Spencer ainda encarava Mason, com uma expressão séria em seu rosto. Mason, no entanto, preferia encarar a parede. Pender a cabeça para a direita incomodava menos do que para a esquerda, já que nesse lado do rosto seu lábio estava cortado e o olho inchado. O loiro andou lentamente até a cama do garoto, que parecia encolher-se a cada passo que ele dava. Não era que Mason sentia medo de Spencer, mas sim das coisas que podiam acabar acontecendo pelo fato dele estar ali com ele. A última coisa que o moreno queria era apanhar mais uma vez.

– Eu devo desculpas, não devo? – O loiro indagou, com um sorriso no canto dos lábios, e por mais que aquele fosse o primeiro sorriso que Mason tinha visto de Spencer, ele ainda não se deu por satisfeito. Ele não devia ser tão fácil, ao menos era o que ele pensava consigo mesmo. – Não pode ficar assim comigo...

– Não posso, Spencer? – Mason indagou, perplexo. – Quando você levar uma surra quando estiver em menor número porque alguém tinha marcado de sair contigo pra fazer um projeto e ficar dependente de uma cama de hospital por alguns dias teremos essa discussão novamente. – O moreno falou, com um sorriso debochado.

– Não é como se eu tivesse mandado eles fazerem isso. – O maior retrucou. – Você os provocou. – Disse em um tom de murmúrio, que quase passou despercebido por Mason.

– Eu provoquei? Como que eu provoquei?

– Eles viram a forma que você me olha.

– Certo... – Ele balançou a cabeça negativamente. – Explique.

– Você me deseja, velho. Não tem problema nenhum nisso... Eu só não sou gay. – O loiro reafirmou, encarando a porta para verificar o movimento, e então a encostando.

– E essa foi a pergunta? Não quero saber do que você gosta. Eu não te olho de forma alguma. Só te olho como olho pra qualquer pessoa. Isso é motivo para apanhar, Spencer?

– Não, mas...

– Então, porra. – Mason nunca sentiu tanta falta de poder cruzar os braços sem gritar de dor como uma garotinha.

– Olha, eu vim aqui pra cuidar de ti. – O loiro o encarou de cima a baixo, deslizando a mão por sua canela e por sua coxa, adentrando subir por baixo do roupão, o que fez com que Mason recuasse com o corpo lentamente.

– Você não precisa me agarrar agora para comprar meu silêncio. Ninguém vai saber que você me beijou.

– Eu não estou pensando nisso. Só quero compensar toda essa dor... – O loiro subiu ainda mais a mão, parando próximo à virilha de McCarthy, que naquele momento perguntou a si mesmo se era sábio chamar a enfermeira. Spencer lentamente debruçou seu corpo por cima do de Mason, procurando por seus lábios, mas foi contido por um empurrão com todas as forças que o moreno tinha naquele momento.

– Eu não quero isso. Não assim.

– E como você quer? – Ele perguntou, retirando as mãos de seu corpo, aparentemente irritado com aquilo tudo.

– O modo como você age porque quer ter sua vida de tal forma, é problema seu. Não quero me envolver nisso e ser jogado para o escanteio só porque tem medo dos seus colegas. – Mason revirou os olhos.

– Você nunca vai entender.

– Não. Não vou. – Mason balançou a cabeça negativamente, encarando Spencer. – Eu quero que você vá embora. Preciso dormir.

– Você estava dormindo até agora... Fiquei esperando por horas. A Madison disse que eu podia ficar aqui.

– E você ficou, não ficou? – O sorriso debochado retornava ao rosto de Mason.

– Foda-se. – Ele murmurou, andando para a porta e abrindo a mesma, virando o rosto em direção de Mason e o encarando. – Talvez você tenha merecido apanhar.

As palavras finais de Spencer não faziam sentido algum. Por algum motivo, parecia que ele tinha ido no hospital ver Mason apenas para deixa-lo ainda mais nervoso e culpado com o que tinha acontecido, e naquele momento ele só queria poder contar para alguém o que havia acontecido. O moreno ficou encarando o teto por alguns instantes, pensando consigo mesmo se teria alguém para confiar no seu segredo. Sabia que se contasse para sua irmã ela falaria para Rachel ou Kurt, e Spencer estaria expulso do time de futebol, e provavelmente suspenso da escola por estar envolvido naquilo. Mas ao mesmo tempo, nem mesmo Mason queria continuar naquela escola. Ele queria sair. Mas como poder sair e ficar sem sua irmã? Ela podia o irritar as vezes, mas ela era seu porto seguro, e isso era extremamente importante para ele.

Quando uma enfermeira veio para trocar seu soro e trocar alguns curativos, Mason aproveitou para perguntar se ela sabia de seu celular. Ele havia esquecido que ele estava trincado por causa da surra que havia levado. Quando foi recordado disso fez um bico com seus lábios. O jantar logo chegou, uma bandeja cheia de... Gelatina. Pelo menos era a única coisa que Mason tinha certeza que comeria sem sentir dor. Não precisaria mastigar, então sua mandíbula não incomodaria. Deixou a sopa que parecia suspeita e o sanduíche de lado, pensando se guardava para sua irmã, que com toda a certeza apareceria por ali na tarde do dia seguinte, mas não teve a oportunidade, já que a enfermeira logo levou a bandeja quando ele terminou de comer.

– Eu posso ligar a televisão? – Foi sua última pergunta do dia para a enfermeira, que estava trocando de turno. Ela prometeu trazer o controle, mas provavelmente ela esqueceu, já que o moreno não a viu mais naquele dia.

Nada o restava a não ser dormir e esperar o dia seguinte. Por mais que seu corpo parecesse doer muito mais por ficar parado do que pelos machucados em si, ele sabia que não deveria desrespeitar ordens médicas. Ainda assim, durante a noite, aproveitando um momento de distração da enfermeira, o garoto deslocou-se do quarto. Arrastou consigo o maldito soro que ele mesmo já estava ficando enjoado – por mais que ele não o bebesse – e com os pés descalços começou a vagar por alguns corredores do hospital, em sua maioria vazios. Alguns idosos, outros jovens, e poucas crianças estavam nos seus respectivos quartos, mas nenhum deles parecia interessado em conversar. Talvez estivessem tão desesperados para irem embora quanto o garoto.

A máquina de doces no final do corredor – cercada por alguns sofás e cadeiras, além de uma mesinha com uma pilha de revistas – fez com que sua barriga roncasse. Ele devia ter comido algo além da gelatina, mas a dor não o permitia. Além da ausência de dinheiro naquele momento que não permitia que ele comprasse absolutamente nada. Foi nesse momento em que foi pego por uma das enfermeiras que o forçou a voltar para o quarto. Os olhos se fecharam, mas de forma alguma o sono parecia ver. Em sua mente, a voz de Spencer ecoava. Sua fala, o modo como ele o olhava. Parecia que Mason não conseguia decifrar se aquilo era algo bom ou ruim. Só tinha certeza que Spencer era um problema, e que ele não deveria, de forma alguma, se envolver com ele.

Em algum momento daquela noite, Mason conseguiu dormir. Mas mais uma vez teve um pesadelo. Agora, Spencer estava com ele no meio da escola, mas antes mesmo que ele pudesse segurar em sua mão, o garoto o deixava de lado para ficar com seus amigos. Abriu os olhos rapidamente, vendo o sol entrando pela janela, passando pelo espaço entre a persiana. Ao olhar para o lado, pode ver no criado-mudo o controle da televisão e um pedido de desculpas da tal enfermeira, que estava colado no próprio controle remoto. Aquilo arrancou um sorriso de Mason, um dos poucos nos últimos dias. Pensou se agradeceria à enfermeira, mas já a veria durante o dia, por isso não viu necessidade de fazê-lo.

O dia passou, mas dessa vez mais rápido do que o dia anterior. O moreno pode assistir televisão durante a parte da manhã, que geralmente estava no colégio, e naquele dia, pode almoçar sem problema algum. Sua felicidade estava quase completa. Só faltava poder ver seus amigos. Havia decidido que contaria para sua irmã o que havia acontecido, mas imploraria para que ela mantivesse segredo, já que ele queria resolver por si só a história com Spencer.