Hold me Tight

48 Salto de fé


— Jimin POV -

Eu não recordava exatamente o que acontecera depois que resolvi tirar um cochilo no sofá do karaokê, visto que estava embriagado e sonolento demais pra prestar atenção ao que acontecia à minha volta, mas tinha uma vaga lembrança de chegar são e salvo em casa e ver Yoongi se desdobrando pra conseguir colocar não só a mim, mas também Jungkook e um ainda hiperativo Taehyung na cama, ralhando com o último pra deixar de ser tão difícil e parar de correr seminu pela sala e simplesmente ir dormir, porra, enquanto praguejava o tempo todo. O que viera depois disso era um completo mistério, pois assim que minha cabeça entrou em contato com o travesseiro, recebendo um fraco e arrastado “boa noite” de Jungkook em seu próprio futon ao meu lado, meus olhos pesaram por conta própria e deixei-me ser levado para o mundo dos sonhos, vagamente ciente de ouvir a risada grave de Taehyung ao fundo.

Entretanto, o que me lembrava muito bem era de ter acordado na manhã seguinte com uma dor de cabeça capaz de rachar meu crânio ao meio, sentindo como se fosse ficar cego pela luz solar queimando meus olhos e vomitar a qualquer momento, com a menor provocação. Incrivelmente Jungkook conseguira ficar ainda pior, e desse modo passamos o domingo todo de pijama sofrendo com dores de cabeça e náuseas insuportáveis – menos Taehyung, aquele bastardo sortudo – até a hora que Jin-hyung, lindo como sempre e vivo porque não bebera tanto quanto o resto de nós, resolvera nos agraciar com sua presença divina e nos abençoar com seus cuidados médicos e maternais, acompanhado por um Yoongi estranhamente sorridente que, assim como Tae, parecia ter o sistema nervoso tão acostumado com bebidas alcóolicas que nem sofria mais os efeitos da ressaca. Namjoon-hyung também não se sentia muito bem, por isso resolvera ficar em casa dormindo até sentir que o mundo parara de girar – pelo menos foi o que Yoongi nos informou com um sorriso felino, parecendo se divertir mais do que gostaria de admitir com nosso estado deplorável. Contudo, uma simples chantagem emocional armada com um beicinho poderoso o fez derreter e ter piedade de mim, dando-me pessoalmente a sopa que Seokjin preparara na cozinha e até mesmo aceitando aconchegar-se comigo no sofá depois, enquanto Jungkook era paparicado pelos dois Kim. No final do dia, tanto eu quanto o maknae concordávamos que ficar de ressaca não era tão ruim assim, afinal.

O que realmente me surpreendeu foi chegar na faculdade pra mais uma aula ordinária na segunda-feira e ser reconhecido nos corredores. No começo não dei muita importância, atribuindo os olhares que recebia ao novo estilo que resolvi arrumar o cabelo naquele dia – havia pedido ajuda à Tae-Tae pra repetir o penteado que usei no final de semana, pois tinha que admitir que ficara satisfeito com o resultado – porém quando vi que a atenção não diminuíra naturalmente como previa, mas sim ficara mais intensa conforme os alunos – em sua grande maioria garotas, mas haviam alguns meninos também – que enchiam os corredores do prédio de artes performáticas me acompanhavam com o olhar e cochichavam entre si soltando risinhos, peguei-me entrando levemente em pânico, receoso de que tivesse algo errado no rosto e não estava ciente. Foi só quando entrei na sala de aula e fui recebido com um abraço apertado de Jackson, tagarelando animado sobre um show enquanto me mostrava uma gravação no celular, finalmente entendi que aquela atenção estranha e repentina não tinha nada a ver com meu rosto estar sujo ou algo do tipo. Aparentemente eu não era o único fã de J-Hope naquela universidade, pois pelo menos metade do departamento de dança havia comparecido à apresentação e agora me encaravam como se tivesse vencido na vida, apenas por dividir o palco com seu ídolo.

Era demasiado esquisito ver-me popular da noite pro dia, impossível de acreditar até, mas não podia negar que gostava do sentimento que me trazia ao ser cumprimentado e elogiado nos corredores por pessoas que nunca vira antes, pessoas que me tratavam quase como se tivesse me tornado uma sub-celebridade sem nem ao menos ter consciência ou intenção disso. Não podia deixar de corar um pouco sob a atenção constante, acenando timidamente para um grupo de garotas que exclamaram uma despedida quando passei por elas a caminho da saída. Estava descendo as escadas que levavam ao pátio central do complexo universitário quando ouvi meu celular tocar, sorrindo ao notar que recebia uma ligação de Yoongi.

— Olá, hyung. – cumprimentei ao trazer o celular ao ouvido, tentando conter o sorriso mesmo que o mais velho não pudesse vê-lo e ajustando a alça da bolsa-carteiro que carregava sobre o ombro enquanto descia os últimos degraus da escadaria. Não era muito comum receber ligações do loiro, visto que ele preferia se comunicar através de mensagens de texto, então me perguntava o que ele poderia querer.

Oi, Sunshine. Está ocupado agora?— ouvi-o dizer do outro lado da linha, voz rouca e grave como se tivesse acabado de acordar de um cochilo, e não consegui impedir o sorriso dessa vez. Podia imaginá-lo perfeitamente: os cabelos bagunçados e olhos inchados de sono enquanto tentava não bocejar e coçava distraidamente a barriga lisa por baixo do tecido puído da camiseta velha que usava como pijama. Um Yoongi preguiçoso e semi-adormecido era a visão mais adorável que já tive o privilégio de presenciar na vida, sem sombra de dúvida.

— Na verdade não, acabei de sair da aula. Ainda tenho algumas horas antes do meu turno no restaurante. Por que a pergunta? – indaguei, incapaz de conter a curiosidade ao cruzar o pátio em direção ao portão principal.

Não posso sentir vontade de te ver?— devolveu de maneira um pouco ríspida, quase como se minha pergunta o ofendesse de certa forma. Yoongi só pareceu acalmar-se quando ri e lhe garanti que sim, ele podia sentir vontade de me ver quando e o quanto quisesse. O mais velho ficava tão sensível quando estava com sono. – Está na faculdade ainda? Posso te buscar?

— Me buscar pra quê? Você por acaso está planejando me levar num terceiro encontro, Yoongi-hyung? – brinquei, divertindo-me com a risada seca de escárnio que recebi em resposta. Já podia até visualizar o loiro revirando os olhos com a ponta das orelhas em brasa.

Talvez. Só não saia daí, está bem? Já estou chegando, espere por mim.— nos despedimos depois que lhe respondi uma afirmativa, encerrando a chamada. Não podia e nem iria negar que a promessa de ver Yoongi sempre conseguia me deixar instantaneamente mais alegre, ansioso e sorrindo como um idiota. O dia estava lindo, quente e ensolarado mesmo que já nos aproximássemos do fim do verão, perfeito pra um passeio ao ar livre. Se Yoongi me deixasse escolher pra onde iríamos, eu já tinha um lugar específico em mente: era bobo e um pouco patético se parasse pra pensar, mas havia uma sorveteria nas proximidades do rio Han que era o ponto de encontro preferido da maioria dos casais – um lugar que ouvia muito falar e sempre quis ir, mas nunca tive a companhia certa pra isso... pelo menos até agora.

Fiel às suas palavras, Yoongi não levou nem vinte minutos pra estacionar o carro preto em frente aos portões da universidade, buzinando e acenando de dentro do veículo quando encontrou-me esperando por si encostado no muro baixo de pedra e devolvendo educadamente as exclamações de “até logo” e “te vejo amanhã, Jiminie!” que alguns estudantes de dança – e até mesmo de outros cursos – soltavam ao passar por mim. Atravessei a rua apressado, ansiando o conforto e privacidade do automóvel quando abri a porta e joguei-me sem cerimônias no banco do carona, parando apenas pra deixar minha bolsa no banco de trás e dar-lhe um breve beijo na bochecha antes de puxar o cinto de segurança e mandá-lo seguir adiante.

— Tem algum compromisso, Vossa Alteza? Por que essa pressa toda? – indagou-me com a sobrancelha arqueada ao dar partida no carro, tirando-o da vaga e seguindo seu rumo. Corei um pouco sob a questão, só agora me dando conta de que no meu desespero pra fugir de toda aquela atenção que subitamente me vi recebendo na faculdade e que ainda não sabia como lidar, nem sequer o deixara me cumprimentar de volta ou dizer pra onde me levaria.

— Oh, desculpe. Eu só queria sair logo dali, a aula foi bastante cansativa hoje. – peguei-me dizendo num tom apologético, ainda que não fosse bem esse o motivo do meu comportamento. Também não era de todo mentira, visto que segunda era de fato o dia mais cansativo por só ter aulas teóricas. – Pra onde vamos?

— Eu esperava que você me dissesse. – disse com um sorriso, parecendo pressentir minha vontade de escolher nosso destino, quase como se pudesse ler meus pensamentos. Sem esconder minha animação, dei-lhe instruções pra dirigir até o calçadão que havia na beira do Han, as quais seguiu sem pestanejar com um brincalhão “seu desejo é uma ordem, Alteza”.

Chegando na sorveteria que como o esperado estava cheia nesse dia ensolarado, os clientes que a ocupavam em sua grande maioria casais que andavam de mãos dadas e compartilhavam milk-shakes e banana splits, eu imaginava que Yoongi fosse chiar e reclamar sobre minha escolha nada original, ou no mínimo me provocar por ser um romântico incurável, mas me surpreendi quando o mais velho apenas sorriu e me perguntou que sabor de sorvete eu gostaria de tomar. Hyung vai pagar, foi o que disse quando a atendente nos ofereceu dois potinhos com os sabores de nossa escolha: morango e chocolate pra mim e café pra si. Em circunstâncias normais eu poderia até protestar, mas naquele momento estava ocupado demais tentando não surtar com a realização de que estávamos tendo um encontro de verdade, onde casais de verdade iam pra relaxar e aproveitar a companhia um do outro e ainda por cima Yoongi estava agindo como um verdadeiro namorado, atencioso e gentil.

Com nossos sorvetes em mãos nos dirigimos pra uma das áreas gramadas ao longo do rio que geralmente era usada pra piqueniques, onde poderíamos sentar sob a copa das árvores e aproveitar o calor do dia. Como não esperava ter um encontro ao ar livre e portanto não pude me preparar e programar de acordo, tive que sentar-me na grama mesmo sabendo que sujaria minhas roupas, mas por algum motivo não me importei tanto com isso – não quando tinha Yoongi ao meu lado. Não sabia dizer por quanto tempo ficamos ali, tomando sorvete e admirando a vista enquanto jogávamos conversa fora, mas não podia negar que estava tendo um dos melhores encontros de todos os tempos.

— Então, como foi seu dia? O que tem feito com o seu tempo livre agora que não tem mais a mim pra te infernizar o dia inteiro? – brinquei, usando o dedo pra tomar o resquício de sorvete derretido que havia ficado no pote. Talvez aquela não fosse uma das visões mais atraentes, nem um gesto muito higiênico da minha parte, mas não podia fazer nada se nasci com o mesmo paladar pra doces de uma formiga.

— Absolutamente nada, mas parece que vamos voltar a ocupar o estacionamento em breve, agora que a polícia não está mais na nossa cola. Sabe como é, todos temos bocas pra alimentar, então os negócios não podem parar por muito tempo. Só estou feliz que vou finalmente deixar de me esconder como um rato. Não estava aguentando mais ter todo aquele tempo pra matar e nada pra fazer, pensei que fosse morrer de tédio. – ouvi o loiro bufar, claramente estressado, enquanto enfiava outra colherada do doce na boca. Era engraçado como uma pessoa podia se habituar com as coisas mais bizarras; eu deixara de me incomodar com a linha de trabalho de Yoongi há muito tempo, e ao invés de preocupação só sentia alívio ao saber que não corriam mais perigo.

— Oh, isso é bom! Então a polícia simplesmente desistiu? – indaguei, genuinamente curioso, pois não fazia ideia de como conduziam as investigações policiais além do que via nos seriados e doramas, mas duvidava que as coisas funcionavam do mesmo jeito na realidade.

— É, aparentemente eles tem um limite de tempo pra encontrar provas, e se encontram um beco sem saída são obrigados a partir pra outro caso. Ainda bem que Zico nos avisou sobre a investigação de antemão, senão estaríamos com problemas agora. – explicou, lambendo a colher distraidamente. – Chega disso, não quero falar de trabalho. E você, como foi o seu dia? Parecia um pouco tenso quando fui te buscar.

— Ah—é que... – encontrei-me sem desculpas pra lhe dar, pego de surpresa pela mudança de assunto repentina. Mas então percebi que não era justo da minha parte contar-lhe mentiras apenas pra dissipar suas preocupações quando o loiro falava tão abertamente sobre sua vida comigo. Não era como se tivesse motivos pra lhe esconder a verdade, eu só não sabia como tocar no assunto sem parecer convencido ou cheio de mim. Suspirando, resolvi abrir o jogo de uma vez e confiar em Yoongi pra não me julgar erroneamente. – Eu... meio que me tornei famoso. – confessei com uma careta, imediatamente elaborando a afirmação ao ver Yoongi erguendo uma sobrancelha inquisitiva. – Quando cheguei na faculdade hoje, todos sabiam meu nome, mesmo que até ontem eu fosse um completo fantasma, quase invisível. Acho que J-Hope tem muitos fãs no departamento de dança, porque pelo menos metade dos estudantes foram no show. Eles me reconheceram e elogiaram muito minha dança, principalmente minha coreografia solo. Foi bem esquisito... mas legal ao mesmo tempo. – admiti com um sorriso acanhado, olhos grudados no pote de sorvete vazio que tinha em mãos, com medo do que encontraria no rosto do loiro caso resolvesse erguê-los.

Fui pego desprevenido quando Yoongi riu, uma risada gostosa que não se parecia em nada com o escárnio que esperava receber de si. – Mas é claro que te elogiaram. Você nasceu pra ficar em cima de um palco, sua dança é simplesmente magnífica. Não me admira que tenha ganhado fãs, na verdade ficaria surpreso se ninguém o apreciasse. – minhas bochechas queimavam ao som de suas palavras, mas pensei que entrariam em combustão quando Yoongi ergueu meu queixo com o indicador e me obrigou a encontrar seu olhar. – Só diga a eles que você já tem a mim, e que se alguém se meter ao engraçadinho e tentar algo com você vai ter que se entender com o meu punho.

Fiquei completamente sem reação naquele instante, o pequeno sorriso provocante que puxava o canto de seus lábios somado com a profundidade de seus olhos me tirando o fôlego. Eu não sabia como agir quando Yoongi ficava daquela maneira, confiante e aberto, tão seguro de si e sempre com as palavras certas na ponta da língua, então fiz a única coisa que poderia fazer naquele momento: levei na brincadeira.

— O que é isso que está dizendo? Por acaso está com ciúmes, Min Yoongi? – disse entre risos nervosos, sujando o indicador com o pouco de sorvete que ainda restava no fundo do pote antes de limpá-lo na sua bochecha num gesto de ousadia. O loiro pareceu congelar com o ataque, piscando lentamente os pequenos olhos de forma estúpida antes de apertá-los e franzir o cenho numa carranca indignada.

— Você acabou de sujar minha bochecha com sorvete, Park Jimin? – questionou com a voz tensa, parecendo fazer esforço pra controlar seu tom. Sorri da forma mais inocente que pude, esperando amenizar sua fúria e escapar de uma possível punição.

— Eu? Claro que não. Jamais faria uma coisa dessas. – assegurei-lhe, já com o dedo de volta ao pote, me preparando pra um segundo ataque. Entretanto, antes que pudesse atingir seu nariz, Yoongi segurou meu pulso e colocou meu indicador entre os lábios, correndo a língua por toda sua extensão pra eliminar o resquício do sorvete e chupando-o até ficar completamente limpo.

Mais uma vez me vi sem palavras, com olhos arregalados e rosto em brasa enquanto sentia o coração bater desenfreado dentro do peito. Por mais inocente que havia sido o contexto, a sugestão de tal ato não me passara despercebida, muito pelo contrário. Ao invés, fui inundado com lembranças vívidas de Yoongi e suas mãos não muitos dias atrás: Yoongi e suas mãos tocando minhas nádegas, meu abdômen, meu sexo. Não demorou muito para que as imagens mudassem de forma e logo não era mais as mãos que Yoongi usava pra passear por todo meu corpo, mas sim seus lábios. Estremeci quando o loiro libertou meu dedo com um ruído molhado e um tanto obsceno, os olhos negros e penetrantes concentrados no dígito úmido com a sua saliva. Peguei-me encarando o mesmo dedo antes de ter minha atenção voltada pra si, encontrando aquelas orbes agora focadas em mim e a sombra de um sorriso felino em sua face. Poderia até pensar que fazia de propósito, se a mesma expressão não desaparecesse no instante seguinte, dando lugar à indiferença enquanto soltava meu pulso e agia como se nada tivesse acontecido.

— É feio desperdiçar um bom sorvete dessa maneira. – falou com falsa repreensão na voz ao limpar a bochecha com o dedão e chupar o dígito em seguida, o sorriso lentamente retornando aos lábios diante da minha expressão catatônica, ainda que tentasse ao máximo escondê-lo. Aquele sorriso atrevido foi o suficiente pra me despertar, obrigando-me a tomar uma atitude: desferi-lhe um tapa estalado no braço antes de empurrar seu ombro de forma rude, tomando uma pequena dose de satisfação ao vê-lo se atrapalhar todo pra evitar cair e acariciar o local do golpe com uma careta de dor no rosto. – Ai! Por que fez isso?

— Não faça coisas desse tipo como se não fosse nada, idiota. – resmunguei com o cenho franzido e vergonha claramente estampada na face, a vontade anterior de brincar com o loiro desaparecida. Se era assim que Yoongi brincava, eu definitivamente não queria fazer parte daquilo.

— O que você queria que eu fizesse? Queria que deixasse me sujar a seu bel-prazer? Não, obrigado. – repreendeu com o nariz levemente erguido no ar, defendendo suas atitudes e conseguindo me fazer sentir um pouco culpado no processo antes de pegar-me desprevenido com seu próprio ataque surpresa e sujar meu nariz com sorvete de café, rindo como uma criança. – Pronto, agora estamos quites.

— Isso não é engraçado. – falei num tom sério, ainda que soasse quase choramingão, cruzando os braços na altura do peito com uma carranca mais profunda na face.

— Ah, é um pouco engraçado sim. – devolveu ainda sorrindo, pegando-me de surpresa mais uma vez ao lamber a ponta do meu nariz pra limpar a bagunça que fizera, sua postura assemelhando-se terrivelmente com a de um gato. Afastei-me dele com um empurrão, não encontrando a menor graça naquele gesto. – Ora, vamos, Sunshine. Não faça isso comigo. Você sabe que não resisto a essa ruguinha que surge entre as suas sobrancelhas quando fica bravo. – brincou em tom de zombaria ao erguer o indicador pra tocar a ruga que mencionara; entretanto, segurei seu pulso antes que conseguisse, dando uma boa mordida no dedo ofensivo e deliciando-me com o silvo de dor que recebi em troca.

— Pronto, agora sim estamos quites. – copiei suas palavras no tom mais inocente que conseguia forjar, abrindo o sorriso mais radiante que podia. Ah, como era doce, a vingança.

— Aish, essa criança... sinceramente. – resmungou, acariciando o próprio dedo próximo ao peito com uma expressão magoada e quase ofendida. – Você ainda me paga, Park Jimin.

— Gostaria de ver você tentar hyung, juro. Mas olha só a hora! Preciso ir trabalhar, é realmente uma pena. – rebati casualmente com um encolher de ombros, levantando-me num salto e me espreguiçando antes de dar leves batidinhas na calça pra tirar qualquer resquício de grama ou terra, tendo que me controlar pra não denunciar meu divertimento ao ver o mais velho me encarando irritado do seu lugar no chão. Ofereci a mão pra ajudá-lo a se levantar, rindo quando ele a recusou com um tapa e levantou-se sozinho. Mesmo que se recusasse a encontrar meus olhos e resmungasse durante o caminho inteiro, Yoongi insistiu em me dar uma carona até o restaurante chinês onde trabalhava, só mostrando me perdoar quando estacionou na frente do mesmo, puxando-me pela gola da camiseta pra um beijo rápido mas intenso, sorrindo ao me desejar um bom trabalho.

Felizmente hoje trabalharia servindo mesas no restaurante ao invés do habitual serviço de entrega em domicílio, o que sempre me mantinha ocupado o bastante pra não pensar em Yoongi e no que gostaria que ele fizesse comigo e vice-versa. Guardei todos os pensamentos impuros no fundo de minha mente, concentrando-me única e exclusivamente em anotar os pedidos e entregá-los prontos pra suas respectivas mesas, ainda que não pudesse esconder muito bem minha animação – até Qian-noona percebeu, elogiando meu desempenho no final da noite e apontando o quanto meus sorrisos deixavam os clientes mais satisfeitos. Quem diria que um simples e descontraído encontro faria maravilhas pro meu humor.

Até mesmo Jungkook pareceu notar que algo estava diferente quando cheguei em casa, perguntando como fora meu dia e o que tinha acontecido pra me deixar sorrindo como um idiota. Contei-lhe tudo sobre a repentina fama que adquiri na faculdade – o que já sabia, visto que alguns colegas seus também compareceram ao show e tinham tudo gravado no celular – e sobre o encontro com Yoongi, obviamente deixando alguns detalhes embaraçosos e desnecessários de lado. O mais novo ficou quieto por um instante, parecendo tenso e quase magoado, até começar a rir e zombar de mim por ser tão sentimental, quase patético ao ficar estupidamente feliz por causa de um encontro clichê e brega como tomar sorvete na beira do rio dessa maneira. Tive que lidar com as zombarias sozinho, controlando-me pra não agredi-lo enquanto lutava pra manter a compostura e tentava fazer o rubor desaparecer da minha face com a força da mente apenas, agradecendo aos céus por Taehyung passar a noite toda fora trabalhando no bar, senão com certeza sucumbiria aos impulsos assassinos caso o segundo mais novo resolvesse se juntar contra mim na brincadeira.

Ainda bem que o maknae sabia quando era hora de parar, dando-me uma espécie de trégua antes de irmos dormir. Já havíamos feito as pazes quando estávamos cada um deitado na sua própria cama e aconchegado sob as cobertas, a escuridão do quarto parecendo dar-lhe coragem pra dizer com voz suave o quanto estava feliz por mim, desejando-me boa noite e dando-me as costas antes que pudesse responder qualquer coisa. Não que tivesse capacidade pra tal no momento, visto que me encontrava sem palavras, repetindo o que acabara de ouvir em minha mente de novo e de novo até abrir um sorriso afetuoso, encarando sua figura adormecida com ternura: Jungkook poderia ser um pivete mimado e irritante às vezes, mas não podia negar que sempre fora um bom garoto – não, um bom amigo. Acima de tudo, o moreno sempre prezava a felicidade e bem-estar das pessoas que o cercavam, e não poderia ser mais grato por isso. Sentia como se finalmente tivesse a aprovação dos meus dois melhores amigos sobre meu relacionamento com Yoongi, tirando um peso das minhas costas que nem sabia que existia. Sentindo-me aliviado e contente, era Yoongi que invadia meus pensamentos antes de tudo ser inundado pelo mais completo breu, o sono forte demais pra resistir.

Não sabia dizer exatamente quando adormeci, mas senti como se mal tivesse piscado os olhos antes de ser desperto por uma sensação inconfundível de dedos passeando por minha pele: senti as pontas gélidas percorrendo de maneira gentil e suave minha coxa, a lateral do meu tronco, minha clavícula, meus lábios. Ao abrir os olhos, pude ver apenas um vulto sobre mim, parcialmente oculto sob as cobertas, mas assim que minhas orbes se ajustaram à escuridão do quarto pude distinguir cabelos loiros e olhos penetrantes me encarando de volta: Yoongi. Soltei um arquejo assustado quando a realização finalmente caiu sobre mim; queria perguntar-lhe o que estava fazendo ali e como conseguira entrar no apartamento, mas por alguma razão minha voz não me obedecia. Sequer tive tempo de me incomodar com esse fato, pois logo o mais velho tinha pousado o indicador sobre meus lábios num gesto que pedia silêncio, suas feições estampando aquele mesmo sorriso que me irritava e excitava ao mesmo tempo enquanto apontava pro lugar onde Jungkook ainda dormia, ignorante à sua presença.

Um sentimento muito forte tomou conta de mim naquele instante, uma mistura de vergonha mórbida com excitação, tomando forma na boca do estômago antes de percorrer minha espinha em ondas de calor com o perigo que corríamos de sermos pegos num momento íntimo, vendo-me impotente diante do loiro quando este tomou meus lábios num beijo ardente. Só quando Yoongi rolou seus quadris de encontro aos meus ao passo que invadia minha boca com a língua foi que percebi que nenhum de nós usava roupas – o que era bastante suspeito, já que me lembrava de ter colocado pijamas antes de dormir –, causando uma fricção de pele com pele que me fez ver estrelas. Não consegui conter um gemido entrecortado pela surpresa, agarrando-me aos seus ombros e nuca com força como se pudesse cair caso não o fizesse, sentindo mais do que ouvindo o mais velho rir baixo e me silenciar com um shh contra meus lábios antes de repetir o gesto. A sensação que o contato me proporcionava era simplesmente indescritível, e tinha certeza que se não fosse pela boca de Yoongi na minha seria impossível manter-me quieto.

Depois do que pareceram horas de uma tortura deliciosa e enlouquecedora, mas nunca satisfatória o bastante, senti os dedos de Yoongi fazerem o caminho inverso de quando me despertaram, provocando-me arrepios incontroláveis; eu poderia até choramingar quando seus quadris perderam a velocidade antes de ficarem completamente imóveis, se seus lábios não percorressem o mesmo caminho logo em seguida, distribuindo beijos por toda a extensão de pele que encontrava em seu trajeto para o sul, desaparecendo debaixo das cobertas. Imediatamente soube quais eram suas intenções, mas estranhamente não sentia medo, apenas uma antecipação tão forte que fazia minha pele formigar. A mera ideia de ter os lábios de Yoongi ao redor do meu sexo era tão excitante quanto as sensações que o loiro me fizera sentir segundos atrás, se não mais. No momento que seu hálito quente entrou em contato com meu membro ereto e sua língua tocou experimentalmente a cabeça, lambendo-a como um gatinho faminto antes de finalmente a engolir num movimento lento porém fluido, não esperava ser tomado por um prazer tão cegante e paralisante quanto aquele. À medida que Yoongi repetia o movimento uma, duas, três vezes, cuidadoso no início mas pegando jeito e velocidade conforme sua cabeça trabalhava num ritmo constante, eu já não tinha mais forças pra fazer nada além de tentar abafar os gemidos em meu punho fechado, deixando o prazer destruir minha sanidade e consumir minha alma, sem dar a mínima se Jungkook podia ouvir os ruídos obscenos que Yoongi fazia enquanto fincava os dedos no couro cabeludo do loiro até minhas juntas ficarem doloridas frente a aproximação do orgasmo, o ápice cada vez mais perto, tão perto, oh, tão perto—

Acordei num sobressalto, confuso e suado e com a mesma frequência cardíaca de alguém que acabara de correr uma maratona, e não que despertara de um simples sonho erótico. Por um momento eu até esperava encontrar Yoongi ali na cama, oculto pelas cobertas, seus lábios esticados ao redor do meu sexo – mesmo que não sentisse mais o calor dos seus toques, apenas o fantasma de seus dedos passeando pelo meu corpo no sonho que parecia gravado em brasa na minha memória. Não podia evitar a decepção ao me dar conta de que tudo não passara de uma fantasia induzida pelo comportamento de Yoongi no encontro mais cedo, mas o que se tornara bastante real foi a ereção que agora podia encontrar sob o tecido da calça. Frustrado, tentei ignorar o problema e voltar a dormir, esperançoso de que talvez pudesse voltar a sonhar de onde parei, mas logo percebi que tal tarefa seria impossível: tudo que conseguia pensar era no hálito quente de Yoongi sobre meu membro, seus lábios úmidos e macios engolindo-o por completo. Tais pensamentos apenas deixavam a ereção dolorosamente mais evidente, pulsando com pré-gozo escorrendo da ponta e ansiando por atenção. Eu poderia até envolver meus dedos ao redor da mesma e dar por conta própria o alívio que tanto precisava, mas me parecia muito errado fazer algo tão íntimo quando Jungkook dormia a sequer dois passos de distância. Mesmo que conseguisse me manter quieto e tivesse os movimentos escondidos pelo cobertor e pela escuridão do quarto, nunca mais conseguiria conviver com o mais novo com o conhecimento do que fizera.

Foi desse modo que me encontrei indo pra sala com pés descalços e notebook em mãos, grato pela escuridão e silêncio do apartamento – Taehyung ainda não chegara do trabalho, e eu precisava desesperadamente de um momento de privacidade pra fazer o que faria a seguir. Ajeitei-me da forma mais confortável possível no sofá, cruzando as pernas sobre o estofado enquanto esperava a máquina ligar. Provavelmente me arrependeria do que estava fazendo no futuro, mas tudo que tinha em mente agora era a excitação arrebatadora que aquele maldito sonho me fizera sentir e que precisava me livrar o mais depressa possível, enquanto acessava um dos sites de pornografia homossexual que conhecia e procurava por qualquer vídeo que me parecesse minimamente atraente. Antes de dar o play, conectei os fones de ouvido que tinha trazido no notebook e os coloquei, diminuindo o volume pra um decibel confortável pra mim e imperceptível pro resto do mundo – isso tudo porque só conseguia me satisfazer por completo com algum estímulo auditivo; pra mim, assistir pornô mudo era sem graça e quase robótico.

Quando concluí que o vídeo era tão bom quanto prometia ser após assistir os primeiros segundos, me rearrumei no sofá de modo a plantar os pés no estofado e dobrar os joelhos quase de encontro ao peito com as pernas levemente abertas, servindo de apoio para o laptop ao mesmo tempo que deixava minhas mãos livres pra trabalhar. Como usava calças de moletom pra dormir, tudo que precisei fazer foi puxá-las um pouco pra libertar meu membro ereto e pulsante de seu confinamento, estremecendo com o contato de meus dedos sobre o mesmo. Eu deveria sentir vergonha do que estava fazendo, sabia disso, mas o tesão e as lembranças do sonho que tive com Yoongi não me permitiam sequer raciocinar direito, quem dirá corar. Tudo que precisava era de um alívio rápido, e se não tinha os lábios do loiro ao meu dispor, não via problemas em cuidar do assunto com as próprias mãos.

Enquanto me masturbava com movimentos lentos e calculados, não querendo apressar muito as coisas e estragar toda a diversão, assistia com olhos vidrados os dois homens se tocando sem pudor na tela, ambos com estaturas semelhantes mas portes físicos um pouco diferentes; com um determinado gesto de seu parceiro, um deles grunhiu com uma voz rouca que me lembrou imediatamente do objeto de meus sonhos, e logo não eram mais dois atores que davam prazer um ao outro diante de meus olhos, mas sim eu e Yoongi. Logo era Yoongi que plantava beijos em meus lábios e pescoço ao me masturbar com mãos ágeis e precisas, era eu que me tornava uma bagunça, suplicante e submisso, nas mãos do mais velho, abrindo as pernas e oferecendo-me como um presente a ser desembrulhado e apreciado; era Yoongi quem me colocava sobre as mãos e joelhos na cama e me tomava pra si em movimentos fluidos e sensuais, provocantes e insandecidamente lentos com as mãos firmes na minha cintura, apertando com tanta força que com certeza deixaria marcas, enquanto eu soltava gemidos obscenos e sem vergonha com lágrimas nos olhos, tão perdido no prazer que soluçava ao pedir por mais – mais rápido, mais forte, mais, mais, mais— incapaz de sustentar meu próprio peso e caindo de cara nos lençóis ao ter Yoongi estocando dentro de mim com a ferocidade de um animal, grunhindo e rosnando com aquela voz rouca que enviava agulhas diretamente onde as queria, que fazia meus joelhos fracos, que me fazia querer ser marcado como seu. Logo éramos eu e Yoongi perdidos num mar de prazer e luxúria, nos afogando em toques e encontrando nos lábios do outro o ar que nos mantinha vivos.

Não demorou muito tempo pra que me visse sobrecarregado de sensações, o prazer intenso demais pra suportar com suas raízes fincadas em meu estômago e seus galhos crescendo sob minha pele com ondas de calor e eletricidade – gozei quase ao mesmo tempo que a versão de mim mesmo no vídeo, tendo que morder os lábios com força pra evitar de fazer qualquer som enquanto fechava os olhos e imaginava a mão de Yoongi me masturbando com movimentos furiosos pra prolongar um dos melhores orgasmos que obtive sozinho. Ainda sentia seus espasmos quando guardei o pênis amolecido dentro das calças mais uma vez, lutando pra recuperar o fôlego mas sentindo-me contente e satisfeito; eu poderia viver naquela bolha de conforto e êxtase pós-orgasmo pra sempre se não olhasse pro lado e encontrasse o perfil do rosto de Taehyung a centímetros de distância do meu conforme o garoto se inclinava sobre o encosto do sofá por cima do meu ombro com olhos fixos na tela do notebook, onde o vídeo que assistia chegava ao fim.

Dizer que assustei-me com sua presença repentina era eufemismo; eu sentia como se tivesse recebido um balde de água com gelo sobre a cabeça enquanto uma vergonha mórbida me paralisava por completo. Estava tão perdido no meu mundinho de fantasias que nem ouvi a porta abrir, ou fechar, ou sequer a senha ser digitada na entrada, nada que denunciasse sua chegada. Então uma dúvida aterrorizante passou por minha mente, uma pergunta que sinceramente não queria saber a resposta: por quanto tempo o garoto estava ali? Será que tive sorte e ele só chegou no final, quando ainda tinha esperanças de tentar remediar a situação, ou será que tinha menos coisas a esconder de Taehyung do que gostaria? A única coisa que me confortava era que o mais novo não poderia ter visto nada além do laptop pelo ângulo que se encontrava, mas a mera ideia do outro saber o que estava fazendo mesmo sem precisar de confirmação visual era o suficiente pra fazer meu estômago embrulhar de vergonha e humilhação.

— Sabe... – começou sem tirar os olhos da tela, expressão impassível e voz grave que soava alta e clara em meus ouvidos mesmo com os fones. Sem dar-me conta prendi a respiração e engoli em seco, suando frio, temendo o que diria a seguir. – Eu já assisti esse vídeo. Ele não é ruim, mas você encontra pornografias muito melhores em outros sites. Se quiser te passo alguns mais tarde. Agora preciso dormir, se ainda quiser ir pra aula amanhã. Boa noite, Jiminie. – despediu-se com um bocejo, dando-me as costas e se espreguiçando na direção do próprio quarto sem mais uma palavra, deixando-me mudo e boquiaberto com a casualidade com a qual tratara a situação, encarando suas costas com olhos arregalados e sobrancelhas erguidas como se não pudesse acreditar no que tinha acabado de acontecer. Nem quando o mais novo fechou a porta atrás de si e o apartamento ficara novamente imerso em silêncio, quase me fazendo acreditar que estava imaginando coisas, eu encontrei forças pra me mover ou sequer piscar os olhos. Meu melhor amigo Kim Taehyung tinha acabado de presenciar um momento íntimo onde me tocava imaginando ter Yoongi dentro de mim. E ele não dava a mínima sobre isso.

Naquela noite me vi com dificuldades pra pegar no sono, rodando na cama atrás de uma posição confortável pra dormir sem nunca a encontrar enquanto tinha a cabeça cheia de dúvidas e inseguranças – tinha medo de que Tae fosse usar aquele conhecimento vergonhoso contra mim, mas ao acordar na manhã seguinte percebi que meus medos eram infundados. O garoto não mencionou o ocorrido sequer uma vez no café-da-manhã ou quando fomos juntos pra faculdade, agindo como se tivesse esquecido tudo durante o sono, mas de alguma maneira eu sabia que não era bem esse o caso; sabia que Taehyung estava guardando aquela informação pra usá-la mais tarde, quando estivesse distraído e não pudesse me defender contra seus olhos inquisitivos e sorriso sabido. Eu só era grato que Jungkook continuava abençoadamente alheio e ignorante à tudo – pelo menos Tae-Tae não era tão cruel... ainda.

O período de aulas foi bastante constrangedor, pois pra minha desgraça as pessoas ainda lembravam meu nome e me cumprimentavam nos corredores, chegando ao ponto que até os professores notaram a atenção. O auge da minha vergonha foi quando Jackson resolveu que seria uma boa ideia mostrar o vídeo que tinha de mim performando a música de Yoongi sobre o palco pra um dos nossos professores de dança prática, mais especificamente a senhorita Kwon, que lecionava dança contemporânea. Depois de ver o que era capaz de fazer, a mesma me obrigou a executar a coreografia na frente de todos, me fazendo prometer que traria a música que usara na apresentação pra praticar com a turma na próxima semana. Ou seja, além de ser reconhecido na faculdade por causa dela, ainda teria que ensiná-la pro resto dos meus colegas; como me via sem opções, sem poder recusar um pedido – ou ordem, dependendo do ponto de vista – direto da professora, peguei-me assentindo com um sorriso desconfortável enquanto me perguntava quais as chances de uma pessoa ser tão azarada na vida. Sinceramente, eu achava que extrapolava todas as probabilidades.

O que realmente confirmou minhas suspeitas e colocou a última pedra no meu túmulo de pior azarão da face da Terra foi o que aconteceu mais tarde naquele mesmo dia, na loja de conveniência em que trabalhava. Como sempre pegava o período da noite por conta das aulas, estava acostumado a ver a loja sempre vazia – um dia agitado era quando atendia uma dúzia de pessoas, no máximo. Já que não tinha nada pra fazer pois todas as mercadorias já haviam sido arrumadas e rearrumadas nas prateleiras pelo menos três vezes devido ao tédio e portanto tinha tempo de sobra pra pensar em coisas que não devia no ambiente de trabalho, peguei-me com a mente ocupada com pensamentos erráticos sobre Yoongi, o sonho que tive e o episódio que veio depois disso, trazendo-me rubor às bochechas e junto com ele uma certa curiosidade infantil que nada tinha a ver com o que deveria estar fazendo no trabalho e portanto não deveria ser saciada naquele momento, mas como eu era um pobre jovem adulto hormonal e entediado, não pude fazer nada além de seguir meus caprichos.

Foi desse modo que agora me encontrava com o celular em mãos, pesquisando em diversos sites de relacionamento e blogs relatos de garotos que, assim como eu, estavam frente à sua primeira experiência sexual, na sua mais completa e absoluta forma, ainda por cima com alguém do mesmo sexo. Eu queria saber tudo, desde as coisas mais básicas como o que deveria esperar – o nível de dor e desconforto, técnicas pra relaxar e tornar as coisas mais fáceis, formas inusitadas de dar prazer e aprimorar a experiência como um todo – até cada particularidade e todas as suas peculiaridades e exceções. Eu queria estar pronto pro momento que ficaria com Yoongi no seu âmbito mais íntimo, preparado pra qualquer situação e possível inconveniência, na esperança de que o mais velho – que também era infinitamente mais experiente nesse campo do que eu – também aproveitasse nossa experiência juntos tanto quanto eu sabia que aproveitaria.

Quando estava lendo o que poderia ser o vigésimo artigo sobre o assunto, tive minha atenção desviada pra porta quando a mesma se abriu com o familiar ruído do sino que indicava a chegada de um novo cliente. O que vi ali fez meu sangue gelar e coração parar de bater dentro do peito, tão surpreso que sequer me lembrava de respirar: Yoongi entrava na loja como se tivesse sido conjurado apenas com a força de meus pensamentos, vestido com uma calça preta e rasgada nos joelhos que moldavam suas pernas finas maravilhosamente bem e uma camiseta branca que exibia suas clavículas numa gola cavada, seus cabelos descoloridos recém-lavados e ainda úmidos caindo sobre os olhos e lhe dando a aparência de alguém que acabara de sair das minhas mais íntimas fantasias e tomara forma no mundo real apenas pra me seduzir. Em momento algum o loiro olhou na minha direção, parecendo não perceber minha presença atrás do balcão do caixa enquanto fazia seu caminho até o setor farmacêutico com passos lentos e preguiçosos.

Observei Yoongi pegar uma cesta de plástico vermelha e colocar nela algum item que não conseguia identificar o que era devido ao ângulo ruim, visto que a estante de prateleiras servia como uma espécie de barreira visual entre nós dois. Yoongi hesitou por um instante antes de colocar ainda mais itens dentro da cesta, parecendo satisfeito e caminhando até o caixa distraído com algo no celular, sem saber que meus olhos o acompanhavam o tempo todo. Só quando colocou-se diante de mim guardando o aparelho no bolso e ergueu o olhar, cesta ao lado do corpo e fora do alcance da minha vista, foi que percebi que talvez o loiro não estivesse tão alheio ao ambiente ao seu redor quanto pensava.

— Hey, Jimin. Não sabia que trabalhava hoje. – cumprimentou tentando parecer surpreso, mas por algum motivo peguei-me duvidando das suas palavras, ainda mais se levasse em conta o sorriso torto que exibia; aquele sorriso me dizia que não era nenhuma surpresa encontrar-me trabalhando essa noite. Na verdade, aquela expressão de gato que comera o canário me dizia que Yoongi planejava alguma coisa, e eu provavelmente não iria gostar nadinha do que era.

— Ah, é... eu geralmente pego os horários noturnos. – expliquei estupidamente, coçando a nuca e rindo fraco em nervosismo. – Hm... o q—o que está fazendo aqui?

— Nada demais. Vim comprar alguns produtos, apenas. Você poderia me dizer quanto isso custa? – pediu de forma casual, finalmente apoiando a cesta sobre o balcão e tirando dela nada menos do que dois tubos grandes da nossa melhor marca de lubrificante e pelos menos seis pacotes de camisinha, daqueles com três unidades cada. Encarei aquilo tudo com olhos arregalados por longos e vergonhosos segundos, piscando os mesmos descontroladamente e corando como uma colegial quando finalmente me dei conta do que estava vendo. Quando voltei meus olhos incrédulos pra si, Yoongi tinha um sorriso ainda mais evidente e perverso estampado na face, parecendo analisar cada mínima reação minha.

— P-pra quê tudo isso?! – exclamei, talvez um pouco mais alto do que o necessário, observando Yoongi tentar conter o sorriso e falhar enquanto o loiro se debruçava sobre o balcão e apoiava o queixo na palma aberta, tombando a cabeça pro lado de uma forma quase inocente, se não fosse pela travessura presente em seus olhos.

— Adivinha. – desafiou-me com divertimento na voz, seu tom caindo algumas oitavas num timbre tão grave e sedutor que fazia um calafrio percorrer minha espinha e ir direto pra virilha apenas pelo som que produzia, se não pela sugestão de suas palavras.

Eu podia ser virgem, mas não era estúpido. Sabia muito bem o que Yoongi pretendia fazer com aquilo tudo. Inclusive peguei-me imaginando inúmeras vezes o que Yoongi pretendia fazer com aquilo tudo. Quando senti a ponta de seus dedos acariciando minha entrada há poucas noites atrás, uma pequena parte de mim gostaria de saber como seria se aquele mesmo dedo ultrapassasse o anel de músculos e me invadisse com a ajuda de lubrificante, tornando o deslizamento mais suave. Uma pequena parte de mim estava louca pra conhecer e sentir tudo que o mais velho poderia me dar, mas ao mesmo tempo outra parte – a maior parte – sentia medo. Era exatamente a realização de que no fundo sentia medo do que estava por vir que me trazia tanta angústia; não sabia se seria capaz de seguir adiante quando chegasse o momento, principalmente se esse momento chegasse mais cedo do que esperava, mas não podia parar de pensar no que gostaria que o loiro fizesse comigo aqui e agora. Pensei que poderia me perder naqueles olhos escuros enquanto era bombardeado com imagens vívidas do que sonhara e fantasiara consigo na noite anterior, e até bem antes disso, tendo que morder os lábios e quebrar o contato visual pra conter um choramingo embaraçado, sentindo-me exposto e vulnerável sob a força de seu olhar. Yoongi apenas riu curto e baixo, parecendo tirar grande satisfação na minha desgraça.

— Vamos, Sunshine. Eu não tenho a noite toda. – quando ergui meus olhos novamente com um protesto na ponta da língua, pronto pra me declarar incapaz de dizer o que se passava na minha mente naquele instante, percebi que Yoongi não falava disso exatamente, mas sim dos itens que continuavam esquecidos sobre o balcão ao invés de serem registrados e devidamente pagos. Soltando um oh estúpido enquanto me atrapalhava todo com a caixa registradora, o rosto tão quente que poderia pegar fogo a qualquer instante, coloquei os produtos vergonhosos na sacola antes de receber algumas notas do mais velho e devolvê-lo o troco com uma frase pronta e ensaiada, agradecendo a preferência com voz trêmula. Yoongi sorriu, pegando a sacola e fazendo menção de ir embora, mas antes que pudesse se afastar por completo girou nos calcanhares e voltou na minha direção com uma expressão pensativa. – Que horas você sai?

Pego desprevenido, dei uma rápida olhada no relógio que ficava na parede logo atrás de mim e constatei que passava um pouco mais da meia-noite, quase na hora da troca de turno. – Hm... ainda tenho ce-cerca de q-quarenta minutos. Po-por quê? – gaguejei um pouco hesitante, questionando-me quais seriam suas reais intenções e se elas teriam qualquer coisa a ver com o que Yoongi acabara de comprar.

— Por nada. – respondeu com um encolher de ombros, o sorriso parecendo mais intimidador do que reconfortante. – Só curioso. Bom resto de trabalho, então. Até mais. – Yoongi despediu-se com um aceno casual, dando-me as costas de vez e desaparecendo pela porta da frente sem mais uma palavra ou sequer um olhar hesitante. Soltei todo o ar que não sabia ter prendido quando a porta fechou atrás de si com aquele mesmo ruído característico, sem saber se me sentia mais aliviado ou frustrado pelo outro realmente ter ido embora. Por um lado era bom poder respirar tranquilo e não ser alvo de constantes provocações, sérias ou não, mas por outro saber que teria que passar os próximos quarenta minutos sem serviço nem companhia era deveras decepcionante. Quase corri atrás do loiro pra lhe pedir pra ficar, mas por fim decidi contra. Não sabia o que aconteceria caso o fizesse, nem se estava pronto pra descobrir.

Quando meu colega de trabalho chegou pouco antes de uma da manhã e finalmente aliviou-me de meu posto tedioso, corri para o vestiário dos funcionários a fim de tirar o uniforme e trocar-me para roupas casuais, louco pra chegar em casa e descansar de um dia longo e cansativo. Porém, o que não esperava encontrar ao sair da loja pela porta dos fundos era um familiar carro preto estacionado do outro lado da rua deserta e Yoongi encostado contra sua lateral com os braços cruzados na altura do peito, sua postura dizendo-me que estava à espera de alguma coisa ou alguém. Não podia negar que meu coração bateu mais forte quando me dei conta de que esse alguém era eu, ainda mais quando tinha os olhos do mais velho fixos sobre mim, sua expressão pretensiosa e faminta ao mesmo tempo.

— O q-que faz aqui? Pensei que tinha ido embora. – disse com a voz fraca e olhos baixos quando me aproximei com passos contidos, engolindo em seco sob a intensidade de seu olhar. Minhas bochechas adquiriram um tom um pouco mais forte de rosa quando Yoongi descruzou os braços e afastou-se do carro, dando aquele pequeno passo pra frente que nos deixaria muito mais próximos e, consequentemente, me deixaria muito mais desconfortável.

— Eu ia, mas então pensei que não faria mal nenhum te esperar até seu turno acabar. Então, aceita uma carona? – ofereceu com um sorriso, seu tom casual e palavras inocentes. Sei que a explicação fazia sentido, pensava que era até gentil da sua parte esperar por mim, mas não podia deixar de duvidar das suas intenções. Yoongi não dissera exatamente pra onde essa carona me levaria, mas contra meu melhor julgamento peguei-me assentindo timidamente com a cabeça de qualquer forma.

O silêncio que havia dentro do carro enquanto Yoongi dirigia pelas ruas de Seoul era ensurdecedor, nítido e palpável como um organismo vivo que pesava meus ombros e sugava todo o ar de meus pulmões. Eu tinha os músculos tensos e olhos grudados no meu colo, brincando nervosamente com a barra da camiseta apenas pra ter algo com o que ocupar as mãos. Sequer me atrevia a olhar pro loiro, com medo do que poderia encontrar estampado em sua face caso o fizesse. Mais do que com medo, eu estava aterrorizado – sabia que não tinha sentido algum nisso, afinal era Min Yoongi quem estava ali ao meu lado, a única pessoa que fazia meu coração bater desritmado e na qual confiava meu corpo e até mesmo minha vida cegamente. Sabia que não tinha nada a temer pois o outro jamais faria algo que me machucasse ou causasse mágoa, mas não podia evitar. Imaginar como seria ter Yoongi dentro de mim e até mesmo fantasiar com isso era uma coisa, mas ter a oportunidade de realmente botar as fantasias em prática te encarando de volta era completamente diferente. Não sabia se estava pronto pra dar um passo tão grande, nem se saberia dizer quando a hora finalmente chegasse.

— Pra onde estamos indo? – perguntei com uma voz miúda e trêmula, praticamente sussurrada, na tentativa de quebrar o gelo e dissipar a tensão no ar. Mal sabia eu que a insegurança que deixei escapar sem querer só pioraria a situação, deixando o clima pesado ainda mais intenso.

— Pra onde você acha que estamos indo? – rebateu, e o sarcasmo mal disfarçado que encontrei na sua voz também não servira de nada pra me tranquilizar. Na verdade nem sabia como responder aquela pergunta, porque durante todo o percurso mantive meus olhos baixos e sequer tive coragem pra vislumbrar os arredores enquanto deixava que Yoongi conduzisse o caminho como queria e tentava aceitar meu destino imininente. Ao erguer os olhos esperava encontrar os prédios baixos e mal-conservados de tijolos típicos do distrito industrial da cidade, mas ao invés surpreendi-me ao reconhecer o caminho da minha própria casa. Como se confirmasse minhas suspeitas, logo o prédio onde morava surgia ao meu lado conforme Yoongi estacionava em frente ao mesmo, o divertimento claro no olhar quando me viu gaguejar abobado e corar violentamente por ter feito suposições equivocadas. – O que foi? Pensou que te levaria num motel pra fazer uso imediato do lubrificante que acabei de comprar?

— Si—q-quer dizer, não! Não, e-eu só... só pensei que—hm... – gaguejei, sentindo-me tão envergonhado que poderia enfiar a cabeça embaixo da terra e torcer pra morrer asfixiado. O rubor só piorou quando ouvi Yoongi rir descarado, claramente se divertindo com a situação embaraçosa que criara. Uma morte rápida e indolor seria muito bem-vinda agora, não ia negar; nunca me senti tão humilhado na vida.

— Está nervoso, não está? Eu posso sentir. – falou um pouco mais calmo, ainda que tivesse um sorriso remanescente da crise de risos estampado na face. Entretanto, quando finalmente criei coragem pra encará-lo nos olhos desde que entrara no veículo consigo, foi afeto que encontrei ali, não deboche. Senti meus ombros relaxar no mesmo instante, o efeito de suas palavras servindo pra eliminar completamente o peso que suportavam meros segundos atrás. Era impressionante o poder que Yoongi tinha sobre mim: ouvir aquilo me trazia um alívio que não poderia descrever, fazendo-me sentir como se o mais velho me entendesse num nível maior do que imaginava. Soltando um suspiro, peguei-me concordando relutantemente com a cabeça, lançando-lhe um sorriso apologético logo em seguida.

— É, confesso que estou com um pouco de medo. – admiti com um encolher de ombros desajeitado, arregalando os olhos e sentindo um leve desespero pra me justificar quando vi seus lábios serem puxados pra baixo no que seria o princípio de uma careta preocupada. – Mas não tem nada a ver com você, juro! Eu só não sei se estou preparado pra fazer algo tão íntimo ainda. Também não sei quando estarei. Sinto muito. – peguei-me olhando pras mãos no meu colo de novo, murmurando a última parte com vergonha e temendo decepcionar o mais velho com minhas dúvidas. Não queria que ele pensasse que não gostava o suficiente de si, porque isso não poderia estar mais longe da verdade. Se eu pudesse escolher dentre todas as pessoas no mundo pra ter meu primeiro contato sexual de verdade, esse alguém seria Yoongi. Eu confiava nele pra conduzir o ritmo e saber exatamente o que me faria sentir prazer, mas era difícil dar o salto de fé quando sentia que estava à beira de um precipício, encarando a escuridão vasta e sem fim do desconhecido.

— Yah, não se desculpe, seu idiota. – Yoongi ralhou em falsa repreensão, pegando-me de surpresa com um peteleco na testa e uma expressão mais relaxada no rosto, porém ainda claramente incomodada. – Não quis insinuar nada quando comprei aquilo tudo, era pra ser só uma brincadeira. Me desculpe se fiz parecer o contrário. Não quero que se sinta pressionado a fazer sexo por mim, ou por qualquer outra pessoa na verdade, mas principalmente por mim. Não precisa pedir desculpas, entendo como se sente. Eu mesmo estou cagando nas calças nesse exato momento.

— Cala a boca. Claro que não está. – soltei entre risos nervosos, revirando os olhos de forma afetuosa com a brincadeira. Yoongi no entanto mantinha a expressão estoica de quem falava muito sério, e talvez fosse isso que tornava a situação mais engraçada e difícil de crer. Por que o mais velho sentiria medo diante da ideia de intimidade se não era ele o inexperiente da relação?

— Não no sentido literal da palavra, mas isso não significa que não sinto medo também. – insistiu com o cenho franzido de indignação e os braços cruzados numa postura defensiva. – Sei o quanto esse momento é importante pra você. Eu só tenho uma única chance de fazer dar certo, por isso queria me esforçar pra te dar a noite mais especial e inesquecível de todas, mas e se eu fizer merda e estragar tudo? Como poderei conviver com a culpa se por acaso te decepcionar?

Sustentei seu olhar com olhos grandes e incrédulos, vendo-me estupefato e sem palavras, completamente sem reação diante de tamanha sinceridade. Nunca imaginaria que o loiro pudesse se sentir tão perdido quanto eu, afinal sempre o vi como uma pessoa destemida e indiferente à maior parte das coisas, mas o rubor que encontrei em sua face aborrecida não me deixava duvidar de que falava a verdade. Antes que pudesse perceber, peguei-me abrindo um sorriso aliviado e radiante para o mais velho, feliz de saber que era normal sentir medo e eu não era apenas um covarde que se escondia com a menor das provocações. – Hyung, você é um idiota. – disse por fim, recebendo um ruído de protesto confuso e indignado em resposta. – Nada que você faça poderá estragar nossa primeira noite juntos. Apenas o fato de podermos nos tocar e conhecer de forma tão completa, tão íntima, já faz toda a experiência valer a pena. De qualquer forma, sou grato pela compreensão. Sou grato por tudo que tem feito por mim. Não sei onde mais poderia encontrar alguém tão certo pra mim nesse mundo.

Agora era a vez de Yoongi encontrar-se sem palavras, piscando os pequenos olhos como se tivesse acabado de despertar de um sonho. Depois do que pareceu muito tempo, tentativamente, o mais velho alcançou minha mão e entrelaçou seus dedos com os meus, fazendo de tudo pra controlar a expressão facial ainda que a cor em suas bochechas só tivesse ficado mais intensa. – Pois é, eu sei. Sou mesmo um perfeito cavalheiro, não sou? – disse num falso tom de lamúria, soltando um suspiro cansado como se sua suposta perfeição fosse um fardo que tivesse que carregar pelo resto da vida. Não contive as risadas dessa vez, perplexo com a sua cara de pau enquanto desferia um tapa brincalhão em seu ombro com a mão livre.

— Você é um ridículo, isso sim. – rebati, dando-lhe a língua quando Yoongi bufou revoltado; fui pego de surpresa ao ser puxado pra um beijo nem dois segundos depois, com a mão do mais velho plantada firme na minha nuca enquanto seus lábios me calavam com sucesso.

— Cala a boca, Jimin. Não estraga o momento. – repreendeu-me sem nenhuma mordida ao juntar sua testa com a minha e encarar-me com olhos afetuosos, rindo quando o acusei de estragar o momento primeiro enquanto seus dedos se perdiam em meus fios de cabelo. – Eu precisava fazer uma piada, a atmosfera estava embaraçosa demais pra suportar. Mas não pense que não falo sério quando digo que farei tudo que estiver em meu poder pra te fazer feliz. Se isso significa que terei que esperar, então eu espero com o maior dos sorrisos no rosto. Não se preocupe com o tempo, só me diga quando sentir que está pronto, ok? – assenti com a cabeça, sobrecarregado demais pra formar frases coerentes com inúmeras emoções disputando por um lugar em meu peito ao mesmo tempo. – Não, sério, certifique-se de me avisar com antecedência pra eu conseguir providenciar as velas e as pétalas de rosa. Li em algum lugar que isso faz muito sucesso entre os virgens.

— Hyung! Pare de me provocar. – choraminguei com uma careta aborrecida, tentando me afastar dele apenas pra ouvi-lo rir abertamente antes de me puxar pra um segundo beijo, mais calmo e suave dessa vez. Eu jurava que podia sentir todo o carinho e afeição que o mais velho sentia por mim postos naquele beijo, por isso o prendi ali mesmo quando nossos pulmões protestavam pela falta de ar. Nos separamos com muito custo, apenas quando respirar se tornara uma questão de sobrevivência, trocando desejos de boa noite amuados porque nenhum de nós queria deixar o outro ir.

Saí do carro com o coração estranhamente pesado e leve ao mesmo tempo. Pesado porque me arrependi de não ter seguido adiante consigo no instante que parei meu trajeto até a entrada do prédio pra acenar em despedida e assistir o veículo tomar vida com um ronco do motor e sumir pelas ruas desertas da madrugada; leve porque sabia que a melhor coisa que me acontecera na vida foi ter me apaixonado perdidamente por Min Yoongi. Não importava mais o quão receoso estava, sabia que se fosse por ele seria capaz de superar meus medos mais cedo ou mais tarde, nem que fosse pra sentir aquela mesma devoção que sentia com seus beijos em sua plenitude. Quando me sentisse seguro, eu pularia no abismo do desconhecido sabendo que Yoongi estaria me aguardando no final da queda, com os braços abertos e pronto pra me pegar. Tudo que precisava era de um pouco de fé.