas, ainda assim, Wanda amava a cor dos olhos deles e lutava para afastar a memória de Strucker.
A pequena deu de ombros e abaixou o olhar novamente para seus pés que balançavam levemente para frente e para trás.
Wanda olhou para a professora que explicou o ocorrido:
— Estávamos na última aula quando, aparentemente, um coleguinha fez algum comentário desagradável. — A mulher, na casa dos quarenta anos, cabelos de raiz escura e comprimento cor de vinho rosado e pele negra, proferiu com educação.
— E esse comentário seria...? — Wanda a olhou, esperando por uma resposta.
A professora Gamora – uma estrangeira assim como Wanda e seus três filhos mais velhos, porém com a nacionalidade já adquirida – respirou fundo e juntou as mãos na frente do corpo antes de responder:
— Nenhum dos dois repetiu o que ele havia dito, mas acredito que seja algo sobre sua família. — A menina fungou e balançou os pés mais avidamente em nervosismo. — O menino que fez esse comentário receberá uma sanção, ainda que meramente simbólica.
Wanda apenas assentiu, sabia o significado de “sanção simbólica”, e voltou a olhar para a filha.
— Está tudo bem, tudo já foi resolvido. — Ela tentou acalmar a menina antes que ela tivesse outra crise de ansiedade.
— É só ignorar. — Disse seu irmão gêmeo. — Eu sempre ignoro o Jacob Flang.
— Por que não vamos para casa agora?
— Podemos ir na Agnes? — Perguntou um dos gêmeos caçula, distraidamente balançando um avião de brinquedo sobre sua cabeça.
Como era comum quando as crianças queriam as mesmas coisas, as demais seguiram reafirmando o desejo do irmão como seu também.
O dia estava tão ruim que visitar a pequena padaria de Agnes parecia uma boa ideia, ainda mais por ela sempre dar um pedaço de torta para as crianças sem cobrar. Além disso, Agnes costumava dar conselhos à Wanda sem que ela pedisse, mas sempre muito úteis.
Observando os rostinhos de expectativa de seus filhos, acabou cedendo ao seu pedido. Despediram-se da professora e puseram-se a caminhar.
Os gêmeos Tommy e Billy sempre seguravam cada um uma mão de Wanda, já os três mais velhos caminhavam a sua frente. Várias quadras depois, eles chegaram à Ebony’s Bakers.
O local ficava minúsculo com todos os fregueses que faziam suas compras, era sempre bem movimentado, mas Ralph, marido de Agnes, conseguia atender a todos, deixando a esposa dar atenção à Wanda e às crianças.
— Olá, pessoal! — Ela disse quando os avistou assim que entraram no local, caminhando apressada de braços abertos para abraçar cada uma das crianças e apertar suas bochechas. — Finalmente! Eu tenho presentes para vocês e não via a hora de entregá-los!
— Presentes? — Wanda indagou enquanto se acomodavam em uma mesa com cinco cadeiras, a que sempre parecia estar reservada para eles, pondo Tommy sentado em seu colo.
Agnes sumiu de vista, porém logo ressurgiu segurando vários cordões dos quais pendiam um objeto colorido de cada um.
— Consegui esses aqui com um viajante, são muito raros. — Ela disse colocando os colares sobre a mesa e fazendo o menino mais velho levantar para ceder lugar a ela e em seguida sentar em seu colo. — Um para você, para assuntos da alma. — Ela pegou o colar de pedra laranja e entregou a David, o gêmeo mais velho. — Para obter o poder que precisa. — Ela deu a Sophia o com pedra roxa. — Esse aqui para você, o espaço necessário. — Ela alcançou o de pedra azul à Elizabeth, a filha do meio. — Esse para o Tommy e esse para o Billy. — Alcançou o de cor verde e o de vermelha para Wanda entregar aos filhos, respectivamente, sentados do outro lado da mesa. — Para questão de tempo e realidade. E por fim, mas não menos importante, esse é para você, querida. — Agnes segurou a mão de Wanda e colocou em sua palma o pingente de cor amarela, fechando-a em seguida como se fosse um tesouro muito valioso para ser guardado. — A mente pode ser sua aliada ou sua pior inimiga, tenha cuidado.
Wanda franziu a testa, pensando sobre o significado daquela frase.
— Agnes, não devia ter comprado. Devem ter sido caros. — Wanda proferiu enquanto analisava o presente.
Agnes bateu com a mão no ar com desdém.
— Nah, não foi nada. Digamos que eles foram recuperados e depositados nas mãos corretas. — Ela sorriu e piscou para a moça, que agradeceu com um sorriso. — Agora, que tal uma torta de mirtilo? Está fresquinha! — Sem esperar por uma resposta, Agnes sumiu novamente atrás do balcão, ignorando todo o movimento daquela tarde, e em seguida voltou com uma bandeja carregando uma torta recém-saída do forno e uma pilha de pratos e garfos.
— Obrigada, Agnes. — Agradeceu Wanda, tanto pelos presentes quanto pela torta.
— De nada. — Ela respondeu, cortando um pedaço generoso e pondo num dos pratos. — Você sabe, comida é uma ótima fuga.
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