Hold me Tight
24 Os sacrifícios que fazemos por amor
– Jungkook POV -
Enquanto andava pelas ruas desertas de uma parte marginalizada da cidade, mãos nos bolsos do moletom, capuz sobre a cabeça e fones sem música no ouvido, pude notar o ressoar de passos atrás de mim. Pelas sombras projetadas na calçada através da luz artificial provinda dos postes de luz que não estavam quebrados, constatei que eram dois indivíduos, e que se aproximavam cada vez mais. Não consegui evitar o nervosismo, o sentimento de desamparo fisgando meu estômago diante do que eu sabia que estava por vir; havia um nó na garganta e minhas palmas estavam molhadas de suor. Ao me aproximar de uma esquina, choquei-me contra um terceiro indivíduo, um garoto forte que escondia metade de seu rosto atrás de uma bandana vermelha. Ele não aparentava ser muito mais velho que eu, mas eu não poderia ter certeza, uma vez que a única parte visível de seu rosto eram seus olhos. Assim que travei meu olhar naquelas orbes, senti um arrepio percorrer a espinha. Eu estava congelado no lugar sob a intensidade daqueles olhos; os outros dois que me seguiam agora já fechavam um círculo ao meu redor, obstruindo todas as possíveis rotas de fuga. Meu instinto de sobrevivência gritava para que eu sumisse dali, corresse o mais rápido possível para longe do perigo. Mas eu sabia que agora era tarde demais. Além do mais, eu precisava fazer isso, eu precisava suportar a dor e me livrar do problema de uma vez por todas. Por ele.
– Você ficou louco? – exclamei, exasperado, encarando o loiro como se ele tivesse acabado de pedir para que eu roesse os dedos dos pés. Porque, sinceramente, sua ideia era tão absurda quanto. Porém, ele pareceu entender a pergunta como retórica e não respondeu, optando por me encarar de volta silenciosamente. Só então notei a seriedade estampada em suas orbes negras, me convencendo de que aquilo de fato não era uma pegadinha. Soltei todo o ar do pulmão pesadamente, passando as mãos pelo rosto enquanto minha mente tentava montar todo o quebra-cabeça. – Deixa eu ver se entendi. Você está sendo seguido por uma gangue rival, que te viram andando com o Jimin, e pra evitar que ele se machuque, você precisa que eu me passe por ele. É isso?
– Basicamente. – assentiu com um aceno de cabeça.
– Isso não vai dar certo. – cortei de imediato.
– Por que diz isso? – Suga indagou com uma careta de irritação contorcendo suas feições. Aparentemente ele deixara de notar todas as enormes falhas presentes no seu plano mirabolante, e não gostava de ser contrariado.
– Porque essa é a ideia mais ridícula que eu já ouvi em toda a minha vida. – apesar das palavras de deboche, eu ria sem nenhum humor, pois a situação era grave demais pra piadas. – Eu e Jimin não somos nem ao menos parecidos. Se essa pessoa que tá te seguindo, quem quer que seja, viu Jimin com você, ela vai descobrir que eu sou apenas uma isca.
– Não vai, não. – assegurou-me, um pequeno sorriso convencido adornando seus lábios. – Você não entende, Jungkook? É justamente por isso que estou sendo seguido. – ele falava de uma forma animada, quase eufórica, rindo como se não pudesse acreditar na própria sorte. – De alguma forma, a identidade de Jimin continuou preservada. Eles só me viram com um garoto, que presumiram ser meu namorado, mas não sabem quem o garoto é realmente. Pensaram que eu me encontraria com ele de novo, por isso me seguiram. O único fator que eles não levaram em consideração, era que eu pudesse notar que estava sendo perseguido antes e evitar contato com ele.
– Namorado? – indaguei fazendo uma careta, tendo ignorado todo o seu falatório pra me focar nesse detalhe em especial. Porque pensariam que Jimin e Suga eram namorados?
– Depois de tudo o que eu falei, foi só nisso que você prestou atenção? – bufou, desviando a atenção para o rio à nossa frente e pescando o maço de cigarros no bolso da calça. – Você é realmente um fedelho irritante.
– Jimin é seu namorado? – perguntei sem rodeios, mantendo os olhos fixos em seu rosto, analisando suas reações. Por uma fração de segundo, suas sobrancelhas se ergueram e o cigarro escapou de seus dedos, caindo novamente na embalagem junto com todos os outros.
– Você consegue ouvir a merda que está falando? – retrucou, o rosto fechado numa carranca irritada enquanto pegava o cigarro de volta e o colocava entre os lábios.
– Estou esperando uma resposta. – informei-o, observando suas feições se fecharem ainda mais antes dele me direcionar um olhar afiado como navalha. Com o isqueiro em mãos, Suga acendeu o cigarro e deu uma longa tragada enquanto enrolava pra responder. Estava prestes a demandar uma resposta, com minhas mãos fechadas em punho, quando ele soltou a fumaça na minha cara.
– Claro que não, moleque. – seu tom era contido, mas eu não sabia exatamente o que ele queria esconder. – Depois sou eu que tenho ideias ridículas.
– Se você quer se matar, se mate sozinho, por favor. – resmunguei, tossindo e abanando as mãos na tentativa de dispersar a fumaça, enquanto voltava minha atenção para a janela ao meu lado e observava a luz da lua banhar a paisagem deserta ao nosso redor. Resolvi deixar o assunto pra lá, mesmo que não estivesse convencido. – Você disse que não quer que Jimin se machuque. O que exatamente você acredita que essa gangue poderia fazer com ele? – perguntei cautelosamente, temendo o pior. As imagens daquele garoto sangrando no concreto ainda estavam bem vívidas na minha memória. Por algum motivo, eu acreditava que a gangue que agora seguia Suga era a mesma que causara sua morte. Se esse fosse realmente o caso...
– Olha, garoto. Eu não vou mentir pra você. – começou, e apenas o tom de sua voz já confirmava minhas suspeitas. – Esses caras são capazes de fazer qualquer coisa. Pode ser que o líder deles queira apenas me dar um susto, me desequilibrar um pouco. Ou ele pode estar com sede de sangue. Eu realmente não sei. – suspirou, esfregando os olhos cansados. Virando-se na minha direção, capturou meu olhar com tamanha intensidade que eu me vi incapaz de desviar os olhos. – Mas eu te prometo uma coisa. Jamais deixarei que algo de ruim te aconteça.
– Como você pode ter tanta certeza? – questionei, incerto, minha voz pouco mais de um sussurro. Eu sentia mais medo do que gostaria de admitir. Não só por mim, mas por Jimin também. Suga, por outro lado, parecia confiante. Soltou um risinho debochado e jogou o cigarro pela janela aberta.
– Você ainda não sabe, mas esses caras são muito amadores. O líder do bando é um cara excepcionalmente inteligente e perigoso, claro. Mas a mão-de-obra que ele contrata passa dos limites do patético. – lançou-me um sorriso presunçoso. – Não se preocupe, eu tenho tudo sob controle. Você só precisa confiar em mim, ok?
Sem saber exatamente o que dizer, apenas lhe respondi com um aceno de cabeça, um pouco relutante, mas positivo de qualquer maneira. Isso pareceu diverti-lo; Suga recostou-se na porta do carro, cruzando os braços e erguendo uma sobrancelha na minha direção.
– Isso quer dizer que você topa?
– Não se engane, Suga. – adverti, encarando seus olhos a fim de transmitir a seriedade das minhas palavras. – Não estou fazendo isso por você, mas sim por Jimin.
– Não esperava que fosse de outra forma. – encolheu os ombros e se ajeitou no banco, girando a chave na ignição e dirigindo pelas estradas desertas de Seoul.
O chute que recebi no estômago me fez dobrar o corpo, a dor tão intensa que fui assolado por uma ânsia de vômito. Tentei apoiar as mãos nos joelhos e recobrar um pouco do equilíbrio, mas a mão grande e grosseira do meu agressor agarrou algumas mechas do meu cabelo, trazendo meu rosto pra perto do seu. Eu agora me encontrava num beco mal iluminado e afastado da avenida principal, onde ninguém notaria um garoto sendo espancado por uma gangue – não que houvesse alguém pra notar, já que as ruas ao redor estavam desertas. Eu estremeci, fazendo uma careta de dor ao ter os cabelos puxados, mas num instante a dor fora esquecida quando ganhei uma cabeçada do outro, que deixou minha mente entorpecida. Fui jogado contra a parede devido a força aplicada no golpe, e antes mesmo dos pontos negros na minha visão desaparecerem, o homem puxou o punho para trás e me atingiu em cheio na boca com um soco. Na mesma hora senti meus lábios sendo cortados com o impacto, e o gosto ferroso de sangue na língua que eu havia mordido sem querer. Novamente o meu instinto de sobrevivência gritava comigo, mandando que eu fugisse, ou revidasse, qualquer coisa. Mas eu precisava suportar. Precisava aguentar todos os golpes quieto, até que eles estivessem satisfeitos e me deixassem em paz. Deixassem Jimin em paz.
O homem segurou meus ombros e me atingiu com uma joelhada no baixo ventre, fazendo com que eu dobrasse meu corpo novamente e cuspisse um pouco de sangue na sua calça jeans. A essa altura eu nem registrava a dor, querendo nada mais do que acabar com aquilo logo. Fui puxado para cima pela gola da camisa, empurrado contra a parede e mantido ali pelo braço tatuado do outro, que era pressionado firmemente contra minha garganta. Pelo canto do olho, pude notar o brilho de uma pequena lâmina na sua mão livre. Então é assim que acaba, pensei. Fechei os olhos e esperei pela fisgada do metal frio contra a minha pele, mas ao invés disso, ouvi o clique de um revólver sendo destravado.
– Solta. – comandou a voz rouca de Suga, e quando abri os olhos, pude ver que ele estava atrás do meu agressor com uma arma apontada para sua cabeça. Os outros dois, que ficaram para trás a fim de vigiar o local e apreciar um pouco do show, encontravam-se rendidos aos pés de um casal que eu acreditava pertencerem ao grupo de Suga. Sob a mira de uma arma e sem ninguém pra lhe dar suporte, o garoto não tinha outra escolha senão obedecer ao comando. Deixou o canivete que tinha em mãos cair no chão e se afastou de mim, entrelaçando os dedos atrás da cabeça. Eu estava grato por poder respirar novamente, mas não me atrevi a mover nenhum músculo; a atmosfera estava tão densa que era quase palpável.
– O que fazemos com esses dois, Suga? – perguntou a garota que o acompanhava, e me surpreendi ao notar que sua voz era grave e rouca, um contraste perfeito para suas feições femininas. Ela era bonita, tinha cabelos loiros e olhos grandes, mas parecia tão mortal quanto os outros dois caras que acompanhavam-na com uma arma na mão.
– Deixe-os ir. Eu só preciso de um deles, de qualquer forma. – respondeu, sem tirar os olhos do homem diante de si. Logo os outros dois mascarados foram libertados sob ameaças de morte caso tentassem alguma besteira; o recado fora bem simples, e ambos correram sem olhar pra trás sequer uma vez. Realmente, Suga tinha razão. Esses caras não passavam de amadores. – Sungjae, você poderia escoltar esse pedaço de merda até o estacionamento? Rap Monster estará esperando por ele. – pediu, dirigindo-se ao garoto de sorriso largo que viera com ele.
– Pode deixar, chefe. – Sungjae imobilizou o homem, prendendo seus pulsos atrás das costas com uma corda, guiando-o para a saída do beco. O agressor estava terrivelmente quieto e obediente; Suga pareceu notar algo de errado também, pois agora se virava para a moça de cabelos loiros.
– Bo A, preciso que você vá com ele. – a garota assentiu com a cabeça, mas antes que pudesse dar um passo, Suga segurou seu pulso. – Mantenha-o sob a mira da sua arma durante todo o percurso. Nunca se pode confiar nesses filhos da puta.
– Entendido. – assentiu mais uma vez e destravou o revólver, mantendo-o erguido na direção da cabeça do outro. Observei o trio se afastar até desaparecer ao virar a esquina, indagando-me sobre qual seria o destino daquele que me espancou. Parte de mim sabia que não seria nada agradável.
– Você está bem? – Suga me perguntou, colocando um dedo sob meu queixo de forma delicada, correndo os olhos sobre a minha face tentando analisar todos os danos.
– Estou ótimo. Tire as mãos de mim. – rosnei, afastando sua mão com um tapa. Na verdade, eu não estava nada bem, muito menos ótimo. Mas a última coisa que eu queria no momento era sua pena.
– Não é o que parece. Você tem um lábio rachado e um corte na testa, além de um hematoma feio se formando no queixo. E isso é o que eu posso ver apenas no seu rosto. – afirmou como se debochasse da minha tentativa falha de parecer autossuficiente. – Deixe-me pelo menos levá-lo até Jin, ele pode dar um jeito na sua cara.
– Eu não preciso que ninguém dê um jeito na minha cara. – retruquei, tentando passar por ele e sair daquele beco maldito, mas minhas pernas fraquejaram e eu tropecei, quase caindo sobre o loiro. Suga fez o que pôde pra reprimir uma risada, mas eu ainda conseguia ver o sorriso debochado que puxava seus lábios. Contra minha vontade, deixei que ele me amparasse, colocando meu braço sobre seus ombros enquanto sua outra mão descansava na minha cintura. – Estou falando sério, Suga. Eu só quero ir pra casa. – pedi num tom baixo, e assisti o sorriso desaparecer de suas feições enquanto ele assentia com a cabeça.
– Tudo bem. Pra casa será, então. – ele nos conduziu pelas ruas, seus passos lentos já que eu estava mancando; não muito longe dali, avistei seu carro preto estacionado. Dirigindo-se ao lado do carona, Suga abriu a porta e me ajudou a sentar no banco com cuidado, fechando-a logo em seguida. Dando a volta no automóvel, acomodou-se no assento do motorista e ligou o motor. A viagem até o prédio de apartamentos onde morava fora silenciosa, e felizmente não havia nenhum veículo em nosso encalço; parece que o plano de Suga dera certo afinal. Uma vez que a gangue já havia espancado seu “namorado”, não havia mais necessidade de segui-lo. O automóvel parou diante da minha residência, mas fui impedido de sair do carro por uma mão pousada no meu ombro. Virei o rosto na direção do dono da dita mão e o encontrei me encarando com uma expressão indecifrável no rosto. – Muito obrigado, por tudo.
– Não me agradeça. Eu não fiz isso por você. – retruquei, dessa vez sem a irritação habitual. Eu ainda não gostava dele, e continuava achando que ele era perigoso demais para ficar perto de Jimin, mas tinha que admitir que agora existia algo além de animosidade entre nós. Uma espécie de entendimento. Ouso dizer que existia até um pouco de respeito.
– Eu sei. Você fez por Jimin. – respondeu, repetindo minhas palavras, mas havia um brilho nos seus olhos. Talvez o sentimento de respeito fosse mútuo. – Mas eu gostaria de te agradecer, mesmo assim.
Assenti com a cabeça, reconhecendo seu agradecimento, e sai do carro sem dizer mais nada. Notei que Suga esperara até que eu passasse pelas portas do saguão, mesmo andando devagar e mancando, para então dar a partida no carro e ir embora. Assim que viu meu estado, o porteiro se prontificou a chamar uma ambulância, ou talvez a polícia. Recusei ambas as ofertas, dizendo que não passava de uma briga de bar e fazendo-o me prometer que deixaria o assunto pra lá. Uma vez que estava dentro do elevador, me permiti sentir verdadeiramente a dor que assolava meu corpo. Absolutamente tudo doía: desde minha cabeça, às minhas pernas e braços, meu estômago, meu queixo e lábios. Tudo doía, mas a dor valia à pena. Jimin estava à salvo.
Abri a porta do apartamento torcendo para que estivesse vazio, ou que pelo menos Jimin estivesse dormindo. Porém, minhas expectativas eram otimistas demais. Como há três noites atrás, lá estava ele, esperando por mim. Seus olhos se arregalaram em horror ao perceber o estado deplorável em que eu me encontrava. Tentei assegurar-lhe com um sorriso tímido, mas até esse pequeno movimento me causava aflição, o corte em meu lábio ardendo como o diabo. Desfiz o sorriso numa careta de dor, e imediatamente Jimin estava ao meu lado, suportando meu peso e me ajudando a caminhar até a sala. Nem sequer tirei os sapatos, deixando que ele me guiasse até o sofá de dois lugares e me posicionasse sobre ele. Deixei minha cabeça cair baixa em vergonha, vergonha de que ele me visse nesse estado, vergonha do modo com o qual lhe tratara durante os últimos dias, vergonha do olhar acusador que ele lançava na minha direção.
– Kookie... – chamou, ajoelhando-se diante de mim para tentar capturar meu olhar que estava direcionado para o chão. Estremeci com a suavidade da sua voz e uso do apelido carinhoso que ele me dera. – O que aconteceu com você?
– N-não foi nada. – gaguejei, desviando o olhar para algum ponto inespecífico do chão, ciente da promessa que fizera à Suga de não contar nada à ninguém, principalmente à ele. Mas eu já devia saber que Jimin não desistiria assim tão fácil. O mais velho era bem insistente quando queria ser, e quase sempre conseguia o que queria. Senti sua mão pequena segurar meu queixo com força, obrigando-me a olhar pra ele, mas quando sibilei de dor, ele a afastou depressa, murmurando um pedido de desculpas. Ao invés, optou por segurar minhas mãos entre as suas e implorar silenciosamente com os olhos.
– Por favor, Jungkook. Me diga o que houve.
– Eu... E-eu não posso. – suspirei, sentindo meu lábio inferior tremer levemente. – Eu prometi ao hyung...
– Hyung? Isso tem a ver com Suga? – seu tom ainda era preocupado, mas eu pude ouvir uma pitada de raiva colorindo sua voz.
– Jimin, por favor. – choraminguei, sentindo minha determinação começar a fraquejar diante de seu olhar. – Não me coloque numa posição difícil.
– Jungkook, você está ferido! – o tom de Jimin aumentou algumas notas, me sobressaltando com o grito repentino. Ele me lançou um olhar apologético, mas apertou minhas mãos um pouco mais forte. – Não me importa a promessa que você tenha feito. Se você se feriu por culpa dele, eu preciso saber. Eu mereço saber. – acrescentou, sua voz firme e sem o menor indício de que iria recuar.
– Jimin-ah... – chamei com a voz falhada, mordendo o lábio inferior para impedi-lo de tremer tanto. Eu podia sentir as lágrimas se acumulando nos meus olhos, mas me recusava a chorar; não agora, não na frente dele.
– Kookie... Shh... – Jimin tentou me acalmar, soltando minhas mãos para envolver os braços ao redor dos meu ombros, puxando minha cabeça de encontro ao seu peito. Passei meus próprios braços ao redor da sua cintura, segurando o material das costas de sua camisa firmemente nos punhos. Apoiei minha testa sobre seu coração – oh, tão quente – e fechei os olhos, deixando que as lágrimas corressem e alguns soluços escapassem de meus lábios. Jimin murmurava coisas acalentadoras no meu ouvido, seus dedos passeando pelos meus fios negros num carinho gostoso. – Vai ficar tudo bem. Está tudo bem.
– Vo-você não está b-bravo com-comigo? – perguntei contra seu peito, incapaz de encará-lo nesse momento. Os dedos de Jimin nunca pararam de acariciar minha nuca, e pude sentir um leve beijo plantado no topo da minha cabeça.
– É claro que não, Kookie. – assegurou-me, apertando um pouco mais o abraço pra confirmar suas palavras. – Mas eu preciso entender o que aconteceu.
– ...Tá bom. – concordei, levantando meu rosto e desvencilhando-me dos seus braços, me sentindo extremamente autoconsciente da minha aparência; eu sabia que devia parecer um lixo, lábios e testa cortados, queixo roxo e olhos vermelhos e inchados de choro. Respirei fundo, tomando coragem para contar-lhe tudo o que sabia, e torcendo para que ele não me odiasse depois.
Entrei no carro de Suga me sentindo um tremendo filho da puta. Mantive minha cabeça baixa o tempo todo, com medo de encontrar o olhar de Jimin por acaso; a confusão e a dor estampadas naquelas orbes castanhas eram demais pra mim. Só ergui meu olhar novamente quando a universidade ficou cada vez mais distante no retrovisor. Suga parecia debater algo consigo mesmo, checando o retrovisor interno do carro de tempos em tempos e assentindo com a cabeça para ninguém em especial.
– Parece que deixaram de me seguir pra passar a seguir você. – informou-me, aparentemente satisfeito. – Isso é bom. Foi bom Jimin estar presente quando te busquei também. Muito bom.
– O que há de bom nisso? – indaguei, duvidando por um instante de sua sanidade. Será que ele não tinha consciência de que Jimin ficaria furioso, não só com ele, mas comigo também?
– Agora que viram você entrar no meu carro, e não ele, não resta dúvidas de que você é o garoto que eles procuram. Além do mais... – fez uma pausa nervosa, umedecendo os lábios e arriscando um rápido olhar na minha direção. – Preciso da sua ajuda mais uma vez.
– O quê? Nem pensar. – recusei sem pensar duas vezes. – Já foi demais você me pedir pra enganar Jimin, mesmo que seja pra protegê-lo. Não farei parte de mais nenhum plano seu.
– Será que você pode ao menos me escutar? – pediu exasperado. Fiquei quieto e esperei ele terminar, mesmo que continuasse impassível. – O que estou planejando pode matar dois coelhos com uma cajadada só.
– Então, por favor, me esclareça. – encorajei, mesmo sabendo que eu não gostaria nada daquilo.
– Vamos entrar primeiro. – pediu ao estacionar o carro.
Notei que estávamos no mesmo bairro abandonado e marginalizado da cidade onde ficava o estacionamento que servia de casa para sua gangue; talvez estivéssemos até bem próximos do local. Porém, o prédio diante de mim era uma construção baixa de tijolos, com pichações por todos os lados, vidros sujos e aparência arruinada. Segui o mais velho prédio adentro, passando por corredores estreitos e subindo escadas de madeira que rangiam sob nosso peso. Quando chegamos ao terceiro andar, paramos diante de uma porta branca com a pintura descascada e velha, onde Suga tirou um molho de chaves para abri-la. O interior do apartamento era escuro como breu, e o fedor de cigarros e uísque era insuportável. Suga liderou o caminho, acendendo a luz da sala enquanto tirava os sapatos no pequeno hall de um metro quadrado e me incitava a fazer o mesmo, pedindo para que eu fechasse a porta atrás de mim. Assim o fiz, assistindo-o sumir para algum lugar que eu imaginava ser a cozinha, enquanto o esperava desajeitadamente em pé no meio da sala.
– Pode sentar, se quiser. – disse ele ao retornar com duas latas de cerveja na mão, indicando o sofá com a cabeça. Acatei sua sugestão, notando que o móvel além de gasto, era desconfortável. Eu me peguei imaginando exatamente quanto dinheiro ele ganhava traficando drogas, porque sua residência claramente não indicava riqueza. Aceitei a bebida oferecida com um encolher de ombros; eu ainda não tinha idade pra beber, mas contanto que fosse apenas uma latinha, eu estaria bem. Tomamos alguns goles imersos num silêncio apreciativo, mas logo eu havia perdido a paciência.
– Vai me dizer qual é seu plano brilhante, ou não?
– Você é um pivete bem impaciente, sabia? – provocou com uma risada de escárnio, provocação essa que eu respondi com um simples revirar de olhos. – Bom, é apenas questão de tempo até que eles te encontrem sozinho. É muito provável que eles te agridam fisicamente. – fez uma pausa, tomando mais um gole da cerveja e conseguindo me deixar mais impaciente do que já estava. – Eu quero que você me ajude a pegá-los numa armadilha. Tudo que você precisa fazer é andar sozinho por uma rua deserta, e permitir que eles te cerquem. Eu sei que não vai ser agradável, mas eu gostaria que você aguentasse alguns socos também.
– Você não acha que está pedindo demais, não? – perguntei, achando seu plano mais do que absurdo. – Talvez eu deva poupar o trabalho deles e atirar na minha própria cabeça, o que acha?
– Não será necessário. – respondeu em tom de deboche, como se considerasse minha sugestão. – Em pouco tempo eu estarei lá pra te salvar. Preciso capturar um deles para interrogatório.
– E pra que vai servir esse interrogatório?
– Eu preciso provar que foi a gangue deles que matou Wonwoo. Aquele garoto que vocês viram sangrando na entrada quando estiveram lá. – explicou, tomando outro gole do líquido gelado. – Até agora não tivemos sucesso em descobrir o que exatamente aconteceu. Ninguém testemunhou o ocorrido. Por isso preciso de um deles, e você será a isca perfeita.
Quando terminei o meu relato, Jimin estava praticamente espumando de raiva. Suas mãos estavam cerradas em punho, tão apertadas que suas juntas ficaram brancas; os músculos de seus braços tremiam, seu peito subia e descia de acordo com o ritmo da respiração que ele tentava controlar, seus lábios contorcidos num rosnado e sobrancelhas juntas em concentração. Era surpreendente vê-lo naquele estado, mas também muito assustador.
– Com licença, Kookie. – ele pediu, tentando ao máximo conter a ira na voz, mas falhando miseravelmente. – Eu tenho que sair pra matar uma pessoa. – Jimin pôs-se de pé, mas eu segurei sua mão, impedindo-o de ir. O menor me lançou um olhar irritado que pedia silenciosamente para que eu o soltasse. Ao invés disso, eu apertei ainda mais sua mão.
– Por favor, Jimin. Eu te imploro. – tentei transmitir todo o desespero que eu sentia através do olhar, e isso pareceu acalmá-lo um pouco. – Não vá até ele, é perigoso. Ainda podem ter homens atrás dele, e se você aparecer lá agora, todo o meu sacrifício será pra nada.
– Eu preciso fazer alguma coisa! Ele não pode sair impune pelo que fez você passar. – retrucou, impassível em relação ao seu acerto de contas. A ideia de que Jimin poderia colocar tudo a perder me deixava desolado; já podia sentir a ardência nos meus olhos e o tremor nos meus lábios.
– Não vá... Por favor... – implorei, trazendo sua mão para minha testa e descansando-a ali. Aparentemente minhas lágrimas foram o suficiente para quebrar sua determinação, pois o ouvi suspirar enquanto me puxava para cima e para o calor de seus braços. Deixei que ele me envolvesse, aninhando meu rosto na junção entre seu pescoço e ombro, inalando sua essência doce e permitindo que ela me confortasse.
– Eu fico. – anunciou, sua voz tão suave quanto um sussurro. – Mas me deixe cuidar de você, ao menos.
Ergui a cabeça para olhá-lo nos olhos, sem entender o significado de suas palavras. Fui recebido com o sorriso mais lindo que já vira na vida, terno e radiante ao mesmo tempo. Deixei que ele me guiasse até nosso quarto compartilhado com rubor colorindo minhas bochechas, que só aumentou quando entramos no banheiro e ele fechou a porta atrás de nós. Com o coração disparado, permiti que ele me despisse até que a última peça restante fosse a cueca boxer azul marinho que eu usava. Seus olhos entristeceram-se ao percorrer meu corpo cheio de feridas e hematomas; com movimentos contidos e cuidadosos, me colocou debaixo do chuveiro e deixou que a água quente corresse sobre mim. Fechei os olhos de imediato, ignorando a vontade louca de me cobrir e aproveitando o pequeno conforto que o calor trazia aos meus músculos abusados. Depois de alguns momentos, olhei para meus pés e observei a água descendo pelo ralo e levando consigo toda a sujeira e o sangue que maculavam minha pele. Durante todo esse tempo, Jimin estava do lado de fora do box, tocando meu rosto ou meu ombro em pequenos gestos de conforto, ou esfregando uma sujeira mais difícil de tirar. Pediu que eu me virasse de frente pra parede, e com a ajuda de uma esponja, começou a limpar minhas costas com movimentos suaves. Sentimentos conflituosos bombardeavam-me no momento; ao mesmo tempo que era bom estar submetido aos seus cuidados, era também estranho estar tão vulnerável diante dele. Diante da pessoa que eu amara durante boa parte da minha vida.
O chuveiro fora desligado cedo demais pro meu gosto e, me estendendo uma toalha, Jimin voltou ao quarto com o pretexto de pegar uma muda de roupas secas pra mim. Pouco depois ele retornou com uma camiseta branca e confortavelmente larga, calças de moletom e uma cueca nova. Pro meu alívio, ele saiu do banheiro e fechou a porta atrás de si, deixando que eu me trocasse sozinho. Cumpri a tarefa o mais rápido que meus músculos doloridos permitiam, e quando retornei ao quarto, Jimin estava deitado sobre a cama, indicando o espaço vazio ao seu lado. Nem sequer hesitei em ocupar o lugar, deixando que ele colocasse um cobertor sobre nós dois e apoiasse minha cabeça sobre seu peito, me puxando pra perto. Toda aquela situação me trazia de volta memórias de infância, quando ainda éramos amigos e inseparáveis.
– É como se estivesse de volta aos velhos tempos. – pensei em voz alta, me aconchegando ao seu lado com um sorriso satisfeito no rosto. Jimin apenas murmurou uma concordância muda em resposta, sem realmente saber o que dizer. Eu tinha consciência de que ele não se recordava daquela época, mas eu não tinha forças pra me importar. Tudo que eu queria era pegar no sono no calor dos seus braços, como fazíamos tantas vezes numa época mais feliz e doce. Numa época que eu sentia falta.
Numa época que eu esperava retornar.
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