Hold me Tight

39 Quando se acorda um monstro que não quer mais dormir


— Yoongi POV -

A primeira coisa que notei ao acordar era que Jimin não estava ao meu lado. A segunda coisa foi o horário que o rádio-relógio na mesinha ao lado da cama me informou em números grandes e vermelhos: cinco e quarenta e cinco da manhã, cedo demais para alguém como Min Yoongi estar acordado. Eu estava disposto a adiar minha busca pelo paradeiro do mais novo até que meu cérebro estivesse suficientemente desperto para funcionar de forma correta, quando de repente um barulho vindo da sala de estar fisga meu interesse e afasta meu sono para longe. Grunhindo com o esforço necessário para levantar da cama e balbuciando maldições ao mesmo tempo em que torcia veementemente para que o autor do ruído fosse Jimin e não um ladrãozinho qualquer tentando a sorte grande em meu humilde apartamento, dirigi-me até sua origem sentindo como se fosse uma espécie de detetive em ação.

— Jimin? Você está ai? – perguntei hesitante, aproximando-me com passos cautelosos enquanto desejava ter uma arma em mãos, qualquer coisa que pudesse me passar um pouco de segurança.

— Estou aqui, hyung. – pude ouvir a voz doce do menino vinda de algum lugar atrás do sofá gasto no meio da sala. Soltei pesadamente o ar que não sabia que estava segurando durante esse tempo todo, mal conseguindo conter o suspiro de alivio que senti ao constatar que o apartamento não estava sendo saqueado.

— O que está fazendo ai? – indaguei, bocejando e coçando os olhos na esperança de afastar o sono de vez, sentindo-me seguro e um pouco bobo por ficar tão tenso a partir de um mísero ruído.

— Limpando. – foi a resposta simples que recebi em troca, o que acabou por despertar ainda mais a minha curiosidade e, consequentemente, minha mente. Ele não havia acabado de fazer exatamente isso? Quanto trabalho um simples apartamento de quatro cômodos poderia dar? Percorri o resto do caminho até ele com passos largos, contornando o móvel para lhe perguntar exatamente isso, porém a pergunta morreu na garganta assim que coloquei meus olhos sobre si.

— O... O q-q... O q-quê... – gaguejei estupidamente com a visão diante de mim. Como na noite anterior, Jimin estava de joelhos no meio da sala, o tronco abaixado até quase encostar-se ao chão e o braço esticado desaparecendo por baixo do sofá; a única diferença era que, dessa vez, Jimin trajava um vestido de seda na cor rosa claro com babados e laços em branco que combinavam com o avental e tiara que o acompanhavam, meias finas que moldavam suas pernas e agarravam suas coxas, sapatos de salto grosso que lhe davam a aparência de uma boneca e um espanador firmemente preso na mão livre. Enquanto minha mente trabalhava num frenesi atrás de respostas, tentando pensar se seria possível que Seokjin tenha contrabandeado um vestido de empregada pra dentro da minha casa enquanto eu não estava olhando, meus olhos devoravam a figura do outro, incrédulos com que o que viam à menos de um metro adiante no meio da sala de estar, porém ávidos por mais.

— Hm… estou q-quase… lá… – Jimin praticamente choramingou, sua voz estrangulada pelo esforço que fazia ao se esticar, ignorando completamente minhas palavras inacabadas. Ao que parecia havia algo debaixo do sofá fora de seu alcance, pois assim que proferiu tais palavras dúbias, o menino esticou-se ainda mais, pressionando o corpo contra o chão o máximo que podia. O movimento causou um leve reajuste de seu vestido, que subiu por suas pernas revelando muito mais pele do que eu me recordava da noite anterior. Um calor inexplicável surgiu no meu baixo ventre e lentamente tomou conta de meu corpo assim que vislumbrei a fina e delicada renda de uma calcinha cor de rosa que envolvia suas nádegas fartas e aprisionava seus testículos. – Oh, encontrei! – exclamou ao sentar-se sobre os calcanhares e escondendo aquela visão estranhamente deliciosa ao fazê-lo, trazendo consigo nada menos do que uma venda.

— O q-que é isso? O que estava fazendo aí embaixo? – questionei de forma estúpida mais uma vez, ficando ainda mais confuso quando fui agraciado com o olhar de puro desejo e luxúria que Jimin me enviava por cima do ombro.

— Quer brincar, hyung? – perguntou de forma quase inocente, sorrindo sem vergonha enquanto enrolava a venda entre os dedos pequenos. Algo no modo como ele formulara a pergunta deve ter despertado uma força impetuosa e animalesca dentro de mim, pois no instante seguinte Jimin estava jogado no chão sob meu corpo, os cabelos bagunçados e o vestido suspenso ao redor da cintura, deixando suas coxas denudas completamente expostas para que eu pudesse correr minhas mãos por elas.

O pequeno ruído que escapara de seus lábios com o impacto apenas servira pra me incentivar a continuar; eu jamais admitiria caso perguntassem, mas seus miados dengosos mexiam com uma parte profunda e obscura de minha mente, uma parte que ficara extremamente satisfeita e excitada com aquela situação inusitada. Uma parte que queria ouvir mais daquela voz melodiosa choramingando súplicas ao meus ouvidos, uma parte que gostaria de devorar o garoto sob mim. Assustei-me ao me dar conta de tais pensamentos, genuinamente surpreso por alimentar desejos tão lascivos em relação ao outro. Minha mente estava girando, embriagada com seu cheiro e o calor do seu corpo, e por um momento eu quis parar, respirar fundo e botar ordem nos meus pensamentos nublados pela luxúria. Aquilo não estava certo. Estávamos indo rápido demais, afoitos demais, impacientes demais. Não era dessa forma que eu imaginava que finalmente o tomaria como meu. Contudo, por mais que eu quisesse fincar os pés no chão com a teimosia de uma mula e distanciar-me daquela circunstância maluca – porém extremamente excitante, não podia negar –, no momento em que Jimin afundou os pequenos dedos gordinhos nos fios loiros de minha nuca e puxou-me para um beijo desleixado e quente a ponto de me tirar o fôlego, pude sentir meu auto controle ruindo como uma barragem que fora incapaz de segurar a inundação de prazer que aquele ato me proporcionara.

Retribui o beijo com a mesma intensidade que o mais novo o iniciara, viciado no gosto doce de sua língua e ansioso para engolir os pequenos sons de prazer que jorravam de sua boca carnuda como água. Senti as coxas grossas de Jimin envolverem minha cintura num aperto de ferro, aprisionando-me entre elas a fim de impedir qualquer tentativa de fuga – não que eu fosse tentar algo tão absurdo. Não consegui resistir o ímpeto de correr minhas mãos por elas, deslizando-as por toda a extensão de sua pele saudavelmente bronzeada até encontrar a curva de sua bunda, pele firme e macia por baixo da renda fina da calcinha que a envolvia. Com uma ousadia que eu não sabia que possuía, apertei suas nádegas com propósito ao mesmo tempo que rolava os quadris de encontro com os dele, recebendo um gemido longo e arrastado em resposta. Antes que eu pudesse repetir o ato, curioso para descobrir as diferentes reações que poderia arrancar de Jimin, senti seus braços envolvendo meu pescoço enquanto suas mãos fechavam-se em punho ao redor das costas da minha camisa. Porém, ao invés de puxar-me para perto, senti meu corpo sendo puxado para longe e para cima, como se estivesse sendo sugado por uma força gravitacional invertida, o impulso repentino causando-me vertigem: o ar arrancado bruscamente de meus pulmões, olhos fechados com força na confusão, o calor do corpo de Jimin sem jamais deixar minha pele.

Desnecessário dizer que sentia-me tonto e desorientado quando abri os olhos novamente e fui saudado por um emaranhado de cabelos castanhos que tampavam todo o meu campo de visão. Meu cérebro ainda estava muito confuso tentando compreender a súbita mudança de eventos quando finalmente pude reparar no ambiente ao redor. Eu estava de volta ao meu quarto, colchão velho sob meu corpo e lençóis finos presos entre minhas pernas, mas eu não estava sozinho; Jimin ainda dormia profundamente ao meu lado, a presença sólida e quente de suas costas contra meu peito, o doce aroma de seu shampoo invadindo minhas narinas. A realização de que tudo aquilo não passara de um sonho – um bem pornográfico, diga-se de passagem – quase arrancou-me uma risada. Era típico do meu subconsciente provocar-me com imagens tão pervertidas e assustadoramente reais, apenas para desapontar-me logo em seguida ao me despertar na pior hora possível, de forma brutal, como se arrancasse doce de uma criança.

Uma breve olhada na direção da mesinha ao lado da cama revelou-me um rádio-relógio quebrado que não indicava hora alguma; entretanto, a fraca e quase imperceptível luz que esgueirava-se por entre as frestas das pesadas cortinas na janela denunciava a presença do Sol – se ele acabara de nascer ou se já passava do meio dia eu não saberia dizer. De qualquer forma, eu estava disposto a ignorar esse pequeno detalhe e voltar a dormir agarrado ao urso de pelúcia em tamanho real que era Park Jimin, se o garoto não escolhesse justo esse momento para mover-se ligeiramente em seu sono, de modo que suas firmes e avantajadas nádegas roçassem contra a parte da frente de minhas calças e assim fazendo-me perceber o extremamente óbvio e desconfortável volume que se formara ali enquanto ainda estava inconsciente sonhando com obscenidades.

Tal contato, por mais breve e sutil que fosse, despertou-me um calor no baixo ventre muito semelhante àquele que sentira no sonho e, em paralelo, aquele sentimento angustiante de auto consciência e vergonha mórbida por estar duro na presença do outro, tão inocente e alheio às peças perversas que minha mente era capaz de pregar. Se até então aquele movimento totalmente compreensível e livre de malícia fora capaz de me deixar completamente desperto, senão embaraçosamente petrificado, prendendo a respiração enquanto tentava ignorar as fisgadas dentro das calças, o som que saíra dos lábios do mais novo, uma mistura de miado dengoso com grunhido sonolento, fora a gota d’água que restava para ultrapassar meus limites. A visão de Jimin pela manhã, ainda dividido entre o sono profundo e o princípio do despertar, com cabelos rebeldes e um bico adorável nos lábios, somado com a indescritível sensação do seu corpo quente e suave contra o meu e as imagens grosseiras que invadiam minha mente sem permissão apenas pra me atormentar, fora tudo que eu precisava para finalmente surtar e fazer algo a respeito.

Nesse caso, ao contrário do que meu corpo desejava, minha mente sensatamente achou que seria melhor se eu me jogasse pra fora da cama como se a mesma estivesse em chamas – poderia muito bem estar, caso eu decidisse dar ouvidos aos desejos carnais que ameaçavam ruir meu auto controle e tomar conta de minhas ações, mas o impacto brusco com o chão frio serviu perfeitamente para apagar as brasas antes que se formasse um incêndio. O grunhido doloroso e patético que escapou dos meus lábios juntamente com todo o ar dos meus pulmões deve ter acordado Jimin, pois no momento que rolei no chão para encarar o teto, seu rosto foi a primeira coisa que vi. O garoto equilibrava-se na beirada da cama, me espiando com olhos igualmente curiosos e confusos, as pálpebras ainda pesadas de sono.

— O que faz ai, hyung? – indagou-me de cenho franzido, como se seu cérebro recém desperto não fosse capaz de adivinhar a resposta mais óbvia.

— O que parece que eu estou fazendo? Procurando moedas? – não era minha intenção soar assim tão rude, mas eu não podia negar que sarcasmo pela manhã era minha especialidade. Tentei levantar-me e fazer parecer que a queda havia sido totalmente proposital, mas assim que apoiei os cotovelos no chão para me servir de impulso, uma dor lacerante percorreu toda a extensão do meu braço e ombro, onde fui baleado. Tive que cerrar os dentes para prender um urro de dor, mas confesso que não estava fazendo um trabalho lá muito bom. Imediatamente desisti de sustentar meu próprio peso e deitei-me no chão, respirando pesadamente pelo nariz enquanto esperava a dor passar. – Eu caí da cama, ok? Agora me ajude a levantar.

Como esperado, eu sempre podia contar comigo mesmo para soar rude e autoritário até em momentos de necessidade como esse, mas também podia contar com Park Jimin para obedecer sem pestanejar. Na verdade, eu nem precisava ter pedido – ou, no caso, mandado: o mais novo já estava de pé antes mesmo das palavras terem saído da minha boca. Jimin ergueu-me com uma delicadeza que me fazia indagar se por acaso minha pele não seria feita de porcelana, tomando o devido cuidado para não mexer na área problemática. Deixei que ele me sentasse na cama como se eu fosse um velho incapaz, mas apesar de um pouco dolorido, eu me sentia bem se comparado ao dia anterior – abençoado seja Seokjin e seus remédios. Foi estúpido cair da cama apenas por causa da vergonha e medo de encará-lo naquelas circunstâncias embaraçosas, mas no momento que o garoto esgueirou suas mãos pequenas por debaixo da minha camiseta, claramente na intenção de tirá-la, eu comecei a me questionar se talvez cair na cama não tivesse sido uma ótima ideia, afinal.

— O-o que está fazendo?! – praticamente guinchei, afastando suas mãos com um tapa e envolvendo meu tronco protetoramente com os braços, como se fosse uma virgem tentando preservar sua inocência. Não que eu fosse virgem, de maneira alguma. Se as circunstâncias fossem diferentes, talvez eu pudesse reagir de outra maneira: soltar uma piadinha suja para provocá-lo, ou quem sabe até ajudá-lo na tarefa. Mas enquanto eu sentia a ponta de seus dedos passearem pela pele sensível na lateral do meu abdômen, tudo que eu conseguia pensar era em sua bunda carnuda dentro de uma calcinha de renda.

— Você caiu em cima do machucado, hyung. Pode ser que tenha aberto um ponto, ou pior. Nós precisamos checar pra ver se está tudo bem. – Jimin tentou argumentar, seu rosto a verdadeira imagem da inocência, confuso pela minha postura defensiva. Pelo menos ele não tentou me tocar de novo, suas mãos permanecendo imóveis ao lado do corpo, o que eu já considerava uma vitória.

— Eu estou bem, não aconteceu nada. – retruquei de forma seca, ainda em alerta como se me sentisse ameaçado pela mera presença do mais novo, o que era ridículo. Jimin tinha aquela expressão de um filhote que fora abandonado na chuva e chutado no estômago repetidas vezes, o que quase me fez querer pedir desculpas; porém, se ele soubesse o que passara na minha mente agora à pouco, eu desconfiava que minhas desculpas não serviriam pra muita coisa. Ainda assim, meu fraco por filhotes tristes e Park Jimin me obrigou a tentar amenizar o golpe. – Obrigado por se preocupar.

— Eu sempre me preocupo, Yoongi. É você quem nunca me deixa ajudá-lo, então eu fico sem saber o que fazer. – respondeu com um beicinho impressionante nos lábios. Tão impressionante que inexplicavelmente me deu vontade de eliminar com um beijo. Antes que eu pudesse pensar melhor no que estava fazendo, puxei-o para baixo pela camisa até que seu rosto estivesse no mesmo nível do meu e fiz exatamente o que desejava, selando nossos lábios de forma doce e suave.

Apesar do contato casto, novamente pude sentir uma fisgada insistente na região da cueca, e nesse momento percebi que ainda estava vergonhosamente excitado – nem a queda no chão duro e a dor no ombro foram capazes de eliminar esse desconfortável problema. Afastei Jimin bruscamente no instante que tive tal realização, interrompendo o ósculo antes que ele pudesse tomar maiores proporções e colocar-me numa posição ainda mais difícil. Já era um milagre em si só o fato do mais novo ainda não ter notado meu estado; quer dizer, se ele notou, preferiu não comentar o assunto. Mas Jimin certamente notou a diferença no meu comportamento, e isso era evidente em seu rosto: cenho franzido e lábios levemente projetados num quase-bico, uma expressão que ameaçava transformar-se naquela de um cãozinho perdido, o que me encheu de remorso e deu-me uma vontade súbita de me justificar para o mais novo.

— Desculpe, e-eu... eu preciso ir no banheiro. – balbuciei nervoso o que acreditava ser a desculpa mais esfarrapada no universo antes de colocar-me de pé e contorná-lo desajeitadamente pela minha fuga até o banheiro. Não esperei ou sequer olhei pra trás pra saber que tipo de expressão o garoto tinha quando atravessei a porta do quarto, mas eu tinha um forte palpite.

Uma vez dentro da segurança que apenas as paredes frias de azulejos do meu banheiro poderiam proporcionar, a primeira coisa que fiz foi trancar a porta atrás de mim – por precaução. A próxima coisa foi apoiar as mãos na pia de porcelana e ficar encarando meu reflexo no espelho gasto até que aqueles pensamentos impuros desaparecessem da minha mente e, por consequência, deixassem de afetar meu corpo. Quando isso não funcionou, abri a torneira da pia e joguei água gelada sobre minha face, certo de que o choque térmico da água contra meu rosto quente faria o truque. Quando isso também não serviu de nada, não tive outra opção senão tomar um banho. Um banho bem demorado, mas isso podia ser facilmente justificado com meu ombro ferido e movimentos atrapalhados.

Estupidamente, eu só fui reparar que não havia levado nenhuma muda de roupa pro banheiro quando saí do banho, pingando da cabeça aos pés e aliviado daquele incômodo que me atormentava. Praguejando minha falta de sorte e xingando-me mentalmente com as mais diversas e nem um pouco eloquentes variáveis de estúpido, enrolei uma toalha na cintura e abri cuidadosamente a porta do banheiro, temendo encontrar a causa do meu desconforto e jogar todo o trabalho que tive para livrar-me dele pelo ralo – nesse caso, literalmente. Quando percorri os olhos pelas imediações e não encontrei nem sinal de Jimin, soltei o ar que estava prendendo e esgueirei-me até o quarto como um ladrão na madrugada, rezando para todos os deuses que estivessem ouvindo para que encontrasse o recinto vazio. Felizmente os deuses estavam de bom humor, pois minhas preces foram atendidas; não havia mais ninguém no quarto, o que me fez deduzir que o mais novo pudesse estar na cozinha atrás de algo comestível para o café-da-manhã – não que ele pudesse ter sucesso, obviamente.

Não perdi tempo para colocar roupas limpas, algo simples e confortável, afinal de contas eu estava na minha própria casa e não tinha planos pra ir em lugar algum. Antes de me vestir completamente eu ainda levei um certo tempo para trocar o curativo ao redor do meu peito, que apresentava uma pequena mancha de sangue antes escondida pela camiseta escura que havia usado pra dormir. Não foi uma das tarefas mais fáceis, principalmente por causa do ombro ainda sensível, mas eu não queria arriscar pedir ajuda à Jimin e ter que suportar seus dedos sobre minha pele de novo. Eu simplesmente não confiava em mim mesmo numa situação tão íntima com o outro – não sabia se estava completamente livre dos efeitos daquele maldito sonho, ou se qualquer estímulo pudesse me trazer de volta à estaca zero.

Chegava a ser irracional o medo que eu sentia de enfrentá-lo, mas também não via nenhuma lógica no modo como meu corpo estava reagindo à sua presença, sem mais nem menos. Claro, eu nutria sentimentos por Jimin, e como o homem saudável que era, não era de se espantar que eu nutrisse também algum tipo de desejo carnal pelo garoto. Mas até hoje isso nunca fora um problema; ou melhor, até hoje esse desejo era algo facilmente controlável. Bastou um sonho erótico e, acima de tudo, perturbadoramente pervertido para acabar com todo o controle. Na verdade, sonhar com Jimin era até natural. O que mais me espantava era o nível de depravação, as fantasias distorcidas que a minha mente era capaz de criar. E o pior de tudo: eu havia gostado.

Um fraco ruído na cozinha interrompeu meu auto flagelamento, lembrando-me de que eu não estava sozinho no apartamento e que muito provavelmente Jimin estaria se perguntando se por acaso eu me afoguei no banheiro ou pulei a janela, visto que a minha escapada durara bem mais do que alguns poucos minutos. Com o curativo trocado na melhor das minhas capacidades, enfiei-me numa camiseta velha e fui investigar a fonte do ruído, ainda que esse ato me trouxesse uma forte sensação de déjà vu. Quando o encontrei, Jimin não estava de joelhos diante do sofá da sala e nem trajando um vestido rosa de empregada, mas sim abrindo e fechando as portas dos armários da cozinha, imerso na sua jornada à procura de comida de verdade, e não aquelas porcarias industrializadas que eu costumava comer. Sem dúvida sua missão se provara mais difícil do que imaginava, portanto resolvi tomar pena do garoto e poupar-lhe o trabalho.

— Se você está procurando algo pra comer, eu só tenho uma caixa de cereais. Devo ter leite na geladeira também, mas pode ser que tenha acabado. – anunciei ao empoleirar-me no banco alto da bancada, observando-o me olhar com uma expressão estranha antes de desistir da sua busca.

— Eu vi o leite na geladeira, mas ele está muito próximo da data de vencimento. – disse ao fazer uma careta.

— O que não mata engorda, não é o que dizem? – encolhi os ombros, pondo-me de pé para pegar a caixa de cereais e duas tigelas de porcelana, ambas impecavelmente limpas, graças à Jimin.

— Yoongi. – resmungou o mais novo, suspirando em derrota logo em seguida. – Você precisa ter comida de verdade na sua casa, comida saudável. Não é à toa que você é tão magro, comendo mal desse jeito.

— Você está soando como Seokjin, sabia disso? – provoquei, não dando uma foda para seus sermões maternais enquanto pegava o leite. Eu já tinha uma mãe, não precisava de duas.

— Estou falando sério. Não coma isso, espere até que eu vá no mercado comprar alguma coisa. – Jimin ordenou ao mesmo tempo que fazia menção de sair da cozinha, mas parou estupefato quando o impedi com uma mão em seu pulso.

— Não vá. – pedi.

— Por que não? Eu vou ser breve, prometo. – sorriu, senão um pouco confuso, ao tentar livrar seu braço de minha posse, mas isso só fez com que eu apertasse mais.

— Eu disse pra não ir. – insisti, tentando não soar muito rude, mas falhando miseravelmente. Pra falar a verdade, eu não sabia muito bem porque era tão contra a ideia de Jimin sair do apartamento, mesmo que por um breve instante. Eu sabia que estava morto de fome e não aguentaria esperar nem um segundo para colocar algo dentro do estômago, mas não era apenas isso. Se eu fosse completamente honesto comigo mesmo, diria que eu gostava da companhia de Jimin, e que estava começando a me acostumar com a sua presença na minha casa pela manhã. Dormir ao meu lado, acordar ao meu lado. A verdade, nua e crua, era que eu não queria ficar sozinho. – Jin pode fazer isso pra mim depois. Vamos comer. – pedi, lançando um sorrisinho que eu esperava que fosse suficiente para apagar qualquer impressão errada que lhe tivesse passado.

Jimin continuou me fitando de forma estranha porém não disse mais nada, optando por juntar-se à mim na bancada da cozinha para comer o cereal assim que acabei de prepará-los. Um silêncio confortável se instalou no ambiente enquanto comíamos, sendo a única coisa audível o distinto ruído do metal da colher contra a porcelana da tigela, ainda que Jimin estivesse se saindo muito melhor do que eu na tarefa. Como meu braço dominante estava um tanto incapacitado, fui obrigado a usar a mão canhota, o que acabou resultando em algumas colheradas desajeitadas na bochecha e nariz.

— Quer ajuda? – perguntou-me o mais novo, cautelosamente, reparando a dificuldade que eu tinha para uma tarefa tão simples quanto comer cereal mas sem querer me ofender ou parecer um completo chato. A mera sugestão de ser alimentado por Jimin me enchia de felicidade e vergonha ao mesmo tempo, um sentimento que eu simplesmente não sabia como lidar.

— Não, tudo bem. Acho que eu consigo fazer sozinho. – assegurei-lhe, decidindo que a melhor estratégia seria bancar o teimoso de sempre e vencer esse obstáculo sem a ajuda de ninguém. Jimin murmurou baixo em concordância e permaneceu quieto, mas eu podia sentir seus olhos hesitantes sobre mim a cada cinco segundos. Tanto que chegava ao ponto de ser enervante, então decidi mudar para uma estratégia diferente. – Você quer tanto assim me dar comida na boca?

— Pelo menos uma vez. – admitiu, sorrindo acanhado. – Eu me lembro da vez que você fez o mesmo por mim. É um pouco embaraçoso admitir, mas eu realmente gostei daquilo e eu só pensei que... deixa pra lá. Você já disse que não precisa e eu continuo insistindo. Não se preocupe comigo, eu entendo. – Jimin tinha um dom especial para falar rápido quando estava nervoso, uma habilidade que poderia se equiparar até mesmo às minhas próprias habilidades no rap. Eu costumava achar esse traço extremamente irritante, mas agora só consigo achar adorável.

— Aish, que criança problemática. Você é realmente irritante, sabia? – resmunguei um pouco para ao menos parecer contrariado e manter as aparências, mas no fundo eu sabia que Jimin havia ganhado desde o momento que fizera a sugestão.

— Isso é um sim? – perguntou esperançoso, uma expectativa infantil na voz e nos olhos que eu não simplesmente podia ignorar, muito menos resistir.

— Sim, Park Jimin. Você pode me dar comida na boca. Mas só uma vez. – acrescentei com o indicador erguido diante de seus olhos antes que o garoto pudesse comemorar. Ao contrário do que eu acreditava, Jimin apenas concordou com a cabeça, sem nunca diminuir o sorriso radiante que tinha no rosto. Tirando cuidadosamente a colher de minhas mãos, o garoto guiou uma porção considerável de cereal até meus lábios com olhos expectantes enquanto fazia ruídos esquisitos que imitavam um avião, o que só tornava a situação mais ridícula. Eu podia sentir minhas bochechas em brasa quando forcei minhas mandíbulas travadas à abrirem passagem para a comida, ainda que minha vontade era de mandar aquele aviãozinho voando pela janela. O mais curioso era que, enquanto mastigava tentando não fazer uma cara muito feia, havia uma pessoa capaz de ficar ainda mais vermelha do que eu: Jimin. Como era possível alguém tomar tanta satisfação num gesto bobo como esse?

— Eu também não sei. – respondeu simplesmente, encolhendo os ombros. Apenas quando o rubor nas bochechas fartas de Jimin se intensificou foi que percebi que havia vocalizado meus pensamentos, causando-me uma reação muito parecida com a do mais novo. Ao invés de tentar dizer mais alguma coisa para consertar a gafe ou me esconder como eu realmente queria, contentei-me em abrir a boca mais uma vez num convite silencioso que Jimin fora rápido em captar.

Felizmente o garoto desistiu de fazer barulhos vergonhosos como acompanhamento sonoro, optando por me alimentar em silêncio; entretanto, o modo como seus olhos mal ficavam visíveis, escondidos atrás de um sorriso capaz de rivalizar o próprio Sol denunciava sua felicidade. Em momentos como esse eu me dava conta de que Jimin não passava de uma criança, inocente e fácil de agradar. Isso me enchia com uma vontade de protegê-lo e satisfazer todos os seus desejos e caprichos, em igual proporção. Chegava a ser patético o modo como eu deixava que o garoto me influenciasse tanto.

— Viu como não é nada mal pedir ajuda de vez em quando? – caçoou ele uma vez que a tigela estava vazia. – Se não fosse por mim, você ainda estaria lutando contra aquele cereal até a hora do almoço.

— Cala a boca, Jimin. – resmunguei sem a habitual acidez, pois sabia que provavelmente estaria certo. Isso só arrecadou-me risadinhas infantis e borbulhantes de sua parte, risadas essas que o moreno fez um péssimo trabalho em esconder. Sinceramente, o que eu fiz pra merecer isso? – Você não tem algo pra fazer não, além de me importunar? Sei lá, faculdade, qualquer coisa.

— Eu ainda estou de férias de verão. – respondeu simplesmente, sem diminuir o sorriso. – Então estou livre pra te importunar o dia inteiro. Eu disse que cuidaria de você, não disse?

— Cuidar de mim por acaso envolve tirar sarro da minha cara? – a pergunta era retórica, mas Jimin concordou avidamente com a cabeça mesmo assim. Rolei os olhos. – E quanto ao trabalho? Que eu me lembre você tinha dois empregos. Não tem que comparecer à nenhum?

— Bom... – começou, enrolando a resposta e desviando o olhar. – Na verdade, teria sim. Mas ontem à noite eu mandei uma mensagem pra ambos os meus chefes, dizendo que tinha um problema na família e que precisava tirar mais alguns dias de folga pra cuidar disso.

— É isso o que chama de “problema na família”? Eu pareço família pra você, por acaso? – indaguei, cético, indicando o ambiente ao redor com um gesto genérico da mão. Nunca pensei que Jimin fosse capaz de mentir para os chefes dessa maneira; o garoto sempre me pareceu tão centrado e responsável com as coisas que fazia. Bom, acho que, mais do que isso, ele também leva suas promessas muito à sério. E ele prometeu cuidar de mim, afinal de contas. Mesmo que eu não precise.

— Do que mais eu poderia te chamar? – questionou, o tom brincalhão com uma pitada de curiosidade genuína escondida sob a superfície. Eu não sabia como responder à essa pergunta, e pra falar a verdade eu tinha medo da resposta. O que nós éramos, afinal? Certamente éramos muito mais do que simples amigos, mas eu não sabia se estava preparado para colocar algum rótulo na nossa relação. O que tínhamos era fácil, leve e descontraído, e eu temia que, ao colocar um nome, acabaria por só trazer complicações e dor de cabeça. Portanto, ao invés de lhe responder, eu apenas encolhi os ombros e movi-me para colocar a louça suja na pia. Fugindo como sempre. Patético.

Pressentindo o meu desconforto, Jimin não tocou mais no assunto, preferindo se juntar à mim no sofá da sala – aquele mesmo que servira de cenário para sonhos que eu prefiro não lembrar – enquanto eu procurava algo remotamente interessante pra assistir na televisão. O silêncio estava começando a me incomodar, por isso resolvi tomar a iniciativa e quebrá-lo. – Quer dizer que eu terei você por aqui por tempo indeterminado?

— O que foi, quer se livrar de mim assim tão cedo? – brincou, o sorriso fácil de volta aos seus lábios. – Não por tempo indeterminado, não. Há um limite para até onde eu posso adiar meus compromissos, e temo que esse limite esteja se aproximando. Além disso, eu prometi pra Hoseok-hyung que praticaria dança com ele essa semana, mas acho que posso cancelar. Apesar de já ter cancelado uma vez... – disse mordendo a parte interna da bochecha, parecendo incerto quanto às suas opções.

— Praticar dança com Hoseok? Pra quê? – eu tentei ao máximo não deixar transparecer meu desconforto e descontentamento ao imaginar os dois juntos no mesmo ambiente, confraternizando como velhos amigos. Não gostava nenhum pouco da ideia de Jimin ser tão próximo do ruivo, porque simplesmente não confiava nele. Mas controlar com quem o mais novo anda e faz amizade está fora do meu alcance e, de qualquer forma, eu seria a última pessoa à ditar regras na vida de alguém desse jeito.

— Nós vamos nos apresentar juntos, lembra? Como prêmio pela competição de dança que eu ganhei alguns meses atrás. – esclareceu-me, sua voz adquirindo um timbre mais animado e o brilho em seus olhos retornando. O punhal que senti cravado no estômago não era ciúmes, de forma alguma. Não mesmo.

— Ah, é verdade. Me lembro de você ter comentado algo do tipo. – disse seco, tentando manter a carranca longe de meu rosto. – Você já tem algo em mente? Sabe o que vai apresentar?

— Não. – respondeu de forma sincera, correndo as mãos pelo rosto. – Não faço a menor ideia, e já estou começando a me desesperar. O show é daqui há algumas semanas, e eu não preparei nada. Por isso queria me encontrar com Hobi-hyung, ele saberia o que fazer.

— Calma, Sunshine. Não há motivos pra se desesperar. – disse, dando tapinhas reconfortantes em sua coxa, tentando passar segurança para o mais novo. – Se tudo der errado, lembre-se que quem vai perder fãs é o Hoseok, não você.

— É exatamente isso que eu não quero que aconteça! Hyung, você queria me confortar ou o quê? – exclamou o garoto, incrédulo e parecendo trinta vezes mais preocupado.

— Me desculpe. – pedi entre risadas mal disfarçadas, sentindo-me nem um pouco apologético. – Ok, vamos começar pelo principal. Você já escolheu as músicas que quer dançar? Ou o Hoseok cuida dessa parte?

— Eu... eu não sei. Acho que não. Acho que preciso escolher as músicas dos meus números. – Jimin ainda soava incerto, voltando com aquele hábito nervoso de morder os lábios e o interior das bochechas enquanto pensava.

— Você acha? Jimin, você não está se ajudando muito desse jeito. – repreendi, assistindo o garoto voltar aqueles olhos grandes e perdidos na minha direção.

— Hyung, me ajuda. – implorou, parecendo à beira de lágrimas.

— O que você quer que eu faça? – suspirei.

— Me ajude à escolher uma música. Eu não quero nada muito óbvio, ou que muitas pessoas já tenham coreografado. – respondeu com um pouco mais de certeza, um brilho de determinação se fazendo presente em seus olhos.

— Você se dá conta de que qualquer música existente já possui uma coreografia feita por várias pessoas no mundo, não é? – indaguei. Eu não queria decepcioná-lo, mas originalidade era algo difícil de conseguir hoje em dia.

— Mas hyung, essa vai ser minha única oportunidade de causar uma boa impressão nas pessoas. Serão os fãs de J-Hope que estarão na plateia, analisando todos os meus passos e me julgando por cada um deles. Eu também sou fã do J-Hope, então não quero manchar sua reputação com uma dança fraca. Não quero ser lembrado por ser mais um que apenas faz mais do mesmo.

— Então o que você quer? – repeti, com mais ênfase dessa vez. – A única maneira de ser completamente original é se alguém produzisse uma música exclusivamente pra você.

— Droga. Eu não conheço nenhum produtor musical. – suspirou derrotado.

— Bem... – comecei, desviando o olhar para a televisão, que agora passava um programa cômico qualquer, sentindo-me extremamente auto consciente e ridículo por estar prestes a me vender para o mais novo. – Eu produzo algumas músicas. Não sou nenhum profissional, mas... posso fazer isso por você, se quiser.

Quando não recebi resposta ou sequer uma reação por longos e torturantes segundos, voltei minha atenção para o moreno apenas para vê-lo com a expressão mais excitadamente embasbacada que eu já tinha visto. Sua boca estava aberta em choque mas puxada nos cantos por um sorriso, os olhos mais brilhantes que qualquer estrela. Antes que eu pudesse perguntar o que tinha de errado na minha cara, o mais novo atirou-se sobre mim, envolvendo-me num abraço apertado.

— Obrigado, Yoongi! Mil vezes obrigado! Você salvou minha vida. – agradeceu contra a pele do meu pescoço, o roçar de seus lábios macios causando-me arrepios por todo o corpo. Me permiti ficar abraçado com o garoto por mais alguns instantes, antes que meus pensamentos tomassem um rumo muito perigoso. Depois afastei-o com delicadeza, agindo como se a proximidade não tivesse me afetado em nada.

— Que tipo de música você tem em mente? – tentei trazer o assunto de volta sem parecer forçado. – Se tudo que você precisa é de uma melodia, eu consigo facilmente produzir alguma coisa no meu notebook. Se quiser uma voz pra acompanhar será um pouco mais trabalhoso, porque teria que ir gravar no estúdio, mas acho que consigo fazer isso sem problemas também.

— Ai meu Deus! Sim! Ter seu rap na música seria uma honra, hyung! Você é tão habilidoso, parece que cospe fogo no microfone. – disse de forma animada, recebendo uma risada de escárnio e um revirar de olhos da minha parte. – É verdade, eu ainda me lembro vividamente do dia que te vi sobre o palco. Você estava incrível, todos ali estavam hipnotizados pelo seu carisma e talento. Acho que posso me considerar um fanboy seu também. – admitiu com um leve rubor tingindo suas bochechas. – Mas eu não quero te dar trabalho. Só o instrumental já seria mais do que eu poderia pedir.

— Acho que posso fazer esse sacrifício por você, já que gosta tanto assim do meu rap. – encolhi os ombros, falando com falsa indiferença enquanto tentava reprimir um sorriso. – É verdade que ainda se lembra daquele dia? Olhando pra trás, por tudo que passamos, parece que aquilo foi em outra vida.

— É claro que eu me lembro! – exclamou, parecendo ofendido. – Foi naquele dia que... nós... nos beijamos pela primeira vez. – era divertido ver Jimin atrapalhar-se todo ao mencionar o beijo – o primeiro beijo—, cabeça baixa para esconder as bochechas vermelhas, ainda que as minhas próprias apresentassem um rubor semelhante.

— Ah, foi mesmo. – concordei, soando como se não me recordasse de cada mínimo detalhe; seu gosto, o modo como Jimin ficara submisso e completamente à mercê de meus toques, os sons tímidos de prazer que escapavam de seus lábios e eram imediatamente engolidos pelos meus. Como nenhum de nós dois sabia o que dizer à seguir, deixamos que o silêncio se esticasse até ficar desconfortável, sufocando-me até que eu tomasse coragem para encontrar seu olhar. Péssima ideia; eu não conseguia encarar seus olhos cheios de expectativa sem deixar minha mente divagar sobre todos os beijos que já compartilhamos e tudo aquilo que eu gostaria de fazer com o mais novo, mas ainda não tive a oportunidade. Os olhos de Jimin eram como um ímã, me atraindo para sua órbita sem qualquer esforço. Antes que eu tomasse alguma atitude impensada que pudesse me trazer arrependimento no futuro – sabe-se lá no que um simples beijo poderia se transformar, no estado que eu me encontrava—, pigarreei e resolvi mudar de assunto para algo mais seguro. – Bom, se realmente quiser que eu componha uma música pra você, acho melhor começar o trabalho. Não temos muito tempo.

— Oh... é claro. – balbuciou, o desapontamento claramente estampado em sua face. Eu tive vontade de me chutar na canela por ser tão covarde, mas eu não achava que estava em condições de saciar minha vontade – e a dele também, aparentemente – de beijá-lo sem devorá-lo por inteiro. Aquele maldito sonho despertara um monstro dentro de mim, e qualquer estímulo, por mínimo que fosse, poderia colocá-lo em frenesi. – Claro, não se preocupe comigo. Acho que... acho que vou tomar um banho. – gaguejou, levantando-se do sofá e olhando ao redor como se estivesse perdido.

— Fique à vontade. Você sabe onde fica o banheiro. – disse, soando exatamente como o escroto insensível que eu me sentia. Levantei-me logo em seguida a fim de buscar meu caderno de anotações no quarto, buscando qualquer forma de distração para não pensar em como estava sendo idiota, ou coisa pior; por exemplo, como eu gostaria de tomá-lo contra a parede do chuveiro.

Sem mais uma palavra, Jimin se retirou na direção do banheiro, fechando a porta atrás de si. A vontade súbita de me chutar diversas vezes retornara, mas agora não havia mais nada que eu pudesse fazer pra reparar o estrago. Jimin estava colocando sua vida em espera por minha causa e sendo a pessoa mais atenciosa que eu já conheci na vida, e tudo que eu fazia era decepcioná-lo e tratá-lo como alguém que não era bem-vindo, tudo porque tinha medo do tamanho e da intensidade do desejo recém-descoberto que eu sentia pelo mesmo. Eu sinceramente devia desistir dessa coisa— seja lá o que for – que eu tinha com o mais novo e atirar-me da janela; pouparia à nós dois uma baita dor de cabeça.

Retornando à sala de estar com o pequeno caderno velho e gasto de capa azul em mãos, resolvi que para que eu conseguisse ter qualquer inspiração eu precisava de uma boa xícara de café preto e bem forte. Todo artista tinha suas próprias manias, e a minha era debruçar-me sobre letras de rap e melodias complicadas com um nível absurdo de cafeína nas veias. O caderno que eu usava para trabalhar era prova disso; podia-se encontrar manchas do líquido marrom a pelo menos cada duas páginas. Nicotina também costumava ajudar, mas eu tinha um palpite de que Jimin não iria gostar de ter o apartamento fedendo ainda mais à cigarro.

Sendo assim, pus-me a preparar o café à minha maneira: o resultado final podia não se adequar ao paladar de todos – Seokjin uma vez dissera que meu café tinha gosto de carvão queimado –, mas preferi deixar um pouco sobrando na cafeteira caso Jimin quisesse. Uma vez que tinha uma caneca do líquido fumegante numa mão e papel e caneta na outra, finalmente senti-me preparado para sentar e deixar minha criatividade fluir. Acomodei-me novamente no sofá da sala, apoiando o café sobre a mesa de centro enquanto rabiscava algumas palavras e frases aleatórias na primeira página em branco que pude encontrar; felizmente o ombro ferido não me atrapalhava muito, contanto que eu permanecesse com o braço na mesma posição e movimentasse apenas o pulso pra escrever. Eu pensava que criar algo para Jimin fosse se mostrar uma tarefa difícil, mas acabei sendo provado o contrário: as palavras jorravam de minha mente como uma cachoeira, tomando forma através da tinta preta da caneta e, com alguns arranjos, tornando-se algo digno de uma música. Acho que era verdade o que diziam sobre a pessoa por quem se está apaixonado se tornar a sua musa inspiradora, por mais brega que isso soasse e por mais vergonhoso que fosse admiti-lo – até mesmo pra mim.

Quando comecei a sentir que meu ombro estava incomodando, minha concentração enfraquecendo e meu poço de inspiração se esgotando, estiquei-me para alcançar a caneca na mesinha e trazê-la até meus lábios, reabastecendo-me com cafeína enquanto relia as últimas estrofes que tinha escrito. Estava tão absorto no meu trabalho que não ouvi o distinto som de uma porta sendo destrancada até que fosse tarde demais.

— Hyung, eu preciso de roupas novas. Posso pegar algo emprestado no seu armário? – a voz repentina de Jimin preenchendo o silêncio da sala me sobressaltou, mas o que realmente fez com que eu engasgasse e cuspisse o café que bebericava além de derramar boa parte do conteúdo da caneca no chão – felizmente consegui evitar que caísse café nas minhas roupas com reflexos rápidos, nunca antes vistos vindo de minha parte – foi a visão que o garoto me proporcionava.

Seus cabelos molhados estavam jogados para trás, revelando sua testa e sobrancelhas bem delineadas. Seu rosto não mostrava o menor sinal de vergonha ou malícia, mesmo com o estado seminu de seu corpo; e que corpo, diga-se de passagem. Não tive outra escolha senão encarar – ou devorar – seus ombros desnudos, bíceps fortes, peitoral adornado por um adorável par de mamilos pequenos e clarinhos e um abdômen tão definido que eu suspeitava que conseguiria lavar roupa ali, se quisesse. A parte inferior de seu corpo estava coberta por uma de minhas tolhas amarradas em sua cintura, e o fato de que eu tive a audácia de me sentir decepcionado por isso trouxe uma nova onda de tosses nervosas e engasgos.

Eu tossia tanto que encontrei-me com lágrimas nos olhos, tanto que não conseguia respirar. Preocupado, Jimin correu em minha direção com puro pavor no rosto, ignorando completamente o fato de que estava apenas de toalha e pingando da cabeça aos pés devido ao recente banho; gotículas de água corriam por sua pele bronzeada como orvalho, deslizando sobre a superfície firme de seu peito e descendo pela extensão ridiculamente bem trabalhada de seu tanquinho até desaparecer por baixo da toalha branca. Seria horrível admitir que segui aquela pequena gota d’água por todo o percurso, mas eu não conseguia tirar meus olhos do corpo de Park Jimin. E isso estava me matando – literalmente.

— Yoongi! Você está bem? Respire! – instruiu o mais novo num tom quase histérico, desferindo tapas pesados nas minhas costas para que eu pudesse desengasgar com a minha própria saliva. Desnecessário dizer que de nada adiantou, pois a proximidade com o causador do ataque de tosses só piorava a situação. Se eu não conhecesse Jimin, diria que estava fazendo de propósito, só pra me ver sofrer.

— E-eu... eu estou bem. – consegui dizer entre tosses. Assim que a crise passou e eu pude respirar normalmente, tentei afastá-lo sem precisar olhar pra ele, com uma mão cegamente colocada em seu abdômen. Péssima ideia; se apenas a visão de seu tanquinho era capaz de me deixar com a boca seca e quase me matar engasgado, senti-lo sob meus dedos enviava uma onda de choque por todo o meu corpo, um calafrio na espinha e um calor no baixo ventre que acabara se tornando bastante familiar. – Pelo amor de Deus, Jimin, vá colocar alguma roupa. Pode pegar o que quiser no meu armário, apenas vista-se.

— Oh... Oh!— exclamou estupidamente, só agora se dando conta da situação que havia criado. Era difícil encontrar seus olhos – principalmente quando eu tinha algo bem mais interessante para olhar na minha frente –, mas o esforço valera à pena só pela oportunidade de ver o rubor subindo por suas bochechas e descendo pelo seu pescoço e peito. Jimin tentou se cobrir na melhor das suas capacidades usando apenas os braços, mas era inútil agora que eu já tinha visto tudo. Assisti o garoto abrir e fechar a boca como um peixe fora d’água na intenção de dizer alguma coisa ou se desculpar, mas nenhum som saía de seus lábios. Depois de algumas tentativas fracassadas, ele finalmente desistiu e correu até o quarto, dando-me também a visão privilegiada de suas costas largas e nádegas proeminentes, ainda que ocultas sob a toalha.

Mesmo depois do garoto ter se trancado no quarto por consideráveis minutos, o choque de vê-lo em circunstâncias tão peculiares ainda não havia se desgastado. O contraste entre seu corpo bem tonificado e rostinho de bebê era tão gritante que chegava a ser engraçado, senão surreal. Peguei-me pensando nisso enquanto tentava limpar a bagunça que havia feito no chão da sala, de joelhos no chão duro enquanto esticava o braço bom sob o sofá, usando o pano de chão para enxugar a poça de café que se formara sob a mobília. Eu não havia me dado conta de que tipo de posição estava até ouvir o pequeno ruído de surpresa que Jimin deixara escapar ao finalmente sair do quarto.

— Hyung, o que está fazendo? Deixe que eu limpo isso, você não pode se esforçar tanto! – ralhou ele, ajudando-me a levantar com braços firmes presos sob minhas axilas. Chiei quando o contato fez pressão na área magoada, e imediatamente o garoto me largou sobre o sofá e olhou-me com olhos grandes e suplicantes. – Me desculpe! Eu te machuquei? Sinto muito, Yoongi, eu não queria... e-eu esqueci... – atrapalhou-se.

— Aish, está tudo bem. Já passou. – desconsiderei seu pedido de desculpas, ainda que não tivesse sido totalmente sincero; a dor não havia passado, mas a última coisa que eu faria seria demonstrá-la. Contudo, eu internamente acolhi o mimo e permiti que o mais novo terminasse o serviço, acomodando-me de forma mais confortável no sofá.

Assim que Jimin livrou-se do liquido no chão e do pano sujo, retornou ao sofá com duas canecas de café em mãos: a que eu usara anteriormente, reabastecida com a quantidade que perdera no acidente, e uma segunda para si mesmo. Sentou-se apertado numa das pontas, visto que eu ocupava cerca de dois terços do assento, de modo que minhas costas inferiores ficassem apoiadas num dos braços e meus pés à centímetros de distância de suas coxas. Aceitei de bom grado a caneca que me oferecia, mas me abstive de beber para observá-lo provar meu infame café. Jimin tentou parecer casual sobre o assunto, mas a careta que fizera assim que encostou a porcelana nos lábios fora impossível de disfarçar. Escondi o riso atrás da minha própria bebida quando o garoto apoiou a sua sobre a mesa de centro, praticamente intocada.

— Forte demais pra você? – provoquei.

— O quê? Ah, n-não. É que... eu prefiro meu café com leite. – tentou me assegurar, ainda que seus esforços fossem inúteis. Não podia culpá-lo; como não tinha o costume de cozinhar, tudo o que me aventurava a fazer acabava ficando com um gosto bastante... singelo. Com o passar dos anos eu acabei me acostumando, e até criando um certo paladar para minhas criações horrendas, mas nem todos possuíam o estômago forte como o meu.

— Ah, sim. Claro. Bem a sua cara. – comentei de forma vaga, bebericando o líquido quente.

— O que isso quer dizer? – indagou, encarando-me com olhos semicerrados, a perfeita imagem de uma criança petulante.

— Nada. – desconsiderei, cheio de travessura na voz. Quando Jimin não desviou o olhar, cutuquei-o nas costelas com o dedão do pé, na esperança de distraí-lo e mudar o assunto. – Você parece confortável. – comentei, indicando sua escolha de roupas. Eu reconhecia a calça preta de moletom, mas não fazia ideia de que tinha um suéter de manga comprida branco e felpudo escondido no meu armário. Sem dúvida um presente de Seokjin, um que eu nunca me dei ao trabalho de usar.

— Seus jeans ficaram muito apertados em mim. – admitiu com um sorriso acanhado. – Mas eu gostei desse suéter, ele é bem macio e quentinho. Bonito também, mas parece novo. Você nunca o usou antes?

— Não. Nem sabia que o tinha. – encolhi os ombros quando o garoto arquejou indignado com a informação. – Pode ficar com ele, se quiser.

— Obrigado. – sorriu. – Mas eu provavelmente devia ligar para Tae-Tae e pedir pra me trazer roupas de casa. Eu não posso continuar saqueando seu armário desse jeito.

— Você está de mudança, ou coisa parecida? – questionei, tentando soar irritado mesmo quando só estava brincando. Quando a expressão do mais novo ameaçou romper-se naquela velha carinha de cachorro abandonado, desisti da farsa e cutuquei-o novamente com o dedão do pé, sorrindo. – É, você provavelmente devia.

Assisti Jimin mostrar-me a língua como um pivete birrento e fisgar o celular no bolso do moletom, não para fazer uma ligação, mas sim para digitar furiosamente o que eu presumia ser uma mensagem com instruções para o amigo passar aqui mais tarde com algumas roupas suas. Depois de meros segundos o aparelho sinalizou a resposta; Taehyung devia estar esperando notícias do melhor amigo o dia inteiro. – Tae disse que vai passar aqui em meia hora. – anunciou, sem tirar os olhos do visor.

— Ótimo. – balbuciei, sem realmente me importar, antes de me dar conta de algo. – Espere. Taehyung sabe onde eu moro?

— Não, mas ele disse que Jungkookie sabe, e que vai trazê-lo até aqui. – respondeu.

— Ah, então ao invés de uma, eu preciso lidar com duas pestinhas. – resmunguei, revirando os olhos enquanto Jimin me dava um leve tapa no joelho.

— Ei, não fale assim deles! São meus melhores amigos. – defendeu, franzindo o cenho, inconformado. Chegava a ser fofo o modo como Jimin acreditava ser seu dever defender os amigos de qualquer coisa, até de piadinhas bestas como a minha.

— Então tá explicado. – eu não sabia dizer o que tinha em Jimin que me desse tanta vontade de importuná-lo, às vezes impiedosamente, mas eu me alimentava do sentimento que me assolava quando o deixava numa pilha de nervos. Jimin devia ter sido uma criança muito provocada na escola, pois era muito fácil fazê-lo. Como não obtive nenhuma resposta, o garoto preferindo lançar-me olhares nada intimidadores por mais que ele acreditasse que assim o fossem, resolvi deixar pra lá e bebericar meu café em silêncio, enviando-lhe uma piscadela brincalhona sobre a caneca.

Isso pareceu apaziguá-lo um pouco, visto que ele também desistiu de me enviar adagas com os olhos e voltou sua atenção para o programa musical que passava na TV, permitindo que um silêncio confortável se instaurasse entre nós enquanto prestava atenção na coreografia sensual e vocais angelicais de um grupo feminino que eu não reconhecia. Por um instante imaginei Jimin fazendo aqueles exatos passos, imediatamente me sentindo estúpido: a última coisa que eu precisava era imaginar Jimin como uma garota e fazer um hábito disso. Uma vez que a caneca estava vazia e eu tinha cafeína o suficiente nas veias para sobreviver, fiz menção de esticar-me até a mesinha de centro para apoiá-la ali, antes que o mais novo gentilmente a retirasse de minhas mãos e completasse o movimento ele mesmo. Olhei-o curioso enquanto o fazia, mais ainda quando, ao recostar-se novamente no sofá, Jimin pegou meus pés e os colocou sobre suas coxas, envolvendo um em suas mãos pequenas e começando a fazer uma pressão constante e ritmada.

— O que está fazendo? – a pergunta era retórica, porque eu sabia muito bem o que estava fazendo, mas senti-me na obrigação de perguntar mesmo assim, só pra ter certeza.

— Massagem. – respondeu simplesmente sem tirar os olhos da televisão. Com a confirmação que eu não precisava, não consegui segurar uma risada seca de escárnio; a situação toda era muito boa pra ser verdade. Isso atraiu sua atenção, que agora direcionava-me um olhar confuso. – Algum problema?

— Não, nenhum. Eu só acho engraçado quando você age como um escravo sem eu ter que pedir. – brinquei.

— Eu não estou agindo como um escravo. – retrucou, cessando a massagem ainda com as mãos ao redor do meu pé. – Só estou tentando ajudar. Mas se você não quiser...

— Desculpa. – soltei, ainda que o sorriso que eu tentava esconder não desse muita credibilidade ao pedido. – Você tem permissão para continuar à massagear meus pés... escravo.

Eu honestamente pensei que havia acabado com a minha cota de provocações diárias, mas aparentemente Park Jimin era muito vulnerável para permitir uma coisa dessas. Eu nunca me imaginei o tipo assediador, daqueles que importunavam suas vítimas até elas quebrarem ou explodirem, mas o mais novo despertara algo em mim; algo que se coçava para tirá-lo do sério. Provavelmente eu devia me preocupar com isso e procurar ajuda psicológica, ainda mais quando o garoto tinha olhos tão frios e uma expressão tão séria, claramente nem um pouco impressionado com a brincadeira. Antes que eu pudesse pedir desculpas – honestas, dessa vez – Jimin atacou meus pés com cócegas, sem perdão nem piedade.

— Quem é o escravo agora? Hein? – rebateu com fogo nos olhos, ignorando minhas súplicas desesperadas entre risadas e guinchos nada masculinos. Se tinha uma coisa que eu mais odiava em toda minha vida era cócegas. A impotência que eu sentia ao me forçarem a rir era algo que abominava. Contorcendo-me como um louco, tentei tirar meus pés de sua posse em vão. Jimin era bem mais forte que eu, e sua sede de vingança só pareceu dá-lo ainda mais força e determinação.

— Jimin... pare... pare com isso! – consegui dizer entre risadas, obtendo sucesso em livrar pelo menos um de meus pés para contra-atacar; o enfiei debaixo do suéter branco que vestia para assediar suas costelas, satisfazendo-me com o ganido de surpresa que deixara escapar pelo contato frio do meu pé contra seu corpo quente. Subi pela lateral de seu tronco até meu dedão encontrar sua axila, atacando o local sem misericórdia enquanto assistia o mais novo desfazer-se em risadas.

— Hyung~! – choramingou, rindo tanto que tinha lágrimas tentando escapar pelo canto dos olhos, o ataque aos meus pés completamente esquecido. – Não... p-pare! Trégua, eu quero uma trégua! – não dei ouvidos às suas súplicas, como era o esperado, já que ele fizera o mesmo comigo. Aproveitei-me da distração para prender seu tronco entre as pernas e puxá-lo contra mim, a fim de atacá-lo também com as mãos. Entretanto, quando passei as unhas de leve pela pele sensível de seu pescoço, ao invés de risadas, recebi um silvo e um gemido abafado. Definitivamente essa não era a reação que eu esperava, e isso me fez congelar e parar tudo que estava fazendo, encarando-o com cautela. A posição era horrível, com Jimin precariamente equilibrado de lado entre minhas pernas, o tronco torcido para conseguir me encarar de volta. Ficamos assim, perdidos nos olhos um do outro pelo que pareceu uma eternidade, até que eu, tentativamente, repeti o gesto e ganhei uma reação semelhante.

Incentivado à continuar, corri as unhas por seu couro cabeludo com um pouco mais de propósito, percorrendo o caminho da nuca até que meus dedos se perdessem nos fios castanhos no alto de sua cabeça. Fiquei ali, segurando um bom chumaço de cabelo no punho fechado enquanto puxava sua cabeça gentilmente para trás, usando a quantidade certa de força para colocá-lo à minha mercê, mas não para machucar. Observei Jimin fechar os olhos e abrir a boca num gemido baixo e incontido, parecendo deliciado com aquela nova brincadeira. Quando eu estava prestes à usar a vantagem que tinha sobre si para trazê-lo mais perto e tomar seus lábios para mim num beijo excitado e fervoroso, uma batida insistente na porta da frente matou todo o clima e, consequentemente, minha ereção.

— Jiminie~! – veio a voz grave de Taehyung do outro lado. – Cheguei. Espero que esteja decente, não quero ter pesadelos com você e Suga-hyung comendo a cara um do outro. – xinguei baixinho pela falta de sorte enquanto Jimin se desvencilhava, senão um pouco relutante, de meus braços e pernas. Contudo, ao mesmo tempo eu me perguntava se Taehyung seria algum tipo de vidente por adivinhar exatamente o que estava prestes à acontecer, caso não tivesse atrapalhado tudo.

Jogando um olhar apologético por cima do ombro em minha direção, Jimin dirigiu-se até a porta da frente a fim de permitir passagem aos amigos, que tiveram uma entrada um tanto triunfal: Taehyung jogou-se aos braços do colega de quarto como se não o visse há décadas, e Jungkook passou por ambos numa pressa inexplicável, rosto torcido numa careta de repulsa.

— Podem entrar, eu não me importo. – convidei em tom zombeteiro, visto que os dois já tiravam os sapatos no pequeno hall de entrada e faziam-se bastante em casa. Finalmente percebendo minha presença, o garoto de cabelos lilases praticamente saltitou até onde estava, deixando a mochila que trazia as roupas de Jimin no chão em seu caminho.

— Suga-hyung! Está se sentindo melhor? – indagou-me com aquele sorriso retangular de sempre, e por um instante quase fiquei convencido de que o garoto estava genuinamente feliz em me ver. Até eu me recordar de que Kim Taehyung era assim com todo mundo, então aquela ideia idiota rapidamente desapareceu.

— Sim. Ainda estou um pouco dolorido, e alguns movimentos são impossíveis de realizar, mas no geral estou bem. Não foi nada demais.

— Levar um tiro no peito não foi nada demais? – questionou Jungkook, tom de voz cético.

— O que eu posso fazer? – dei de ombros. – É o que dizem: vaso ruim não quebra.

— Aparentemente não. – concordou de braços cruzados, erguendo uma sobrancelha incrédula e parecendo nem um pouco convencido. Francamente eu não possuía nenhuma retórica na ponta da língua, então acabei permitindo que uma quietude perturbadora se fizesse presente entre nós quatro. Porém eu deveria confiar em Taehyung para manter a conversa fluindo, pois o garoto parecia ter alergia ao silêncio.

— Hyung, devia ter ficado em Busan conosco. Você perdeu a maior parte da diversão! – anunciou alegremente.

— É mesmo? E o que eu perdi? – resolvi incentivá-lo, apenas parcialmente interessado na história.

— Oh, vou lhe contar. – começou, liberando espaço na mesa de centro para sentar-se, visto que eu e Jimin ocupávamos o único sofá da sala. – Esse café é de alguém? – perguntou de repente ao deparar-se com a caneca intocada do outro, esquecida sobre a mesa e sem dúvida fria à essa altura.

— Tae, não beb—

— Não, fique à vontade. – respondi no mesmo instante que Jimin tentou lhe avisar para não cometer o erro de tomar meu café, sorrindo inocente e observando o garoto como um cientista observa seu mais novo experimento. Assisti impressionado Taehyung tomar um grande gole do líquido escuro e continuar falando como se nada estivesse errado: nem mesmo uma careta disfarçada atravessou suas feições, em nenhum momento.

— Você tinha que ver como a mãe de Jiminie ficou chateada por não poder te conhecer na manhã que você foi embora, hyung. Ela só falava sobre isso o dia inteiro, sobre como queria conversar com o amigo bonito do filho. – contou-me sem filtros ou freios na língua, causando em Jimin um rubor tão forte que eu não sabia qual das duas coisas ele queria fazer primeiro: morrer ou matar o melhor amigo. – Ela até brigou com a gente, Jiminie principalmente, por não ter te convencido à ficar e pelo menos comer alguma coisa. A senhora Eunyoung parecia realmente decepcionada conosco.

— É verdade, Jimin? Você não me contou isso. – indaguei de forma à provocá-lo, abrindo um sorriso travesso que só aumentou quando vi como o mais novo estava envergonhado.

— Tae, cala essa boca! – ralhou entredentes enquanto evitava encontrar meu olhar, vermelho como um tomate.

— Por que? Só estou contando o que Suga-hyung perdeu. – contornou o outro, a verdadeira face da inocência, antes de continuar inabalado como o bom fofoqueiro que era. – Ah, e o melhor foi o pai dele! Como não tinha te visto, ele só perguntava: “de quem vocês estão falando? Quem é esse Suga? Por que o nome dele é assim, ridículo?” – Taehyung engrossou ainda mais a voz para o que eu imaginava ser uma imitação do pai de Jimin, arrancando uma risadinha de Jungkook por motivos que nada tinham a ver com esse fato.

Antes que eu pudesse defender meu pseudônimo, Jimin exclamou um mortificado Tae! e obteve sucesso imediato em calar o amigo, que sorria travesso para si. – Aish, você é impossível! Nunca devia ter te pedido pra vir aqui.

— Ora, não seja assim, Jiminie. Qual é a graça de fazer amizade com o seu namorado, se eu não posso envergonhar você na frente dele?

— Nós não somos... – comecei, sendo interrompido por Jimin ao mesmo tempo.

— Kim Taehyung. Você e eu. Banheiro. Já. – Jimin ordenou ao se levantar do sofá e praticamente marchar na direção do outro cômodo, seguido de perto pelo mais novo. Observei os dois se trancarem lá dentro com olhos curiosos, senão um pouco desconfiados, enquanto Jungkook ocupava o lugar que era previamente de Jimin e se contentava em assistir um dos grupos rookies que se apresentavam na televisão.

— Deveria ficar preocupado? – indaguei, olhando-o de soslaio, sem saber se devia puxar assunto ou não.

— Não, eu não me preocuparia. Jimin provavelmente só está implorando pra Taehyung deixar de ser linguarudo e parar de envergonhá-lo enquanto ele o lembra dos perigos das doenças sexualmente transmissíveis e da importância de preservativos. – afirmou o mais novo num tom monótono, sem desviar a atenção do programa, como se estivesse falando sobre o tempo ou coisa parecida.

— Eu não tenho doenças. – retruquei, ofendido, antes de reparar que havia me prendido à parte errada da conversa e tentar consertar a gafe. – E nós não estamos fazendo nada desse tipo.

— Tanto faz, eu realmente não me importo. – deu de ombros. – Contanto que Jimin esteja feliz.

— Mesmo que essa felicidade não seja com você? – eu não dizia isso na intenção e irritá-lo ou magoá-lo, apenas tinha essa curiosidade desde que notei que os sentimentos do maknae por Jimin eram mais fortes do que simples amizade. Contudo, fora definitivamente mágoa e dor que vi passar por seus olhos por uma fração de segundo, antes que o garoto pudesse subir suas barreiras e se proteger.

— Sim. – respondeu-me depois de alguns segundos em silêncio, encontrando meu olhar sem medo. Entretanto, pra mim aquela resposta parecia mais uma mentira bem contada, depois de ser repetida várias e várias vezes, sem parar.

— É isso! Já chega! – esbravejou Jimin, saindo do banheiro como um furacão, empurrando Taehyung pra fora com o rosto tão corado que eu não tive outra escolha senão me perguntar se por acaso o palpite de Jungkook não estaria certo. – Eu não aguento mais a sua boca grande, Taehyung. Saiam daqui, vocês dois!

Jungkook apenas suspirou, como se soubesse que mais cedo ou mais tarde isso aconteceria. Lançando-me um breve aceno de cabeça em despedida, foi-se juntar aos garotos no hall de entrada, calçando os sapatos em silêncio. Já Taehyung não parecia satisfeito em apenas ir embora silenciosamente, fazendo questão de dirigir-me a palavra por cima do ombro de Jimin. – Vê se cuida bem do meu Jiminie hein, hyung? Lembre-se que eu trabalho no seu bar favorito, nunca se sabe quando eu posso drogar suas bebidas de novo.

— Então tudo que eu preciso fazer é evitar aquele bar em específico. – devolvi num tom igualmente brincalhão, retornando seu sorriso quadrado com um sem dentes.

— Calem a boca! – exclamou o menor deles. – Muito obrigado por trazer minhas roupas, Tae-Tae, eu te amo, mas agora é hora de ir. Eu te ligo depois. Adeus. – diverti-me ao ver Jimin enxotar rudemente os dois amigos porta afora, dando um breve abraço em Jungkook e empurrando um Taehyung que parecia relutante em sair, acenando um tchauzinho em despedida para mim. Assim que os dois saíram e a porta estava mais uma vez seguramente fechada atrás de si, recostou-se contra a madeira e soltou um longo e cansado suspiro. – Um dia eu mato aquele garoto.

— Me diga a hora e o lugar. – brinquei, sorrindo um dos meus poucos sorrisos sinceros. – Eu ajudo.