Holidaze

9 Thankschrismukkahween


Notas iniciais
E aí, moçada? Esse é o penúltimo capítulo, espero que vocês gostem! ;D Queria agradecer a todos os comentários que tenho recebido, eles realmente dão um incentivo para continuar trazendo essas histórias pra vocês!

As folhas já tinham perdido a cor e há muito caído, as noites haviam começado a chegar cada vez mais cedo e o ar estava mais fresco e mais frio com o inverno se aproximando cada vez mais rápido. O verão era definitivamente minha estação favorita, o inverno era definitivamente a última. Os feriados de fim de ano e os Fabrays combinavam da mesma forma que óleo e água, e era praticamente impossível sobreviver a eles sem que você se afundasse num estado de coma alcóolico. Eu não tive as mesmas vantagens que meus pais tiveram de poderem ficar bêbados. Não era segredo que eu estava relutante. Isso não era discutido, mas também não era evitado. Nós sobrevivemos ao Halloween e tudo tinha ido bem, mas ele tinha sido mais como uma espécie de test-drive, como quando você bota seus dedos dos pés na água para checar a temperatura, por assim dizer.

Rachel tinha deixado bilhetes no meu armário praticamente todos os dias desde que outubro tinha começado. Eram ideias para nossas fantasias. A escola inteira já sabia sobre nós àquela altura, isso significava que era esperado que nós fôssemos com as fantasias combinando. Bem, Rachel esperava. Eu sabia que era exatamente isso que ia acontecer, eu só esperei até o último minuto possível para dizer isso a ela sem que ela já tivesse desistido.

Tínhamos voltado a ser criança numa inesquecível noite em que furtivamente fomos até a casa de Puck com alguns tubos de creme para barbear e rolos de papel higiênico muito bem guardados em nossas mochilas. Fomos praticamente ninjas da noite, decorando a caminhonete dele toda de branco. O dia seguinte na escola passou com nós duas escondendo nossos risos e alegando inocência quando ele veio nos interrogar. Rachel não precisava saber que eu tinha posto toda a culpa em Finn.

O Halloween tinha caído numa sexta aquele ano e eu e Rachel passamos nossa tarde ajeitando os detalhes finais das nossas fantasias. Bem, Rachel fazendo isso enquanto eu roubava as balas do caldeirão preto que estava no corredor.

“Quinn Fabray, se eu ver você pegar mais uma bala, você vai pagar por elas.”

“Como você sabe?” Eu perguntei com a boca cheia de chocolate.

Ela me ignorou. “Elas são para as crianças.”

“Você está mimando elas.”

“Eu estou mimando você, pelo visto.”

Era verdade e eu não tinha nenhum argumento.

Eu me contentei em comer os cookies que Rachel tinha feito na noite anterior, mas somente depois de convencê-la de que nenhuma criança normal iria querer cookies numa noite de Halloween.

“Rachel, você sempre tentou dar cookies para as crianças no Halloween, não foi?”

Seus lábios se moveram para cima e ela fez uma cara completamente confusa. “Talvez seja por isso que as crianças vão sempre embora gritando estranha, perigo.”

Eu ri suavemente enquanto me aproximava dela e botava meus braços em volta do seu pescoço. “Desculpa, eu não devia rir. Isso é triste.”

“Bom, não eram todas as crianças que faziam isso. Jacob Ben Israel pegava os cookies.” Ela argumentou.

Eu olhei para ela com um dos meus olhares do tipo você está falando sério? e ela assentiu. “Você está certa.”

Ela fez uma cara triste e eu simplesmente não podia aceitar aquilo.

“Se nós fôssemos um casal que estivesse tentando raptar crianças oferecendo balas, iríamos com toda certeza conseguir muitas crianças, porque seus cookies são maravilhosos.”

Seu sorriso aumentou e ela se inclinou para encontrar meus lábios antes de se afastar. “Por que tem manteiga de amendoim nos seus lábios? Você achou meu esconderijo secreto!”

“Não, claro que não!” Eu dei um passo pra trás.

“Quinn?”

“Não fique brava comigo.”

Ela bufou quando viu as embalagens vazias perto do caldeirão.

Eu estremeci quando ela pousou seu olhar sobre mim. “Eu sou viciada em açúcar, meu amor. Balas são a minha kriptonita.”

“Felizmente eu me antecipei a este fato e tenho mais três esconderijos secretos.”

“Onde eles estão?”

“Boa tentativa.”

Quando a noite chegou nós estávamos acomodadas no sofá que já considerávamos como nosso e prontas para assistir uma maratona de incrivelmente ruins – e algumas vezes assustadores – filmes de Halloween.

“Falso. Isso é tão obviamente falso.” Ela apontava uma vez ou outra antes de bufar indignada. “Como se alguém fosse correr tão devagar assim com um serial killer o perseguindo!”

“Baby, é só um filme.”

“Como alguém do ramo, eu estou ofendida pelas cenas mal feitas.”

“O que você faria se tivesse um serial killer perseguindo você?”

“Eu me exercito diariamente por um motivo.”

“Certo.”

Nosso primeiro doce ou travessura aconteceu na metade do primeiro filme. Antes que a campainha pudesse tocar, nós duas já estávamos esperando com grandes sorrisos no rosto que o grupinho se aproximasse em busca dos seus preciosos chocolates. O filme tinha sido abandonado e nos sentamos nas cadeiras de balanço que adornavam a entrada, deixando o ar fresco da noite nos atingir enquanto conversávamos e, principalmente, julgávamos as fantasias das crianças.

Bem, eu julgava enquanto Rachel me repreendia por ser uma crítica muito dura.

Se qualquer pequena líder de torcida aparecesse, eu me asseguraria de dar a ela alguns doces a mais, para que ela pudesse aproveitar antes que a hierarquia do ensino médio não permitisse mais. Na mansão Fabray os doces eram deixados ao lado da porta com um bilhete avisando para que só se pegasse um. Quando eu fui ficando mais velha, eu tinha o hábito de assistir as crianças se aproximarem da minha casa pela janela do segundo andar, desejando que eu ainda fosse criança para poder sair com os meus amigos ou que eu pudesse descer sorrateiramente as escadas e dar mais doces para elas.

Eu sorri para Rachel enquanto ela interagia com uma autoproclamada diva de sete anos e chamei sua atenção quando ela deixou a garota pegar umas balas a mais. Eu também notei o sorriso triste que Rachel deu quando viu a garota se aproximar de nós sozinha. Partiu meu coração perceber o porquê dela dar a essas crianças mais doces. Então eu parei de chamar sua atenção quando ela fazia isso. Foram seis garotas que se aproximaram da casa sozinhas. Eu sabia porque sempre que elas iam embora Rachel se virava para mim e meu coração se partia ainda mais.

“Eu estou feliz de você estar aqui comigo. Esse é, de longe, o melhor Halloween que eu já tive.”

Eu levantei minha mão e segurei a sua. “É o melhor Halloween que eu já tive também, Rach.”

Nós estávamos criando nossas próprias tradições e isso fazia eu me sentir bem. Eu ia à festa de Halloween do Puck todos os anos, mas eu nunca esperava ansiosamente por isso. Tinha ficado um pouco repetitivo quando Santana, Brittany e eu começamos a vestir nossa usual fantasia de anjo todo ano. No ano que eu tinha ficado grávida tinham sido dois anjos e a amiga não tão angelical assim.

“Quinn, as pessoas vão ficar de boca aberta com as nossas fantasias.” Rachel comentou do banheiro.

“Eu sei, eu mal posso esperar. Como eu estou?” Eu perguntei animada.

“Eu não estou muito certa disso.”

“Eu estou vestindo essa roupa ridícula. Você pode fazer isso por uma noite.”

Ela bufou através da porta. “Eu estou ligeiramente ofendida. Essa roupa não é ridícula. Você está totalmente na moda e incrivelmente sexy.” Ela sussurrou a última parte.

“Desculpa, não ouvi essa última parte. O que você disse?”

A porta se abriu alguns segundos depois. “Eu disse sexy.”

“Quinn?”

“Hmm?”

“Sua boca.”

“O que tem ela?”

“Está no chão.”

Eu saí do meu transe, mas me recusei a tirar os olhos do seu corpo.

“Wow.”

“Me dá a sua corrente.” Ela estendeu a mão em expectativa.

Eu a tirei cegamente e entreguei a ela antes mesmo de reparar no que eu estava fazendo.

“Espera... Por que você quer minha corrente?”

“Primeiro de tudo, se eu vou entrar no modo HBIC Quinn Fabray ou seja lá o que as pessoas te chamam, eu vou precisar usar essa corrente. Ela é como uma fonte de poder. Além disso, se você quer interpretar uma Rachel Berry de forma adequada, você não pode usar isso. E eu acho que se nós queremos ser convincentes, então devíamos entrar nos nossos personagens agora.”

“Rachel, você está incrível.”

“Eu sei.” Ela riu antes de sair um pouco do seu papel para sussurrar excitada. “Obrigada. E devo acrescentar que você também está incrível com esse suéter e essa meia até os joelhos.” Ela piscou antes de botar as mãos de volta na cintura.

Eu sabia que a Treinadora Sylvester faria picadinho de mim na segunda e eu ainda estava sendo otimista, como eu viria a descobrir depois, mas eu não consegui me importar com isso quando eu olhei para ela de costas pra mim enquanto caminhávamos até a casa do Puck. O vermelho caia bem na sua pele bronzeada mais do que em qualquer outra garota da equipe. Seu rabo-de-cavalo deixava todo o seu tentador pescoço a mostra, suas pernas estavam completamente torneadas embaixo da saia e o tênis branco me fazia querer beijar sua panturrilha por toda a noite. Eu estava com sérios problemas.

“Quinn, para de olhar para minha bunda que nem uma tarada. Você está parecendo patética e está envergonhando a si mesma.”

Como se eu falasse dessa forma.

Eu parei de andar. “Sabe, nós ainda não entramos, você não precisa agir como eu.”

“Quem disse que eu estava agindo?” Ela sorriu timidamente.

Eu olhei para ela e decidi dar a ela um pouco do seu próprio veneno.

“Apesar de achar o seu jeito de me imitar encantador e até razoavelmente bom para alguém com menos experiência em atuar do que eu, eu vou ter que negar o evidentemente óbvio e reprimido avanço que você está querendo fazer em relação a minha pessoa. Aparentemente, você escolheu se vestir como a líder de torcida Quinn Fabray e, do mesmo modo, eu escolhi me fantasiar da independente e egocêntrica Rachel Berry para as festividades de hoje à noite. Você provavelmente já não faz a mínima ideia do que eu estou falando agora, mas eu sugiro que você consiga um dicionário o mais rápido possível, para você conseguir entender o que eu estou dizendo.” Eu dei a ela uma óbvia e provocante piscada antes de trazer o microfone rosa para os meus lábios e cantar os primeiros versos de Total Eclipse Of The Heart.

“Você é má. A única coisa em que você foi precisa foi a parte de como você era reprimida ano passado.” Ela revirou os olhos, mas era óbvio que ela tinha gostado.

Sua Quinn Fabray precisava de sérios reparos.

“Ah, eu quase esqueci.” Eu olhei para baixo enquanto ela continuava com uma expressão séria e irritada no rosto. Eu pressionei um adesivo na sua bochecha. “Estrelas douradas. Você sabia que elas são uma metáfora?”

“Eu NÃO carrego mais comigo esses adesivos. Ou um microfone.” Ela acrescentou.

“Boa tentativa. Eu achei os dois na sua mochila.”

“Você sabe que eu poderia ter colocado uma barriga falsa hoje à noite. Eu estou imitando sua melhor forma.” Ela me lembrou.

Eu encolhi os ombros. “Uma Fabray de verdade teria escolhido o meu pior. É culpa sua que você é tão boazinha.”

Ela botou a mão por baixo do top do uniforme e demorou um pouco para conseguir tirar algo que pelo visto ela tinha escondido.

“O que é isso?”

Ela levantou a mão, revelando uma bola de soprar vazia antes que a trouxesse para os seus lábios. “Não se esqueça, se o balão estourar, o barulho faz os anjos chorarem.”

Eu dei um passo para ficar frente a frente com ela, mas eu não conseguia sequer ficar brava com ela. Ela tinha sido impecável ao me imitar.

Em vez de ir para trás como eu esperava que ela fizesse sob o meu olhar, ela se aproximou ainda mais até os seus lábios estarem encostando nos meus.

“Você vai se arrepender disso.” Eu rosnei num tom baixo.

“Eu mal posso esperar você fazer com que eu me arrependa.” Ela revidou no mesmo tom antes dos seus lábios se moverem e se conectarem aos meus.

A porta se abriu para revelar um Puckerman sorrindo sugestivamente. “Todas as minhas fantasias viraram realidade.”

Eu lancei um olhar ameaçador pra ele antes de relutantemente me desgrudar de Rachel. “Nem sequer olhe para ela.”

Puck teve a decência de parecer momentaneamente ofendido antes de se recuperar. “Bem-vindas à casa do Puckerman. Roupa é opcional.”

Rachel passou por ele e correu o dedo pelo seu peito. “Nós vamos considerar isso Noah, quando fizermos sexo no seu quarto mais tarde.”

Puck olhou para mim de boca aberta antes que eu passasse por ele sem dizer uma palavra para alcançar Rachel. Ela virou o centro das atenções quando todo mundo se virou para encará-la no meu uniforme de Cheerio. Ela estava amando aquilo.

“Whoa.” Eu sussurrei em sua orelha. “O que você está fazendo?”

Ela deu de ombros. “Eu posso dizer essas coisas porque eu estou fingindo que sou você.”

“Quando foi que eu já falei assim?”

“Quando você fica bêbada.”

A música disfarçou meu tom agudo. “Eu não anuncio isso para o mundo!”

“Sinto muito.”

Ela não parecia sentir muito por isso e eu tinha a sensação de que era só o começo. Nós nunca devíamos ter nos fantasiado uma da outra.

Rachel estalou os dedos. “Alguém me serve uma bebida, agora.”

Puck estava enviando uma silenciosa prece aos céus enquanto corria rapidamente para satisfazer o pedido de Rachel.

“Wow Berry, você está gostosa pra caralho.”

“Obrigada, S.” Ela agradeceu orgulhosamente enquanto botava as mãos na cintura.

“Eu não acredito que você deixou ela vestir esse uniforme.”

Eu encolhi os ombros antes de botar meu braço em volta de Rachel. “Minha garota está deslumbrante, não está?”

Rachel sorriu largamente pra mim e eu depositei um beijo em seus lábios antes de voltar minha atenção para as minhas amigas.

“Gostei da sua fantasia.” Eu ri enquanto olhava para a calça de couro vermelha de Santana.

“Bom, como alguém decidiu nos dispensar esse ano, nós tivemos que improvisar.”

“Santana é o diabo e eu sou o anjo dela.” Brittany nos disse.

“Suponho que o Puck esteja vestido de Mr. T, certo?”

Como ele se vestia todo ano.

“Eu tenho quase certeza de que eles eram pra ser o A-team ou algo estúpido do tipo.”

Eu assenti e reparei Brittany cochichar algo no ouvido da sua namorada e as duas rirem antes de desaparecerem. Eu guiei Rachel até a sala, onde todo mundo estava conversando e admirando as fantasias um do outro.

Eu me inclinei pra perto dela. “Você está bem? Está quieta.”

“O que?” Ela olhou para mim. “Ah sim, eu só estou praticando meu olhar ameaçador.”

“Você realmente está gostando disso, não está?”

“Mais do que você pode imaginar.”

Eu puxei sua mão e ela olhou para mim em expectativa. “Você estava falando sério sobre o quarto do Puck? Porque eu acho que eu não consigo mais tirar essa imagem da minha cabeça.”

Rachel se virou para mim e foi quase assustador o sorriso malicioso que ela me deu.

...

As abóboras saíram de cena e as decorações foram sendo substituídas pelo próximo feriado que se aproximava. Não era que eu odiava o dia de Ação de Graças, era só que eu nunca tinha tido um que fosse bom. Tipo, nunca. Eles sempre terminavam em lágrimas ou coma alcóolico. Eu normalmente era a que chorava em silêncio no fim da noite.

Normalmente, os feriados de inverno eram a época favorita do ano dos adolescentes pelo único fato de que não tinha aula. Quem não ficava animado com isso? Bem, eu. Significava longos dias somente com os Fabrays de companhia. E se você conhece um, você conhece todos. Eles são todos iguais.

Quando minha mãe sugeriu uma visita à minha irmã no seu novo apartamento em NY, eu encolhi de medo com a ideia. Estar numa cidade desconhecida com os Fabrays era quase pior do que ter o dia de Ação de Graças na nossa casa em Lima. Pelo menos em Lima eu podia fugir e me esconder na casa da Santana por um tempo. Como eu fazia todos os anos.

Felizmente, aparências ainda eram mais importantes do que família pra minha mãe.

“Então, eu fui indicada para o Baile de Inverno desse ano.”

Eu fingi que isso não significava muito pra mim, mas por dentro eu estava vibrando. Era um passo a mais perto do objetivo que eu tinha traçado pra mim mesma no primeiro dia de aula do primeiro ano, Rainha do Baile. A probabilidade de ser Rainha do Baile só aumentava a seu favor se você fosse coroada Rainha do Baile de Inverno. Eu tinha conseguido meu caminho de volta para o topo.

“Oh Quinnie, isso é maravilhoso!” Minha mãe guinchou por cima da sua massa.

Noites de segunda eram as noites de massa.

Eu tinha ensaiado a conversa na minha cabeça desde que eu soube pela manhã, quando foi anunciado junto com os avisos antes das aulas. Eu estava morrendo para contar para minha mãe. Eu sabia que visitar a Abby era algo que a minha mãe estava ansiosamente esperando desde que ela tinha reservado os voos no mês anterior. Eu não queria que ela ficasse por minha causa, mas eu também não queria perder o Baile de Inverno daquele ano. Por vários motivos.

“Eu sei que você queria ir para NY comigo, mas eu estava pensando se eu podia ficar aqui.”

Seus lábios se fecharam formando uma linha. Era a cara que ela fazia quando estava pensando sobre o assunto.

“Mas é Ação de Graças.”

Eu descansei o garfo no meu prato e juntei minhas mãos. “Eu sei, mas é o Baile de Inverno, mãe.”

Eu estava jogando sujo.

Eu não queria ir para NY sem a Rachel e eu estava esperando por qualquer oportunidade que pudesse me impedir de viajar aquele final de semana.

Ela suspirou. Ela sabia exatamente onde eu queria chegar.

“Suponho que você esteja certa. Eu só não queria que você passasse o dia de Ação de Graças sozinha.”

Eu já tinha uma resposta pra isso. “Eu tenho certeza que serei bem-vinda na casa dos Berry.”

Rachel e eu já tínhamos conversado sobre isso, obviamente. Nós tínhamos até ensaiado algumas vezes com Rachel fingindo ser a minha mãe.

“Bem, eu imaginei isso.” Ela replicou num tom divertido. “Por sozinha eu quis dizer sem a sua família.”

Nem passou pela minha cabeça mencionar o fato de que eu tive que passar o ano anterior sem eles porque eu tinha sido expulsa de casa.

Eu dei a ela um sorriso firme, me recusando a demonstrar que esse pensamento ainda me incomodava. “Eles meio que são minha família também, minha segunda família.”

Ela assentiu, achando consolo com a minha resposta e voltou a comer. Mas não antes de me perguntar se ela podia me acompanhar quando eu fosse escolher o vestido.

Eu podia ter contado para a Rachel a notícia quando eu mandei uma mensagem pra ela depois do jantar ou até mesmo mais tarde aquela noite quando ficamos no telefone. Mas valeu a pena esperar até a manhã seguinte, onde eu pude ver seu rosto se iluminar com o fato de que eu essencialmente me mudaria pra casa dela por quatro dias. Tinha valido a pena.

Nosso time de futebol aquele ano estava tendo outra temporada vitoriosa e as arquibancadas estavam lotadas de alunos naquela quarta à noite, num jogo contra nosso maior rival. Nós éramos favoritos e seria a primeira vez em quinze anos que nós ganharíamos deles.

Rachel estava nas arquibancadas, como sempre, e seus pais a tinham acompanhado, como eles também normalmente faziam desde que começamos a namorar. Era uma sensação boa poder olhar para as arquibancadas e achá-la exatamente no mesmo lugar todas as vezes, sorrindo daquela forma que sempre me fazia corar. Aquela noite os membros do Glee que não eram do time de futebol e não eram das Cheerios se sentaram com eles.

Enquanto o primeiro tempo rolava, meu estômago estava dando nós. Os indicados para o baile eram todos jogadores de futebol ou líderes de torcida e eu não tinha me dado conta do quanto eu realmente queria aquilo até segundos antes de anunciarem o resultado. E não pelos motivos que minha mãe acreditava que fossem. Eu queria ser alguém que Rachel se sentisse orgulhosa em dizer que era dela, que ela pudesse dizer que sua namorada era Rainha do Baile de Inverno. Vamos ser sinceros, não é como se você ouvisse isso saindo da boca de uma garota todos os dias.

“A Rainha do Baile de Inverno desse ano é... Quinn Fabray. E a acompanhando Finn Hudson, o quarterback.”

Eu tinha medo que isso fosse acontecer desse jeito. Nós botamos nossos sorrisos falsos no rosto enquanto ele me guiava para o centro do campo. Nós não éramos amigos, mas éramos educados um com o outro quando precisávamos ser. Não incomodávamos um ao outro e ele logo percebeu que não tinha motivo nenhum para continuar resmungando pelos cantos, porque eu e Rachel não íamos terminar. Eu não tinha contado para a Rachel, mas eu chamei ele para conversar depois que assumimos nosso namoro para me desculpar por tudo que tinha acontecido entre nós. Eu ainda não gostava dele, mas eu sabia que essa tensão na sala do coral deixava Rachel angustiada. Era um pequeno sacrifício e tinha valido a pena a longo prazo.

Eu me certifiquei de manter meus olhos em Rachel durante todo o tempo em que ela me aplaudiu das arquibancadas. Ela sabia das minhas reservas e para provar que isso não era a única coisa que eu queria na vida, eu dancei com ela ao invés de Finn durante a dança obrigatória entre o Rei e Rainha do Baile de Inverno aquele final de semana. Eu ficaria mais do que satisfeita em não ir, mas eu não podia desperdiçar a chance de ser a primeira pessoa a trazer Rachel para um baile e eu com certeza não podia passar a chance de compartilhar nossa primeira dança juntas, a primeira dança de Rachel.

“Eu estou tão orgulhosa de você.” Rachel sorriu largamente para mim, seus olhos castanhos brilhando tanto quanto seu sorriso.

Eu me inclinei e a beijei, algo que nós raramente fazíamos em público. Eu precisava que ela soubesse que eu era quem estava orgulhosa dela.

Ela riu levemente no meu queixo quando se afastou, ainda me mantendo perto o suficiente para que eu pudesse sentir seus cílios se agitarem contra minha pele. Ela estava deslumbrante.

“Eu sei o quanto isso significa pra você.” Ela me disse suavemente. “Eu não consigo expressar o quanto isso significa pra mim.” Ela não precisava dizer que estava se referindo à dança, eu já tinha entendido.

Ela sabia que eu não era o tipo que dançava e ela sabia que eu não era boa em deixar as pessoas verem meu lado vulnerável. Que minha verdadeira fraqueza era Rachel Berry.

“Bom, você é tudo pra mim. Você sabe disso, não sabe?”

Ela sorriu mais ainda antes de esconder sua timidez em meu pescoço.

...

As tradições dos Berry tinham logo se tornado minhas também. Na manhã de Ação de Graças nós nos juntamos no sofá ainda em nossos pijamas para assistir ao desfile e até mesmo aplaudir quando o Papai Noel apareceu para iniciar, de fato, a época de Natal.

Nós jantamos cedo e passamos a maior parte do dia saindo e entrando da cozinha e tentando não esbarramos uns nos outros. Eu fiquei quase uma hora no telefone com a minha mãe aquele dia e depois que as tortas tinham sido devoradas nós quatro voltamos ao sofá para assistir um jogo qualquer de futebol que estava passando.

“Eu não sabia que você gostava de futebol.” Eu cochichei enquanto Mr. Berry se acomodou na poltrona ao lado do outro Mr. Berry, como eu às vezes os chamava.

Ela se virou para olhar pra mim. “Você gosta de futebol?” Ela perguntou, ignorando completamente que eu havia perguntado primeiro.

Eu encolhi os ombros. “Você acha que por eu ser uma líder de torcida eu amo, certo? Mas meio que me deixa entediada.” Eu admiti.

Ela sorriu e se inclinou para beijar minha bochecha. “Eu sabia que tínhamos sido feitas uma pra outra.”

“Você também fica entediada?”

Ela se inclinou mais uma vez, seus lábios quase tocando minha orelha. “Não conte para o meu pai, mas eu e papai sempre escolhemos o time contrário ao que ele torce. Mesmo que eu não faça ideia do que está acontecendo na maioria do tempo.”

Eu me afastei com um sorriso. “Você é má.”

“Nós só reparamos nas cores dos times e agimos de acordo. Nós realmente entramos no papel. Minha habilidade em atuar melhorou ao longo dos anos graças a isso.” Ela sorriu abertamente. “É divertido.”

“O que é divertido, minha querida?”

Rachel se virou para o seu pai. “Eu só estava dizendo para a Quinn o quanto esse jogo vai ser bom. Pra quem você está torcendo hoje, pai?” Ela perguntou docemente. Eu já estava treinada o suficiente àquela altura para reconhecer quando Rachel Berry usava um tom falso.

Eu tinha certeza que seus pais também.

“Os Gian-” Ele suspirou. “O time de azul.”

“Muito bem. Sinto muito em dizer que parece que nós seremos rivais essa noite, pai. Boa sorte.”

Seu pai olhou para o seu marido sentado ao lado dele. “Suponho que você também vá torcer para o time de branco?”

“Eu sempre fui um grande torcedor do time de branco.” Ele riu, piscando para a filha.

“Quinn? E você?”

Eu estava fazendo carinho na nuca de Rachel com meu polegar. Ela se virou para mim, esperando que eu ficasse do seu lado.

“Eu estou com você Mr. B. O time de azul vai ganhar essa.” Eu dei a ele um sorriso e ele sentou no sofá, parecendo vitorioso.

“Eles acham que eu não sei o que eles fazem todo ano quando torcem sempre para o outro time. Estou feliz por você estar comigo nessa.”

Rachel abriu a boca algumas vezes, mas nenhuma palavra saiu. Ela bufou e cruzou os braços, me lançando um olhar mal humorado pela minha inesperada traição. Eu beijei sua testa e voltei a massagear sua nuca.

“Derruba ele! Derruba ele! Derruba ele! DERRUBA ELE!” Ela gritou pra televisão, se certificando de chegar perto do seu outro pai e bater as mãos com ele.

Ela voltou para sua posição no sofá, nos meus braços, dando a língua pra mim.

“Eu achei que você tivesse dito que não sabia nada sobre futebol.”

“Eu convivi com Finn por dois anos, eu sei o básico.”

Logo ela estava de pé e gritando alguma outra coisa para a TV antes que eu pudesse dar a ela uma resposta apropriada.

O time de branco acabou ganhando, o que não fez diferença pra mim porque eu estava me divertindo mais vendo como ela ficava vermelha toda vez que eu torcia pro time de azul. Seus pais foram dormir depois do jogo, mas não antes de Rachel e Brian darem sua volta olímpica pela sala.

Eu puxei ela de volta para o sofá quando ela começou a mandar beijos para a torcida. Tudo tinha um limite. Eu devia ter cortado a comemoração antes, quando ela estava fazendo um discurso de vitória.

“Você é adorável, mas você é louca.” Eu disse a ela.

Ela bufou, mas sorriu. “Você só está com inveja porque meu time ganhou.”

“Exatamente.” Eu debochei.

“Não vem com esse sarcasmo pra cima de mim.”

Depois de algumas tentativas em beijá-la e ser rejeitada em todas elas, ela finalmente desistiu e se aconchegou em mim enquanto eu passava os canais. Estávamos cansadas, mas não queríamos ir dormir.

Mesmo que fossemos pagar por isso pela manhã.

...

“Lembra daquele tempo em que eu gostava de ir as compras com você?” Eu perguntei enquanto ficava para trás, segurando mais sacolas do que eu podia contar. Rachel estava andando animadamente, parando para dar alguns trocados para o Exército da Salvação pela oitava vez.

“Quinn, Black Friday é um feriado nacional.”

Eu finalmente botei tudo no carro depois de cinco horas andando entre todos os shoppings num raio de dez milhas.

Ela estava engajada em achar o presente perfeito para todos do Glee e nós não tínhamos ainda saído da categoria parentes.

Músicas de natal começaram a tocar no rádio e Rachel parecia saber todas as letras de todas as músicas de Natal que tinham sido criadas um dia. Quantas versões de Baby, It’s Cold Outside existiam?

“Isso é realmente necessário?” Eu apontei para o rádio enquanto ela aumentava o volume. Eu saí da vaga e disse a mim mesma que eu não ia parar em mais lojas, independente do quanto ela implorasse. Eu não faria.

“É. E nem pense em trocar de estação, elas estão tocando a mesma coisa.”

Rachel cantou junto com a música, batendo palmas excitada toda vez que uma nova música começava, dizendo que aquela era a sua favorita. Por que as rádios estavam tocando músicas de Natal um dia depois do dia de Ação de Graças era uma incógnita pra mim.

“Quinn, olha.” Ela apontou pela janela e eu sabia que seus olhos estavam grudados em alguma loja.

“Não.” Eu balancei minha cabeça. “Não vou olhar.”

Se eu olhasse, tudo estaria perdido.

“Por favor.” Ela implorou.

Nós paramos no sinal vermelho e eu me virei para olhar para a janela antes que eu cometesse o erro de olhar para sua cara pidona e seu lábio inferior fazendo bico.

“Ok!” Eu disse suspirando, jogando meus braços pra cima antes de ligar a seta.

Como eu ia atravessar três pistas para alcançar a saída?

O beijo que eu recebi por isso fez valer a pena.

...

Estava difícil comprar um presente para Rachel, principalmente porque nós passamos quase que todo o nosso tempo livre juntas no fim de semana. Ela era uma espécie de cão de caça quando se tratava de presentes e ela sabia todos os esconderijos secretos do meu quarto. Ela sabia da tábua solta no meu closet, ela sabia do forro escondido no fundo do meu guarda-roupa e ela sabia até mesmo do livro-falso que eu tinha na minha estante.

Eu minimizei todas as janelas do meu notebook quando eu ouvi uma leve batida na porta, eu ainda não tinha a mínima ideia do que dar à Rachel no Hanukkah e de Natal. Eu estava planejando comprar presentes mais simples para cada dia de Hanukkah e um especial para o Natal, mas tudo em que eu pensava não parecia bom.

“Você está pronta?”

Eu confirmei distraidamente enquanto limpava meu histórico. Tinha virado uma rotina.

“Só um minuto.” Eu falei por cima do ombro antes de desligar o computador.

Ela ainda não tinha adivinhado a senha que eu tinha posto. Eu comecei a me precaver depois de ter aprendido o quanto ela era boa em arruinar minhas surpresas. Se ela realmente tivesse se dedicado à tarefa de descobrir minha senha, ela iria rapidamente descobrir que era a data do seu aniversário.

Ainda que eu gostasse quando ela dirigia, isso também significava que eu não tinha controle sobre onde íamos. Nós estávamos indo comprar algo para o jantar, já que seus pais iam trabalhar até tarde, mas eu tinha um pressentimento de que ela ia dar um jeito de entrar em algum shopping.

Depois de andar pelo shopping por uma hora, nós decidimos comer em um dos restaurantes que tinham ali.

“O que você quer de Natal?” Ela perguntou enquanto tomava um gole do seu refrigerante. “Eu ainda estou esperando a sua lista e meus pais estão começando a perguntar.”

“Nem todo mundo é capaz de produzir uma lista de Natal como você.”

Ela franziu as sobrancelhas enquanto eu continuei minha pesquisa pelo menu infantil.

“Bem, naturalmente, mas tudo que você tem que fazer é pensar em pelo menos uma coisa que você queira.”

“Eu não quero nada.”

“Não seja boba. Todo mundo quer alguma coisa. Papai está começando a ficar impaciente, você sabe o quanto ele ama fazer compras.”

Era verdade. Ele podia ser comparado a própria filha nesse quesito.

“Diga a eles que eles me deram você.”

“Quinn-”

“Por favor, podemos falar de outra coisa?”

Nenhuma de nós falou mais nada enquanto esperávamos a garçonete voltar com os nossos pedidos e continuamos em silêncio enquanto comíamos. Eu paguei antes que ela pudesse protestar e quando estávamos indo para o carro eu a puxei para mim, depositando um beijo em sua testa.

“Desculpe ter falado com você daquele jeito, essa época do ano é difícil pra mim e eu não queria descontar isso em você.”

“Eu entendo Quinn, eu só quero que esse seja o melhor Natal que você já teve.”

“Eu não preciso de presentes pra isso.”

“Você definitivamente sabe como fazer um charme.” Ela riu enquanto passeava a mão pelo meu casaco.

Na primeira semana de Dezembro a árvore de Natal dos Berrys foi retirada do sótão e depois de passar uma hora desembaraçando os pisca-piscas, ela estava pronta para ser decorada. Eu me diverti assistindo Rachel adornar a árvore com pequenos dreidéis e suar para colocar a maior estrela dourada que eu já tinha visto no topo dela.

“Você está bem?” Ela perguntou ao me entregar uma caneca de chocolate quente e sentar ao meu lado no sofá.

“A casa ficou linda.” Eu comentei.

Ela olhou em volta com orgulho. Nós estávamos sentadas na sala, de frente para a árvore, mas toda a casa estava decorada e iluminada. A serenidade daquele cômodo fazia eu me sentir em paz.

“Sua casa também.” Ela disse, descansando a cabeça no meu ombro. “Todos os dias.”

“Eu amo minha mãe e minha irmã, mas aqui parece mais minha casa às vezes.”

“Eu sei que feriados costumavam ser só dias ruins para você, mas eles não precisam mais ser assim.”

Eu assenti e tomei um gole do meu chocolate quente. “Eu sei.”

Nós ficamos em silêncio por um tempo e eu comecei a pensar sobre o ano que tínhamos passado juntas. Eu senti ela bocejar apoiada no meu ombro.

“Quer ir pra cama, dorminhoca?” Eu perguntei enquanto brincava com as linhas da palma da sua mão.

“Eu durmo no sofá no dia em que montamos a árvore todos os anos.”

“Posso me juntar a você nessa tradição?”

Eu realmente não precisava perguntar, eu sabia a resposta.

“Só se você prometer que vai me proteger dos monstros.”

“Não protejo sempre?”

Ela assentiu porque mesmo que fosse irracional ela ter medo de monstros, eu ainda iria protegê-la deles nas noites que eu dormisse na sua casa. Para uma pessoa que vivia na mesma casa desde que nasceu, ela com certeza se assustava com facilidade. Não levou nem um ano inteiro pra mim perceber que o barulho que vinha do corredor era o seu pai acordando no meio da noite para comer Oreo com leite ou que o barulho na janela era só o vento.

Eu também sabia que ela exagerava um pouco para que eu segurasse ela mais perto de mim.

Rachel era esperta. Ela era mais esperta no ensino médio do que eu jamais pensaria. Eu tenho certeza que ela fez coisas por mim que eu ainda não sabia sobre, mas eu comecei a perceber o quanto eu realmente a subestimava na segunda semana de Dezembro.

“Cartão de Natal bonitinho, perdedoras.”

Eu me virei para Rachel enquanto Santana sentava atrás de nós no ônibus para as Sectionals. “Do que ela está falando?”

Ela encolheu os ombros. “Não faço ideia.”

Minha namorada sempre fora uma péssima mentirosa.

Não foi antes da tia de Rachel ligar na manhã seguinte que eu exigi saber o que estava acontecendo.

“Você usou a foto que a gente tirou antes de ir para o Baile de Inverno?” Eu praticamente gritei quando eu vi minha foto no cartão de Natal dos Berrys.

Ela pegou o cartão da minha mão e eu me virei e peguei outro de dentro da gaveta. “É culpa sua se você não percebeu que meus pais estavam usando suéteres de Natal.”

“Eu só achei que eles estavam animados com as festas de fim de ano.”

Ela assentiu, concordando. “É uma foto linda, a gente está até combinando.”

“Nós duas estamos usando vestidos pretos.” Eu expus.

“Simétricas.”

Eu devia saber que Rachel ia descobrir um jeito de obter minha lista de Natal. Minha mãe estava sob estritas ordens de não ceder sob os intensos questionamentos que Rachel fazia toda vez que vinha para o jantar e Abigail já sabia que era para não atender o telefone se fosse Rachel ligando. Ela ainda assim conseguiu, mas eu suponho que tenha sido minha culpa. Eu devia te percebido quando Mr. Schuester pediu para preenchermos uma pesquisa de duas páginas para o amigo secreto ou quando Brittany me perguntava o que eu queria toda chance que tinha.

“Está tudo bem pra você celebrarmos o Hanukkah?”

Eu dei de ombros. “Eu fui criada no catolicismo, mas eu sou mente aberta, eu acho. E os seus pais não tem problema com celebrar os dois. Eu só não sei nada sobre ele, então você vai ter que me ensinar.”

Coisa errada a se dizer para Rachel Berry.

Uma apresentação de Power Point, dois documentários e três sequências de quiz depois e eu já tinha virado uma expert.

“Eu sei que você não queria nenhum presente, mas vamos encarar os fatos, eu não escutei.” Rachel disse enquanto empurrava para mim um presente embrulhado em papel prateado.

Pelo menos ela admitia seus próprios defeitos.

Eu sorri largamente independente disso, porque como eu poderia não sorrir com os olhos de Rachel Berry brilhando como se fossem o sol?

Na primeira noite eu chorei quando eu abri a caixa e achei uma meia vermelha com meu nome inscrito no topo em letras douradas, igual as outras três que estavam sobre a lareira. Na quarta noite ela chorou enquanto escutava o CD que eu tinha feito de mim mesma cantando algumas das suas músicas favoritas de Natal. Na sétima noite os dois Berrys choraram ao assistir minha reação ao abrir o presente deles e descobrir que meu nome tinha sido adicionado ao enfeite que tinha os nomes da família Berry.

A véspera de Natal foi na casa da avó de Rachel e eu não me importei de ficar cercada por quinze crianças e ninguém nem piscou quando Rachel me beijou sob o visgo que ela obviamente tinha planejado me pegar. Minha mãe passou para me pegar depois da sua festa com o pessoal do trabalho para a missa da meia-noite.

“Você não precisa fazer isso.” Eu olhei para Rachel pelo espelho enquanto penteava meu cabelo.

“É véspera de Natal, Quinn. Nós vamos passá-la juntas.”

Quando eu era mais nova, tinha um momento que batia todos os melhores momentos do ano. Até mesmo o início das férias de verão. Aquele momento, de manhã cedo, quando ainda estava escuro lá fora, mas você nunca esteve mais acordado, aquele momento em que tudo que você desejou e esperou finalmente esta lá, esperando por você debaixo da árvore de Natal, coberto por papel de presente, pedindo para ser rasgado em pedaços. Você passa a noite anterior preparando o arranjo perfeito de cookies e vegetais num prato com desenhos de Natal, se assegurando de botar leite o suficiente. Você escreve e revisa sua carta para o Papai Noel mil vezes e você até tenta dar uma olhada na árvore no alto da escada quando você pensa ter escutado um barulho vindo do telhado.

Depois de descobrir que aquela montanha de presentes vem dos seus pais, você ainda finge acreditar por mais um ano, porque você não tem a coragem de dizer a sua irmã mais velha que ela não precisa mais fingir que também acredita. Ela sempre cuidou de você e essa é a única manhã que você pode pular em cima dela enquanto ela ainda está dormindo e não se dar mal por isso. Sua concentração é inexistente naquela manhã, pulando de uma casa dos sonhos da Barbie para outra. Os parentes chegam com mais presentes ainda e você está no céu. Você é jovem demais para se preocupar com o drama que vem junto com isso quando um grupo de machos alfa ficam juntos num cômodo só. E você está ocupada demais para se incomodar com a fofoca que preenche a cozinha enquanto as mulheres cozinham. Você não tem que se preocupar se alguém gostou ou não do presente que você comprou e você não precisa ficar com medo do livro de receitas que você mesma fez para cada membro da família não ser suficiente. Os sorrisos podem ter sido falsos, mas você não era nenhuma sábia.

“Acorda, acorda, acorda, acorda, acorda, acorda.”

“Que horas são?”

“Se eu disser, você não vai querer levantar.”

Eu gemi. Isso queria dizer que eu não queria saber.

Eu joguei minha coberta para o lado e procurei cegamente pelo robe que Rachel tinha me dado em uma das noites do Hanukkah.

“Por que essa foi tão fácil assim?” Ela perguntou.

Eu dei um beijo nela e ela engatinhou até o pé da cama. “Porque eu era quem acordava todo mundo na manhã de Natal e eu sei o quanto você provavelmente está animada. E você nunca teve ninguém para acordar, então eu vou facilitar essa pra você.”

Quando chegamos ao pé da escada, Rachel correu para se juntar ao seu pai Brian em frente à árvore. O seu outro pai, Michael, me entregou uma caneca de chocolate quente. Ele ajustou seus óculos de aro preto enquanto observava seu marido e sua filha balançarem os presentes e entregar um ao outro aqueles presentes que tinham seus respectivos nomes.

“Bem-vinda à manhã de Natal.” Ele murmurou.

Eu assisti com divertimento eles se gabarem do tamanho de alguns dos presentes. Eu vi os três presentes que eu tinha embrulhado para Rachel mais cedo e a sensação de náusea no meu estômago estava se fazendo presente mais uma vez. Como eu imaginei que ela faria, ela deixou meus presentes por último, assim como os Berrys.

“Quinn, isso é muito.” Michael me disse enquanto mostrava ao seu marido o panfleto do Spa.

“Foi ideia da minha mãe e eu concordei. Vocês fizeram tanto por mim, vocês merecem um longo fim de semana só para vocês. Já está tudo acertado, vocês só precisam ligar e confirmar o final de semana que vocês querem ir.”

“Você me humilhou.” Rachel sussurrou brincando, olhando para o livro de cupons que ela tinha feito esquecido ao lado dos dois homens. “Você tem sorte que isso não foi a única coisa que eu dei a eles esse ano.”

“Eu fiz isso por nós também.” Eu sussurrei. “Um final de semana pra eles significa um final de semana para nós.”

Ela me deu um beijo enquanto seus pais discutiam os possíveis finais de semana que eles poderiam ir. Nós esperamos até que eles fossem para a cozinha para trocarmos nossos presentes.

“Por que você está chorando? Você não gostou?” Eu perguntei enquanto mordia meu lábio em hesitação.

“São lágrimas de felicidade, eu juro.”

“O que ela te deu?” Seus pais voltaram assim que ouviram Rachel gritar. “Eu gosto de ter a Quinn por aqui, ela é melhor que o Papai Noel!”

“Entradas para ver um show na Broadway!”

“Espero que ela também tenha te dado a paciência dela.”

“Como assim?” Eu perguntei.

“Uma viagem de nove horas e um final de semana com Rachel naquela cidade? Bem, eu vou deixar você descobrir por você mesma.” Ele provocou.

Ela se jogou em mim com um abraço antes que eu pudesse perguntar sobre o quanto de paciência nós estávamos falando.

“Nós vamos ficar na Abby por uns dias antes da véspera de Ano Novo, ela tem muita coisa planejada para a gente.”

“Eu mal posso esperar!” Ela continuou olhando para as entradas, por vezes segurando elas contra a luz para ter certeza de que elas eram reais.

“Seu presente não está aqui ainda, ele deve chegar mais tarde.”

“Rachel, eu disse pra você que eu não quero um elíptico.”

Eu devia ter visto o brilho nos seus olhos.

A campainha tocou logo depois do desfile de Natal. Nós já tínhamos ido na minha casa para abrir os presentes com a minha mãe, dar um cochilo, tomar banho e tomar café da manhã. Eu ainda não sabia que horas Rachel tinha me acordado aquela manhã. Eu estava cortando e descascando maçãs com o seu pai para o recheio da torta quando eu escutei Rachel cumprimentar alguém que tinha chegado.

Depois de alguns minutos ela veio para a cozinha. “Seu presente chegou.” Ela sorriu abertamente e segurou meu braço enquanto eu tentava limpar minhas mãos no pano de prato.

Poucas coisas podiam me fazer ficar sem palavras e o presente de Rachel naquele primeiro Natal tinha sido uma delas. As palavras escaparam de mim e o ar não existia.

“Shelby?”

“Oi Quinn, Feliz Natal.” Ela sorriu de volta enquanto balançava um bebê no colo.

“Beth?”

“Por que não nos sentamos?” Ela sugeriu.

Meu aperto em Rachel só aumentou quando eu me movi para o nosso sofá.

“Eu estava esperando que vocês pudessem cuidar da Beth de tarde enquanto eu arrumo a casa. Vão vir alguns parentes para o almoço.”

“Sério?”

Ela assentiu. “Ela ama o parque e ela é um pouco abusada com o balanço.” Ela me disse enquanto se levantava. “Ela nunca foi no escorregador, talvez você queira experimentar com ela.” Ela sorriu enquanto gentilmente entregava ela para mim.

Os olhos avelãs de Beth estavam me encarando e ela botou os dedos na minha boca.

“Obrigada.” Eu disse a ela enquanto movia Beth para o meu outro braço.

Rachel se assegurou de tomar nota enquanto fazia Shelby explicar tudo detalhe por detalhe, duas vezes. Eu não estava realmente prestando atenção, eu estava contente em só observar Beth brincar com o cordão em volta do meu pescoço.

Nosso dia estava maravilhoso, como se eu não estivesse tomando conta da criança que eu tinha dado para adoção. Era como qualquer outro trabalho de babá, até minha mãe chegar para o almoço. As lágrimas foram muitas.

Shelby estava certa sobre ela ser abusada no balanço, quanto mais alto ela ia, mais alto ela ria. O escorregador foi uma provação, já que Rachel não ficou satisfeita com a foto que ela tinha tirado da primeira vez. Levou só mais quinze vezes até que ela tirasse uma foto boa o suficiente segundo os seus padrões.

Puck tirou uma folga da sua maratona de vídeo game para nos encontrar no parque e ainda que ele tivesse dito que era uma alergia, eu vi ele esfregando os olhos algumas vezes enquanto corria com Beth em seus ombros. Mesmo que não estivesse nevando, ainda estava muito frio e nosso dia no parque terminou logo depois de Rachel ver Beth tossir.

Os Berrys já estavam com o chocolate quente a nossa espera, junto com alguns brinquedos antigos de Rachel espalhados por toda a sala.

“Você acha que ela gosta de musicais?”

Beth aumentou seu aperto em volta do meu indicador, estávamos sentadas no chão. “Eu tenho certeza que ela gosta.”

Como eu podia saber se uma criança de dois anos gostava de musicais? A resposta pareceu satisfazer Rachel.

“Você está feliz?”

Beth se distraiu com algo na televisão e eu deixei ela deitar com cuidado para poder assistir Dora.

“Por que eu não estaria?”

“Bem, a chance de cuidar da criança que você deu pra adoção não é um presente de Natal muito comum. Eu estava com medo de você ficar chateada comigo.”

Eu voltei minha atenção para Beth e deixei um pequeno sorriso se espalhar pelos meus lábios. “É como se fosse um fecho.”

“Fecho?”

“Eu sempre me perguntei se eu tinha tomado ou não a decisão certa. Eu posso descansar em paz agora.”

Eu não sabia como explicar, mas eu tinha certeza que ela tinha entendido. Mesmo que nossas histórias fossem diferentes, nós simpatizávamos com a história uma da outra.

“É uma adoção aberta.” Eu disse depois de alguns minutos de silêncio.

“Você nunca me disse isso.”

“Shelby insistiu. Eu tento não pensar muito sobre isso.”

Rachel sabia porque ela tinha insistido.

Eu continuei. “Nós duas sabemos que eu nunca teria iniciado um contato com ela por contra própria.”

“Eu sei.”

“Mas eu estou feliz por poder passar algum tempo com ela nessa idade e que você esteja aqui comigo.”

Rachel abaixou o braço para pegar minha mão e passou o polegar sobre o dorso dela como ela sempre fazia quando conversávamos sobre coisas sérias.

“Ela é muito nova para lembrar, mas eu acho que é melhor assim. Talvez um dia ela queira me conhecer e eu posso mostrar a ela as fotos de hoje e ela vai saber que eu sempre me importei com ela.”

“Oh, isso me lembra uma coisa!” Ela levantou do chão e me deu um beijo desajeitado na testa antes de correr escada acima.

Beth se virou para olhar para o barulho e meus olhos se encontraram com os dela.

“Ela é maluca, não é?”

Como se ela tivesse entendido exatamente o que eu tinha dito, ela sorriu e disse algo incoerente antes de voltar os olhos para a TV.

“Eu ouvi isso.” Rachel fez bico enquanto voltava para a sala com suas mãos nas costas. “Isso é pra você.”

Rachel tirou suas mãos de trás para revelar outro presente.

“Não! Sem mais presentes, você já me deu o suficiente.”

Ela revirou os olhos e jogou o presente no meu colo. “Por favor, você me comprou entradas para um show da Broadway e eu tenho certeza que você não vai deixar eu comprar nada quando estivermos lá, então abre esse presente sem reclamar.”

Meus dedos já estavam rasgando o papel e quando ela terminou seu pequeno discurso, eu já tinha amassado o papel numa bola antes de jogar nela e ignorar seus protestos sobre salvar o papel de presente.

Eu corri meus olhos pelo autêntico álbum de fotos prata no meu colo e negligentemente passei as páginas mesmo que estivessem todas vazias.

“Eu achei que você ia querer um lugar para guardar todas as fotos de hoje.”

“Eu amei.” Eu disse, meus dedos deslizando pela mensagem que ela tinha gravado na capa.

Tinham muitas fotos, Rachel devia ter tirado mais de cem. Fotos de Beth sozinha, algumas de nós duas, umas de Beth e Puck e uma coleção de fotos de família tradicionais com nós três em várias posições estranhas. Nenhuma tinha Rachel e isso tinha que mudar.

Eu depositei um beijo desajeitado nos seus lábios antes de pôr o álbum de fotos no sofá e pegar a câmera da mesa de café.

“Levanta.” Eu mandei, esticando meu braço para ela pegar minha mão.

“Não, Quinn.” Ela argumentou, já percebendo a minha intenção. “Isso é algo seu e dela. Eu não tenho que estar nessas fotos.”

“Michael!” Eu gritei sobre o ombro e os olhos de Rachel se arregalaram. O pai dela apareceu alguns segundos depois em seu avental e um sorriso no rosto. “Você tiraria algumas fotos de nós?”

Ele mal conseguiu conter seu grito de alegria ao pegar a câmera das minhas mãos. O olhar de Rachel só se intensificou quando eu me virei sorrindo para ela.

“Agora você não tem escolha.” Eu sussurrei em sua orelha enquanto eu me agachava para ajudá-la a se levantar.

“Você reclamou o dia todo que eu estava tirando fotos suas e agora você quer que tirem fotos suas?”

“Me faça sorrir.”

Eu peguei Beth e o outro pai de Rachel ficou fazendo gracinhas para manter o interesse dela por tempo o suficiente para tirar algumas fotos de nós três para o álbum.

Shelby chegou uma hora depois para pegar Beth, nós conversamos por alguns minutos na mesa de jantar sobre o progresso de Beth e como ela estava indo na creche. Eu aprendi tudo que eu pude sobre ela e Shelby falou sem parar sobre o quanto ela era bem comportada. Eu estava orgulhosa.

Nós nos despedimos e Rachel se recusou a sair do meu lado. Não era necessário, eu estava bem, mas eu apreciei o seu cuidado.

Nosso Natal acabou no sofá em frente a árvore de Natal enquanto assistíamos Uma História de Natal do início ao fim. O filme tinha passado o dia inteiro, mas nós decidimos sentar e realmente assistir antes de irmos dormir.

“Você teve um bom Natal, Quinn?”

“O melhor até agora.”

Ela sorriu e se aconchegou mais perto de mim. Minha mão entrou debaixo da sua blusa e ficou brincando com seu abdômen enquanto assistíamos ao filme.

“Eu também.” Ela respondeu antes de virar seu pescoço até poder me encarar. “Sobre NY...”

Eu revirei meus olhos de brincadeira, mas eu sabia que ela estava excitada com a nossa viagem, então eu deixei que ela falasse. Eu prometi que nós faríamos tudo e qualquer coisa que ela quisesse fazer.

Ela estava certa.

Os feriados de inverno costumavam ser dias ruins para mim, mas eles não precisavam ser mais.

E eu tinha certeza de que eles nunca mais seriam.

Notas finais
Bom sábado à noite galera!