Hold me Tight

40 Somos amigos, não somos?


— Zico POV -

Dizer que meu dia estava uma verdadeira merda era eufemismo.

Suspirei pesadamente, não conseguindo conter a estranha vontade de correr os dedos por meus fios descoloridos, puxando-os com um pouco mais de força do que o necessário enquanto tinha minha cabeça baixa em derrota e pura exaustão. Era pedir demais que as coisas dessem certo uma vez na vida? Era presunção de minha parte esperar que os eventos se desenrolassem como deveriam, pra variar?

Quando Rap Monster aparecera na minha porta na manhã seguinte à emboscada no armazém, que aconteceu há exatas cinco noites atrás, sozinho e com o rabo entre as pernas, eu sabia que o líder teria outro favor a me pedir. O resultado da emboscada já havia chegado aos meus ouvidos pouco antes de sua visita inesperada – boatos corriam facilmente nessa cidade, afinal –, mas eu ainda queria ouvir as notícias direto da fonte. Por isso convidei-o para sentar-se comigo no escritório improvisado que tinha na base de operações e o persuadi a aceitar uma bebida enquanto ouvia-o relatar em detalhes os acontecimentos daquela noite. Receber a notícia da morte de dois dos meus melhores atiradores não era fácil, mas não consegui encontrar forças para criar um estardalhaço e possivelmente estragar uma bela amizade de anos quando o outro parecia tão arrependido e derrotado. Recusei seus pedidos de desculpa e promessas de que um dia me compensaria com um encolher de ombros e piadas sem graça fora de hora, uma vez que não adiantava chorar por leite derramado. Assegurei-lhe de que isso eram apenas águas passadas, e que mais cedo ou mais tarde pegaríamos os responsáveis por aquela terrível chacina.

Foi assim que descobri o que exatamente Namjoon queria de mim. De forma hesitante, um olhar apologético estampando sua face, o mais novo pediu humildemente por minha ajuda mais uma vez. Depois de todo aquele fiasco, Suga saíra baleado e Zelo, o responsável por sua condição, conseguira escapar. Ainda que o branquelo estivesse bem e repousando no momento, o irmão mais novo de Bang Yongguk continuava foragido e nenhum dos esforços do líder à minha frente se mostrara eficaz para encontrá-lo. Isso o deixou sem opções, completamente desprovido de pessoas à recorrer, exceto uma: o senhor das armas.

Era bem verdade que eu possuía os meios e os homens para conduzir uma busca como essa, já que, uma vez que se tratava de poder de fogo, a minha gangue era mais poderosa que a de Monster; talvez a mais poderosa da cidade. Eu sabia que não custaria nada fazer esse pequeno favor para meu amigo, se não fosse por um detalhe: o oponente. Talvez eu tivesse mais poder de fogo, mas Bang Yongguk tinha mais influência. Até agora essa guerrilha entre gangues não havia me afetado diretamente, e esse fato por si só era considerado uma conquista. Entretanto, no momento que eu entrasse ativamente na brincadeira, estaria automaticamente colocando um alvo nas minhas costas.

O senso comum me dizia pra negar ajuda e não me meter mais do que o necessário, mas desde quando eu dava ouvidos pra coisas tolas como essa? Eu fazia dinheiro roubando bancos e traficando armas, a última coisa que passava pela minha cabeça era o bom senso. Além do mais, eu sempre fui o tipo de cara que prezava a amizade e lealdade acima de tudo, então estaria sendo um porco hipócrita se lhe virasse as costas agora. E eu simplesmente desprezava gente hipócrita. Foi dessa forma que me vi concordando em ajudá-lo a caçar o vermezinho que causara tantos problemas, prometendo encontrar uma maneira criativa de fazê-lo pagar.

Acontece que o fedelho, covardemente, foi se enfiar debaixo das saias do irmão mais velho, escondido numa de suas propriedades mais antigas que hoje servia de quartel-general para sua gangue e era palco das mais diversas atividades ilícitas e, muito espertamente, não saíra de lá por um minuto sequer – quase uma princesa presa dentro das muralhas de seu castelo, o que tornava meu trabalho muito mais difícil. Meus homens não podiam se aproximar demais sem serem descobertos, mas sair de lá de mãos vazias não era uma opção. Essa disputa estava se esticando por tempo demais, comprometendo trabalhos demais, afetando pessoas demais; precisávamos pôr um fim nisso, e logo. Eu havia enviado três homens nessa missão, todos cientes da importância do trabalho e do perigo que o mesmo apresentava, mas tinha plena confiança neles para acreditar que me trariam o pivete mais cedo ou mais tarde.

O que eu não esperava era recebê-los de volta em pedaços.

Aconteceu tudo nessa madrugada, de forma tão rápida que que ninguém teve tempo de reagir. Uma van preta e com os vidros escurecidos passou zunindo pelo complexo que nos servia de quartel-general, diminuindo a velocidade apenas para despejar três grandes sacos de lixo na estrada que o conectava à rodovia principal. Os sentinelas de plantão logo perceberam o movimento estranho, mas foram muito lentos pra tomar qualquer tipo de ação. Com o tempo que levaram até finalmente inspecionarem o conteúdo dos sacos, a van já estava bem longe. Quando encontraram nada mais do que restos de seus antigos companheiros, aqueles mesmos homens que eu mandei atrás de Zelo, o circo já estava montado.

Tirado do conforto do meu lar no meio da madrugada, cheguei no complexo pra encontrá-lo um verdadeiro caos. Diante de mim estavam três sacos cheios até a boca com membros cortados, tripas e sangue – restos que costumavam formar três homens que eu conhecia e admirava. Homens que seguiam minha liderança, homens que eram minha responsabilidade. Aquela visão era doentia e repulsiva, mas eu já havia visto minha cota de sangue ao longo dos anos para não me sentir enojado, e sim puto. Checando as câmeras de vigilância que rodeavam o complexo, confirmei o que suspeitava desde o início: a van era a mesma que Rap Monster e Suga vieram procurando não muito tempo atrás, flagrada pelos mesmos monitores que Taeil agora encarava com olhos frios. Talvez até seus ocupantes fossem os mesmos, homens selecionados à dedo, encarregados de despejar o lixo que não servia mais ao seu líder.

Nunca me arrependi tanto de não ter dado ouvidos ao senso comum quanto naquele momento. Desde o começo meus instintos diziam-me que mexer com Bang Yongguk era procurar por problemas, e os acontecimentos dessa noite apenas confirmaram esse fato. Se fosse completamente sincero, eu meio que já esperava que algo do tipo pudesse acontecer; afinal de contas, a reputação que segue aquele homem não fora construída à base de mentiras. Somando isso ao fato de que estávamos ameaçando talvez a única coisa com a qual ele realmente se importava – seu irmão adotivo –, tínhamos então uma força implacável e impiedosa. Ainda assim, mesmo que soubesse o resultado de antemão, mesmo que tivesse comprado uma briga que não poderia ser ganha, eu não podia deixar de ficar cego com o mais puro ódio. Eu conseguia entender perfeitamente o que Suga sentira ao ver as imagens que Taeil-hyung lhe mostrara aquela noite, imagens que mostravam um garoto sendo despejado na rua deserta sem o menor cuidado – eu estava em sua posição agora, sentindo a raiva subir à cabeça e rasgar minha pele com suas garras.

Entretanto, eu havia chegado num impasse: por um lado, minha primeira reação foi retaliar, fazer os bastardos pagarem por terem tirado de mim outros três grandes homens. Eu sabia que se fosse qualquer outro, não haveria a menor chance dos responsáveis viverem pra conhecer um novo dia; ninguém fode com o senhor das armas e espera viver pra contar a história. Mas, ao mesmo tempo, sabia que a vingança não era a melhor opção quando se tratava de Bang e seu bando – o que aconteceu no armazém era a maior prova disso. A probabilidade desse toma-lá-dá-cá se tornar um ciclo vicioso e sangrento era grande, ambos os lados competindo pra ver quem tem o maior pau. Talvez as minhas forças aliadas com as de Monster pudessem fazer Yongguk pensar duas vezes antes de bater de frente, mas eu sinceramente duvidava muito. Mais uma vez, meu bom senso dizia que eu já havia me envolvido demais, mais do que o necessário, e que essa era hora de recuar. Porém, apenas cogitar a ideia me trazia um gosto amargo na boca – recuar significaria ignorar os esforços feitos por meus homens, e por consequência a morte deles seria em vão. Suspirei, me sentindo perdido e impotente. Resolvi então que, antes de tomar qualquer providência, eu deveria fazer arranjos para um enterro digno de meus companheiros; eles mereciam ao menos isso.

No atual momento o sol já havia raiado, horas depois do incidente, porém eu continuava com aquela mesma sensação de impotência, sentindo como se tivesse as mãos atadas – qualquer coisa que fizesse não só poderia como com certeza iria se voltar contra mim e virar algo muito pior. Já percebi que me aproximar demais da toca do leão não era uma boa ideia, a menos que quisesse ser comido vivo; atraí-los pra fora também parecia improvável, visto que eles esperavam que eu fosse fazer alguma coisa. Por mais que minha cabeça doesse de tanto bolar estratégias e tentar pensar numa saída, nenhuma alternativa me parecia melhor do que a anterior. Assim como Namjoon, eu me encontrava sem saber o que fazer e sem ter a quem recorrer. Um riso de escárnio me escapou quando dei-me conta de que eu era pra ser a ajuda, e agora queria ser ajudado. Era justamente isso que mais me deixava frustrado; a consciência de estar na beira do precipício, frente à frente com a morte, mas não poder fazer nada pra impedir meu cruel destino.

Estava tão absorto nos meus próprios pensamentos, perdido na confusão de possibilidades que era minha mente, que não notei um leve bater de dedos contra a madeira da porta do meu escritório. Apenas quando ouço um pigarro forçado é que levanto a cabeça de onde estava repousada contra as palmas de minhas mãos e vejo meu braço direito parado a poucos milímetros de cruzar o batente da porta, olhando-me com uma apreensão e nervosismo que eram raros de se ver em suas feições usualmente brincalhonas e travessas. Park Kyung era o tipo de gente capaz de fazer piada até em situações de morte, então o fato dele estar nervoso agora imediatemente me preocupou.

— O que houve, Kyung? Por que está com essa cara? – perguntei, meu próprio cenho franzido. Vê-lo hesitar no corredor, ao invés de invadir o espaço sem bater como era de costume, me deixava num estado nervoso que não conseguia explicar. Eu só esperava que o moreno não estivesse aqui pra me trazer mais notícias ruins.

— Tem um policial aí na frente. – disse ele, sem perder tempo com rodeios, de forma que o desespero que sentia ficara ainda pior. Acho que esperar por notícias boas ou até neutras à essa altura era pedir demais. – Um detetive. Disse que tinha algumas perguntas a te fazer.

Merda. Um maldito policial na minha porta era tudo que eu precisava agora, pensei. Não precisei ponderar muito pra perceber que me recusar à recebê-lo só tornaria as coisas mais difíceis, e com certeza não precisava que ele voltasse aqui com um mandado de busca. Reunindo toda minha força de vontade pra conter um suspiro e o desejo de esconder minha cara num travesseiro e apenas gritar, ordenei que o deixassem subir. Melhor acabar com isso logo, de forma rápida e eficaz, como arrancar um band-aid.

Receber um detetive na base de operações de sua gangue era uma coisa, mas receber o detetive mais sujo e com a integridade mais duvidosa de todo o departamento de polícia de Seoul era outra completamente diferente. Não pude deixar de sorrir aliviado ao ver Park Hee Soon atravessando a porta e cruzando o ambiente com passos largos e decididos como se fosse dono do lugar, sua eterna carranca firmemente plantada no rosto. Talvez até pudesse me iludir por alguns segundos e pensar que eu havia tirado a sorte grande caso não tivesse me lembrado que Hee Soon era incansável quando queria alguma coisa, e ele sempre queria alguma coisa.

— Será que estou sonhando? Seria o detetive Park Hee Soon em pessoa aqui no meu humilde escritório? – indaguei em tom de sarcasmo, fingindo pensar em voz alta enquanto levantava-me para encontrá-lo no meio do caminho e cumprimentar-lhe com um firme aperto de mão. – A que devo o prazer dessa visita?

— Vamos parar com as teatralidades, Zico. – repreendeu com um certo tom de deboche, dando ênfase ao meu nome underground de forma condescendente, ainda mantendo nossas mãos conectadas com punho de ferro. – Nós dois sabemos exatamente porque estou aqui.

O homem não levava o menor jeito pra formalidades, isso estava claro. Talvez os anos passados policiando guetos e tendo que lidar com os mais variados tipos de meliante o tornaram uma pessoa fria e grossa, inflexível, incapaz de agir civilizadamente mesmo quando a situação assim o pedia. Tentando esconder um suspiro cansado para evitar problemas desnecessários, desconectei nossas mãos e movi-me para sentar atrás da mesa de mogno mais uma vez, apoiando os cotovelos na mesma e o queixo sobre meus dedos interligados. – Ah, por favor. Me esclareça. – pedi, gesticulando para que se sentasse na cadeira acolchoada à minha frente.

Hee Soon ainda tinha aquele meio sorriso estampado no rosto ao aceitar meu convite, uma expressão sabida que só conseguia descrever como enervante enquanto se fazia confortável do outro lado da mesa. – Estou aqui pelo que aconteceu no distrito industrial há aproximadamente cinco noites atrás. Tiroteio. Um verdadeiro caos. Vinte e sete mortos.

— E o que te faz pensar que eu saberia algo sobre isso? – questionei, tentando manter uma expressão neutra e impassível enquanto lhe oferecia uma bebida, recusada com um simples gesto de mão.

— As armas que encontramos na cena do crime eram de muitíssima boa qualidade, bonitas, algumas até raras de se ver. O tipo de arma que não se encontraria em qualquer mercado negro por aí. Então pensei comigo mesmo: quem poderia ter fornecido esse tipo de armamento pesado? – fez uma pausa, fingindo pensar no assunto, até seu sorriso aumentar e parecer ainda mais debochado que o normal. – Ora, a resposta era simples. O senhor das armas, é claro.

— Isso não significa nada. – comentei, dando de ombros. – Eu abasteço todos os mercados negros da cidade. Se não me engano, algumas de minhas armas encontraram seu caminho até a polícia também, não? Seu revólver por acaso é um Glock? Advinhe só de onde ele veio. – provoquei, mudando de posição para recostar-me confortavelmente na cadeira presidencial, mantendo minhas mãos entrelaçadas sobre a barriga numa postura relaxada de quem não se deixaria intimidar tão fácil. Como era de se esperar, o detetive tampouco se mostrou abatido.

— Você não precisa me dizer de onde todas as armas de Seoul vieram, Zico. Eu sei muito bem o tipo de influência que o todo poderoso senhor das armas possui. – admitiu entredentes, imitando minha postura. – Mas também sei que dois daqueles vinte e sete cadáveres eram homens seus. Segundo a perícia eles foram os primeiros a morrer. Estou louco de curiosidade sobre o que você tem a dizer sobre o assunto.

— Ao invés, por que não me conta exatamente o que quer de mim? – rebati, impaciente e exausto demais pra jogar joguinhos tolos e dançar ao redor do problema. Era hora de tomar a dianteira e ser dolorosamente direto. – Por acaso estou preso?

— Ainda não, mas se quiser eu posso voltar aqui com um mandado e damos um jeito nisso. – apesar da ameaça, o detetive ainda não abandonara a postura de falsa tranquilidade e escárnio, agarrando-se à fachada com uma determinação que eu não poderia sequer sonhar em compreender. O mais velho apenas deu de ombros e coçou distraído a barba rala, seu sorriso forçado me dando vislumbres de dentes levemente tortos e amarelados de cigarro.

— Não acho que será necessário detetive, mas quando te fiz aquela pergunta, não estava apenas querendo te desafiar. O que diabos você quer de mim? – insisti, sem querer aumentando levemente o tom de voz e abandonando a postura relaxada. – Eu achei que a polícia não dava duas fodas pro que acontece no underground de Seoul.

— Pra ser brutalmente honesto com você, realmente não damos. – Hee Soon relutantemente admitiu, dando de ombros mais uma vez. – Meus colegas chegaram ao local do crime na mesma noite em que ele ocorreu, mas só hoje vim falar com você. Sabe por que? Porque eu pedi pra pegar esse caso. Ninguém mais o queria. Se não fosse por eu ter insistido com meus superiores, implorar quase, o caso se tornaria apenas mais um arquivo morto e esquecido nas prateleiras empoeiradas.

— Hm, interessante. Se me permite perguntar... o que te deixou tão motivado a investigar o caso, quando nenhum de seus colegas o quis? – pressionei, observando suas reações com olhos afiados, em busca de qualquer deslize ou brecha que pudesse explorar. Essa história toda estava me cheirando muito mal; eu sabia que havia algo que ele queria, Park Hee Soon não fazia nada apenas pela justiça e pelo bem da humanidade. Havia alguma motivação por trás de seus atos, e eu precisava descobrir qual era.

— Você gostaria de saber, não gostaria? – indagou de forma enigmática, relaxando contra a cadeira com o sorriso de quem sabia algo que ninguém mais sabia de volta aos lábios, sem a menor indicação de que me daria alguma resposta.

— Bom, você tem que admitir que é um pouco estranho. – foi minha vez de dar de ombros. – A polícia nunca antes se meteu nos nossos assuntos, então eu não posso evitar de ficar curioso.

— Ora Zico, não se faça de idiota. Você sabe como a polícia é. Contanto que nenhum civil seja envolvido, não damos a mínima pra uma guerra de gangues. São todos bandidos mesmo, não é? Na verdade, vocês nos fariam um favor se apenas matassem uns aos outros e nos deixassem para recolher os corpos. Nos pouparia um trabalho imenso.

— Já que é assim, o que mudou? – eu estava determinado a tirar qualquer migalha de informação daquele homem. Essa história ainda não estava batendo, e eu não descansaria enquanto não obtivesse minhas respostas. Hee Soon tinha que ter algo a ganhar com isso, alguma forma de tirar proveito da situação. A não ser que... – Não me diga que você tem um interesse pessoal no assunto.

Isso finalmente o fez pausar. O sorriso forçado desapareceu por completo, dando lugar à carranca que estava habituado a ver. Eu não podia ver suas mãos, mas tinha certeza que estavam cerradas em punho antes dele cruzar os braços na altura do peito numa postura defensiva, dando-me a certeza de que minhas palavras haviam reaberto uma ferida antiga. Como era de conhecimento comum tanto no meio policial quanto no underground, o detetive costumava ser pai. Sua filha, uma garota bonita e inteligente em seus gloriosos dezesseis anos, desaparecera do mapa cerca de três anos atrás, deixando muitas perguntas e nenhuma resposta. Ninguém sabia se ainda estava viva ou não, se havia sido sequestrada ou brutalmente assassinada, pois nunca resolveram o caso. Como era o costume da polícia, depois de tantos anos desaparecida eles a deram como morta, ainda que nenhum corpo tivesse sido encontrado. Porém, Hee Soon nunca perdera as esperanças de encontrá-la; na verdade, isso acabou se tornando sua obsessão. Depois de perder a filha e logo depois a mulher, que o abandonara por não conseguir perdoá-lo, o detetive se transformou no homem que era hoje, sentado diante de mim: incansável e ardiloso, capaz de fazer qualquer coisa pra alcançar seus objetivos.

— E se eu tiver? O que você tem a ver com isso? – rebateu, qualquer traço anterior de deboche desaparecido. – Você não sabe o que é perder um filho, Zico. Não sabe o que é conhecer o culpado mas não poder fazer nada. Quando vi aquelas bandanas vermelhas na cena do crime eu sabia que precisava investigar, sabia que havia encontrado minha chance. Estava esperando uma oportunidade como essa pra chegar até Bang Yongguk há três anos. Eu senti como se o destino estivesse finalmente sorrindo pra mim, recompensando-me por ter esperado o momento certo.

— Ah, essa história de novo não. – chiei, não conseguindo esconder o suspiro dessa vez ao passo que corria as mãos pelo rosto, exausto. Estava afundando demais nos meus próprios problemas pra ser arrastado pros problemas alheios também. – Você faz ideia da merda que está se metendo? Bang Yongguk não é alguém com quem você quer lidar, acredite em mim.

— Se quisesse a sua opinião eu a pediria. – rosnou, batendo o punho na mesa e inclinando o tronco sobre a mesma numa clara tentativa de intimidação, seus olhos cravando buracos nos meus enquanto sustentava meu olhar. – Meu interesse em Yongguk não é da sua conta. Tudo que preciso é que você seja um bom menino e me conte o envolvimento que essa outra gangue tem com ele. O que começou essa guerra? Qual o seu papel nisso tudo?

— Não sou obrigado a te contar merda nenhuma. E se eu fosse você, prestaria atenção no modo como fala comigo. – retruquei entredentes, odiando o fato de que havia deixado meu orgulho falar mais alto. Eu odiava levar desaforos, verdade, e se meus inimigos criassem um hábito de falar informalmente na minha presença eu nunca mais teria sossego na vida. Mas eu ainda estava diante de um policial, um veterano ainda por cima, e qualquer deslize poderia ser fatal.

— Oh, é mesmo? Se eu fosse você, começaria a falar a partir de agora. Pro seu próprio bem. – ameaçou, colocando-se de pé num salto e apoiando ambas as mãos sobre o tampo da mesa a fim de inclinar-se sobre mim, seus olhos transformando-se em duas adagas afiadas. – Não seja tão seguro de si, Zico. Você acha que eu dou a mínima pra sua gangue fajuta e seu contrabando de armas? Bang Yongguk é só o que me interessa. Então se não quiser se meter em verdadeiros problemas, vai me contar tudo o que sabe.

— Confie em mim quando eu digo que você não quer se envolver nisso, detetive. – adverti. – Yongguk é um homem poderoso, se ele por acaso souber que está metendo o nariz nos assuntos dele, não vai descansar até te ver destruído. E a troco de quê? De uma mera obsessão? Você parece ter certeza de que Yongguk tem algo a ver com o sumiço da sua filha, e não estou dizendo que esteja errado, mas ninguém pode comprovar suas teorias. Não acha que está na hora de aceitar que ela se foi e seguir o rumo da sua vida? Ao meu ver, continuar trilhando esse caminho é procurar sarna pra se coçar.

— Não fale da situação tão casualmente como se soubesse pelo que estou passando! – explodiu finalmente, agarrando a frente de minha camisa para igualar o nível de nossos olhos, deixando-me ver precisamente o momento em que o mais velho abandonara todo o auto controle e decidira agir inteiramente por impulso, guiado pelas emoções. – Eu nunca vou desistir da minha filha, entendeu bem? Nunca! E ainda vou provar que Yongguk fez alguma coisa com ela, com ou sem a sua ajuda. Você quer dificultar as coisas? Ótimo. Mas saiba que não vou desistir, e virei atrás de cada um de vocês até conseguir o que quero.

Com isso, Hee Soon soltou-me de volta contra a cadeira, a força usada por trás do movimento empurrando-a alguns centímetros para trás. O detetive não me poupou sequer um olhar antes de sair bufando e batendo a porta atrás de si, sua voz ecoando pelas paredes enquanto gritava com quem quer que estivesse em seu caminho. Minha primeira reação foi rir, ainda que a situação pedisse seriedade e cautela – eu ria não por achar graça, mas porque não podia acreditar que uma situação já ruim pudesse ficar pior. Sem perceber, eu havia acertado o detetive onde mais doía; se antes tinha dúvidas quanto às suas reais intenções, agora elas estavam claras como o dia. Eu imaginava que o policial não teria vindo farejar pura e simplesmente para trazer justiça à todos os vinte e sete mortos na emboscada do armazém – se ninguém nunca ligou pra isso antes, por que haveriam de ligar agora? Sabia que havia algo por trás de seu súbito interesse, uma sombra espreitando por detrás da máscara de deboche que havia colocado, e estava certo. Mais uma vez, tudo se resumia à interesses pessoais e sede de vingança.

De certo essa não era a intenção de ninguém ao armar todo aquele circo e criar um dos maiores massacres que essa cidade já viu – talvez tivesse sido a de Zelo, mas não a de Rap Monster ou Suga – porém, sem que percebêssemos, acabamos arrastando mais uma pessoa para essa bola de neve gigante e sangrenta que chamávamos de guerra. Eu duvidava que essa bola sequer pudesse ser parada; na verdade, a possibilidade de se tornar uma avalanche estava mais próxima da realidade do que eu gostaria de admitir. Essa corrida pra determinar o melhor dos melhores estava se tornando muito perigosa, principalmente com a adição da polícia na brincadeira, e eu sinceramente não sabia se todo o sacrifício valia à pena.

Acordei de meus devaneios com Kyung mais uma vez abrindo a porta com certa hesitação e colocando a cara por entre a fresta, olhando-me com olhos grandes de condolência. Eu devia parecer terrível: cabelos desgrenhados, roupa amassada e olheiras profundas devido à falta de sono. Não me admira que o outro sentisse pena de mim em momentos como esse – eu sentiria pena de mim também, se pudesse.

— Pode entrar. O que está acontecendo com você ultimamente? Eu não mordo. – convidei-o com um gesto da mão enquanto fazia uma pobre tentativa de piada. O momento não pedia piadas e nós dois sabíamos disso, mas eu não podia me render à seriedade da situação sem perder um pouco da sanidade. Enquanto o moreno fechava a porta atrás de si, fiz caminho até um pequeno bar onde mantinha meu variado estoque de bebidas alcoólicas, a fim de encher-me um copo e esvaziá-lo numa golada só na esperança que o ardor do álcool pudesse levar o cansaço embora. Kyung aproximou-se e pediu uma dose do que quer que eu estivesse bebendo, e assim que coloquei um segundo copo à sua frente cheio até a metade do mais puro uísque escocês, assisti-o fazer o mesmo.

— O coroa não parecia muito satisfeito quando saiu daqui. – comentou. Tive que rir pelo tratamento que meu melhor amigo reservara ao detetive; o garoto não tinha o menor respeito pelos mais velhos, muito menos por figuras de autoridade. – O que ele queria?

— O mesmo que todos nós. – respondi enigmaticamente enquanto servia mais uma dose para nós dois. – Vingança. Park Hee Soon é apenas mais um nessa cidade que tem contas à acertar com Bang Yongguk.

— Que entre na fila, então. – disse enquanto entornava o líquido garganta abaixo. Apoiando o copo sobre o balcão do bar com um pouco mais de forma do que o necessário, rosto contorcido numa careta que era metade desconforto e metade confusão, virou-se para mim como se tivesse receio da resposta que daria para a pergunta a seguir. – Isso por acaso se trata da filha desaparecida?

— Como advinhou? – brinquei, apenas fingindo a surpresa que deixei transparecer em meu tom de voz, lançando-lhe um meio sorriso por cima do ombro enquanto dirigia-me até o meio da sala e fazia-me confortável no sofá de couro que havia disposto ali.

— Eu já devia imaginar. Aquele hyung é muito previsível. – lamentou-se, estalando a língua no céu da boca ao tomar seu lugar numa das poltronas adjacentes. – Essa obsessão vai acabar custando-lhe a vida.

— Foi exatamente isso que eu disse. Mas ele me ouviu? Não. – pausei ao ouvir Kyung soltar uma risada seca de escárnio, como se já esperasse pela resposta. – Ao invés disso preferiu ser o velho teimoso que é e ameaçar vir atrás de todos nós até conseguir o que quer.

— Oh-oh, isso não é bom. O que você pretende fazer agora? – perguntou-me com cautela no olhar e receio na voz, quase como se temesse me ofender com a mera suposição de que ele não confiava em minha liderança o bastante para fazer aquele tipo de pergunta. Talvez eu pudesse tomar ofensa se fosse qualquer outro dia, com qualquer outra pessoa. Mas ali, naquele momento, eu só conseguia suspirar de cansaço.

— Seria ótimo se eu soubesse. – admiti, fechando os olhos e tombando a cabeça pra trás a fim de descansá-la sobre o encosto do sofá. Seria ótimo se eu apenas tirasse um cochilo também. – Uma parte de mim quer continuar perseguindo Yongguk, se não pra ajudar Namjoon, pelo menos pra vingar a morte de meus homens. Mas eu também sei que se começar a trilhar esse caminho não haverá mais volta.

— Que bom que sabe disso. Me poupa o trabalho de tentar enfiar algum juízo nessa cabeça dura. – apesar do tom leve e descontraído, sua fala era apenas parcialmente brincadeira; eu conhecia Kyung o suficiente para saber quando ele falava verdades escondidas por trás de piadas. Depois de uma longa pausa de silêncio contemplativo, acrescentou com voz suave, pouco acima de um sussurro: – Se eu te fizer uma pergunta, pode me responder com sinceridade?

— Manda. – encorajei-o.

— O que você espera ganhar se metendo na briga dos outros?

Tal pergunta atraiu minha atenção de imediato, fazendo-me erguer a cabeça e encará-lo estupefato; não porque era absurda, mas sim porque eu mesmo nunca tinha me feito esse questionamento. Claro, eu já havia me perguntado se talvez os sacrifícios não valessem à pena, os fins não justificassem os meios, ou qualquer baboseira parecida, mas nunca havia pensado numa recompensa em termos materiais, palpáveis. A brutalidade da questão de repente me fez repensar todas as minhas atitudes e decisões até então. Eu jamais admitiria caso perguntassem, mas até que Kyung tinha um ponto interessante. Que benefício existia pra mim nessa guerra sem sentido? Aos meus olhos, a resposta era mais do que óbvia.

— Nada. – admiti com um encolher de ombros, curto e grosso. – Não há nada pra mim na reta final, nenhum pote de ouro, nem glória ou fama. Eu não tenho nenhum motivo pra me meter, a não ser ajudar um amigo no momento que ele mais precisa de mim. Essa é a verdade, nua e crua.

— Escuta, Jiho... – começou, pausando por um momento como se escolhesse as palavras certas pra continuar. Oh-oh, pensei, se meu nome de batismo foi usado é porque provavelmente ai vem algo que eu não quero ouvir.— Eu sei que Namjoonie é seu amigo e tudo mais. Acredite, eu também adoro aquela máquina de destruição ambulante, mesmo que ele tenha batido meu carro daquela vez. – brincou, trazendo-me um sorriso com as memórias. – Mas nós não podemos prejudicar esse grupo com assuntos que não nos interessam. Pense bem, Jiho. Já perdemos cinco dos nossos num intervalo de tempo menor do que perderíamos em um ano inteiro de assaltos. Eu detesto ser aquele cara que prefere dar ouvidos à voz da razão, mas... está na hora de parar.

— Então o que você sugere que eu faça? Vá até Namjoon e diga “me desculpe, mas você está por conta própria agora”? Me despeça com um tapinha nas costas e um desejo de boa sorte? Você sabe que não sou assim. Eu jamais recuso um pedido de ajuda, mesmo que isso me traga arrependimentos futuros. Eu preferia morrer à abandonar o barco agora.

— Pode até ser, mas não é você quem está morrendo por causa dessa guerra estúpida. – retrucou sem um segundo de hesitação, suas palavras afiadas me acertando em cheio como um tapa na cara. Me vi sem palavras diante do mais velho, afinal eu não poderia negar o que era verdade. Imediatamente o outro pareceu se arrepender do que disse, pedindo-me mil desculpas num tom apologético, mesmo que nenhuma fosse necessária.

— Poupe seu fôlego, Kyung. Você está certo. – assegurei-lhe, mesmo que o menor ainda parecesse culpado. – Seria tudo muito bonito e nobre de minha parte se ao menos eu fosse o único que tivesse algo a perder nesse jogo. Mas não sou. Se eu afundar, levo todos vocês comigo, e isso não é justo. – concluí, sentido com o que teria que fazer em seguida mas convicto da minha decisão. – Você poderia me deixar a sós um minuto? Preciso fazer uma ligação.

— Claro, vou te deixar em paz. O dever também me chama. Alguém precisa contatar as famílias dos falecidos e lhes dar a má notícia. – apesar da piada, o sorriso que exibia era triste. Kyung dirigiu-se até a saída sem mais uma palavra, porém hesitou logo antes de passar pela porta, virando-se para mim com um olhar cheio de compaixão. – Não se preocupe, Zico-ah. Tenho certeza que vai dar tudo certo no final. Namjoon entenderá.

— Obrigado, Kyungie. De verdade. – devolvi-lhe o sorriso mais sincero que eu conseguira o dia inteiro, querendo dizer cada palavra. Eu era grato à Park Kyung por muitas coisas. Se não fosse por ele, sua forma descontraída e relaxada de ver o mundo, sua capacidade de falar o que eu precisava ouvir não importava o quanto doesse e, acima de tudo, sua lealdade inquestionável, eu provavelmente não estaria sentado no trono que ocupo hoje. Não exisitiria o todo poderoso e temido senhor das armas, apenas Zico, o garoto pobre e metido a esperto que tentara entrar no mundo do crime e falhara miseravelmente – provavelmente estaria morto numa sarjeta qualquer por aí. Portanto, aqueles agradecimentos não eram apenas pela conversa motivacional que tivemos agora a pouco, e sim por muito mais do que isso. Mas eu não precisava me explicar; Park Kyung entendia.

Pude ouvir a porta se fechar com um suave clique enquanto discava o número de Rap Monster e deixava meu calcanhar saltitar no lugar como um tique nervoso. Havia tanta coisa que eu precisava lhe dizer, tanto que eu não sabia nem por onde começar. Esperei a ligação chamar uma, duas, três vezes até ouvir a voz grave e aveludada de meu amigo do outro lado da linha.

Zico? Aconteceu alguma coisa?— Namjoon, soando preocupado, fora direto ao assunto. Ainda que eu entendesse o motivo de tal reação – afinal não era comum de minha parte ligar apenas pra jogar conversa fora – não pude deixar de sorrir.

— Hey, Monster. – cumprimentei-o da mesma maneira de sempre, mesmo que minha voz carecesse do volume habitual. – Não.. quer dizer, sim. Aconteceu sim. – decidindo que seria melhor botar todas as cartas na mesa e colocá-lo a par de tudo que havia acontecido, suspirei e pus-me a narrar meu dia desde o momento que fora arrancado contra vontade da cama. Namjoon apenas aguardara até que eu terminasse em silêncio, emitindo leves ruídos aqui e ali para me assegurar de que estava ouvindo. – Então eu gostaria de lhe pedir desculpas, Monster. Gostaria de poder fazer mais por você, mas sinto que minhas mãos estão atadas.

Não precisa se desculpar, Zico. Você já fez mais do que o suficiente por mim. Mais do que eu poderia pedir. Sinto muito pelos seus homens.— pediu. Eu sabia que suas desculpas eram sinceras pois ele, como líder de seu próprio grupo, responsável por seus próprios homens, sabia como era pesado o fardo de ter a vida de todos na palma das mãos.

— Nah, todos nós sabíamos no que estávamos nos metendo. São ossos do ofício, certo? – ri, mesmo que a brincadeira não tivesse feito nada pra elevar o humor. – Eu só não imaginava que eles fossem nos descobrir tão cedo... e retaliar de foma tão brutal. – lamentei.

Sinto muito.— repetiu. Todo esse sentimento de culpa estava me dando nos nervos; eu estava prestes a ralhar com o mais novo quando acrescentou: – Mas depois do que aconteceu no armazém, acho que não devíamos nos surpreender com mais nada. Nós já sabemos do que são capazes.

— Eu sei. E é justamente por isso que tenho que me afastar agora enquanto há tempo. – admiti, ainda que relutantemente. – Odeio ser o tipo de amigo que pula fora quando a situação aperta, Monster, mas eu não posso colocar mais homens meus em risco. Espero que entenda.

Perfeitamente. Eu pularia também se fosse você.— assegurou-me. – Não se preocupe, não há ressentimento entre nós. Você não precisa fazer um alvo de si mesmo quando essa briga nem é sua. Sua maior responsabilidade agora é com seus homens, então não perca tempo com um jovem tolo e inconsequente como eu.— o mais novo pausou quando ri, juntando-se a mim logo em seguida. – Falo sério, Jiho. Eu só posso te agradecer por tudo que fez por mim. Você é um verdadeiro amigo, sei disso agora.

— Yah, pare de ser tão sentimental, vai me fazer chorar. – brinquei, arrancando mais algumas risadas do outro, o que me fez sorrir. – Posso te dar um último conselho, amigo?

Mas é claro.

— Aproveite o tempo que tem antes que Hee Soon apareça na sua porta e suma da cidade por um tempo. Deixe os ânimos esfriarem, espere a poeira baixar. Esconda qualquer evidência de atividade ilegal e seus companheiros, o prédio todo se for necessário. – ri novamente, mas dessa vez sem nenhum traço de humor. – Eu falo sério quando digo que o detetive não vai sossegar enquanto não colocar as mãos em Yongguk. E não duvide por nenhum segundo que ele virá atrás do seu rabo pra conseguir isso. Não se preocupe comigo ou com um possível ataque da gangue de Bang, nem ele é tão estúpido a ponto de fazer algo enquanto a polícia tá na nossa cola. Pense nisso como uma semana de férias forçadas, sim?

Agradeço o conselho, amigo, e o aviso também. Preciso me reunir com Jinnie e Suga pra decidir nosso próximo passo, mas prometo que pensarei nisso com cuidado.— disse com tom de despedida. – Tente não se preocupar comigo e se ocupe apenas em recuperar as forças e a moral do pessoal, isso é importante. Mais uma vez obrigado por tudo, e me desculpe pelos problemas causados.

— Aish, eu já disse que não precisa ser assim tão formal comigo, Monster. Ainda somos amigos, não somos?

Sempre.— concordou. Nos despedimos de forma amigável, ainda que o sentimento fosse de uma despedida mais definitiva do que parecia. Entretanto, nenhum de nós queria encarar aquele momento como um adeus. Talvez, se as circunstâncias fossem outras, se o inimigo fosse diferente, eu poderia continuar ao seu lado e juntos poríamos um fim naquele caos de uma vez por todas. O senhor das armas e o mestre das drogas, aí estava uma dupla que poucas forças poderiam parar. Mas aprendi a aceitar que aquele apenas não era o momento certo.

Talvez algum dia no futuro, quando tudo estivesse acertado, nós pudéssemos nos reunir e apenas matar o tempo juntos como antigamente. Juntar forças e comandar o underground de Seoul como uma verdadeira irmandade, duas gangues poderosas que juntas se tornariam imbatíveis. Era um sonho bobo, mas bastante possível de ser realizado. Talvez. Algum dia.

Ainda somos amigos, não somos?

Sempre.