Hold me Tight

21 Situações drásticas requerem medidas drásticas


– Yoongi POV -

Apertei o passo, tentando colocar o máximo de distância entre mim e Jimin quanto fosse possível. O que foi que eu fiz? A pergunta martelava na minha cabeça sem parar. Enquanto andava, podia sentir o fantasma dos lábios dele sobre os meus, a memória tão intensa que parecia real. Meu lado racional estava histérico, amaldiçoando todos os envolvidos naquele acontecimento deplorável. Maldito seja eu e minha impulsividade, maldito seja Park Jimin e seus olhos – que conseguiram ficar ainda mais hipnotizantes com maquiagem – e, principalmente, maldito seja Jung Hoseok por despertar um lado em mim que nem mesmo eu gostava de admitir que existia. Que porra ele estava fazendo em Seoul, afinal?

Sobressaltado, senti meu celular vibrar no bolso da calça. Desnecessário dizer que eu já sabia quem era antes mesmo de olhar o visor. Park Jimin. Não pensei duas vezes antes de recusar a ligação. Não estava preparado pra lidar com essa merda agora, talvez nunca. Fiquei intrigado ao notar que, juntamente com a ligação perdida de Jimin, haviam mais duas, feitas há mais tempo, ambas de Rapmon. Respirando fundo, selecionei seu número e encostei o aparelho no ouvido.

Suga. – o alívio na sua voz era aparente, mesmo através do telefone. – Onde você se meteu?

– Foi mal, tive que sair pra resolver algumas coisas. – menti.

Porra cara, não faz mais isso. – ralhou, soando estranhamente igual à Jin. – Tá tudo bem?

– Tá, nada pra se preocupar. – pigarreei, tentando desviar o assunto. – Já foi pra casa?

Sim, desculpa. Não deu pra te esperar. – houve uma pausa. – Jin me ligou. Ele... tinha uma surpresa pra mim. – eu não podia vê-lo, mas seu tom de voz foi o suficiente pra denunciar o rubor que coloria suas bochechas. Ao fundo, pude ouvir a voz de Jin dizer algo sobre eu ser um empata foda.

– Que nojo. – fiz uma careta, imagens desagradáveis surgindo em minha mente, mesmo que eu tentasse impedi-las. – Desliga logo esse telefone, a princesa tá impaciente. – brinquei, arrancando uma gargalhada do outro.

Ok, vou nessa. Vê se não me dá outro susto desses, hein?

– Pode deixar, papai. – despedi-me num tom sarcástico e finalizei a chamada. Nesse momento eu já havia retornado ao clube e agora procurava o carro que estava estacionado nas proximidades. Meu rosto se fechou numa carranca quando vi os arranhões e amassados, um constante lembrete de uma noite que eu gostaria de esquecer. Malditos sejam Park Jimin e seus amigos.

Destravando as portas do veículo, acomodei-me no banco do motorista e joguei o celular de qualquer jeito no banco ao meu lado. Imediatamente o aparelho começou a vibrar, exibindo o nome de Park Jimin no visor. Ignorei-o até que a ligação caísse na caixa postal. Suspirei aliviado quando o aparelho ficou quieto, ligando o motor e tomando a melhor rota pra casa. Porém, nem dez minutos depois, lá estava ele me ligando de novo. Criança insistente, xinguei em pensamento. Ignorei a chamada pela segunda vez, focando-me apenas nas ruas que me levariam até o bairro onde morava. No caminho, Jimin desistira de ligar e optara por mandar mensagens de texto. Meu celular apitava com as notificações como se estivesse possuído. Um grunhido de irritação escapou de meus lábios, já podia sentir o começo de uma dor de cabeça. Estacionei o carro na rua e guardei o celular no bolso, sem nem ao menos poupar um olhar para o conteúdo das mensagens.

Adentrei o prédio que poderia fazer bom uso de uma reforma e subi os lances de escada até o terceiro andar, feliz por encontrar os corredores vazios. Usei as chaves pra destrancar a porta da frente, sendo imediatamente acolhido pela escuridão do ambiente e pelo cheiro impregnado de tabaco. Tateei a parede a fim de acender a luz, fechando a porta atrás de mim. Tomado por uma vontade incontrolável de beber, fiz caminho até a cozinha, deixando a jaqueta de couro que usava no sofá da sala quando passei por ele, retornando pouco depois com uma garrafa de soju nas mãos. Antes de me sentar, tirei o revólver que eu tinha preso na parte de trás da calça e joguei-o na mesa de centro, celular seguindo-o pouco depois. Deixei que meu corpo afundasse no sofá gasto, equilibrando a garrafa numa mão enquanto a outra pegava o controle remoto da TV. Fui mudando os canais até que encontrei um programa musical onde Big Bang apresentava seu mais recente trabalho. Recordando-me daquela conversa com Jimin, resolvi que não faria mal assistir um pouco.

Como se adivinhasse que estava pensando nele, meu celular apitou novamente, notificando uma nova mensagem. Suspirando, tomei um grande gole de soju antes de pegar o aparelho. Meus olhos se arregalaram em espanto. Trinta e duas mensagens não lidas.

Suga, atende. Precisamos conversar.

Você foi embora?

Yoongi-ssi, atende a droga da ligação!

Você realmente vai me ignorar?

Então é assim? Não venha me procurar depois.

Vai tomar no seu cu, Min Yoongi.

Corri os olhos pelas mensagens, ficando cada vez mais entretido com o nível de urgência e irritação que elas tomavam ao decorrer do tempo. As outras eram divididas em formas criativas de me xingar, emojis raivosos e ameaças vazias. Não pude deixar de sorrir ao ler a última mensagem, sentindo uma pontada de orgulho ao notar que meu jeito rude de tratar os outros estava passando pra ele. Joguei o celular na mesa de centro sem respondê-lo.

Eu era um covarde, sabia disso. Mas não podia evitar. Eu não estava preparado pra lidar com o turbilhão de emoções que me assolaram naquele momento. O calor do seu toque, o gosto de seus lábios, sua voz entrecortada gemendo meu nome; tudo era demais pra mim. A intensidade com a qual eu o desejava era demais pra mim, e me assustava. No momento, estava afogando-me em álcool enquanto razão e emoção travavam mais uma batalha dentro da minha mente. Qual vencerá dessa vez? Eu contemplava a resposta para tal pergunta quando finalmente fui dominado pelo cansaço, pegando no sono ao som de um grupo idol qualquer.

Eu tinha a estranha sensação de estar sendo seguido. Na verdade, essa não era a primeira vez; percebi que havia algo errado dois dias depois daquela noite. No começo não dei muita importância, mas com o passar dos dias deixei de acreditar que não passava de coincidência. Haviam três deles: o cara do carro de vidro fumê, o que se escondia atrás de óculos escuros e máscara preta sobre o nariz, e o jovem que sempre era visto mascando chiclete. Eles não eram idiotas; estavam sempre revezando, tomando turnos e mantendo distância pra não serem descobertos, mas eu vira cada um pelo menos mais de uma vez, e foi assim que confirmei minhas suspeitas. Não sabia o que eles queriam comigo, mas por precaução diminui minhas visitas ao estacionamento para o mínimo necessário e deixei de contatar Jimin completamente.

Da primeira vez que acontecera, eu estava saindo de um bar – não aquele que Taehyung trabalhava, já que fui obrigado a frequentar outro pra fugir dele – às quatro da manhã quando senti um formigamento estranho na nuca. Olhei por cima do ombro pra encontrar a rua vazia, salvo alguns automóveis estacionados. Entrei no meu carro pensando que havia bebido demais, mas o que realmente me incomodou foi um carro preto com vidros escuros e farol alto estar refletido no retrovisor do meu carro constantemente. Estacionei nas proximidades do meu prédio, mas não muito perto, na esperança de despistá-lo à pé. Quando entrei no saguão, o carro havia sumido, então dei de ombros e culpei novamente a bebida.

Na segunda vez, estava trabalhando, encontrando-me com alguns clientes e distribuindo mercadorias ilícitas. Enquanto saía do esconderijo de uma de nossas gangues parceiras, parei por um momento a fim de acender um cigarro. Expirando a fumaça lentamente, notei uma figura do outro lado da rua, disfarçada como se fosse algum tipo de celebridade, falando ao telefone. Seu rosto não estava virado pra mim, mas os óculos escuros não deixavam que eu visse onde seus olhos estavam fixados; eu sabia que ele podia me ver com sua visão periférica. Não estava de carro, pois ainda tinha mais uma entrega pra fazer e a distância era curta. Fiz caminho até um clube noturno – daqueles que vendiam drogas e sexo – notando que o estranho nunca estava muito atrás. Saí do estabelecimento com a mochila cheia de dinheiro, pronto pra deixá-la aos cuidados de nosso líder. A caminhada até o estacionamento fora tensa, pois eu não queria revelar ao outro que eu sabia que estava sendo seguido. Concluí o trabalho e troquei algumas palavras com Rapmon, dando desculpas pra ir pra casa mais cedo. Também não revelei pra ele o que realmente estava acontecendo; precisava descobrir mais detalhes primeiro. Já do lado de fora, não consegui achar o estranho em lugar nenhum.

Os dias seguintes se sucederam na mesma rotina; eu sentia constantemente aquele formigamento na nuca, ouvia passos atrás de mim, via o mesmo carro refletido no retrovisor inúmeras vezes. Eu já não me sentia seguro em lugar nenhum, nem mesmo no meu apartamento. Uma noite, abri uma fresta das pesadas cortinas da sala pra ver um garoto estranhamente familiar mascando chiclete do outro lado da rua, encostado na parede do prédio ao lado e ocultado pela penumbra que o poste de luz não conseguia iluminar. A essa altura eu já estava extremamente frustrado, já que eu havia cortado qualquer tipo de contato com Jimin desde aquela noite. Primeiro, porque eu fui covarde demais pra encarar meus sentimentos, e depois porque algo me dizia que toda essa situação tinha a ver com ele e com o que fizemos naquele beco escuro. Não podia me esquecer que estávamos em guerra com a gangue de Bang Yongguk, e com certeza eles adorariam ter algum tipo de vantagem sobre mim, algo pra me chantagear. Esses merdinhas estavam muito enganados se pensavam que eu entregaria Jimin pra eles numa bandeja de prata. Nem por cima do meu cadáver.

Neste momento, eu estava sendo seguido pelo garoto do chiclete. Ele não escondia o rosto de forma alguma, sem dúvida procurando se misturar na multidão pra passar despercebido. Teria dado certo, se não fosse pelo seu hábito de mascar com a boca aberta. Tsc, amadores, pensei. Mal sabia ele que hoje era sua vez de ser a presa, não o predador. Naquela tarde, saí de casa determinado a descobrir o que realmente estava acontecendo, por isso resolvi caminhar a pé ao invés de pegar o carro. Uma breve checada na janela da sala me garantiu que o encarregado de me seguir hoje era ele, e não o cara do carro de vidro fumê; caso contrário, teria que adiar meu plano.

De qualquer maneira, eu caminhava descontraidamente com as mãos no bolso da calça, prestando mínima atenção aos meus arredores. O guiei pelas ruas vazias, passando por prédios abandonados e decrépitos. O guri tinha um sério problema de autoconfiança, visto seu método de disfarce: ele se achava bom o bastante pra passar despercebido sem precisar esconder o rosto, e era justamente essa presunção que o fez cair direitinho na minha armadilha. Se ele fosse ao menos um pouco cuidadoso, saberia que o beco que entrei em seguida não tinha saída. Assim que ele entrou em meu campo de visão, levantou os braços como se rendesse. Eu estava agora cara a cara com ele, meu revólver apontado diretamente para seus olhos.

– Se você der um pio, eu atiro. – avisei com uma voz séria, recebendo um aceno em resposta, indicando que ele havia entendido. – Vem, vamos dar um passeio. – com o pé de cabra que eu tinha na mão livre, puxei a escada de incêndio que subia a lateral do prédio e esperei que ele subisse primeiro. Eu o acompanhava bem de perto, mantendo o cano da minha arma encostado na sua nuca, enquanto segurava o pé de cabra firme na outra mão.

Assim que atingimos o telhado do prédio, a visão da barraca improvisada no canto me trouxe as memórias daquela noite com Jimin, um lembrete de que estava fazendo aquilo por ele, pra protegê-lo. O garoto à minha frente fez menção de se virar, mas antes que completasse o movimento, atingi-o forte na cabeça com o pé de cabra, deixando-o cair desacordado no chão. Deixei a ferramenta metálica agora ensanguentada cair ao seu lado e guardei o revólver na parte de trás da calça, apalpando a jaqueta a fim de pegar a fita adesiva que escondi ali. Pus-me a trabalhar, amarrando seus pulsos atrás das costas e seus pés juntos, certificando-me de que estava apertado o suficiente para que ele não conseguisse se soltar. Coloquei um pedaço de fita sobre sua boca só pela satisfação de arrancá-la depois com um puxão. Deixei o garoto deitado sobre o estômago, pegando o pé de cabra do chão quando sua consciência começou a retornar. Assim que seus músculos se retesaram e seus olhos começaram a piscar freneticamente devido à dor em seu crânio, dei-lhe um chute forte na lateral do corpo para que ele virasse de barriga pra cima. Tomei prazer ao ouvir seu grunhido de dor.

– Bom dia, seu pedaço de merda. – cumprimentei, agachando-me no chão próximo de seu rosto. – Eu vou tirar essa fita da sua boca agora. Me promete que você vai ser bonzinho e ficar quieto? – perguntei ao outro, enquanto ele assentia freneticamente com a cabeça. Retirei a fita com um puxão, admirando o barulho característico que indicava claramente que havia doído, mas assim que sua boca estava livre de impedimentos, o garoto começou a pedir ajuda a plenos pulmões. Revirei os olhos com a sua rebeldia e acertei-lhe em cheio no queixo com um soco, calando-o imediatamente. – Pode gritar o quanto quiser, idiota. Toda essa área está abandonada. Ninguém vai te ouvir. – rosnei em seu ouvido. – Tudo o que você vai conseguir gritando desse jeito é me irritar. – ele me encarava com olhos marejados, mas tomou a sábia decisão de ficar quieto ao notar que havia verdade nas minhas palavras.

– O-O que você quer? – perguntou com a voz trêmula, quase chorosa. Ri com escárnio.

– É você quem vai me dizer. – ergui levemente seu corpo do chão, segurando-o pela camisa, enquanto aproximava meu rosto do seu para olhar fundo em seus olhos. – O que vocês querem comigo?

– E-eu não sei do que está falando. – o garoto olhava pra mim nervosamente, mordendo o lábio inferior.

– Não se faça de burro garoto, não combina com você. – sorri, ameaçador. – Você não precisa de uma estúpida bandana vermelha pra que eu saiba pra quem trabalha. Me diga o que Bang Yongguk quer comigo.

– Eu juro, eu não sei- – sua sentença fora cortada quando empurrei sua cabeça contra o concreto, forte o suficiente para fazê-la quicar.

– Eu vou te dar mais uma chance. – rosnei, me preparando pra repetir o ato, quando senti seu chiclete mascado sendo cuspido na minha cara. Fechei os olhos numa careta, vendo vermelho quando os abri novamente. Empurrei sua cabeça contra o chão mais três vezes, o suficiente para deixá-lo desorientado. – Não brinca comigo, garoto. Você não sabe no que tá se metendo.

– Pode me matar, eu não me importo. – o garoto riu, mas a risada saiu fraca e pouco convincente.

– Ah, eu não seria tão generoso. – disse, ficando de pé e elevando-me sobre ele. – Ainda não acabei com você. – desci o pé de cabra com tudo sobre seu joelho, arrancando um grito de dor do outro. Repeti o processo mais quatro vezes, só pra me certificar de que ele sabia que eu não estava de brincadeira.

– Vai pro inferno! – vociferou, lágrimas escorrendo pelo canto de seus olhos.

– Já estou nele. – respondi calmamente, antes de atacá-lo mais algumas vezes com o pedaço de metal. Ofegante, agachei-me de novo sobre sua figura enrolada em posição fetal, segurando seu queixo para forçá-lo a olhar pra mim. – Tá se sentindo mais falante agora?

– O seu namorado! – ele gritou entre soluços. – O seu namorado... viram o seu beijo com outro garoto, e Yongguk achou que poderia usar isso contra você... Por favor... não me mate. – o garoto implorou enquanto lágrimas corriam como cachoeiras de seus olhos. Eu até sentiria pena, se não estivesse tomado pelo ódio.

– Bom menino. – elogiei, ficando de pé mais uma vez. O garoto me lançou um pequeno sorriso esperançoso, apenas pra desmanchá-lo antes de arregalar os olhos de medo quando viu o cano da arma apontada pra sua cabeça. Nem sequer registrei suas últimas súplicas antes de apertar o gatilho.

Minha mente estava a mil quando peguei o corpo sem vida do garoto e desci com ele sobre os ombros as escadas frágeis de metal até o nível da rua. Joguei seu corpo dentro da caçamba de lixo juntamente com o pé de cabra manchado com seu sangue, fazendo uma anotação mental para voltar e buscá-los mais tarde. Fiz o caminho de volta pra casa feliz pela noite que caía, ocultando parcialmente meu nervosismo e minhas roupas sujas. Pra minha sorte, não fui interrompido por ninguém no caminho. Entrei no apartamento e não pensei duas vezes antes de tomar um banho escaldante, assistindo a água se tornar vermelha antes de desaparecer pelo ralo. Com a pele rosada de tanto esfregar e roupas limpas, tentei retirar o melhor que pude as manchas de sangue da roupa que eu usara anteriormente. Desisti no meio do processo, optando por descartá-las mais tarde, junto com o corpo.

Esperei o melhor momento para sair, sentado no sofá fitando o teto, quando resolvi que duas horas da manhã era um horário tão bom quanto qualquer outro. Peguei um pedaço grande de plástico transparente que eu mantinha pra ocasiões como essa, juntamente com as minhas roupas descartadas dentro de um saco, material de limpeza e um par de luvas de couro. Desci as escadas dois degraus por vez, não querendo perder tempo. Fora do prédio, olhei ao redor centenas de vezes, mas não havia ninguém por perto; aparentemente ainda não descobriram meu pequeno crime. Caminhei com passos apressados até meu carro, forrando o porta-malas com o plástico e largando a sacola de roupas e o material de limpeza no banco de trás. Dirigi até o local do crime com o coração martelando na boca, olhando os retrovisores à procura de um familiar automóvel com vidros escuros, mas não havia nada. Estacionei no beco com a traseira virada para a caçamba, e vesti as luvas.

Abri a tampa da caçamba e fui recebido pelo cadáver de olhos vidrados fitando o nada. Peguei-o no colo, grunhindo com a realização de que eu teria que me livrar de outro casaco e o transportei até o porta-malas do carro, colocando-o cuidadosamente sobre o plástico. Retornei com o pé de cabra e coloquei-o junto do corpo, enrolando tudo como se fosse um pacote, prendendo com um pouco de fita pra manter o embrulho firme. Tranquei o porta-malas e só me restava cuidar do sangue na caçamba e no telhado do prédio. No banco de trás peguei o material de limpeza e a bolsa com as roupas descartadas; a última joguei no lixo. Subi os degraus metálicos com pressa, a fim de me livrar do sangue no telhado primeiro. Lá em cima fui recebido com uma bela bagunça; dobrando as mangas do casaco e a barra da calça até acima dos joelhos, despejei o solvente sobre a mancha e fiquei de joelhos pra esfregar com uma escova. Perdi a noção de quanto tempo se passou; meu trabalho de limpeza era porco, mas era o melhor que conseguia fazer no curto espaço de tempo. Agora só me restava a caçamba. Desci as escadas apressado, jogando o material usado fora. Minha mente ficou em branco por um momento. O que eu poderia usar pra me livrar de toda essa evidência? Por mais que eu me concentrasse, tudo que eu queria agora era fumar. Então algo estalou na minha mente. Espiei seu conteúdo, notando aliviado que havia material o suficiente pra queimar. Acendi um cigarro com dedos trêmulos, dando longas tragadas na tentativa de criar coragem a partir da nicotina; tirei minhas roupas de dentro da sacola e as incendiei com o isqueiro, espalhando-as da melhor forma para que tudo queimasse rápido, fechei a tampa e retornei para o carro.

Mais tarde naquela madrugada, de volta ao conforto do meu lar após despejar o corpo e todas as outras evidências dentro do rio Han, finalmente me permiti o luxo do desespero. Eles viram tudo. Eles sabiam sobre Jimin. Bang Yongguk sabia sobre Jimin. Era apenas questão de tempo até que descobrissem onde o garoto morava e o matassem. Eu não permitiria uma coisa dessas; eu precisava alertá-lo de alguma forma, eu precisava protegê-lo, eu precisava...

Espere, a parte racional da minha mente pediu. Se Yongguk soubesse quem era Jimin, então ele já estaria morto há muito tempo, certo? Ou pelo menos muito machucado, se só o que o líder queria era me dar um susto. Mas eu sabia que não era o caso, pois enquanto minha mente estava ocupada demais com assuntos mais urgentes, recebi mais uma de suas mensagens, que dizia algo como “só pra te lembrar que você é um babaca”. O que significava que a identidade de Jimin ainda era um mistério pra eles, por isso eu estava sendo seguido: pra descobrir quem ele era. Não consegui conter uma risada de alívio. Os filhos da puta ainda não sabiam de absolutamente nada.

A única coisa de que eu precisava agora era um plano. Como eu poderia evitar que Jimin fosse descoberto? Como eu poderia protegê-lo? Conforme eu pegava no sono, uma ideia mirabolante era formada no meu subconsciente. Ah, isso não seria nada agradável.

No dia seguinte, eu estava dentro do carro, estacionado nos arredores do prédio de Jimin, mas não próximo o suficiente pra entregar o local. A lua ia lentamente tomando seu lugar no céu, o que só contribuía pro meu estado nervoso. Eu esperei pacientemente, olhando de relance para o reflexo no retrovisor, que me indicava que o carro de vidro fumê ainda estava estacionado à algumas ruas de distância, quando avistei uma figura alta e encapuzada andar pela calçada com a cabeça baixa e mochila nas costas. Exatamente quem eu precisava.

– Ei, Jungkook. – chamei, abrindo a janela do lado do carona e buzinando duas vezes pra chamar sua atenção. O garoto quase pulou com o susto, mas assim que seus olhos me encontraram, suas feições fecharam-se numa carranca.

– O que você quer? – cuspiu, me olhando desconfiado.

– Entra no carro. – pedi, inclinando-me sobre o banco do carona pra abrir a porta pra ele. – Preciso falar com você.

– E se eu não quiser? – desafiou, sem mover um músculo.

– Entra logo na merda do carro, Jungkook. É importante. – ralhei, mas o garoto não pareceu impressionado. Suspirei, frustrado, e o fitei com seriedade nos olhos. – É sobre Jimin.

Isso pareceu atrair seu interesse. Meio a contragosto, Jungkook entrou no carro e fechou a porta. Liguei o motor e notei que o carro refletido no retrovisor também roncava, seus faróis agora acesos. Fiz caminho para nenhum lugar em especial, concentrado única e exclusivamente em despistar o automóvel que agora nos seguia de uma distância segura pelo trânsito de Seoul. O interior do carro estava impregnado pelo silêncio, o que pareceu irritar o jovem ao meu lado.

– Então? Você vai me dizer o que tá acontecendo? – perguntou impaciente.

– Não agora. – respondi, olhando pelo retrovisor pra constatar que o carro ainda estava atrás de nós. Jungkook pareceu notar que algo estava errado, porque ele fez menção de se virar e olhar pra trás, mas eu o impedi. – Não olhe. Mantenha-se virado pra frente. Se possível, puxe mais o capuz sobre o rosto.

Jungkook me olhou sem entender por um momento, mas fez o que pedi. Vez ou outra, peguei-o olhando pelo retrovisor lateral procurando pelo mesmo que eu. Não pude conter um pequeno sorriso que teimava em puxar meus lábios. Eu sabia que fizera a escolha certa ao me encontrar com Jungkook ao invés de Taehyung. O garoto era esperto; não sabia ainda exatamente o que estava acontecendo, mas sabia que não era nada bom.

Após muito esforço, costurando entre o trânsito e virando bruscamente em esquinas aleatórias, consegui despistar o carro. Estacionei nas proximidades do rio Han, numa parte reclusa e deserta. O silêncio que havia se instalado estava cheio de perguntas mudas e olhares acusatórios. Suspirando, me virei para Jungkook, que me analisava com olhos afiados.

– Estamos seguros? – sua pergunta me pegou desprevenido. Definitivamente, eu havia feito uma boa escolha.

– Sim, por enquanto.

– Pode me dizer o que você quer de mim agora?

– Escute-me com atenção, e não diga nada até que eu termine. – pedi com seriedade na voz, esperando que ele sinalizasse que havia entendido. – Jungkook... eu preciso da sua ajuda.