Hold me Tight

45 Uma casa feita de cartas


Notas iniciais
Olá~ desculpem a demora colossal. @@ Espero que gostem. ♥

— Yoongi POV -

A primeira noite que não tinha Jimin ao alcance da mão pra me aquecer fora passada em claro, minha mente inquieta e meu corpo mais ainda, virando e revirando na cama numa busca vã por alguma posição confortável pra dormir. Digo vã porque sabia que, por mais que tentasse, o sono não viria assim tão fácil quanto esperava. Acontece que todo esse tempo passado com o mais novo acabara me acostumando mal e agora, aparentemente, só conseguia pregar os olhos se tivesse suas costas prensadas contra meu peito e um braço ao redor da sua cintura ou sua cabeça confortavelmente aninhada em meu ombro. Não ter sua presença sólida e quente ao meu lado fazia a cama parecer mil vezes maior e mais gélida do que realmente era, tornando a corriqueira tarefa de fechar a porcaria dos olhos e simplesmente dormir impossível de ser realizada.

O que era uma completa merda, se pudesse ser brutalmente honesto. Afinal, Min Yoongi perder a habilidade de dormir onde e quando quisesse era uma baita surpresa, e não uma das mais agradáveis.

Entretanto lá estava eu mais uma vez perdendo o sono por culpa de Park Jimin. Deixá-lo em casa naquela manhã havia sido a decisão mais difícil que já tive que tomar, mais difícil ainda do que deixar Daegu com o rabo entre as pernas e pular de cidade em cidade até encontrar meu caminho para Seoul. A vontade de virar o carro na direção contrária e acelerar enquanto o mais novo ainda estava dentro dele era forte, mas infelizmente não consegui encontrar em mim a coragem necessária pra realmente fazê-lo. As palavras de Jimin não poderiam ser mais nuas e cruas, apunhalando-me o peito e repetindo-se na minha mente diversas vezes como um disco quebrado, mesmo depois de tantas horas: estava na hora de sairmos daquele conto de fadas que criamos ao nosso redor e encarar a realidade que nos aguardava do lado de fora. Engraçado como o mais novo entre nós dois também era o mais sensato, mas eu sinceramente não dava duas fodas pra sensatez nesse momento. Tudo o que queria era ter o corpo de Jimin na cama comigo pra abraçar e finalmente poder dormir, merda.

Mal conseguindo conter um suspiro frustrado, levantei-me da cama sem sequer me dar ao trabalho de ver as horas, impaciente e ansioso pra deixar aquele ambiente sufocante e tentar esfriar a cabeça – o que não deu muito certo, como era de se esperar. Até mesmo a sala de estar parecia perturbadoramente vazia e quieta sem a sua presença, e foi nesse instante que percebi que não poderia livrar-me dos pensamentos nostálgicos sem ajuda. Foi essa realização que me levou até a cozinha, incitando-me a procurar qualquer bebida alcóolica na geladeira; felizmente ainda tinha algumas garrafas de soju sobrando, mas muito em breve precisaria reabastecer meu estoque. Tomando um grande gole direto do gargalo, acolhi a ardência que a bebida causava ao descer pela garganta com um murmúrio apreciativo, só então dando-me conta de que não pusera uma gota de álcool na boca desde o momento que Jimin colocara os pés no apartamento.

Um vício logo levara a outro, e em pouco tempo encontrei-me apoiado com os cotovelos no peitoril da janela da sala, a mesma com as cortinas e vidros abertos deixando a brisa fria da madrugada entrar enquanto observava as ruas vazias abaixo de mim, um cigarro aceso entre os dedos e a garrafa de soju meio vazia ao meu lado. A única fonte de iluminação para o ambiente escuro era um outdoor luminoso no prédio ao lado, anúncio para uma marca de roupas que tinha algum grupo idol qualquer como garotos propaganda. Todo aquele cenário era bastante melancólico, não podia negar, e com certeza me sentiria ridículo na manhã seguinte por permitir que me afogasse em autopiedade dessa maneira, mas a urgência que sentia em ocupar minha mente com outra coisa era forte demais pra ignorar. Pelo menos o álcool me deixaria grogue o suficiente pra descansar a cabeça – ou assim esperava – e a nicotina encheria meus pulmões com algo que não fosse seu cheiro, que muito cruelmente havia se prolongado no apartamento como um maldito lembrete – Jimin não está mais aqui.

Engraçado que mesmo quando tentava com todas as forças não pensar em Jimin, eu acabava fazendo exatamente isso: tudo que passava pela minha mente agora era como o mais novo ia me matar quando retornasse e sentisse o familiar cheiro de cigarros e bebida que trabalhara tão duro pra eliminar durante sua estadia. Entretanto, mesmo assim não podia me sentir culpado: enquanto ainda estava aqui, o que fiz foi trocar uma droga pela outra; agora que havia ido embora, não consegui resistir à tentação de cair em velhos hábitos.

De cenho franzido, trouxe mais uma vez o cigarro aos lábios, tomando um longo e preguiçoso trago e enchendo o peito até sentir meus pulmões queimarem com a fumaça, apenas para expeli-la segundos depois na escuridão da noite. Quando percebi que os vícios antigos não fariam nada pra ajudar a aplacar o novo, apaguei-o ainda pela metade no peitoril da janela e bebi o restante da garrafa num gole só na esperança de obter a coragem extra pra fazer o que faria a seguir.

Voltei para o quarto a fim de buscar o celular, encontrando-o escondido sob os travesseiros enquanto sentava-me pesadamente na beirada da cama. Procurei o contato que tinha em mente com impaciência e abri a aba das mensagens de texto que não era usada já há algum tempo, digitando rapidamente um convite antes que mudasse de ideia.

Para Sunshine: O show está se aproximando... acha que consegue trazer seu amigo pro estúdio ainda essa semana?

Tentei soar o mais casual possível – se é que era possível soar casual através de uma mensagem, de qualquer forma – e conter o “sinto sua falta” que estava praticamente implorando pra ser digitado. Eu não queria ser uma daquelas pessoas carentes que não conseguiam passar sequer um dia longe da pessoa amada sem choramingar de saudades. Não, Min Yoongi não era uma dessas pessoas, muito obrigado.

O que não esperava era receber uma resposta em menos de dois minutos.

De Sunshine: Claro! É só dizer a hora e o local e estaremos lá. ;)

Não consegui acreditar no que via, tendo que reler aquela pequena frase pelo menos seis vezes antes de aceitar que aquilo era de fato real e Jimin estava de fato acordado. Curioso, olhei o relógio do celular: era pouco mais de três horas da manhã. O que o garoto ainda fazia acordado à essa hora, afinal? Peguei-me pensando se talvez ele também estivesse enfrentando dificuldades pra dormir sozinho quando, mesmo depois de lhe responder com instruções para chegar no estúdio de Namjoon e o assunto aparentemente ter morrido aí, o mais novo continuou arrumando novos assuntos e desculpas pra prolongar a conversa por mais tempo, cada um mais trivial e sem importância do que o outro. Entretanto, não me vi oposto à ideia de trocar mensagens até que um dos dois dormisse primeiro enquanto deitava mais uma vez, esparramando o corpo no colchão ao digitar com dedos furiosos uma resposta apaixonada sobre os melhores álbuns de hip-hop lançados atualmente, um sorriso muito mal contido puxando meus lábios para cima.

Aquilo nem chegava aos pés de ter o calor de seu corpo contra o meu, ouvi-lo ressonando levemente no silêncio do quarto, sentir o aroma doce do seu shampoo ao enfiar meu nariz em sua nuca, perdido em meio aos fios castanhos, mas já era alguma coisa. Desnecessário dizer que fui o primeiro a pegar no sono, ainda com o mesmo sorriso idiota estampado no rosto.

Eu não diria que estava nervoso quando, duas manhãs depois, peguei-me chegando mais cedo do que o combinado no estúdio pra arrumar o que não precisava ser arrumado, mudando coisas de lugar sem motivo algum além de precisar me ocupar com algo. O estúdio que Namjoon alugava e que eu às vezes pegava emprestado ficava num prédio velho e em grande parte do tempo vazio nos arredores do nosso território, que abrigava salas comerciais de variados tamanhos cujos interessados poderiam alugar e transformar no que quisessem: estúdios, consultórios, pequenas empresas. Como o distrito em que atuávamos era mais voltado para a indústria e possuía mais galpões do que pessoas, desnecessário dizer que muitos desses serviços fecharam as portas. O líder só conseguia mantê-lo porque tráfico de drogas era algo que dava dinheiro, e não era pouco.

Entretanto, mesmo com o lucro que o mais novo arrecadava no ramo que trabalhávamos, o estúdio em si não era nada grandioso; o espaço era pequeno, tornado ainda menor por ser dividido com a cabine de gravação, separada por uma divisória de madeira revestida com abertura para a porta e uma grande janela de vidro que permitia contato visual entre quem estava no microfone e quem estava atrás da tela do computador. Apesar de nenhum de nós dois gostarmos de gastar dinheiro com conforto ou decoração – a única mobília que não era estritamente necessária presente no ambiente era um sofá preto de couro e nada mais – os equipamentos eram todos top de linha, os melhores que o dinheiro poderia pagar. Namjoon era bastante apaixonado por música, o suficiente pra escrever e produzir as suas próprias, mas não podia negar que aquele estúdio era como um filho pra mim. Era eu quem estava sempre atrás de novos equipamentos pra melhorar a qualidade da produção, então tinha bastante orgulho do nosso trabalho ali.

Fui interrompido no meio de meus devaneios e de minha arrumação desnecessária pelo som de passos e vozes no corredor, indicando que não estava mais sozinho no prédio. Entretanto, o ruído alto do que parecia ser um par de pernas extra saltitando pelo piso cimentado com solas de borracha e o timbre grave da risada que ecoara em seguida era todo o indício que precisava pra saber que havia mais uma pessoa que não fora exatamente convidada a se juntar aproximando-se do estúdio numa velocidade lenta, mas constante. Mal tive tempo de respirar fundo e repetir silenciosamente pra mim mesmo que esses eram os amigos de Jimin, então eu devia ao menos tentar ser simpático e não parecer como se quisesse matá-los apenas com a força do olhar antes da porta ser aberta sem cerimônias – nem mesmo uma batida pra indicar sua chegada, nada – revelando um Taehyung sorridente com seus rebeldes cabelos lilases acompanhado por Jungkook e Jimin, que vinham logo atrás.

— Bom dia, Suga-hyung! – cumprimentou com seu característico sorriso quadrado que mostrava todos os dentes antes de correr os olhos pelo pequeno espaço, parecendo impressionado. – Woah! Estúdio legal. É aqui que vamos gravar a música pro Jiminie?

— Não me lembro de ter convidado você. – deixei escapar antes que pudesse pensar melhor na escolha de minhas palavras, o tom monótono e nem um pouco agradável. Bem lá no fundo de minha mente, uma parte de mim chiou diante do tratamento frio que dirigia ao mais novo, mas sabia que não podia evitar. Sociabilidade não era um dos meus pontos mais fortes, afinal.

— É verdade, não convidou. – o garoto concordou, parecendo chateado com um bico projetado nos lábios enquanto se jogava pesadamente no sofá sem pedir ou esperar por permissão. – Fiquei muito triste quando soube, mas já te perdoei. Afinal, você não poderia saber que eu tinha voz de anjo.

— Isso é sério? – dirigi a pergunta à Jimin, que parecia tímido e meio deslocado no seu lugar próximo à porta, quase como se estivesse pronto pra sair em disparada a qualquer momento. Seus olhos foram instantaneamente trazidos de encontro aos meus quando percebeu que falava consigo, concordando veementemente com a cabeça enquanto tinha uma sombra de rubor nas bochechas. – Hm, por essa eu não esperava. Nunca imaginaria que Taehyung tivesse qualquer experiência com canto.

— Bom... eu só o ouvi cantar no chuveiro. – Jimin admitiu timidamente com a voz tão suave que mal podia ser ouvida, parecendo ainda mais encabulado quando me ouviu soltar uma risada seca de escárnio em resposta. – Mas ele canta bem, eu juro!

— Se você diz. – dei de ombros, ignorando os protestos do outro para pararmos de falar como se ele não estivesse presente quando finalmente me dirigi ao mais novo dos três, até então o único que eu esperava ter de ouvir a voz naquela manhã. – Acho que podemos dividir as linhas entre você e Taehyung. Meu amigo Jin também vai gravar algumas partes que selecionei pra ele mais tarde, quando voltar de viagem. Ainda assim, como Jimin te indicou, você será o vocal principal da canção. Acha que está preparado?

— Por favor, não me ofenda. – veio a resposta seca do moreno, com os braços cruzados de maneira defensiva no peito e uma expressão azeda na face que dizia que gostaria de estar em qualquer lugar menos ali. – Só me dê as letras pra que possa cantar e acabar logo com isso.

Minha vontade era de prendê-lo num mata-leão e desferir cascudos em sua cabeça até o pivete largar aquela postura superior e aprender a respeitar os mais velhos, mas Jimin fora mais rápido do que eu. Tudo que fez foi lançar-lhe um olhar reprovador e murmurar um Jungkookie em tom de ameaça e a atitude do mais novo pareceu murchar como um balão furado. Em qualquer outro dia eu poderia ficar incomodado ao presenciar o poder que Jimin parecia ter sobre o menino, mas hoje só podia agradecer e ficar aliviado por não ter que lidar com adolescentes mimados pessoalmente. Com certeza eu passaria a tarde se não a noite inteira trabalhando na música, bem depois de todas as gravações serem concluídas, e definitivamente não precisava de pirralhos que pareciam ter um pedaço de pau enfiado na bunda e não sabiam como tirar pra agravar minha dor de cabeça.

Fiz questão de deixar isso bem claro pra todos eles enquanto dava uma cópia da letra pra Taehyung e Jungkook, com suas respectivas partes destacadas com marca-texto. Coloquei o instrumental da música pra tocar uma vez para que ambos pudessem sentir a intenção da mesma, tomando a liberdade para dar-lhes instruções sobre timbre e técnica vocal assim que o estúdio fora novamente inundado pelo silêncio. Eu poderia não estar nos melhores termos com Jungkook nem ter muita paciência com Taehyung, mas não podia negar que os dois estavam dispostos a ouvir e fazer um bom trabalho, tomando as dicas com expressões concentradas antes de aquecer as vozes.

O primeiro a entrar na cabine de gravação foi Jungkook, colocando os fones de ouvido e ajustando a altura do microfone como se já estivesse familiarizado com o procedimento. Indaguei-me sobre a possibilidade dele já ter feito isso antes, e se sim, onde; não lembrava exatamente o que Jimin disse que ele cursava na faculdade, mas tinha quase certeza que não era nada relacionado à música. Entretanto, fui pego mais uma vez de surpresa quando o mais novo abriu a boca pra cantar ao receber o meu sinal. A voz que era projetada diretamente no microfone soava controlada e harmoniosa, quase angelical, como se o garoto não precisasse fazer esforço nenhum pra cantar bem. Jungkook havia entendido o sentimento da música de primeira, precisando consertar apenas algumas pequenas notas enquanto ouvia o instrumental ser reproduzido de novo e de novo nos fones até ficar satisfeito. Eu ouvia a tudo atentamente, concentrado em encontrar alguma falha ou timbre errado, mas por um instante meu coração encheu-se de orgulho quando não encontrei nada. Além da excitação que sentia por ver mais uma de minhas criações tomando forma, não podia negar que Jungkook se mostrara mais adequado para o trabalho do que esperava.

— Bom trabalho. – disse assim que o garoto passou pela porta, reconhecendo talento quando o tinha esfregado na cara. Jungkook pareceu travar, aceitando o elogio com um aceno curto da cabeça sem encontrar meus olhos. – Você parecia confortável lá dentro. Já fez isso antes?

— Sim, algumas vezes. – admitiu com a voz pequena, encabulado como uma criança que fora pega com a mão dentro da jarra de biscoito. – Às vezes eu ajudo alguns sunbaes do departamento de música na faculdade. Eles precisam de uma voz, e por algum motivo gostam da minha. – disse como se desconsiderasse o assunto com um encolher de ombros.

— Eu consigo entender o porquê. – falei sincero, observando as bochechas do outro adquirirem um tom rosado diante de tais palavras. Jungkook podia ser um pivete enjoado que me dava nos nervos a maior parte do tempo, mas eu seria um completo babaca se presenciasse tamanho potencial em silêncio. Sabia muito bem como era difícil ser reconhecido nesse ramo, portanto elogiar as habilidades do mais novo era quase como um dever.

— Seu maior sonho é ser cantor, não é verdade, Jungkookie? – ouvi a voz doce de Jimin dizer, o tom animado e orgulhoso, sorrindo feito bobo. A reação do outro fora muito semelhante a de um filho que acabara de ser humilhado socialmente em público pela mãe, enviando adagas com os olhos na direção do amigo de cenho franzido e um rubor ainda mais forte no rosto.

— Hyung. Não saia por aí espalhando isso, por favor. – pediu com a voz porcamente controlada e ombros tensos, fechando as mãos em punho e encarando o chão como se o mesmo tivesse lhe ofendido de alguma forma. Aquela reação era deveras interessante, e não podia negar que atraíra minha atenção.

— Por que não? Seu medo era que eu descobrisse seu interesse pela música? Você poderia até se beneficiar disso, na verdade. – disse, girando a cadeira que ocupava para encará-lo de frente. – Você quer cantá-las, eu posso produzi-las. Nós poderíamos ajudar um ao outro. Talvez até gravar algumas demos, não sei.

— Você não faria isso. – disse num tom incerto depois de alguns segundos em silêncio me encarando com pura incredulidade estampada no rosto. Dei de ombros, voltando-me para a tela do computador a fim de ocupar-me com alguma coisa antes que pudesse me arrepender de minhas decisões.

— Por que não? – repeti no tom mais casual que conseguia fazer, clicando em coisas aleatórias pra me distrair. – Você pode ser um porre e me fazer ter pensamentos homicidas na maior parte do tempo, mas também é amigo de Jimin. Se posso ajudá-lo a alcançar seus objetivos, não vejo motivos pra não fazê-lo. Não seria sacrifício nenhum, na verdade.

A única reação para minhas palavras não viera de Jungkook, que permanecia quieto e parecia congelado no lugar com uma expressão indecifrável no rosto, muito menos de Jimin, que estava tão mudo quanto o amigo e tinha olhos grandes e brilhando com um misto de perplexidade e admiração, mas sim de Taehyung; o guincho que soltara quebrando o silêncio fora mais agudo do que o ruído angustiante de unhas contra o quadro negro, um contraste e tanto para seu timbre usualmente grave. – Suga-hyung! Eu sabia que tinha um doce de pessoa escondido aí em algum lugar por baixo de toda essa postura de gângster durão, eu sabia!

— Cala a boca, Taehyung. – cortei sem rodeios, sentindo a ponta de minhas orelhas esquentar com a acusação. – Não disse nada demais, não transforme isso em algo estranho. Por que você não se faz útil uma vez na vida e vai gravar sua parte, hm?

Apesar das palavras rudes e do tom grosso, o garoto apenas riu como se tivesse desvendado todos os meus segredos e soubesse exatamente quando estava alimentando uma farsa, cantarolando uma concordância e praticamente saltitando até a cabine. Felizmente as alturas de Jungkook e Taehyung eram próximas, evitando assim qualquer ajuste nos equipamentos. Ele então copiou os procedimentos do amigo, colocando os grandes fones sobre as orelhas e certificando-se que estava confortável antes de me dar um sinal positivo com o dedão através da janela, sorriso quadrado estampado no rosto.

Taehyung não possuía uma técnica vocal impecável como Jungkook, mas seu timbre grave tinha personalidade e, uma vez que se habituara com o microfone, ele parecia cantar com a alma. O mais novo me deu bem mais trabalho, cometendo alguns erros bobos de pronúncia e palavras erradas, mas cada vez que pedia pra começar a música do zero ele parecia dar um pouco mais de si, cantando um pouco melhor todas as vezes. A voz de Taehyung era capaz de despertar sentimentos em quem quer que ouvisse, do tipo de sentimento cru que a maioria de nós nem sabia ser capaz de sentir. Sobressaltei-me ao perceber que tinha arrepios por toda a extensão da pele, eriçando meus pelos; o talento de Taehyung era diferente do de Jungkook, mas não deixava de ser talento por isso. Sabia que fizera a escolha certa ao confiar em Jimin naquele momento, pois acabara de encontrar uma das peças-chave para o quebra-cabeça da música sem nem mesmo saber que precisava dela, desesperadamente.

— Isso é o suficiente, Taehyung. Pode voltar pra cá. – falei no pequeno microfone que tinha na mesa e era conectado diretamente com o fone que o outro usava na cabeça, vendo-o pendurá-lo no mesmo lugar onde o encontrara antes de saltitar de volta com o maior sorriso que já vira em sua face.

— Como me saí, hyung? – indagou cheio de expectativa, como um cachorrinho que realizava um truque com sucesso e esperava o elogio do dono. Revirei os olhos, sabendo muito bem o que ele queria e recusando-me a lhe entregar tão facilmente.

— Você foi bem. – disse com um encolher de ombros, fingindo indiferença porque achava divertido brincar dessa forma com o mais novo e analisar suas reações. A atitude alegre e positiva de Taehyung pareceu murchar na mesma hora, enquanto tinha os ombros caídos, cenho franzido em preocupação e lábios projetados num bico gordo e triste.

— Só isso? Só bem? – repetiu com a voz fraca e lábios trêmulos, recebendo mais um encolher de ombros em resposta. Porém o garoto percebeu como eu precisava morder os lábios e o interior das bochechas pra conter o sorriso, e isso pareceu ser resposta suficiente pra ele; no segundo seguinte o sorriso já estava de volta em seus lábios, os olhos brilhando com o novo conhecimento que tinha do meu jeito de lidar com as coisas e da minha forma de fazer humor. – Aish, hyung. Você devia ter dito logo que eu fiz um bom trabalho como Jungkookie, me deixou preocupado à toa.

— E qual seria a graça disso? – rebati, deixando meu próprio sorriso livre uma vez que já fora pego na minha farsa e não adiantava mais insistir em manter a fachada. Taehyung choramingou manhoso e parecia prestes a dar um ataque petulante antes de interromper-se de súbito e ficar imerso em pensamentos, voltando-se para mim logo depois com uma clara dúvida na ponta da língua.

— Hyung. – chamou, mantendo-se quieto até que eu murmurasse em resposta, indicando que estava ouvindo. – Foi você quem escreveu essa música, não foi?

— Claro que foi. Quem mais poderia ter sido? – retruquei num tom monótono, sem entender o ponto que o garoto queria transmitir.

— E você a escreveu pensando em Jiminie, não foi? – continuou, ignorando a resposta seca, o que não servira de nada pra amenizar minha confusão.

— Aonde você quer chegar, Taehyung? – questionei, cruzando os braços na altura do peito e girando minha cadeira na sua direção num claro sinal de que não iria aceitar ser ignorado dessa vez.

— Talvez Jiminie devesse cantar a música, não a gente. Não que esteja reclamando. – acrescentou de última hora, olhos arregalados diante da carranca desconfiada e levemente confusa que contorcia minha face. – Mas só acho, sei lá, meio estranho? Eu faria qualquer coisa que Jiminie me pedisse, óbvio, mas não sei porque precisamos estar aqui quando ele consegue cantar tão bem quanto nós dois.

— Bem, Jungkook foi recomendado pelo próprio Jimin, e não se esqueça de que você não foi convidado. – respondi, porém minha voz fora engolida pelo tom mais alto de Jimin quando o garoto falou por cima.

— Que mentira, eu não consigo cantar nada! – Jimin corrigiu num quase grito, aflição e desespero evidentes na voz e rosto. Minha atenção fora trazida diretamente pra si, intrigado por tamanha reação aparentemente sem motivo.

— Bobagem, Jiminie. Todo mundo sabe cantar. – Taehyung desconsiderou o amigo com um abanar de mãos, ignorando completamente o olhar de súplica que o menor lhe enviava.

— Eu não sei. Não conseguiria cantar nem se fosse pra salvar minha vida. – comentei casualmente, encolhendo os ombros pelo que parecia ser a milésima vez. Eu conseguia sentir a tensão vinda do garoto, por isso tentei não soar muito ansioso ou pressioná-lo demais ao fazer minha oferta, encontrando seu olhar com um pequeno sorriso que esperava lhe trazer conforto. – Mas se Jimin estiver disposto a tentar, estou dentro.

Três pares de olhos se voltaram pra Jimin ao mesmo tempo, criando uma expectativa desnecessária e dando-lhe uma atenção que o mais novo provavelmente não queria, se o modo como fechou-se dentro de si mesmo com bochechas vermelhas e olhos nervosos que se recusavam a encontrar qualquer um dos nossos era indicação suficiente. – Ah, n-não. Estou bem, não q-quero estragar o trabalho de vocês.

— Você não estragaria nada. – rebati sem pensar duas vezes, assistindo seu rosto fechar-se numa careta que era uma mistura engraçada de aflição com curiosidade e um pouco de esperança. – Estou gravando as vozes separadamente, só depois vou selecionar as partes que quero e juntar no restante da música. Veja isso como um teste, se não ficar bom é só deletar.

Jimin me encarou cheio de incerteza nos olhos por longos segundos, desviando aquele mesmo olhar para cada um de seus amigos em seguida, como um animal indefeso que se via preso e encurralado entre seus predadores. Jungkook tomou a dianteira, sendo aquela figura que estendia a mão e aguardava até ganhar a confiança de sua suposta presa, sorrindo com uma doçura que nunca tinha presenciado antes. – Acho que não custa tentar, certo, hyung?

— Engraçado como você só me chama de hyung quando quer alguma coisa. – comentou Jimin encarando o mais novo de soslaio, enviando adagas que logo foram dissipadas com um suspiro derrotado. Jimin resignou-se facilmente ao seu destino, correndo os dedos pelos cabelos de modo a expor sua testa por breves segundos antes que os fios caíssem sobre seus óculos novamente. – Aish, o que eu vou fazer com vocês três?

Apesar de reclamar e resmungar durante todo o percurso, andando com passos hesitantes e parecendo se arrepender de todas as decisões que o levara até aquele momento antes mesmo de começarmos, Jimin foi o próximo a entrar na cabine pra cantar algumas partes que havia grifado de última hora especialmente pra si. Como não estava habituado com os equipamentos como seu amigo, Jungkook o acompanhou apenas para ajustar o microfone de acordo com a sua estatura pequena e saiu logo em seguida, deixando-o sozinho no espaço mais uma vez. Quando estava tudo pronto dei o meu sinal para que pudesse começar a gravar, os dois garotos mais altos em pé atrás de mim torcendo pelo amigo com os polegares virados para cima, o que só deixava Jimin ainda mais tímido e nervoso. O menor pigarreou algumas vezes para desobstruir a garganta antes da música invadir seus ouvidos, sinalizando que era hora de prestar atenção no tempo e cantar suas linhas no momento certo.

A voz de Jimin era bonita, não podia negar; doce e melodiosa, quase reconfortante de uma maneira que não sabia explicar. Porém, o nervosismo não deixava o garoto nos mostrar o potencial completo de seu canto, não enquanto gaguejava a cada duas linhas, assassinava notas mais altas e tropeçava ao redor das palavras. Num determinado ponto, o tremor na sua voz era tanto que parecia à beira de lágrimas. – Me d-desculpe. Eu sei a letra de cor, mas não consigo cantar, não consigo. – implorou, abanando a cabeça em negação com o tom angustiado e calando-se por completo depois da interrupção. A visão de Jimin sozinho no meio da cabine ainda com os fones sobre os ouvidos, música tocando sem o acompanhamento do seu canto, encarando o chão com ombros caídos era demais pra suportar. Antes que me desse conta, já estava levantando da cadeira que ocupava e atravessando a porta que me separava dele, diminuindo a distância entre nós com passos longos e certos.

— Ei, está tudo bem. – tentei assegurá-lo com o tom suave, ajudando-o a tirar os fones com mãos gentis e guardando-os no seu devido lugar antes de puxar Jimin pra um abraço. – Está tudo bem, você não fez nada de errado. É normal ficar nervoso na primeira vez, não se preocupe. – continuei sussurrando garantias em seu ouvido enquanto dava tapinhas reconfortantes nas suas costas, absorvendo a sensação de ter o nariz gelado de Jimin contra meu pescoço e suas mãos pequenas agarradas à minha camisa. Sem perceber o que estava fazendo, deslizei as mãos por suas costas e desferi os mesmos tapinhas em sua nádega farta de forma brincalhona, sorrindo com o arquejo de surpresa que recebi em troca. – Você fez bem.

O menino afastou-se na mesma hora com bochechas impossivelmente vermelhas, encarando-me com olhos afiados e cenho franzido em irritação misturada com vergonha, mas pelo menos não estava mais tenso ou chateado, o que pra mim era uma vitória. Jimin parecia mortificado com a ideia dos seus amigos terem presenciado um gesto tão íntimo entre nós dois, mas isso pra mim não era um problema; aliás, estava seguro de que nenhum dos dois vira nada, afinal eram as minhas costas que estavam voltadas para a porta, não as dele.

Entretanto, Taehyung mostrou-me equivocado quando, ao me juntar novamente à eles com Jimin atrás de mim, sorriu de forma sabida e travessa e deu-me as costas, empinando a bunda na minha direção sem explicação alguma.

— Que porra é essa, guri? O que está fazendo? – questionei, encarando aquele gesto com as sobrancelhas unidas numa confusão pura e absoluta. O que diabos aquilo queria dizer?

— Diga que Tae-Tae fez um bom trabalho, hyung. Tae-Tae não tem sido nada além de um bom menino hoje. Não é verdade, Suga-hyung? Diga que sou um bom menino. – o garoto disse com a voz manhosa, enviando-me um olhar suplicante por cima do ombro com um baita bico pra acompanhar. Minha confusão se transformara em estranheza conforme o encarava com olhos descrentes. Parecia que estava diante de um filme pornô de péssima qualidade, mas acho que já devia esperar algo do tipo vindo do garotinho esquisito que era alto demais pra sua idade e idiota demais pro seu próprio bem.

— Cala a boca. Céus, como pode falar tanta merda? – suspirei, batendo a mão na testa antes de desviar do mais novo com pouca graça, chegando até mesmo a empurrá-lo um pouco pra fora do meu caminho enquanto tomava o lugar diante da tela do computador mais uma vez, dando zero fodas para sua brincadeira sem graça. Taehyung pareceu extremamente decepcionado por não ter cedido aos seus desejos, o bico em seus lábios visível até do outro lado da rua enquanto dirigia aqueles olhos grandes e pidões pra mim com força total.

— Você disse que Jungkookie e Jiminie fizeram um bom trabalho, mas não eu. Por quê? Isso não é justo. – choramingou um pouco mais, chegando ao cúmulo de dar um mini-ataque petulante quando viu que minhas fodas continuavam intactas.

— Porque eu não quero. – respondi simplista, brincando com os recursos do programa de mixagem só pra não ter que encará-lo e possivelmente fazer algo que fosse me arrepender no futuro, tipo enforcá-lo com as minhas próprias mãos. – Vá pedir pra Jungkook bater na sua bunda, não eu.

Taehyung abriu a boca pra protestar, mas nenhum som saíra dela conforme o garoto ficava perdido em pensamentos, uma ideia surgindo em sua mente diante de minhas palavras. Ele nada dissera, contentando-se em se aproximar do mais novo com uma expressão tímida que eu sabia ser falsa, esse que assistia a discussão com a cara fechada e os braços cruzados na altura do peito parecendo nem um pouco feliz com a sugestão. – Jungkookie...

— Nem pensar. – cortou antes que o amigo mais velho pudesse vocalizar seu pedido, deixando-o ainda mais chateado.

— Por favor, Jungkookie. Diga que Tae-Tae fez bem. – pediu, imitando a mesma postura que usara comigo momentos atrás, quase como se tentasse seduzir o moreno a dar tapinhas na sua bunda como forma de congratulação.

— Pare de ser idiota. Eu não vou fazer isso. – o mais novo recusou-se, o tom de voz firme e final, um feito impressionante pra quem tinha o rosto todo corado de vergonha e os olhos que corriam em todas as direções menos a de Taehyung.

— Aish. – resmungou, bagunçando os cabelos de forma agitada, aparentemente desistindo da ideia e dando-se por vencido. – Eu só queria que alguém me dissesse que fui bem hoje, mas pelo visto não fui. Acho que música não é o meu forte mesmo. Estou triste. – a visão de Taehyung era de uma verdadeira criança mimada e birrenta, com os braços cruzados defensivamente no peito, olhos furando o chão com a intensidade que o encaravam e um beicinho que parecia permanentemente grudado em seus lábios. Resisti a vontade de rolar os olhos e voltei-me para o computador, sentindo-me exausto com todo esse barulho ao meu redor.

— Que garoto enjoado, nossa. Vem cá. – o mais novo puxou o amigo pelo braço, desfazendo sua postura e colocando-o na posição que queria com braços fortes. – Você fez um bom trabalho, Taehyungie. – Jungkook anunciou numa voz monótona, cedendo aos impulsos que consegui ignorar, revirando os olhos com um suspiro cansado enquanto dava ao amigo o que ele tanto queria: leves palmadinhas carinhosas em suas nádegas, pelo menos umas dez vezes, só pra ter certeza.

— Preferia que me chamasse de Tae-Tae, mas Taehyungie serve. – disse com uma leve careta de desgosto antes de abrir seu famoso sorriso quadrado e radiante, finalmente satisfeito por ter o que queria. Uma risada alta e borbulhante ecoara pelo ambiente no segundo seguinte, conseguindo sobressaltar nós três com sucesso: o som viera de Jimin, que havia observado tudo paralisado com olhos grandes e incrédulos, mas agora encontrava-se gargalhando com vontade enquanto segurava as laterais do abdômen, o rosto tão vermelho que não sabia se era pela vergonha ou falta de ar.

— Ai, Tae, você é o melhor. O que seria de mim sem você? – indagou o menor, secando as lágrimas que teimavam em escapar pelo cantos dos olhos de tão forte que rira. Jimin conseguiu controlar o ataque de risos e a respiração, mas mantinha um sorriso cegante de tão brilhoso no rosto, o olhar cheio de afeto focado no melhor amigo.

— Absolutamente nada, Jiminie. – respondeu o outro de forma brincalhona, dirigindo-se a ele pra passar o braço ao redor de seus ombros e esfregar o nariz contra sua bochecha. Jimin soltou uma risadinha tímida com o gesto, derretendo-se nos braços de Taehyung, e por um instante me senti como um intruso naquele momento íntimo.

— O que mais você quer que a gente faça? – foi a vez de Jungkook perguntar, tornando a cruzar os braços na altura do peito, mas por algum motivo a postura não parecia hostil; talvez fosse o tom da voz, que carecia daquele desaforo habitual, ou talvez fosse o pequeno sorriso que adornava seus lábios ao testemunhar o carinho entre os dois amigos. De qualquer forma, resolvi dar-lhe sossego dessa vez e manter a grosseria longe da minha voz ao lhe dar uma resposta.

— Quero que vocês sumam do meu estúdio. Preciso trabalhar. – apesar das palavras serem as mesmas, a maneira com a qual as vocalizava denunciava meu humor: eu estava satisfeito com o progresso feito, não podia negar. Jungkook e Taehyung se mostraram mais capazes do que poderia prever, e mesmo que Jimin fosse incapaz de ultrapassar a barreira do nervosismo, sabia que a música sairia melhor do que esperava. – Obrigado pelo trabalho duro, sei que não deve ser fácil me aturar resmungando no ouvido de vocês o dia inteiro. Você também, Taehyung. Bom trabalho.

Diante do elogio, o sorriso do menino ficara impossivelmente maior e seus olhos brilhavam como duas estrelas, visíveis mesmo quando se transformaram em duas fendas pela intensidade da sua felicidade. – De nada, Suga-hyung! Pode me chamar sempre que precisar.

— Eu acho que dispenso, mas obrigado. – brinquei, enxotando-os pra fora e resmungando o tempo todo sobre a quantidade de trabalho que ainda me aguardava. Jimin fora o último a sair, mas antes que fosse embora o puxei pelo braço e selei meus lábios com os dele num beijo casto e doce, sem me importar se tínhamos testemunhas ou não. – Eu te ligo quando a música ficar pronta, ok?

— Ok. – respondeu com o sorriso que tanto amava, o mesmo que fazia suas bochechas parecer ainda maiores e seus olhos desaparecer, um leve rubor na face dando aquele toque especial. Fiquei plantado na entrada acenando em despedida para os três, vendo-os desaparecer pelo elevador enquanto hesitava no mesmo lugar por alguns instantes, apenas aproveitando o momento de calma que tinha antes de mergulhar de cabeça na produção musical; sabia que, se queria uma faixa impecável, ficaria preso naquele estúdio por pelo menos algumas horas.

Algumas horas de repente se transformaram em algumas muitas horas; já era noite quando tive minha linha de raciocínio interrompida pela vibração constante do meu celular contra a mesa de madeira sobre a qual estava apoiado, indicando o recebimento de uma chamada. Meu primeiro impulso foi ignorar o aparelho e continuar trabalhando, mas uma vez que me distraí achei difícil retomar a concentração inicial, então dei-me por vencido e peguei o celular, amaldiçoando quem quer que tivesse me atrapalhado justo na hora que tinha quase encontrado aquele ruído esquisito que estava me tirando do sério há pelo menos uma hora: o visor me dizia que o responsável era Namjoon, então fiz questão de amaldiçoá-lo duas vezes mais antes de finalmente atender a ligação.

— O que você quer? – o cumprimentei de forma curta e grossa, sem tempo nem paciência pra perder com formalidades. Não que o mais novo não estivesse acostumado, de qualquer forma.

Boa noite pra você também, Yoongi. Como vai?— Namjoon tentou manter o tom de voz casual, fazendo questão de me irritar, mas pareceu captar a dica quando recebeu nada além de um grunhido em resposta. – Queria saber como você está, é só.

— Você me liga à essa hora só pra saber como estou? Tá de sacanagem com a minha cara, Mon? – retruquei, mal contendo a irritação na voz enquanto corria a mão pelo rosto num gesto exausto. Achava que Seokjin era o único amigo inconveniente que tinha, mas pelo visto o mais novo resolvera seguir os passos do namorado.

Por que não posso ligar? Tá ocupado com alguma coisa? — a sugestão na sua voz não passara despercebida, o timbre usualmente grave caindo mais algumas notas, inacreditavelmente. Revirei os olhos, ainda que não pudesse ser visto, rindo com escárnio pela inocência de Namjoon; será que achava mesmo que atenderia o telefone se estivesse com Jimin?

— Na verdade estou, sim. Tô no estúdio, e agradeceria muito se você não me interrompesse pra falar absolutamente nada. – devolvi, um sorriso falsamente doce e forçado grudado no rosto.

No estúdio, é? Trabalhando em alguma faixa nova?— Namjoon perguntou na intenção de começar uma conversa, sem entender – ou preferindo ignorar – a clara mensagem pra me deixar em paz de uma vez por todas, porra.

— É, mais ou menos isso. – respondi com um suspiro, pensando que era melhor entrar no jogo, já que minha concentração tinha sido completamente arruinada de qualquer jeito. – Jimin vai ter uma apresentação de dança daqui pouco mais de uma semana e me pediu pra compor algo pra si. Acabei de gravar com ele e seus amigos. Ah! Falar nisso, – acrescentei de última hora, só então me lembrando daquele detalhe. – precisava da voz de Seokjin emprestada. Quando vocês voltam?

Hm, não tenho certeza. Antes disso.— veio a resposta vaga do outro, soando distraído por algum motivo.

— Onde você tá, aliás? Ainda visitando os sogros? – peguei-me curioso de repente, pensando que a visita devia estar sendo ótima pra passarem tanto tempo fora.

Ah, não, não. Nós estamos... num hotel.— Namjoon continuou falando daquela mesma maneira distraída, sua respiração subitamente mais pesada do que antes, e então tive a realização de que o médico tinha tudo a ver com aquilo. Fechei o rosto numa careta enojada, não sabendo se ralhava com o mais novo pela falta de respeito ou se agradecia aos céus por pelo menos não escutar nada além do som de sua voz.

— Será que poderia pedir pra princesa tirar as mãos de você por um segundo? Nós estamos tendo uma conversa, pelo amor de Deus. – resmunguei enquanto tentava eliminar as imagens repulsivas que invadiam minha mente sem permissão, ouvindo a risada fraca de Jin do outro lado da linha. Maldito, devia ter feito tudo de propósito só pra me irritar enquanto ouvia tudo pelo outro lado do aparelho.

Desculpe.— o mais novo pediu, porém ele não soava nem um pouco apologético. – Está produzindo uma música pro Jimin, você disse? Wow, man. Deve estar realmente apaixonado, nunca te vi escrevendo músicas que não falassem sobre sua própria vida miserável cuspidas na forma de rap.

— Cala essa boca. Eu sou perfeitamente capaz de escrever sobre outros assuntos. – me defendi.

Claro, claro.— concordou com uma risada, felizmente tendo a decência de não comentar nada sobre o fato de não ter negado sua acusação anterior. – Só não se esforce demais, certo? Qual foi a última vez que você comeu?

— Pensei que só o Jin me pentelhava com essas coisas. Uma mãe é o suficiente, Joonie. – provoquei, tentando evitar a questão.

Não brinque comigo, Yoongi. Apenas responda a pergunta. — insistiu, o tom de voz mais sério do que a situação exigia. Suspirei, revirando os olhos com tamanha dramatização. Por que as pessoas não poderia me deixar em paz, pra variar?

— Não faz muito tempo. Na verdade, estou comendo agora. – menti, olhando o pacote de biscoitos vazio e o copo de café frio à minha frente, ambos conseguidos na máquina de vendas que ficava no térreo. Esse era o máximo de comida que iria conseguir naquele prédio.

Você sabe que eu sei quando mente pra mim, certo?— perguntou, soltando um suspiro cansado ao largar o assunto, pois sabia que falar comigo era como falar com uma parede. – Só não trabalhe até muito tarde, ok? Sei que você é perfeccionista ao extremo quando se trata das suas músicas, mas descansar também é importante.

— E você sabe que eu só vou descansar quando terminar essa faixa, certo? – devolvi na mesma moeda, usando suas palavras contra si. – Você me conhece bem o bastante pra saber disso, Namjoon.

Sim, eu sei. Mas também sei que a música nunca vai estar boa o suficiente pra você, não importa o quanto trabalhe nela. Só estou pedindo pra saber quando parar, nada mais.— pediu numa voz baixa e suave, soando quase resignado. Não podia discordar dele nesse assunto; realmente, quando começava um projeto novo eu tinha uma certa tendência a trabalhar excessivamente nele, muitas vezes chegando ao ponto de estragar tudo ao trabalhar demais.

— Tá bem, pai. Vou saber quando parar. Já estou quase acabando, de qualquer forma. Pode ir dormir tranquilo. Ou... fazer o que quer que vocês estivessem fazendo. – terminei com um arrepio percorrendo a espinha, horrorizado com as imagens que tornavam a dançar em frente aos meus olhos por um instante. – Dê meus cumprimentos à mamãe por mim. – despedi-me, rindo quando Namjoon resmungou e mandou-me parar de dizer coisas idiotas ao mesmo tempo que ouvia a voz distante de Jin despedir-se com um “tchau, filho!”. Os dois podiam ser grandes bobalhões, mas não podia negar que me faziam bem, se o pequeno sorriso afetuoso que permanecera no meu rosto minutos depois do término da ligação, mesmo depois de ter voltado minha atenção para a música e aquele ruído enlouquecedor que ainda não conseguira encontrar fosse qualquer indicação.

Mais algumas muitas horas depois e já passava da meia-noite, mas eu não estava nem perto de estar satisfeito com o resultado da música. Na verdade, era justamente o contrário: depois de tanto mexer nela, modificando coisas aqui e ali, o que tocava em meus ouvidos num ciclo infinito soava como uma verdadeira porcaria. Não conseguia ignorar o sentimento de que faltava alguma coisa – além da voz de Seokjin, claro – mesmo que já tivesse tentado todas as combinações possíveis e nada servira pra aplacar minha angústia. Não sabia dizer exatamente o que eu tanto precisava, aquela peça-chave que solucionaria todos os meus problemas, mas sabia que algumas partes simplesmente não encaixavam nas vozes de Jungkook e Taehyung, já que nenhum dos dois alcançavam as notas que a música parecia precisar. Familiarizado com a voz de Seokjin como era, também sabia que não era ele o que procurava. Era quase como se precisasse de uma outra pessoa, uma quarta voz, alguém que suprisse minhas necessidades e e harmonizasse bem com as outras três vozes distintas presentes na música.

Peguei-me vasculhando a memória atrás de um nome, alguém presente no círculo underground que fosse capaz de cantar minimamente, qualquer pessoa que pudesse conhecer e que estaria disposta a fazer esse favor pra mim, mas acabara saindo de mãos vazias. Frustrado, escondi o rosto nas mãos com os cotovelos apoiados na mesa, suspirando pesadamente dentro da concha formada por minhas palmas. Se não conseguisse encontrar alguém logo, estava ferrado. Seria obrigado a entregar uma música merda ou música alguma pra Jimin, e sinceramente não sabia qual opção era a pior.

Como se fosse um sinal divino enviado pra mim naquele momento de extrema urgência, dois tímidos toques na madeira da porta anunciavam a chegada de um visitante. Mal tive tempo de voltar olhos curiosos na direção do ruído antes da mesma ser aberta com cautela, revelando ninguém menos do que Park Jimin em toda sua glória e charme. O menino colocou apenas metade do corpo pra dentro do recinto através da fresta que abrira na porta, um sorriso acanhado no rosto e o braço esticado oferecendo uma sacola presa no punho que, pelo cheiro, parecia conter comida. – Olá, hyung. Trouxe ramyun pra gente.

— O—o q-que... – gaguejei, observando incrédulo o garoto entrar por completo e fechar a porta atrás de si com um clique surdo. – O que faz aqui? Já é tarde, Jimin. Não devia estar dormindo? – pra confirmar minhas palavras, voltei-me rapidamente para a tela do computador a fim de ver as horas. Estava certo: o relógio me dizia que era 1:05 da manhã.

— Jin-hyung me ligou. – foi tudo o que precisou dizer pra que entendesse o motivo de sua visita tão inesperada. Maldito Seokjin, sempre se metendo onde não era chamado. Precisaria ter uma conversa com ele mais tarde por ter envolvido Jimin na sua incansável missão de ser a mãe mais chata do universo. – Ele disse que você ainda estava no estúdio e provavelmente não tinha comido, então resolvi passar aqui depois que saí do trabalho. Espero que não esteja atrapalhando. – explicou com um encolher de ombros, apertando ainda mais o punho ao redor da alça da sacola que tinha pendurada ao lado do corpo e parecendo deslocado enquanto permanecia de pé próximo à porta, como da primeira vez que entrara ali, mexendo-se nervosamente no lugar.

— Não, tudo bem. Claro que não está atrapalhando. Pegue uma cadeira, sente-se. – pedi, indicando a cadeira giratória que geralmente era usada por Namjoon, para o caso de nós dois ocuparmos o estúdio ao mesmo tempo. Abri espaço para Jimin ao meu lado assim que ele o fez, convidando-o a se aproximar mais enquanto o mais novo apoiava a sacola sobre a mesa diante de nós.

— Eu não sabia que sabor você preferia, então peguei de carne pra nós dois. – disse enquanto distribuía uma tigela de macarrão instantâneo pra cada, do mesmo tipo que sabia vender na loja de conveniência que trabalhava.

— Carne tá ótimo. – assegurei-lhe, pegando os hashis que ficavam grudados no fundo da tigela e rasgando a tampa de filme plástico com o estômago roncando. Era verdade que uma vez que ficava imerso o suficiente no trabalho, era capaz de me desligar do mundo e abdicar de necessidades básicas, como sono e fome – bom, pelo menos até ter uma tigela fumegante e cheirosa de ramyun bem debaixo do nariz.

Murmurei um agradecimento antes de começar a comer, enfiando macarrão goela abaixo com pouco a quase nenhum tempo pra mastigar, quase como se não visse comida há séculos. Jimin fez o melhor que pôde pra esconder os risinhos, mas não comentou nada sobre minha falta de modos enquanto me acompanhava na comilança num silêncio confortável. Como nós dois éramos garotos em fase de crescimento com um apetite voraz, não demorou muito até que ambas as tigelas estivessem vazias; não restara nem mesmo o caldo pra dizer o que um dia as preenchia.

— Obrigado, Jimin. Precisava disso. – agradeci mais uma vez com um sorriso, vendo suas bochechas adquirirem cor conforme sorria de volta.

— Não precisa agradecer, não foi nada. Na verdade, eu... na verdade gosto de alimentar você. – admitiu com bochechas rosadas, recusando-se a encontrar meu olhar. Até mesmo eu peguei-me corando com aquela confissão, suas palavras despertando algo em mim que não sabia identificar, mas acabara se tornando bastante recorrente em sua presença. Deixamos que o silêncio nos envolvesse por um tempo, ambos sem saber o que dizer em seguida, até que se tornasse insuportável e sufocante. Pigarreando pra chamar minha atenção, Jimin foi o primeiro a quebrar o gelo. – Como está indo com a música?

— Uma droga, se quer mesmo saber. – suspirei, minha aflição anterior retornando duas vezes mais forte quando tocou no assunto. Eu continuava perdido e não sabia se uma barriga cheia seria o suficiente pra pensar com mais clareza, mas esperava que sim. Caso contrário, teria que virar mais sabe-se lá quantas noites até arrumar o problema. Jimin nada dissera, apenas me encarando com olhos preocupados e esperando até que elaborasse melhor minha frase. – Não estou gostando do resultado final. Não sei o que é, mas tem algo de errado com a música. Algo faltando. E isso está me deixando louco.

— Talvez... talvez eu possa ajudar? – perguntou com uma voz pequena, incerta, hesitante, recusando-se a me olhar nos olhos como se esperasse uma reprimenda. Não pude fazer nada além de encará-lo, deixando que as lembranças de algumas – muitas – horas atrás se repetissem na minha mente. Jimin não era um cantor ruim, na verdade sua voz doce podia casar perfeitamente com o timbre grave de Taehyung e suave de Jungkook, mas o nervosismo impedia que o garoto se libertasse por completo.

— Tem certeza? Você não precisa se forçar a cantar se não quiser. – garanti-lhe, não que não estivesse disposto a tentar mais uma vez, mas sim porque queria ter certeza que o mais novo não via aquilo como uma obrigação.

— Tenho. Sei que fiquei muito nervoso na primeira vez, mas... depois que saí daqui não conseguia pensar em nada além disso. Como gostei da experiência, de certa forma, e como queria ter a minha voz na música que você compôs pra mim. – admitiu com um pequeno sorriso tímido adornando os lábios, seus olhos encontrando os meus finalmente. Sorri de volta, a súbita explosão de sentimentos no meu peito impelindo-me a eliminar a distância entre nós e selar nossos lábios num beijo, não casto e doce como o primeiro daquele dia, mas um pouco mais molhado e apaixonado. Seus lábios tinham gosto de macarrão e carne, mas percebi que não me importava quando me afastei o suficiente pra vislumbrar o sorriso magnífico que era direcionado à mim.

— Tudo bem, então. Vá pra cabine, é hora de gravar sua bela voz. – comandei, direcionando-o pra a sala ao lado e certificando-me de que todos os equipamentos estavam devidamente ajustados e prontos pra uso. Fiz questão de permanecer lá dentro com ele por mais alguns instantes sem motivo algum, colocando pessoalmente os fones sobre sua cabeça de modo a ficarem confortáveis e desferindo mais um beijo curto em seus lábios com as mãos ainda sobre os fones antes de me afastar com um sorriso encorajador. Jimin respirou fundo algumas vezes para acalmar os nervos quando me viu ocupando o lugar de sempre atrás do computador, parecendo mais pronto do que nunca ao receber meu sinal.

Ainda era perceptível seu nervosismo, mas dava pra ver que Jimin estava se esforçando se comparasse o progresso que fazia agora com o fiasco anterior. Sua voz não tremia tanto quanto antes, a gagueira parecia ter desaparecido e ele ainda não esquecera ou trocara nenhuma palavra. Mas eu podia perceber que estava se controlando, que impedia seu verdadeiro potencial de aparecer mesmo que de forma inconsciente. Por isso que, da maneira mais calma e gentil que sabia, não deixei de vocalizar minhas insatisfações e pedir para que repetisse o processo do zero mais de uma vez, com o garoto ouvindo todas as minhas dicas com uma expressão determinada e prometendo fazer o seu melhor em todas elas. Logo descobri que Jimin era o tipo de pessoa que precisava receber elogios e incentivos constantes pra funcionar como deveria. Por volta da quinta tentativa, o som da sua verdadeira voz veio à tona e apresentou-se para o mundo, pegando-me desprevenido e me deixando mais impressionado do que ficara ao presenciar o talento de Taehyung. Seu canto era quase celestial, cristalino como água e doce como mel. No instante que atingiu a nota mais alta da música, com uma precisão maior do que poderia ter previsto, percebi que estava diante daquela peça que faltava, aquela que solucionaria todos os meus problemas: Jimin.

Fiquei petrificado, embasbacado, encarando o mais novo mas na realidade não vendo nada com a boca entreaberta e uma enxurrada de pensamentos disputando atenção na minha cabeça ao mesmo tempo bem depois do término da música, notando que Jimin falava comigo por volta do terceiro “hyung!” que exclamara no microfone, com os fones nas mãos e um olhar preocupado na face. – Hyung, você está bem? Eu fui mal, não fui? Quer que comece de novo?

Algo no seu tom despertara-me de meus devaneios, forçando-me a piscar os olhos freneticamente pra me livrar do incômodo causado pelo tempo que ficara com os mesmos arregalados. – Se foi mal? Jimin, vem aqui. – chamei, a pergunta retórica arrancando-me uma risada curta e perplexa; assisti o garoto pendurar os fones no pequeno gancho próximo ao microfone e se aproximar com ombros caídos e parecendo ainda menor do que realmente era, atravessando a porta que nos separava com os olhos grudados no chão. Assim que estava próximo o suficiente, fiquei de pé para envolver-lhe num abraço apertado, guiando seu rosto para a curva do meu pescoço enquanto mantinha a mão na sua nuca, afagando os fios curtos que havia ali enquanto sussurrava em seu ouvido. – Sunshine, você foi maravilhoso. Sua voz é perfeita, não tenho nem palavras pra explicar. Você foi exatamente o que eu precisava. Muito obrigado.

— Yoongi~! Não diga coisas assim, é vergonhoso. – choramingou com o rosto ainda escondido em meu pescoço, agarrando as costas da minha camisa como se pudesse cair caso soltasse. Não pude fazer nada além de rir com a sua reação, as pequenas carícias que deixava em seu cabelo se tornando um verdadeiro cafuné.

— Só estou dizendo a verdade, nada mais. Sabia que tinha um grande potencial dentro de si, você só precisava se soltar. Fico feliz de descobrir que estava certo. – garanti-lhe, plantando um beijo na lateral da testa do outro, sentindo mais do que vendo o sorriso que abrira contra minha pele. – Agora vou ficar ocupado adicionando sua voz ao resto da música, então pode ir pra casa dormir. Deve estar exausto.

— Não. – foi a resposta simples que me dera, e quando me afastei o suficiente pra lhe fitar com olhos inquisidores, só encontrei determinação nas orbes castanhas que me fitavam de volta. – Não vou sair daqui sem você, hyung. Se vai ficar, então eu também fico.

— Não seja teimoso, Jimin. – pedi com um suspiro, desfazendo nosso abraço pra fitá-lo mais seriamente. – Isso pode levar horas pra ficar pronto, não sei nem quando vou poder ir pra casa. Você precisa descansar.

— Tem um sofá perfeito pra isso aqui. Ficarei bem, não se preocupe. – disse com um sorriso presunçoso, jogando-se no sofá preto como que pra provar sua insistência. Conhecia Jimin bem o bastante pra saber que nada o faria mudar de ideia uma vez que tinha sua mente focada em algo. Suspirei mais uma vez.

— Taehyung vai me matar se souber que passou a noite fora. – tentei persuadi-lo, usando qualquer desculpa esfarrapada que conseguia pensar, mas sabia que meus esforços todos seriam em vão.

— Já avisei pra ele não me esperar acordado. Jungkookie também. Desista, hyung, vou ficar e ponto final. – anunciou com o sorriso ainda maior e mais irritante, fazendo-se confortável no sofá com uma ousadia que raramente apresentava. Não tive outra opção senão rir e concordar, aceitando minha derrota. – Agora fique à vontade e trabalhe, finja que nem estou aqui.

Naquele momento percebi que Park Jimin era realmente um caso à parte, vendo o garoto imitar meu comportamento desleixado perante o bem-estar do meu próprio corpo, mandar em mim com uma petulância nunca antes vista e ainda por cima conseguir se safar disso. Ainda rindo, abanei a cabeça perplexo e voltei-me para o computador e o programa que me esperava, dando uma última olhada por cima do ombro para o menino que se encontrava deitado no sofá com o celular em mãos antes de deixar que a música e as nuances de todas vozes postas juntas tomasse minha atenção por completo.

Já era manhã quando finalmente me dei por satisfeito com o resultado final; o estúdio não possuía janelas, mas o relógio no monitor me dizia que era pouco mais de sete da manhã, e o visor do celular não o deixava mentir. Depois que a voz de Jimin fora adicionada à equação, a música já não soava tão ruim quanto antes. Na verdade, estava mentindo – consegui perceber uma reviravolta significativa, quase como se fosse da água pro vinho, apenas pelo fato de ter a voz doce do mais novo ali. A partir daí meu trabalho fora fácil, mas não significava que havia deixado de ser menos cansativo ou demorado por causa disso. De qualquer forma, a música estava quase pronta – o máximo que poderia estar, já que Jin ainda precisava gravar sua parte – e eu estava satisfeito. Mais do que satisfeito, estava contente.

Espreguiçando-me na cadeira e ouvindo meus ombros estalarem com o esforço, girei a mesma pra encontrar Jimin dormindo em posição fetal no sofá, seu rosto virado na minha direção. Lamentei o fato de não ter nenhum cobertor pra cobrir o garoto ali, mas pelo menos as noites de verão eram bem mais amenas e gentis do que as noites de inverno ou até mesmo outono, então o sistema de aquecimento do prédio era o suficiente pra impedir qualquer desconforto. Debati comigo mesmo por alguns segundos se deixava o mais novo dormir ou não, mas estava animado demais pra lhe mostrar minha criação, o que me forçou a levantar e ajoelhar-me no chão diante da mobília, mantendo meu rosto perigosamente próximo do outro, sorrindo como um idiota.

— Jimin. – chamei com a voz baixa, pouco mais de um sussurro, não querendo assustá-lo enquanto afagava seus cabelos. – Sunshine, acorde. – chamei de novo, mais alto dessa vez, levando a mão até seu ombro e sacudindo de leve. Jimin me respondeu com um grunhido, o cenho franzido e lábios puxados numa linha fina, os olhos ainda muito bem fechados, indicando sua irritação e dando-me a visão mais adorável do mundo. – Jimin. Eu terminei. A música tá pronta.

Isso pareceu ser o suficiente pra despertá-lo, pois as palavras mal saíram de minha boca e seus olhos se abriam lentamente, piscando algumas vezes em confusão. – Yoongi? Por quanto tempo dormi? – indagou, colocando-se precariamente numa posição sentada, mas parecendo que ficaria muito contente com mais algumas horas de sono.

— Bastante. A música está pronta. – repeti, incapaz de conter minha excitação. Só agora Jimin parecia entender o que tanto falava na sua cabeça, seus olhos arregalando-se numa expressão surpresa e animada. – Quer ouvir?

— E precisa perguntar? Claro que quero! – respondeu de forma igualmente entusiasmada, agora completamente desperto. Jimin me seguiu de volta à mesa, ocupando a mesma cadeira da noite anterior, aguardando com uma impaciência muito mal contida enquanto colocava a faixa pra tocar. Avisei-lhe que ainda faltava a parte de Seokjin, desmentindo minha afirmação anterior, mas ele felizmente não pareceu se importar. Ficamos ambos em silêncio, apenas deixando que a música nos envolvesse e absorvendo as diferentes qualidades de suas vozes, apreciando a beleza que era a voz de Jimin harmonizando com a de Jungkook e Taehyung em sequência. Uma de suas mãos encontrou minha coxa num gesto surpreso quando sua high note ecoou pelas paredes, e quando a música terminou, deixando o silêncio se instalar novamente no ambiente, virou aqueles olhos grandes e descrentes na minha direção, parecendo ter ficado sem palavras. – Esse sou eu? Aquela era minha voz? É assim que as pessoas me ouvem?

Ri com o bombardeio de perguntas, dando respostas afirmativas pra cada uma delas. – Sim, esse é você. Eu disse que tinha potencial, não disse? Sua voz era tudo que precisava pra tornar a música completa. – não me cansava de elogiar seu talento, pois Jimin, mais do que qualquer outro, merecia. – Então... o que achou?

Agora era minha vez de ficar nervoso, corando sob o olhar penetrante do mais novo quando esse não respondeu de imediato. Jimin corria os olhos por meu rosto com uma expressão difícil de descrever, como se quisesse gravar minha imagem com brasa na memória. Depois do que pareceu uma eternidade daquela competição de olhares muda, o garoto finalmente abrira um sorriso, o maior que já vira estampando sua face até então. – O que achei? Eu amei! Hyung, esse foi o melhor presente que já recebi na vida. Já amava a música antes, quando era apenas instrumental, mas agora com as vozes de Jungkookie e Tae-Tae... com a minha voz... é inexplicável. Tenho certeza que vai ficar ainda melhor quando estiver pronta de verdade, com a voz de Jin-hyung juntamente à nossa. Não consigo nem dizer o que sinto agora, o quão grato sou à você. Obrigado, Yoongi-hyung. Muito obrigado! – Jimin então despejou sua gratidão e afeto em forma de inúmeros beijinhos distribuídos por toda a extensão de meu rosto, segurando minha cabeça no lugar com as mãos nas minhas bochechas e concentrando alguns em meus lábios apenas porque podia, mas não iria negar que apreciava o ataque repentino. Deixei-me ser beijado até a hora que o garoto se cansasse, meu sorriso refletindo o seu com a mesma intensidade e ternura. Mais do que contente, estava extático. Extático porque a pessoa por e para quem escrevera a música estava contente, e nada mais no mundo importava pra mim naquele momento.

— Que bom que gostou. Vamos pra casa, sim? – disse, roubando um último selinho de seus lábios porque podia também, afinal de contas. Segurei sua mão na minha, entrelaçando nossos dedos enquanto via o sol brilhar no sorriso de Park Jimin. Como tentara expressar nas letras que escrevi pensando no menino, sabia que enquanto tivesse aquele sorriso especialmente pra mim, apenas pra mim, seria feliz.