Holidaze

5 Irish I Was Drunk


Notas iniciais
E aí galera? Mais um capítulo pra vocês! Só pra avisar, acho que não falei antes, essa fic tem só dez capítulos... Espero que gostem!

Eu deveria ter prestado mais atenção no que Rachel estava aprontando nas primeiras duas semanas de março, mas em minha defesa ela manteve isso muito bem escondido. Desde que não me afetasse negativamente de alguma forma, então tudo bem para mim qualquer esquema que ela estivesse bolando. Ela também costumava sussurrar para ela mesma quando ficava concentrada nos seus projetos, enquanto eu costumava fechar os meus olhos e sonhar acordada. Ela sempre me pegava fazendo isso, claro, mas eu nunca parava de fazê-lo. Eu logo descobri que ela gostava de ter esse efeito sobre mim.

Não, eu realmente não me preocupei em descobrir o que ela estava aprontando, mas encarando o mapa desenhado de Lima, eu comecei a pensar que talvez devesse mudar essa atitude. Era um mapa do tesouro, por assim dizer, um mapa do tesouro desenhado para nos levar por toda Lima numa caça ao tesouro.

Naturalmente, essa atividade tinha a ver com algo, porque o que mais faria Rachel Berry planejar uma caça ao tesouro no dia de São Patrício? Eu não deveria ter esperado nada menos que isso quando eu vi que essa caça deveria supostamente nos levar a um pote de ouro. Era claramente uma metáfora ou algo do tipo, elas sempre foram uma coisa de Rachel.

Ninguém sabia o que seria o pote de ouro, mas quando Rachel momentaneamente esqueceu que meus olhos sempre estavam nela, ela olhou para Puck e o sorriso dele disse tudo. Ambos sabiam o que era o pote de ouro e isso me aterrorizou. Rachel e Puck se unindo era como algum tipo de experimento químico que ia dar errado, raramente alguma coisa boa saía de seus esquemas. Puck sempre tinha segundas intenções e ele costumava se apoiar na inocência de Rachel. Ocasionalmente, Rachel era quem tinha as más intenções e Puck era muito estúpido para perceber que estava sendo usado. Independente disso, eles eram uma dupla dinâmica até demais.

Mr. Schuester, como sempre, não foi de ajuda nenhuma, declarando que era uma ótima ideia para pôr em prática um pouco de competição amigável que nos daria a chance de criar laços com outros do clube que nós normalmente não saíamos. Eu olhei novamente para o mapa que Rachel tinha se esforçado em fazer parecer autêntico, com bordas queimadas e papel enrugado. As regras eram simples: as equipes sairiam pela cidade resolvendo os enigmas que Rachel cuidadosamente havia inventado e cada enigma resolvido indicaria o próximo lugar. Não era exatamente uma caça ao tesouro, era na verdade mais e mais trabalho. Só Brittany entenderia aquele mapa e como nós eventualmente descobriríamos naquela noite, isso viria a calhar.

Quando Rachel percebeu o meu olhar e maliciosamente me deu aquele sorriso que ela costumava guardar só para mim, eu sabia que não tinha nada com o que me preocupar. Claro que se ela já tinha tido o trabalho de inventar as pistas, então ela já tinha também formado as equipes. E se esse fosse o caso, eu realmente não tinha nada com o que me preocupar. Eu vi suas bochechas ficaram um pouco vermelhas assim que percebi o que aquele sorriso malicioso significava.

Mas o Mr. Schuester, como ele sempre amava fazer, jogou uma bola em curva. Ninguém previu que ele apareceria com o seu chapéu para que nós pudéssemos sortear as equipes. Ele não poderia simplesmente ter confiado em Rachel para montar as equipes de forma justa?

Nem o pânico desconexo dela conseguiu nos livrar dessa. Ele havia decidido que seria assim e isso tinha me levado até o meio de um estacionamento lotado, amaldiçoando os céus por Finn Hudson ter tirado o meu nome do chapéu. Como se não pudesse ficar pior, Rachel tinha tirado o nome do Sam e do Mike, para que o Sam não tivesse que fazer todo o trabalho sozinho, já que ela tecnicamente não podia participar.

Desastre era a palavra do momento.

“Eu acho que a Rachel está me traindo.” Finn disse enquanto nos aproximávamos da porta de uma mercearia fechada. Eu parei de andar e ele acabou trombando em mim.

“Por que você acharia isso?” Eu perguntei, com um fio de culpa na minha voz que ele não seria esperto o suficiente para perceber. “Ela não está te traindo, Rachel não faria isso.”

Rachel não traia. Era só algo que não fazia o seu tipo. Mas ela estava traindo. E comigo. E eu também estava traindo, de novo.

Mas dessa vez era diferente, certo? Deus, eu nunca havia me tocado que nós duas já tínhamos traído Finn antes, com Puck. Ok, nenhuma dessas vezes significou alguma coisa, Puck era manipulador e conivente. O que eu e Rachel tínhamos era emocional e físico, o que era... Bem pior. Nós estávamos ferradas.

“Quinn? Você está bem?”

“O que?” Tentei tirar aqueles pensamentos da cabeça. “Eu estou bem.” Eu respondi, respirando fundo e me virando para encará-lo. “Por que você acha que ela está te traindo?”

“Ela está diferente.” Ela respondeu depois de pensar por um momento.

Eu sabia que estávamos no lugar errado procurando por um dos enigmas porque ainda não tínhamos visto ninguém por ali. Ou eles eram espertos e tinham pulado a caça. Mas era a última vez que eu dava ouvidos aos raciocínios de Finn. Nós já tínhamos ido parar duas vezes em lugares errados, mas graças a Deus Rachel não tinha se importado em me dizer a resposta dos seus enigmas por mensagem.

Eu estudei sua expressão. “Diferente como?”

Ele coçou a cabeça enquanto eu passava por ele e voltava para o carro. “Ela nunca me deixa tocá-la e ela afasta as minhas mãos quando eu tento tocar os seus peitos.” Ele respondeu, derrotado.

Eu ri internamente enquanto entrava no carro. “Talvez ela só não goste de contato físico.”

Ela amava qualquer contato físico.

“Ela está sempre está ocupada com algo e nunca tem tempo pra mim.”

“Bom, você conhece ela. Ela é toda atividades extracurriculares e preciso entrar na Broadway.” Lembrei a ele. Ele não precisava saber no que realmente consistia suas atividades extracurriculares.

“Ela surtou quando eu disse que estava pensando em ir para uma faculdade em NY.”

Eu vacilei e o meu pé escorregou do acelerador. Ele estava tão comprometido assim em ficar com ela?

“Você quer ir atrás dela em NY?”

“Eu estava pensando sobre isso. Eu pensei que ela ficaria feliz.”

Eu sabia que Rachel mal podia esperar para ir para alguma universidade de NY. Ela tinha várias contagens regressivas por todo seu quarto se referindo as várias datas que ela não via a hora de chegar: prazos para entrega das aplicações, semana em que ela seria aceita, graduação, orientação para os calouros e até o seu primeiro dia na faculdade. Isso não era segredo. O pensamento de que Finn poderia estar com ela nessas datas fez eu me sentir enjoada.

“Vocês acabaram de reatar o namoro, dê um tempo a ela.” Argumentei.

Eu não sabia no que eu estava pensando, dando a ele desculpas para o comportamento da sua namorada enquanto eu era o motivo pelo qual ela estava agindo tão estranha com ele. Nos beijarmos as escondidas pela escola tinha sido divertido, emocionante até, mas não me parecia tão divertido agora que eu via o que isso estava fazendo com a pessoa que ela deveria estar nesses momentos.

“Olha, Finn, eu realmente não sei o que dizer, talvez você devesse terminar com ela.”

“Ela me fez prometer que eu nunca terminaria com ela de novo quando nós reatamos.”

Eu rolei meus olhos, claro que ela tinha feito ele prometer isso. Quem algum dia iria suspeitar da minha surpreendente atração por ela?

“Eu não acho que ela te forçaria a cumprir isso se vocês não estão dando certo.”

“Bom, eu não sei se é assim que ela se sente.” Ele respondeu, retrocedendo um pouco.

Eu respirei fundo para controlar minha crescente raiva. “Parece bastante claro que ela não está mais a fim de você.”

“Está parecendo que você quer que terminemos ou algo do tipo.”

“O que? Não...” Eu comecei, sem saber como me explicar quando era exatamente isso que eu queria que acontecesse. “Eu só não quero ver você sofrendo.”

“Mas ela vale a pena.” Ele deu aquele seu sorriso torto, como se fosse algo que só ele soubesse. Como se ela fosse um tesouro não encontrado. Eu sabia que ela valia a pena. Ela valia. Ela realmente valia.

“Finn, eu... Eu não sei o que te dizer.”

“Você está próxima dela.” Eu podia quase ver a luz se acendendo em sua cabeça.

“O que? Não, eu não estou. Quem disse isso?”

“Do que você está falando? Vocês saem sempre.”

Eu agarrei o volante com um pouco mais de força. “Mas nós não somos próximas, nós só saímos.”

“Bom, garotas falam sobre essas coisas de namoro o tempo inteiro. Você poderia falar com ela pra mim?”

Isso ia acabar mal para um de nós dois.

“Err...”

“Por favor, Quinn. Nós somos amigos desde sempre. Se tem alguém que pode me ajudar é você. Além disso, a Rachel parece confiar em você, então você talvez pudesse falar bem de mim pra ela.”

“Rachel confia em mim?”

“Uhum... Muito. Então, o que você acha?”

Merda. Maldito seja ele e sua inocência.

“Eu acho que eu podia tocar nesse assunto com ela.” Eu suspirei.

Eu precisava mesmo falar com ela sobre isso de qualquer forma.

“Você é a melhor, Quinn! Sabe, eu poderia também falar bem de você pro Sam, mas ele parece já estar bem satisfeito. Eu queria que a minha namorada fosse como você.”

Eu não estava prestando muita atenção nele enquanto eu divagava sobre tudo que eu tinha que dizer a Rachel. Como nós íamos sair dessa bagunça sem machucar outras pessoas? Sem machucar a nós mesmas? Por que era com isso que eu me importava no fim das contas, honestamente.

“Peraí... O que? Por que você queria que a Rachel fosse como eu? E o que você quer dizer com satisfeito?”

“Nada.” Ele respondeu timidamente.

Estreitei meus olhos pra ele, pronta para intimidá-lo até que ele me dissesse o que ele queria dizer com aquilo, mas nossos celulares vibraram ao mesmo tempo.

“Que ótimo!” Finn sorriu, me mostrando a mensagem que eu também estava lendo. “Alguém venceu e Puck vai dar uma festa!”

Eu deveria saber que o pote de ouro era uma metáfora para uma festa na casa do Puck.

Nós chegamos e Finn saiu do carro. Nós éramos os primeiros a chegar e assim que eu entrei na casa, vi Puck e Artie sorrindo abertamente.

“Vocês venceram?” Eu perguntei ceticamente.

Puck zombou. “Até parece. Nós nem saímos... Ficamos aqui bebendo o tempo todo enquanto vocês perdedores ficaram dando voltas pela cidade.”

“Então quem ganhou?” Finn perguntou, fazendo sentido que ele ainda não tivesse sacado.

“Ninguém. O pote de ouro está ali naquele balde.” Ele apontou na direção da cozinha. Eu tinha a estranha suspeita de que aquele balde continha vários tipos de bebida. “Rachel cancelou tudo mais cedo do que era pra ser.”

“Por que ela faria isso?”

Puck encolheu os ombros no exato momento em que a porta se abriu, revelando uma Santana e Brittany parecendo particularmente culpadas. “Eu não sei, ela mandou mensagem mandando eu avisar pra todo mundo vir pra cá.”

Não fazia sentido, mas eu aparentei indiferença e fingi não me importar ou me preocupar sobre o porquê dela ter cancelado o jogo, especialmente depois dela ter gastado semanas para prepará-lo. Santana e eu entramos juntas na cozinha e eu reparei no seu rosto corado, cabelo despenteado e respiração pesada quando ela me entregou uma bebida.

“Me diz que você não fez.” Eu pedi.

“Ok. Eu não fiz.”

“S! Como você pôde? Brittany e Artie estão namorando!” Eu ralhei. “Caso você tenha esquecido esse pequeno fato.”

“Oh, como você esqueceu que a Rachel e o Finn estão namorando também? Você não parece ligar muito para esse fato. Ou para o seu namorado.” Ela rebateu com atitude. Quando ela se sentia ameaçada, ela ia direto para o ponto fraco.

“Nada está acontecendo entre nós.” Eu disse à ela aos sussurros.

“Isso é uma puta mentira e nós duas sabemos disso. Eu mantenho minha boca fechada sobre vocês duas e você faz o mesmo em relação a nós.”

Eu queria desafiá-la, provar que eu não tinha culpa alguma no cartório, deixá-la ciente de que ela não podia me chantagear, mas a figura imponente de Finn que eu enxergava pelo canto do olho me preveniu disso. Ela realmente tinha com o que me chantagear e se eu a irritasse, ela não teria problemas em espalhar sobre mim e Rachel para qualquer um que quisesse ouvir. Eu não poderia magoar Finn mais do que eu já tinha magoado.

“Ok.” Eu concordei. “Promessa de mindinho.” Eu exigi.

Santana revirou os olhos. “Nós não temos doze anos mais, você não precisa fazer isso.”

“Nós não fizemos essa promessa quando você me disse sobre seu silicone e olha onde isso te levou.” Eu lembrei à ela com a confiança renovada.

Sem ter escolha, ela enganchou o mindinho no meu. “Esse segredo eu irei...”

Eu sorri e firmei nosso aperto. “...levar para o meu túmulo.”

“Feliz?”

“Você não faz ideia.” Respondi.

Eu espiei o meu copo e quase vomitei. A cerveja estava tingida de verde. Claro que estava. Se eu fechasse meus olhos, o líquido desceria normalmente.

Eu senti braços em volta da minha cintura, meus olhos ainda fechados. Eu me apoiei no corpo atrás de mim antes de perceber que não era quem eu estava imaginando que fosse. Eu me afastei rapidamente de Sam e quase derramei meu copo no chão.

Ele riu. “Você está bem?”

“Sim, eu estou bem.” Eu respondi. Olhando por cima dos seus ombros eu pude ver o penetrante olhar que Rachel Berry estava me lançando como facas.

Isso normalmente não costumava ser um bom sinal.

Eu limpei minha garganta depois dele ter se inclinado para me dar um pequeno beijo. Eu podia ouvir Santana rindo atrás de mim e eu ainda podia sentir Rachel me encarando. Essa não ia ser uma boa noite para mim.

“Como foi com a sua equipe?” Perguntei, esperando descobrir o porquê de Rachel ter desistido do jogo. Ou porque seus olhos estavam me odiando tanto naquele momento.

Ele deu de ombros. “Deus, eu senti sua falta.” Ele disse se inclinando mais uma vez para um beijo mais prolongado.

Eu me afastei dele. “Sam, tem pessoas olhando.”

Ele deixou sua cabeça cair de uma forma desapontada, mas ele já deveria estar acostumado com isso. “Certo.” Ele suspirou.

“Vamos nos juntar ao pessoal, não é educado ficarmos aqui isolados.” Eu disse a ele e caminhei de volta para a sala, onde estava o resto do clube.

Rachel estava sentada no colo de Finn e parecia ter pego um incomum interesse de brincar com seus cabelos. Sam ignorou as vibrações mentais que eu estava enviando para que ele se sentasse em outro lugar e se acomodou perto de Finn, me deixando sem outra escolha que não sentar ao seu lado e assistir o modo com que Rachel carinhava a nuca de Finn.

Ela estava atuando, por alguma razão ela estava fazendo isso para me provocar. Eu me recusei a me rebaixar ao seu nível, mas não tinha problemas em beber meus ciúmes. Cedo demais eu esqueci que deveria estar fechando os meus olhos para evitar a coloração verde da cerveja.

“Finny, conte a eles sobre aquele dia que você fechou Halo sem morrer nenhuma vez.”

“Essa é boa! Então, eu estava...”

“Estou com sede.” Eu soltei miseravelmente e me levantei do sofá.

Eu era uma mistura entre entediada até a morte e puta pra caralho. Estava claro que Rachel estava brava comigo por alguma coisa e seu jeito de reagir a isso tinha sido ficar se jogando para cima do seu namorado. Eu estava muito bêbada para dirigir pra casa, o que significava que eu estava chegando num ponto da minha bebedeira em que eu deixava transparecer as minhas emoções. Era só uma questão de tempo até que eu fizesse uma cena ou alguma coisa da qual eu me arrependeria.

Rachel estava ignorando as mensagens que eu mandava enquanto ela estava sentada dois passos de distância de mim. Talvez seu celular estivesse no silencioso, mas tinha ficado bastante claro que ela estava me ignorando de propósito quando ela pegou o celular, leu as mensagens e botou ele de volta no bolso.

Eu me levantei de novo depois disso, sem ser capaz de ficar no mesmo lugar em que ela estava, flertando com Finn. Eu senti a presença de Finn atrás de mim e me preparei para qualquer coisa que ele fosse jogar na minha cara.

“Obrigado por falar com a Rachel, Quinn. O que quer que você tenha dito, realmente ajudou! Eu acho que hoje a noite será a noite.” Ele piscou.

O álcool em meu estômago ameaçou reaparecer quando eu me toquei de que tipo noite ele estava se referindo.

“Maravilha.”

“Muito obrigado!”

Se ele tivesse parado para pensar por um minuto, ele teria percebido que eu sequer tive tempo de conversar com a Rachel depois que ela chegou, ela tinha ido direto para o lado dele como se tivesse alguma coisa para provar. Sua risada alta quebrou a minha concentração. Era hora de pôr um fim nisso.

Eu virei o que restava em meu copo antes de jogá-lo na pia e voltei para a sala determinada. Até Rachel pareceu me notar finalmente. Eu fechei meus dedos pelo seu antebraço e a puxei comigo.

“Eu preciso falar com você.” Eu disse e me desculpei por nós para os rostos confusos. Bom, a maioria era confuso, porque o risinho de Santana me seguiu até sairmos da sala.

Eu nos guiei até a entrada e subi as escadas sem que ela dissesse uma palavra, mas não era hora de me tratar com silêncio. Nós entramos no quarto de Puck e ambas tiraram os casacos antes que eu batesse a porta.

“Que merda, Rachel!”

“O desespero não lhe cai bem.” Ela disse, cruzando os braços. “E você teve a coragem de me arrastar até aqui como se eu fosse um animal.”

Não me importava que eu estivesse parecendo uma maluca lunática quando a puxei na frente de todos, eu podia responder àquilo depois. Eu só me importava com uma coisa.

“Por que você está me ignorando?”

Ela apertou mais ainda o seu cruzar de braços e desviou o olhar, culpada. “Eu não sei do que você está falando.”

“Sério? Porque eu vi você ler minhas mensagens e ignorá-las, eu vi seus olhos em mim quando você beijou o Finn e eu posso diferenciar uma risada de verdade de uma falsa. Você tinha toda a minha atenção. O que eu fiz?”

“Se você ainda não sabe, então você não merece saber.” Ela rebateu.

Eu dei um passo pra trás, não esperando que tanto veneno pudesse sair de alguém tão pequena.

“O que isso quer dizer? Nós estávamos bem antes dessa estúpida caça ao tesouro! O que mudou?”

“Sua atitude para começar. A caça ao tesouro não era estúpida!” Ela se defendeu como esperado.

Realmente não era estúpida. Tinha o potencial de ser divertida se as coisas não tivessem ficado tão bagunçadas.

“Essa não é a questão.” Eu desviei. “Por que você está agindo assim? Por que você está me fazendo assistir você com o Finn daquele jeito?”

“Eu não estou fazendo você assistir nada, Quinn.”

O que quer que eu tenha feito a deixou fumegando. Eu nunca a tinha visto com tanta raiva e rancor.

“É mesmo? Porque me pareceu que você só ia pra cima dele quando eu estava perto. Se você não quer mais fazer isso então me fale, eu prefiro saber do que me sentir idiota.”

“Talvez você devesse se sentir idiota, nós somos duas idiotas se pensamos que isso poderia dar certo.”

“Da onde está vindo isso tudo?”

Minha voz estava suave porque eu podia ver claramente que o que quer que tinha acontecido tinha deixado ela muito mais do que chateada. O fato de que era ela dizendo que nós não íamos dar certo foi suficiente para disparar o alarme. Ela era normalmente quem se convencia de que nós daríamos certo.

“Esqueça, Quinn.” Ela disse, sua voz beirando a exaustão.

Eu nunca a tinha visto parecendo tão derrotada.

“Não, eu não vou esquecer. Me diz o que está acontecendo!” Eu pressionei, agarrando seus ombros e sacudindo-a para que olhasse para mim.

Seus olhos cintilaram de forma perversa antes da sua mandíbula se contrair. “Você dormiu com o Sam! Eu tenho que soletrar isso para você?”

Eu abaixei minhas mãos e dei um passo para trás, como se suas mãos estivessem me machucando fisicamente. “Quem te disse isso?”

“Sam!”

Ela começou a andar de lá pra cá na minha frente, falando palavras sem nexo. Rachel parecia ser fluente em outro idioma que tomava conta dela no calor da discussão.

“Por que ele lhe diria isso?”

Ela parou de andar e seus olhos encontraram os meus novamente. Eles estavam assustadores e me fizeram ter vontade de me encolher num canto qualquer. “Eu não sei! Mas ele e Mike estavam compartilhando suas experiências sexuais enquanto eu estava sentada no banco de trás do carro me sentindo uma idiota por acreditar que nós poderíamos dar certo.”

Eu entrei em pânico. “Nós podemos dar certo! Nós estamos dando certo!”

Ela sorriu de forma debochada e fez eu me sentir como se existisse uma brincadeira sobre a qual eu não estava ciente. “Claro, porque você faz sexo de um lado enquanto você me usa para todo o resto.”

Eu assisti ela se mover pelo quarto de Puck, claramente olhando para o relógio em seu criado e assisti de mãos atadas quando ela o pegou e jogou no chão. Eu sabia que ela estava usando uma metáfora ali, mas eu nunca esperava que isso fosse doer o quanto estava doendo.

“Isso nem faz sentido, é com você que eu quero fazer sexo!” Eu soltei sem pensar.

Suas defesas caíram um pouco, mas a sua determinação voltou com força total.

“Bom, você não pode ter nós dois. E se você pensa que eu vou ficar perto de você depois de descobrir os lugares em que vocês fizeram sexo, sem contar suas posições favoritas ou as caras que você faz quando você...”

“Eu estou sonhando.” Eu murmurei. Isso não podia estar acontecendo.

Eu cegamente achei a beirada da cama de Puck, me sentindo tonta demais para me manter em pé por mais tempo. Eu corri a mão pelos meus olhos, numa posição vagamente familiar. Três meses atrás nós estávamos exatamente no mesmo quarto e eu tinha perdido o controle sobre minha atração por ela. Eu ainda estava sem controle, por um motivo diferente.

Eu sabia que Rachel era irracional ocasionalmente e seu drama às vezes ia muito longe, mas eu nunca havia imaginado isso.

“Então você agora está fantasiando sobre fazer sexo com ele? Eu espero que tenha sido bom pra você, Quinn. Realmente espero.”

Eu levantei da cama e passei a mão pelos meus cabelos enquanto andava pelo quarto. “Por que isso está acontecendo?” Perguntei para o teto.

“Eu espero que você saiba que ele parece que é seu irmão.” Ela me disse. “Eu espero que você se lembre disso da próxima vez que fizer sexo com ele.”

Ok, isso era nojento.

Eu deixei que isso se estendesse por tempo demais, o choque do que tinha acontecido finalmente tinha passado e era hora de resolver as coisas.

Eu dei alguns passos em sua direção e segurei as suas mãos. “Rachel, eu não fiz sexo com o Sam!”

Ela me afastou dela e saiu de perto de mim. “Isso não é o que ele está dizendo por aí.” Ela argumentou.

“Ele é um mentiroso!”

“Eu não acredito em você!”

Eu dei um passo pra trás, mais uma vez me sentindo fisicamente machucada pelas suas palavras. Meu coração não podia aguentar mais.

“Você não acredita em mim?” Minha voz quebrou. “Por que eu mentiria pra você? Eu o afasto quando ele tenta me beijar e você acha que eu deixei ele fazer sexo comigo? Várias vezes?”

“Eu não sei!” Ela gritou, claramente vendo a minha lógica, mas sem querer desistir da batalha. “Eu não quero discutir sua vida sexual com ele, eu quase vomitei duas vezes só de pensar nele tocando em você.”

Eu tentei me aproximar dela, só para vê-la dar um passo pra trás. “Eu estou te dizendo que isso não é verdade!”

Ela desviou o olhar e cerrou os dentes. “O que você vai fazer? Tirar todas essas imagens da minha cabeça? Tarde demais, elas já estão me assombrando.” Ela disse enquanto passava por mim em direção ao outro lado do quarto.

Eu me virei para segui-la. “Bem, isso é estúpido, porque nada nunca aconteceu entre nós.”

“Ok.” Ela jogou os braços para cima. “Talvez ainda não... Mas é só uma questão de tempo pra que você ceda à tentação.”

Minha risada veio sem humor. “Você está me fazendo parecer uma viciada em sexo!” Eu guinchei.

“Quem sabe? Talvez você seja! Você disse agora há pouco que queria fazer sexo comigo!” Ela disse como se isso fosse toda a prova do mundo de que eu tinha que entrar nos Ninfomaníacos Anônimos.

“Olhe para você!” Eu gesticulei descontroladamente. “Eu seria louca se não quisesse.”

“Independente disso, Quinn... Peraí, sério?”

“Você já se olhou no espelho?”

Sua expressão se suavizou e ela não parecia mais como uma maníaca. Ela timidamente olhou para baixo. “Por mais lisonjeada que eu esteja, eu acredito que seus pensamentos quando você está bêbada vão te trazer problemas.”

“Parece que eu me meto em problemas de qualquer jeito. E não vamos esquecer que você é o motivo por eu ter bebido tanto.” Eu lembrei a ela.

Ela me olhou arrependida. “Como eu sou o motivo?”

Eu fechei os olhos e lutei contra as imagens que estavam queimando em minha cabeça nas últimas duas horas de tortura, até mesmo vê-las na minha cabeça me fazia ficar furiosa e com ciúmes.

“Você estava toda derretida pelo Finn, beijando ele e sussurrando em seu ouvido, carinhando sua nuca, suas bochechas e passando a mão pelas suas costas, prometendo coisas...” Eu sussurrei e depois algo me ocorreu. “Espera.” Eu olhei para ela curiosamente. “Você ia fazer sexo com o Finn hoje para se vingar de mim?”

Seus olhos se arregalaram e seu rosto perdeu a cor. “Eu... Eu... Não, eu...”

Deus, eu era tão burra às vezes.

Meus dentes pareciam que iam cair com a força que eu os cerrei. Eu tinha que manter minha raiva sob controle, eu não podia ficar naquele quarto por mais tempo se eu quisesse salvar o que eu e Rachel ainda tínhamos. Eu diria algo que faria eu me arrepender depois se eu ficasse naquele quarto com ela.

“Me dá licença.” Eu falei com a voz sob controle, sem confiar no animal enjaulado dentro de mim que estava doido para escapar e atacar.

Eu sempre tinha sido uma bêbada raivosa, mas eu não o seria com Rachel. Eu me recusava.

“Onde você está indo?” Ela perguntou desesperada.

“Só me deixe sozinha, Rachel.” Eu disse sob os meus ombros, já fora do quarto, no corredor.

“Eu certamente não vou! Volta aqui!”

Eu a ignorei enquanto ela me chamava e eu até mesmo afastei suas tentativas de por as mãos em mim. Foi o meu limite ver a verdade em seus olhos. Eu tinha somente uma coisa em minha mente.

Sam era o ponto principal da minha raiva. Sua mentira tinha começado aquilo tudo, ele era o motivo pelo qual Rachel tinha agido daquele jeito com Finn, ele era o motivo pelo qual eu tive que assistir alguém com quem eu me importava me ignorar, o motivo pelo qual Rachel ia dormir com alguém só para me machucar. Ele tinha feito isso. Eu não me importava que eu merecesse aquilo. Era mais fácil culpá-lo do que admitir que na verdade a culpa era minha por tudo ter ficado tão fora de controle.

Eu entrei na cozinha e peguei um dos copos cheios daquela cerveja verde e calmamente me esquivei de Rachel mais uma vez. Não deveria ter sido tão fácil evitá-la, mas eu estava cega e ninguém ia ficar no meu caminho. Eu lidaria com ela depois. Sam nunca viu o líquido chegar e ele sequer teve tempo de entender o que tinha acontecido antes da minha mão bater com força em seu rosto, fazendo o líquido verde espirrar em quem estava perto.

“Como você ousou dizer as pessoas que nós fizemos sexo? Eu vou acabar com você Evans, não me teste.”

O anel em meu dedo saiu facilmente como toda vez que Rachel e eu ficávamos juntas e deixei ele cair no chão.

“Vá se ferrar!” Eu quase cuspi nele.

Ele ficou parado em silêncio, sua boca abrindo e fechando estupidamente, seu ego e dignidade bem longe dali. A gargalhada de Santana foi a última coisa que eu ouvi antes de atirar uma desculpa para Puck e andar em direção a porta da frente.

Eu deixei as chaves do carro caírem umas três vezes antes de sentir Rachel me empurrar vigorosamente para longe do carro.

“Você está maluca? Você não vai dirigir nessas condições! Eu não acredito que você acha que está tudo bem dirigir assim!” Ela estava gritando na minha cara e eu só precisava ir para qualquer lugar longe dela.

Minha cabeça latejava, minhas mãos estavam sujas, meu estômago estava se revirando e eu me sentia enjoada o suficiente para esvaziá-lo a qualquer momento. Meu corpo inteiro estava em chamas e nem mesmo o ar frio de março estava me esfriando.

“Vá embora.” Eu resmunguei, ainda concentrada em achar a chave certa.

“E deixar você se matar? Aham. Me dê suas chaves.” Ela estendeu a mão em expectativa.

Nem no inferno eu daria a ela as chaves do meu carro de bom grado.

“Não, me deixa em paz.” Eu tirei sua mão da minha frente.

“Me dê as suas chaves!” Ela gritou, prestes a me atacar caso eu recusasse mais uma vez.

Como se ela fosse alguma espécie de feiticeira, as chaves caíram da minha mão e ela mergulhou para pegá-las no asfalto antes que eu sequer percebesse que elas haviam caído.

“Eu levo você pra casa.” Ela disse, destrancando as portas.

“Eu vou a pé.” Eu me desviei dela e comecei a andar pela rua.

“Você não vai andando pra casa.” Ela bradou para mim. “Está frio e você deixou seu casaco lá dentro.”

“Eu vou ficar bem.” Eu bradei de volta, enrolando os braços em volta do meu corpo.

“Entre.no.carro.” Eu podia ouvir ela batendo o pé e ri para mim mesma diante da imaturidade daquele gesto. “Agora, Quinn Fabray.”

Eu me virei e a encarei. “Por que você não volta para o Finn e continua com a sua noite especial?”

“Eu não ia fazer isso de verdade, eu só estava muito puta com você.”

“Não era nem verdade, Rachel!” Eu gritei para ela. Nós parecíamos duas crianças e estávamos gritando uma com a outra no meio da rua como se não tivéssemos qualquer consideração com os vizinhos. “Se eu não tivesse ficado doente de ver você se jogando para ele, você nem ia ter descoberto que o Sam estava mentindo e você teria sim ido até o fim com isso.”

Esse era o porquê de eu não querer ficar perto dela naquele momento.

“Eu só me senti tão traída.” Ela replicou tristemente.

“Então você pode imaginar o quão machucada eu estou me sentindo e me desculpe por não querer entrar no carro com você.” Eu rebati, surpresa pela dureza da minha própria voz.

“Quinn, por favor.” Ela me chamou mais uma vez. “Deixa eu te levar pra casa. Eu não vou perdoar a mim mesma se algo acontecer com você.” Ela suplicou.

Eu ia quebrar a qualquer momento.

“Eu não me importo.”

Eu me importava.

“Sim, você se importa, Quinn. Você só está bêbada e não está pensando direito.”

Eu girei em direção a ela novamente, sem perceber o quão perto ela estava de mim. “Não me diga o que pensar, Berry. Você não faz ideia do que se passa dentro da minha cabeça.”

Ela assentiu e encolheu-se. “Você está magoada. Sam estava espalhando mentiras sobre você e eu fui idiota o suficiente para acreditar nelas. Me desculpa não ter ido falar com você primeiro. Eu deveria ter feito isso e me arrependo demais por não ter feito. Em vez disso eu me comportei de uma forma que só te magoou mais ainda. Quinn, por favor, olha para mim.” Ela suplicou mais uma vez, sua voz carregada de medo e dor.

Meu coração batia a ponto de se despedaçar, o meu pescoço doía de uma forma que só acontecia quando eu estava à beira das lágrimas. Minhas defesas estavam cedendo cada vez que ela abria a boca, cada vez que ela falava o meu nome ou me chamava. Eu sentia cada pedaço de mim querendo me render a ela. Seria tão mais fácil só me deixar ir e deixá-la me pegar.

Meus olhos encontraram os dela e ela sentiu que era seguro o suficiente dar outro passo para mais perto de mim e assim foi até que ela estivesse muito perto de mim. Seu hálito quente viajando pelo pequeno espaço que nos separava e batendo no meu rosto, me cobrindo como se fosse um cobertor, me embalando ainda mais num estado inebriado só pela sua presença.

Eu precisava de uma cama, eu precisava dormir e eu precisava dela. Mais do que tudo, eu só precisava dela. Toda ela.

“Eu sei que você está chateada e que você está brava comigo e eu mereço... Eu não estou discordando disso. Só, por favor Quinn, deixa eu te levar pra casa.”

Eu procurei pelos seus olhos e só encontrei arrependimento e medo. Minha cabeça estava pesada e meus olhos estavam quase se fechando. Eu assenti silenciosamente e me afastei dela sem pegar na mão que ela me oferecia. Eu fiz meu caminho de volta ao carro e me sentei no banco do carona. Eu a evitei por todo o caminho, olhando para a paisagem sem realmente vê-la.

Ela nem se incomodou em ligar o rádio enquanto íamos pelas ruas escuras de Lima a caminho da minha casa. Ela entrou na garagem e eu saí do carro antes mesmo dela desligá-lo. A casa estava escura e silenciosa. Minha mãe ainda estava na festa do trabalho dela e eu subi para o meu quarto antes mesmo que Rachel saísse do carro. Eu não tinha certeza se ela tentaria quebrar a minha porta ou se ela já tinha pedido para alguém vir pegá-la. O combinado era que ela dormiria comigo aquela noite, mas eu não tinha certeza se isso ia dar certo. Na pior das hipóteses, ela podia dormir na minha cama e eu iria pra o sofá. Por mais chateada que eu estivesse, eu jamais a faria dormir em algum lugar desconfortável.

Eu já tinha tirado minhas roupas e botado meu pijama quando eu ouvi um clique e a batida leve da porta se fechando. Eu peguei um pijama no meu guarda-roupa e joguei para ela enquanto ia para o banheiro.

Eu escovei os dentes e me certifiquei de lavar o rosto com água fria antes de voltar e ter que encarar Rachel.

Ela alcançou o meu braço quando eu passei por ela depois de sair do banheiro. “Desculpa.” Ela sussurrou.

Eu me virei pra ela e notei que ela não tinha botado o pijama que eu tinha dado a ela. “Isso não importa.” Eu comecei numa voz tranquila enquanto arrumava meus cobertores. “Nós temos que parar com isso mesmo.”

“Por que?” Ela perguntou, seu pânico era óbvio, não importava o quanto ela tinha tentado escondê-lo.

Eu corri a mão pelos meus cabelos. “Porque estamos sacaneando o Finn e eu sei que não é isso que você quer fazer.”

“Eu vou terminar com ele.” Ela falou de imediato.

“E?” Eu tirei meus brincos e joguei-os na minha penteadeira. “Nós continuaremos as escondidas?” Eu a olhei pelo espelho.

“Ele não significa mais nada para mim.”

Eu me virei pra ela depois de tirar o meu cordão do pescoço. “Cai na real, Rachel.”

Eu senti um estranho vazio quando fiz o movimento para tirar o anel de Sam, me esquecendo de que eu já tinha me livrado dele aquela noite.

“Eu não sei como eu posso cair mais na real do que agora.”

Me apoiei contra a penteadeira, ficando o mais longe possível dela. “Foi divertido enquanto durou, mas nós duas sabemos que isso já estava destinado a acabar.”

“Por que você está dizendo isso?”

Estremeci quando ouvi sua voz quebrar.

“É a verdade. Olhe para nós. Nós obviamente não superamos nossas inseguranças.”

O quão fácil tinha sido para ela acreditar nas mentiras de Sam? O quão fácil tinha sido para ela acreditar que eu faria isso com ela?

“Nós vamos trabalhar isso juntas.” Ela continuou.

“Nós traímos nossos namorados, Rachel. Olhe para nós, olhe o que está acontecendo a nossa volta... Tudo ficou tão fora de controle. Nós sempre esquecemos que existe um mundo além de nós duas.” Eu disse suavemente. “Nós somos egoístas e nós só machucamos as pessoas, não vai demorar até que machuquemos uma a outra, mais do que já machucamos.”

Ela estremeceu com as minhas palavras. “Nós podemos ajudar uma a outra, nós podemos manter a outra na linha...”

“Manter a outra na linha?” Eu ri. “Como vamos fazer isso? Nós fazemos mal uma a outra, nós pressionamos e instigamos uma a outra até uma de nós perder a linha. Semana passada mesmo eu te convenci a matar aula de história e você perdeu um teste.” Eu lembrei a ela, escondendo o pequeno sorriso que surgiu em meu rosto ao lembrar daquele dia.

Ela parecia estar escondendo o seu próprio sorriso. “E daí? Você não estava apontando uma arma na minha cabeça. Eu matei aula porque eu queria ficar com você.”

Eu lutei contra o vermelho que ameaçava tomar conta do meu rosto. “Eu sou uma má influência.” Disse a ela.

“Vamos parar com isso? Na quarta, eu fiz você matar o treino das Cheerios. Nós não somos santas. Eu estou muito mais feliz fazendo tudo escondido com você do que quando eu estou em público com outra pessoa. Isso não significa que fazemos mal uma a outra, significa que combinamos. Nós temos algo que eu não quero abrir mão e você também não deveria. Além disso, eu te digo quando você está sendo ridícula e você me diz quando eu estou falando muito.” Ela finalmente deu um pequeno sorriso e eu me desloquei da penteadeira e dei a volta na cama para encontrá-la.

“Não é como se você me desse ouvidos.” Eu provoquei.

“Está vendo? Você é brutalmente honesta.” Ela agarrou as minhas mãos e passou seu polegar por elas.

“Essa é uma maneira educada de me chamar de babaca?”

Ela riu e abaixou a cabeça diante do meu olhar. “Como você não vê que somos perfeitas uma pra outra?”

“Eu vejo.” Eu deixei minha cabeça cair alguns centímetros e levantei o seu queixo com o meu nariz, deixando nossos lábios se encostarem. “E isso me assusta.” Eu sussurrei.

Ela levantou a cabeça e olhou para mim com seus longos cílios, seus olhos chocolates tão suaves e inofensivos, cheios de admiração e temor. Eu sorri suavemente e alisei sua franja, deixando um beijo em sua testa. Eu a puxei para mais perto de mim e descansei meu queixo no topo da sua cabeça. Seus braços circularam minha cintura e me apertaram contra ela.

“Você e eu, nós somos diferentes.” Ela disse suavemente antes de se afastar um pouco para poder olhar pra mim. “Nós combinamos sem fazer esforço algum.”

Meus olhos escanearam seu rosto. “Como você consegue quebrar minhas defesas sem esforço algum me deixa pasma.”

“Você não vai fugir de mim tão fácil assim.” Ela falou.

Eu me afastei dela um pouco. “Por que você quer estar comigo? Estou falando sério.”

Ela se afastou também. “Se você precisa me perguntar isso, então eu tenho o direito de te bater, Quinn Fabray.”

“É por causa de popularidade?” Eu perguntei.

Foi uma coisa completamente estúpida da minha parte, mas isso surgiu na minha cabeça e eu não pude ignorar. O ar entre nós estava leve, mas isso variava como as marés. Nós íamos de agarrar a garganta uma da outra a nos abraçarmos em tempo recorde. Isso me assustava.

Ela ficou de boca aberta. “Eu deveria te perguntar a mesma coisa.” Ela contrapôs com suas mãos em sua cintura.

“O que isso quer dizer?”

“Essa sua relutância tem a ver com perder o seu status? Vamos encarar os fatos, Quinn. Eu sou uma perdedora naquele colégio. Eu não posso deixar de pensar se isso tem algo a ver com o que as pessoas vão dizer quando descobrirem que nós somos um casal.”

“Nós não somos um casal, Rachel! Você ainda namora o Finn e o meu status é a última coisa em que eu estou pensando. Você acha que eu sou assim tão superficial? E por que merda você não vestiu ainda os pijamas que eu te dei?”

Ela olhou para os pijamas em cima da cama e vacilou um pouco. “Finn está vindo me pegar.” Ela começou. “Assim que o Kurt pegar ele.”

Meus olhos se arregalaram, incapaz de conter meus ciúmes, especialmente depois de tudo que tínhamos passado. “Que lindo.” Eu revirei meus olhos antes de ir para o meu lado da cama e começar a arrumar meus travesseiros.

“Dez minutos atrás você nem estava falando comigo, eu não estava esperando que você quisesse que eu dormisse aqui.” Ela se defendeu.

“Está tudo bem, você presumiu o certo.” Eu atirei antes de apagar a luz do abajur do meu lado da cabeceira e deitar na cama.

De repente duas buzinas de um carro foram ouvidas através da silenciosa vizinhança e meu coração afundou. Um estranho silêncio caiu sobre nós e eu sabia que seus olhos estavam em mim. Talvez ela estivesse dividida sobre o que fazer.

Eu me ajustei na cama até ficar de costas para ela, botei o cobertor acima das minhas orelhas e fechei meus olhos assim que senti a primeira lágrima escorrendo. A dor no meu pescoço estava de volta e era só uma questão de tempo até que eu desabasse.

“Quinn, por favor, não faz assim.” Ela começou.

“Eu não estou fazendo nada. Eu estou indo dormir e você parece preferir ir embora.”

“Quinn.”

“Seu príncipe encantado está esperando.” Eu disse a ela friamente.

A buzina tocou de novo e eu a senti escapando pelos meus dedos. Eu podia lutar por ela, exigir que ela ficasse comigo, fingir estar passando mal ou qualquer outra coisa que a fizesse ficar. Mas ela ainda não era minha para que eu pudesse fazer isso, Finn ainda a tinha e enquanto ela estivesse com ele, eu não podia exigir nada. Mesmo que eu quisesse, eu não podia. Ela era quase uma adulta, ela podia decidir por ela mesma o que fazer. Nada mais podia acontecer entre nós até que ela fosse solteira.

Eu ouvi a porta se fechar suavemente e pensei que talvez pudesse sentir o colchão afundar ao meu lado, mas quando eu ouvi seus sapatos fazendo barulho ao descer as escadas eu senti a vontade de socar a parede. Por que tudo tinha que ser tão complicado? Por que nós estávamos sempre dançando essa dança estranha?

Eu encarei o teto e esperei ouvir o carro indo embora. Eu pensei em pegar meu celular e mandar uma mensagem pedindo desculpas pra ela. Eu odiava brigar com ela, eu sempre odiei brigar com ela. Sempre me deixava com sentimento de culpa do qual eu não conseguia me livrar.

Os segundos se tornaram minutos e quando eu escutei um barulho muito alto eu quase caí da cama para poder chegar na janela a tempo. Finn tinha chutado o porta-malas.

Meus olhos se arregalaram e meu coração foi parar no estômago. O que quer que estivesse acontecendo não era bom. O que estava acontecendo?

Finn estava fumegando e seus braços estavam se agitando descontroladamente, Rachel até estremeceu algumas vezes. Kurt estava fora do carro e segurando as costas de Finn enquanto ele tentava chegar mais perto de Rachel. Eu deveria ter descido, ajudado a controlar os estragos ou tentado acalmar a situação, mas meus pés não se mexeram. Eu só pude assistir da janela do meu quarto a cena, com medo.

Porque eu sabia o que ela tinha feito.

Finn apontou acusatoriamente para Rachel antes de jogar suas mãos para o alto e ir embora. Ele não estava correndo, mas seus passos largos podiam levá-lo até o final da rua muito rápido. Kurt consolou Rachel antes de voltar para o carro e ir na direção em que Finn havia ido.

Tudo aconteceu em aproximadamente trinta segundos, mas parecia que tinham se passado minutos, até mesmo horas. Eu engoli qualquer saliva para molhar minha garganta seca e fui em direção as escadas. Eu quase caí umas três vezes na minha pressa – e um pouco de ressaca – de chegar até Rachel. Ela estava sentada abraçando a si mesma e balançando pra frente e pra trás. A cena partiu meu coração ainda mais.

Meus braços levantaram-na e ela parecia uma boneca de pano, meus braços em volta da sua cintura enquanto eu a segurava em pé. Ela estava fraca demais até para ficar de pé.

“O que aconteceu?” Eu perguntei suavemente, meus olhos escaneando seu rosto para ver se ela estava bem.

Ela não estava chorando, mas seu olhar parecia distante.

“Rach? Rachel.”

Ela finalmente olhou para mim e como se sua mente tivesse acordado ela se jogou em meus braços como se ela fosse cair de um penhasco caso não se segurasse com toda a força em mim.

“Está tudo bem, está tudo bem.” Eu sussurrei repetidamente em seus cabelos. “Tudo vai ficar bem.”

“Como você sabe?” Ela perguntou, sua voz incomumente cansada.

Eu não sabia, eu não tinha ideia.

“Porque eu tenho você e eu não vou deixar que nada te aconteça, ok?”

Ela assentiu contra mim.

“Deus, me desculpa. Me desculpa.”

Eu tive que ver ela nesse estado para descobrir o quão arrependida eu estava por botá-la nessa situação. Minha teimosia e ciúmes a tinham levado a esse ponto, posto ela nessa situação vulnerável para a qual ela provavelmente ainda não estava preparada, não importava quantas vezes ela tivesse me dito que ia terminar com ele.

Isso podia ter sido evitado se ela tivesse feito isso em outro momento, em um outro dia. Talvez se o Finn não estivesse bêbado. Ou talvez ele teria reagido dessa forma do mesmo jeito. Talvez Rachel soubesse que ele era assim e não importava quando ou como ela dissesse a ele que queria terminar. Ela viu o jeito que ele havia reagido quando descobriu que o bebê que eu esperava não era dele. Mas em ambas as vezes, ele tinha todo o direito.

“Vamos entrar.” Eu sussurrei enquanto me agarrava a ela.

Eu ainda estava de short e com uma camiseta, sem qualquer calçado ou meia. Estava absolutamente congelante, mas Rachel estava me mantendo quente do jeito que podia.

“Você me odeia.” Ela disse tristemente. “Eu vou ligar pra o meu pai.”

“Eu nunca poderia te odiar.” Eu disse a ela de forma sincera. “Me desculpa ter te levado a tomar essa atitude hoje. Eu sou uma má influência.”

Ela riu no meu pescoço. Acho que ela estava começando a sentir frio, porque senti ela tremer contra a minha pele. “Você não estava apontando uma arma para a minha cabeça.”

Eu não a pedi novamente para entrarmos, mas ela não resistiu quando eu comecei a guiá-la em direção a casa e para longe do frio. Eu continuei segurando ela pela cintura enquanto subíamos para o quarto, fechando a porta com o meu pé e trazendo-a para cama. Achei cegamente o pijama que eu tinha pegado para ela. Nós não precisávamos de luz, explicações ou palavras. Nós íamos ficar bem. Tudo que tinha acontecido naquela noite não importava mais e não seria discutido novamente.

Eu podia sentir os arrepios subindo pela sua pele enquanto eu tirava sua roupa. Ela não se afastou de mim quando meus lábios tocaram seu ombro nu, me mantendo perto dela enquanto meus dedos traçavam preguiçosamente um caminho pelas suas costas. Ela permaneceu assim por alguns minutos antes que eu sentisse ela estremecer de novo e eu me toquei que ela provavelmente devia estar morrendo de frio.

Eu a deixei do meu lado da cama e me ajustei nas suas costas, botando meu braço por cima dela e descansando minha mão em seu estômago, num abraço apertado.

“Nós não podemos ficar juntas em público ainda.” Sua voz suave quebrou o silêncio depois de um tempo e eu senti ela se mover nos meus braços para poder me encarar.

Eu a encarei através das minhas pálpebras pesadas enquanto meus dedos continuavam desenhando padrões preguiçosamente em sua cintura. Nossas pernas se entrelaçaram quando ela se moveu para mais perto de mim, meu coração acelerado como sempre ficava quando compartilhávamos esse tipo de proximidade. O que só acontecia naquelas noites do pijama durante os finais de semana ou ocasionalmente nos dias de semana à noite quando ficávamos sozinhas.

Mas aquela noite era inexplicavelmente diferente. Parecia que nós finalmente estávamos livres. Nós podíamos fazer o que quiséssemos sem culpa. Nós podíamos ser inteiramente honestas uma com a outra. Nós podíamos simplesmente ser.

“Tudo isso valeu a pena?” Ela perguntou enquanto olhava para mim.

“Você sabe que é só o começo, certo?” Eu repliquei, deixando um pequeno beijo nos seus lábios, sem conseguir me conter. “Você acha que valeu a pena?”

“Eu acho que você vale a pena.”

“Eu também acho que eu valho a pena.” Eu sorri preguiçosamente e sua risada quase me fez dormir naquele momento. “Você vale tanto a pena pra mim, Rach.”

Ela se aproximou de mim e me beijou mais uma vez, nossos lábios ainda se encostando quando ela se afastou. Eu me aninhei mais perto dela e nós começamos a partilhar do mesmo oxigênio.

“Por que?”

“Porque você é linda.”

“Que superficial.” Ela riu e eu me peguei sorrindo também, de olhos fechados.

Eu estava à beira de cair no sono, mas eu lutei para permanecer consciente pelo tempo que me restava.

“Porque você não se importa que sou eu por quem você está começando a se apaixonar.”

Ela estava certa mais cedo, quando ela disse que meus pensamentos de bêbada iam me pôr em problemas algum dia.

“Você parece satisfeita com isso.” Ela sussurrou. “Você certamente está fazendo isso ser inacreditavelmente fácil.”

Eu encolhi os ombros o melhor que pude. “Eu não quero ser a única a me apaixonar.”

A beleza dos meus pensamentos de bêbada estava no fato de que eu não precisaria lidar com o peso deles até eu acordar. E quando isso acontecesse, eu já estaria perdida nos olhos castanhos ao meu lado e distraída pelo mero fato de que minhas divagações bêbadas eram, na verdade, minhas verdades sóbrias.

Notas finais
Bom sábado a noite pra vocês! ;)