Dia 18

Era estranho para Blaine pensar que em menos de um mês sua vida era completamente diferente.

Ele provavelmente estaria em sua sala, abraçado com seu (ex) namorado e vendo uma comedia romântica na TV.

Mas cá estava ele, ao lado de uma cama de hospital em plena 2:00hrs da madrugada observando um pequeno adolescente indefeso em seu sono de tempo indeterminado. Ele não queria estar em outro lugar. Por incrível que parecia aquele lugar estava lhe trazendo paz e ficar conversando horas e horas com o castanho estavam sendo como terapia para ele.

Pensar nisso o deixava melancólico. Um hospital o trazia paz, que horror.

Ele olhou para o menino que respirava com certa dificuldade. Ele não entendia porque o garoto não tinha acordado ainda, e nem os médicos entendiam porque o garoto não tinha acordado, e essa era um dos grandes motivos de dizerem que não podiam fazer nada além de esperar e torcer para que ele acordasse logo. Ele não estava satisfeito, mas compreendia. Como os médicos tentariam algo se não conseguiam nem identificar a causa do estado do pequeno?

Blaine pegou mais uma vez a mão do garoto e a acariciou. Ele tinha pegado o costume de fazer isso. Sentir a pele macia do garoto nos seus dedos o deixava extasiado, ele não conseguia explicar, ele só se sentia mais leve e drogado quando entrava em contato com aquela pele.

Ele olhou para o monitor acima da cabeça do castanho. Os batimentos fracos, mas regulares. Ele se ajeitou na poltrona pronto para dormir e olhou seus dedos entrelaçados com o do pequeno.

Ele desejava tanto que aqueles dedos e todo aquele ser desse algum outro sinal de vida sem ser aqueles bipes irritantes.

Dia 23

Pela primeira vez naquele mês Blaine realmente estava em casa. Claro, ele passava algumas noites lá para dormir melhor, mas tirando isso ele não habitava aquele local desde que tinha encontrado Kurt.

Ele tinha decidido que estava na hora de retomar sua vida de vez, ele já tinha adiado muito isso.

Ele entrou em casa e o cheiro abafado e conhecido atingiu seu nariz. Lembranças o atingiram e lagrimas brotaram em seus olhos.

Talvez ele estivesse sendo idiota por chorar por alguém que não o amava e nem o merecia, mas isso não mudava o fato que ele amou aquele garoto, amou como nunca antes tinha amado. Ele não queria chorar, nem sentir aquela dor que ele tanto fugiu nesse mês. Ele não queria ter que encarar a realidade que estava mais uma vez sozinho.

Ele sempre se sentiu assim, abandonado, mas quando Will chegou a sua vida ele parou de sentir que estava caindo. Com Will ele tinha um apoio.

Nem mesmo seus pais ofereciam aquele apoio que Will oferecia a Blaine. Alias, eles eram os últimos a oferecer algum apoio sentimental para Blaine. Para aqueles dois tudo se resolvia com dinheiro. Sempre.

Sua infância não foi a pior, claro que não, ele agradecia pelo vida que teve e por todos os privilégios que teve quando criança. Metade das crianças de sua idade não tinha metade. Mas Blaine invejava a família daquelas crianças.

Enquanto ele brincava com seus brinquedos e jogos, as crianças brincavam com seus pais.

Ele sentia que o vazio que sentia era estupido. Ele sempre teve tudo de mão beijada certo?

Mas ele não queria tudo aquilo, tudo que ele sempre quis foi a atenção dos pais, a presença deles ao seu lado. Talvez se sentir uma criança com uma família normal, com brigas e tudo, mas nem isso existia em sua casa.

Com o tempo ele se acostumou com a solidão que sentia e com a falta de amor de seus pais. Acostumou até antes de Will chegar.

Seu mundo desandou, e seu coração batia por ele. Ele só precisava do loiro do seu lado porque ele preenchia aquele vazio que sempre sentiu. Ele sentia amor em sua vida pela primeira vez. Ele era necessitado daquilo.

Mas agora aquilo tinha acabado.

Ele respirou fundo e limpou as lagrimas dos olhos. Fechou a porta de casa e criou coragem para arrumar e limpar aquela casa que era só poeira.

[...]

— Estava sentindo falta de passar um tempo com meu melhor amigo. – Falou Jeff para Blaine.

Eles estavam na sala do moreno assistindo a um jogo de beisebol na TV, Cincinnati Reds contra os Yankees, ou seja, Blaine, um Buckeye de nascença, torcendo para Cincinnati e Jeff, um nova iorquino de nascença, torcendo para o Yankees.

Mas não existia rivalidade ali, só o companheirismo que sempre existiu entre os dois meninos.

— Eu também estava sentindo de passar um tempo assim cara. – Blaine respondeu desviando o olhar da TV e sorrindo.

— Porque você tem andado tão sumido? – Jeff questionou pegando o controle da TV e colocando no mudo.

O intervalo do jogo tinha acabado de começar e finalmente Jeff poderia perguntar o que vinha lhe incomodando. Seu melhor amigo nunca sumia desse jeito.

— Andei ocupado.

Blaine não queria falar sobre isso. Não queria contar que vinha cuidando de um menino que nem sabia quem era, e nem contar que seu namorado tinha terminado com ele. Não agora. Mas ele sabia que Jeff não deixaria essa questão passar em branco.

— Blaine, eu sou seu melhor amigo e eu te conheço. Você não some por tanto tempo se não tiver algum problema. A ultima vez que você sumiu assim...

— Sim, eu sei. Eu me lembro. – cortou Blaine.

Na época do ultimo surto dele ele tinha 15 anos. Fazia tempo, mas ele se lembrava como se fosse hoje, principalmente da dor que sentiu.

— Então cara, você sabe que eu não vou te deixar em paz até tu me contar. Não vou arriscar dessa vez.

— Ok, mas não foi nada de mais e eu não menti, realmente tenho andado ocupado. – Ele suspirou e deu um gole na cerveja que segurava – Will terminou comigo, mas antes que pergunte ou faça um escândalo saiba que eu estou bem, e não, não foi por isso que eu sumi. Não só por isso.

— Então por quê?

—Eu venho cuidando de um garoto no hospital... no dia que Will terminou comigo eu o encontrei quase morrendo e desde então venho cuidando dele junto de seu pai. – Blaine deu um pequeno sorriso involuntário ao pensar no castanho. Sorriso esse que ele nem percebeu que tinha dado, mas Jeff percebeu. – tem me ajudado a não enlouquecer com essa história, você sabe como eu sou... – Jeff concordou com a cabeça – pois é, tem sido bom para preencher a cabeça e o pai dele é uma ótima companhia para mim.

Jeff percebeu que, sobre isso, Blaine não estava mentindo então resolveu deixar esse assunto por ai. Conhecia seu melhor amigo e sabia como ele era sensível, mesmo que tentasse esconder. Ele conhecia o passado de Blaine e sabia que qualquer coisa já o machucava seriamente. Mas ele viu o olhar nos olhos cor de mel, e percebeu que o melhor era deixar como estava.

— Mas me conte o que eu perdi essas semanas, como está você e Nick? – perguntou Blaine.

Um sorriso cresceu no rosto do loiro.

— Ele me beijou.

Dia 27

Blaine estava quase cochilando quando ouviu a porta do quarto sendo aberta. Ele pensou que seria Burt chegando do trabalho, mas quando olhou para o relógio que marcava 15:30 percebeu que estava muito cedo para o pai do garoto estar ali.

Olhou para a porta e por ela passou uma garota de cabelos pretos longo e liso, com algumas mechas azuis e roxas.

Toda sua vestimenta gritava “menina gótica”. Dos pés a cabeça a única cor que diferenciava do preto era sua pele clara e os olhos puxados vermelhos. Ela vestia um vestido preto com meia calça e botas da mesma cor, e luvas que iam da palma da mão até metade de braço.

— Está perdida? – perguntou Blaine para a desconhecida.

Ela negou em silencio e se aproximou do castanho. Blaine pode ver os olhos vermelhos brilhando com lagrimas e a dor que emanava daquela menina.

Ela pegou a mão do castanho, que Blaine teve que soltar, e ficou longos minutos olhando para o mais novo.

— Desculpa não ter vindo antes Kurtise... – falou pela primeira vez depois de 15 minutos – eu sei que eu deveria... afinal eu sou sua melhor amiga, aquela para quem você sempre contou suas dores.

Ela soluçou e as lagrimas finalmente desceram pelo seu rosto.

— Mas eu não suportava a ideia de que estava te perdendo. Pensar que você pode nunca mais acordar me machuca tanto. Como eu vou enfrentar o mundo agora, sem você ao meu lado? – ela sorriu amargamente entre as lagrimas – quem agora será meu unicórnio corajoso? O salvador da pátria?

Ela se aproximou mais dele e acariciou seu rosto.

— Para os outros, você sempre foi forte e corajoso. Sempre que te zoavam, ou mexiam com você, você ria e fingia que aquilo não te atingia, mas eu sabia como atingia e como aquilo te machucava... desculpa, eu deveria ter sido uma amiga melhor, eu queria ter te segurado e não ter de deixado cair tão profundamente no fundo do poço. Eu acho que eu estava tão envolvida com a minha dor e com aquilo que eu sofria que não fui capaz de te ajudar como eu deveria.

Ela olhou para o monitor que mostrava os batimentos de Kurt.

— Mas eu prometo que se você acordar eu vou melhorar okay? Eu prometo.

Ela olhou para Kurt com expectativa, mas segundos se passaram e nada mudou. Ela se inclinou e beijou a testa do castanho.

— Eu te amo, Kurtise.

Ela estava indo embora mergulhada em lagrimas quando ouviu atrás de si:

— Isso não é culpa sua, saiba disso.

Ela se virou e pela primeira vez focou seus olhos no moreno.

— Eu sei. Isso é culpa do bullying que ele sofria, da dor que ele sentia, e das pessoas que o menosprezavam por ser quem era. Tudo que eu sempre quis foi que ele conhecesse a felicidade, mas eu desejar isso a ele não anulava todo o ódio que ele ouvia, nem todo assedio que ele sofria.

Blaine anuiu com a cabeça em silencio.

— Quem é você? — Perguntou a garota.

— Meu nome é Blaine. Fui eu quem trouxe Kurt para o hospital.

— Obrigada por isso Blaine. – a garota sorriu gentilmente e olhou para o amigo que dormia – e eu sou Tina, a melhor amiga dele.

Tina saiu pela porta deixando Blaine novamente sozinho no quarto, mas agora Blaine se sentia mais leve. Talvez Kurt tivesse mais apoio do que sabia, e se acordasse, agora teria, além de Tina, ele também.

Dia 30

Burt tinha acabado de chegar no hospital e Blaine estava indo para casa. Suas costas doíam, sua bunda doía, e seus olhos doíam de sono. Tudo que ele queria era chegar em casa e desmaiar na cama. Ele não se importaria de dormir dias inteiros.

No caminho de casa uma coisa lhe chamou atenção. Na sua frente, em uma boate, um pedaço de um cabelo loiro conhecido entrou em sua área de visão. Ele parou e prestou mais atenção.

Quando sua visão se focou ele confirmou sua suspeita. Will estava ali, com um garoto o prensando contra a parede da boate com força e o beijando de tal forma que Blaine, mesmo de longe, se sentiu constrangido.

Seu coração com aquela visão se apertou e uma dor imensa lhe atingiu, mas não foi nada com o que veio a seguir. Quando o garoto que beijava Will se afastou seu rosto ficou visível e Blaine sentiu um enjoou e uma vontade de vomitar.

Aquele cabelo escuro feito a noite e aquela pele branca pálida não podia ser de outra pessoa. Era Nico quem estava beijando Will.

“mas que merda...?”

Ótimo, agora ele também estava com dor de cabeça.

Notas finais
odeio postar para o nada, mas é aquele ditado né