Hold me Tight

25 Arrependimentos


– Yoongi POV -

Observei Jungkook caminhar com passos lentos e contidos até a entrada do prédio, sua perna direita mancando levemente e dificultando sua movimentação. Minha vontade era de levá-lo comigo até o estacionamento para que Jin cuidasse de seus ferimentos, já que eu me sentia indiretamente responsável pelas lesões que maculavam seu corpo, mas o garoto insistira em vir diretamente pra casa. Constatei que seria melhor fazer suas vontades, sabendo que em breve ele estaria aos cuidados de Jimin; com certeza o mais velho convenceria o amigo à ir ao hospital, já que Park Jimin era bem insistente quando queria. Esperei até que o mais novo estivesse são e salvo dentro do prédio de apartamentos antes de dar a partida no carro. Dirigi com certa pressa pelas ruas quase vazias da noite de Seoul, observando o bairro universitário dar lugar à prédios abandonados e sinistros, perfeitos para a prática de atividades ilícitas e criminosas; justamente o que acontecia neste exato momento no estacionamento ao qual eu me dirigia.

Chegando ao meu destino, fiquei satisfeito ao ver a caminhonete de nosso líder e o carro popular de Sungjae já estacionados no local. Travando as portas do meu próprio carro, fiz caminho pelo túnel que me levaria até o interior do prédio, notando que o ambiente parecia estranhamente tenso e quieto, diferente da vitalidade que habitualmente apresentava. Quando alcancei o portão que protegia a entrada, fui saudado pelos dois sentinelas que abriram a passagem pra mim. Como eu desconfiava, a área comum encontrava-se silenciosa, totalmente evacuada, exceto pelos dois sentinelas e Bo A e Sungjae, que montavam guarda do lado de fora da salinha que utilizávamos para assuntos mais urgentes ou sérios, sala esta que agora se encontrava com a porta fechada. Conforme encurtava a distância até os dois, pude ouvir alguns xingamentos e gritos de dor vindos do outro lado da porta. Pelo visto Rap Monster não fora capaz de aguardar minha chegada para começar o interrogatório.

– Correu tudo bem? – perguntei ao garoto que me recebeu com uma pequena reverência, sem nunca tirar o sorriso largo do rosto. Sungjae era um cara legal e um ótimo empregado, mas sua habilidade de sorrir em qualquer tipo de situação me dava nos nervos. Se eu não o conhecesse bem, diria até que ele estava tramando algo ou era algum tipo de psicopata. Mas, felizmente, esse não era o caso; aparentemente ele era apenas idiota.

– Sem problema nenhum, chefe. O prisioneiro tentou dar uma de engraçadinho pra cima de mim, mas a loirinha aqui certificou-se de que não aconteceria novamente. – informou-me, direcionando o sorriso para sua parceira, que apenas revirou os olhos em resposta.

– Muito bem. Bom trabalho. – acenei positivamente com a cabeça para ambos, apreciando o trabalho bem feito. – Vocês já podem ir. Vai ficar um pouco sangrento aqui.

– Acho que Seokjin já cuidou disso. – comentou Bo A, assim que um berro particularmente doloroso ecoou nas paredes de concreto.

– É, parece que sim. Ainda não acredito que eles começaram a diversão sem mim. – estalei a língua no céu da boca, fingindo decepção. Sungjae riu e Bo A dirigiu-se às escadas que levariam aos pavimentos superiores, desejando uma boa noite e puxando o outro consigo.

Após dar leves batidas na porta para anunciar minha presença, girei a maçaneta para abri-la no exato momento em que Rap Monster esbofeteava o rosto do outro com as costas da mão, utilizando tamanha força que a cadeira à qual o prisioneiro estava amarrado quase tombara com o impacto. O líder tinha as feições contorcidas numa carranca de raiva, enquanto o objeto de suas frustrações mantinha um sorriso debochado no rosto, e o pior: a boca fechada.

– Me responda, seu filho duma puta! – vociferou, apertando firme o queixo do outro em sua mão calejada enquanto aproximava seu rosto ao dele numa clara tentativa de intimidação. Porém, o outro pareceu não se abalar; cuspiu saliva manchada com um pouco de sangue diretamente no seu olho, fazendo com que o líder praguejasse e se afastasse limpando o rosto.

Agora eu já havia entrado por completo no recinto, fechando a porta atrás de mim e recostando-me na madeira a fim de observar a cena. Eu precisava reconhecer a determinação desse cara: ele tinha um olho roxo, lábios rachados e a bochecha vermelha do tapa que recebera agora à pouco. Seus dedos estavam ensanguentados, formando poças escarlates no chão sob seus pés, e Jin tinha um alicate nas mãos – igualmente ensanguentadas – o que só poderia significar uma coisa. Mesmo assim, mesmo com toda a dor infligida sobre si, o homem não dava o menor indício de quebrar.

– Jin, arranque mais alguma unha dele. – sugeri, assistindo o mais velho inclinar-se para fazer exatamente isso. – A dor vai ensiná-lo a não cuspir em seus sunbaes.

– Não, espere. – Namjoon interviu, impedindo-o de prosseguir com a tortura. – Parece que encontramos um resiliente. Apenas dor física não vai nos dar a informação que queremos.

– O que você sugere, Joonie? – Seokjin indagou, inclinando a cabeça para o lado como se eles estivessem discutindo os pratos principais do jantar, e não métodos de tortura.

– Vamos ver por quanto tempo ele consegue prender a respiração. – respondeu, abrindo o sorriso mais perturbador que eu já vira. Namjoon parecia ter levado o assunto para o lado pessoal, não que eu o culpasse. Precisávamos da informação sobre a morte de Wonwoo, e esse cara não estava exatamente facilitando nosso trabalho.

Jin dirigiu-se até a mesa onde estavam dispostos todos os seus instrumentos de tortura – ou cirúrgicos, como ele gostava de chamar – limpando o alicate com uma gaze antes de guardá-lo no local apropriado. Ele então pegou uma sacola plástica grande o suficiente pra envolver a cabeça de um homem adulto por completo, retornando ao seu posto atrás do prisioneiro enquanto aguardava novas ordens do líder.

– Muito bem, vou tentar mais uma vez. – começou, sua voz grave caindo algumas notas, deixando seu tom ainda mais ameaçador e indicando que não lhe restava paciência para brincadeiras. – Você tem conhecimento sobre a morte de um dos meus empregados, Jeon Wonwoo?

O garoto manteve-se quieto, apenas encarando Namjoon de modo desafiador. Com um aceno do líder, Jin envolveu sua cabeça com o plástico e apertou, cortando o fluxo de oxigênio. O prisioneiro ficou imóvel por alguns instantes, tentando prender a respiração, mas logo seus membros atados retesaram-se e seu corpo lutava contra a falta de ar, sua boca aberta na tentativa desesperada de engolir oxigênio, mas só conseguindo sentir o gosto de plástico. Com mais um sinal de Rap Monster, a sacola fora retirada e ele respirava pela boca de forma afoita, tossindo profusamente. Quando o garoto não deu sinais de que iria responder a pergunta, Jin repetiu o processo, assistindo-o debater-se sobre a cadeira. Assim que removeu a sacola novamente, pude notar que haviam lágrimas acumuladas nos cantos dos olhos do outro. – Sim! Sim, eu sei quem o matou! – gritou em meio às tosses.

– Parece que finalmente estamos tendo um diálogo. – disse Namjoon, agachando-se para ficar no mesmo nível do prisioneiro. – Agora, me diga quem foi.

O que nenhum de nós esperava, era que o garoto começasse a rir. E não foi uma simples risada debochada, mas uma gargalhada alta que beirava a histeria. Impaciente, Namjoon sinalizou para que Jin lhe cortasse o fluxo de ar; os sons que saíram de sua boca eram perturbadores, uma mistura de risada com engasgo e uma busca incontrolável e desesperada por oxigênio. Assim que pôde respirar normalmente, soltou mais algumas risadas em meio às tosses. – Vocês não entendem? Não importa quem apertou o gatilho. Vocês podem matar cada um de nós, porém outros virão para tomar nosso lugar. O senhor Bang tem dinheiro suficiente pra contratar um exército. Essa guerra já está ganha.

– O que quer dizer com isso? O que Yongguk planeja fazer? – indagou, exigindo respostas. Quando o garoto respondeu com nada mais além de um sorriso triunfante no rosto, Jin envolveu sua cabeça com a sacola de plástico mais uma vez, mantendo-a firmemente presa por mais tempo que o necessário, à comando do líder. Porém, quando sua respiração fora desobstruída, o garoto já havia desmaiado por falta de oxigênio no cérebro. Um longo suspiro em coro podia ser ouvido entre as paredes da sala de vigilância. Nosso informante agora se tornara inútil.

– Isso foi uma grande perda de tempo. – Seokjin resmungou, deslocando-se pela sala e guardando a sacola para usos futuros, antes de recolher todo o seu material que jazia sobre a mesa.

– O que fazemos com ele? – Rapmon direcionou a pergunta à mim, mesmo sem tirar os olhos do prisioneiro desmaiado diante de si, os braços cruzados em ponderação. Soltei todo o ar do pulmão, sentindo-me exausto de repente. A escolha mais sensata seria livrarmo-nos dele, mas eu podia ver a hesitação no olhar do mais novo; pra alguém que era líder de uma gangue criminosa, Namjoon era bastante piedoso. Voltei-me para a porta, encolhendo os ombros antes de girar a maçaneta.

– Eu sinceramente não me importo. Você pode mandá-lo de volta pra Gangnam, se quiser. – atravessei a soleira da porta a fim de ir embora, mas parei por um momento, lançando um olhar por cima do ombro. – De qualquer forma, assim que Yongguk descobrir que ele abriu a matraca, será um homem morto. – nem sequer esperei uma resposta, resumindo meus passos até sair do prédio e entrar no carro. Girei a chave na ignição e dirigi a curta distância até meu apartamento, ansiando nada mais do que o conforto de uma bebida ardente descendo pela garganta. A noite fora extremamente longa, e eu só desejava que ela acabasse.

No dia seguinte acordei ao som de batidas insistentes na porta da frente. Grunhi em irritação, rezando para que o barulho cessasse e eu pudesse voltar a dormir, o que obviamente não aconteceu; ao invés, as batidas só aumentaram em frequência e intensidade. Rolei de bruços na cama, abrindo apenas um olho para espiar a hora no relógio digital disposto no criado-mudo ao lado da cabeceira: era pouco mais de quatro horas da tarde. Franzi o cenho em concentração, tentando me recordar exatamente como eu conseguira encontrar o caminho da cama e apagar por doze horas seguidas. Eu lembrava de ter chegado em casa e desabado no sofá, assistindo programas ruins na televisão enquanto esvaziava garrafa atrás de garrafa do meu líquido âmbar favorito – uísque. Concluí que a nebulosidade na minha mente devia-se ao meu estado embriagado, e assim que levantei-me a contragosto e chutei uma garrafa de vidro vazia que estava no chão ao pé da cama, pude confirmar minhas suspeitas.

Indo em direção ao barulho insuportável enquanto acendia as luzes do apartamento e balbuciava xingamentos obscenos, dei-me conta de que eu provavelmente não estava em meu melhor estado; ainda vestia as roupas da noite anterior – calça jeans e uma simples camiseta preta – agora amassadas depois de tanto revirar-me nos lençóis, pés descalços no chão frio, mechas loiras apontando em todas as direções e olhos que mal passavam de fendas, quase fechados devido ao sono e à ressaca. Definitivamente eu não seria uma visão agradável, mas quem quer que seja desumano o suficiente pra interromper meu estado de hibernação pode muito bem lidar com isso. Eu não poderia me importar menos.

– Já vai! – rosnei ao me aproximar da porta, que chegava a tremer com a força das batidas. É melhor ser algo importante, pensei, pronto pra enxotar o intruso e voltar pra cama. O que eu não esperava era que, ao abrir a porta, fosse me deparar com ninguém menos que Park Jimin em toda sua glória – ou devo dizer ira?

Antes mesmo que eu pudesse convidá-lo a entrar, Jimin colocou sua pequena mão sobre a madeira da porta e a empurrou o resto do caminho, passando por mim de forma rude a fim de entrar no apartamento. Mal tive tempo de fechá-la antes que seus punhos encontrassem a gola da minha camiseta e eu fosse prensado contra a parede do hall de entrada, sentindo Jimin bufar contra minha pele, seu rosto apenas centímetros distantes do meu.

– Você me deve algumas explicações. – anunciou, mantendo meu olhar preso ao seu apenas com sua intensidade. Meu rosto se fechou numa careta confusa. Explicações? Sobre o quê?

– Do que você tá falando? – indaguei, irritado com o modo como estava sendo rudemente tratado, principalmente por acabar de acordar, ainda por cima com uma ressaca desgraçada.

– Você sabe muito bem do que eu tô falando. – rosnou numa voz baixa, sacudindo meu corpo de modo a fazer minhas costas chocar-se contra a parede novamente. Deixei uma careta de dor tomar conta do meu rosto, mordendo o lábio inferior para impedir que qualquer som de lamúria escapasse. Para alguém tão pequeno, Jimin tinha bastante força nos braços.

– Se eu soubesse, não perguntaria. – retruquei, tentando me livrar das mãos dele. – Me solta, porra! – o comando pareceu surtir o efeito desejado, já que o mais novo deixou as mãos caírem ao lado do corpo. Aproveitei a oportunidade pra colocar alguma distância entre nós, parando no meio da sala. Jimin parecia não entender o conceito de espaço pessoal, pois agora me seguia como um cão raivoso.

– Yoongi, eu não vou embora sem antes escutar qual é a sua desculpa pra isso tudo.

– Que desculpa? Isso tudo o quê? – perguntei exasperado, abrindo os braços num sinal de quem não estava entendendo porra nenhuma. – Você não está fazendo o menor sentido.

– Ah, por favor. Não se faça de idiota. Jungkook me contou tudo. – as palavras de Jimin me fizeram congelar no lugar, um arrepio percorrendo minha espinha ao mesmo tempo que minha pele começava a suar frio. Vendo minha reação, o garoto cruzou os braços e ergueu uma sobrancelha, esperando por algum pronunciamento da minha parte. Jungkook... aquele filho da puta. Passado o choque inicial, tudo que fiz foi suspirar e correr os dedos pelos cabelos, obtendo sucesso em deixá-los ainda mais bagunçados que antes.

– O quanto você sabe? – perguntei um pouco relutante, temendo a resposta que viria a seguir.

– Absolutamente tudo. Eu sei que você me ignorou porque começou a ser seguido por uma gangue, que provavelmente é a mesma que matou aquele garoto no estacionamento. Sei que você convenceu Jungkook a participar do seu plano patético pra despistá-los, e sei que o fez prometer que não me contaria nada. A única coisa que eu quero saber é: por quê?

– Aish, eu vou matar aquele moleque... – resmunguei, apertando a ponte do nariz entre os dedos, começando a sentir os primeiros indícios de uma dor de cabeça. Surpreendi-me ao ser puxado pra frente pela camiseta, Jimin adotando a mesma postura ameaçadora de momentos antes no hall.

– Só se eu não te matar antes. – rosnou entredentes. – Me responda, seu desgraçado. Por quê?

– Pra te proteger. – respondi sinceramente, minha voz pouco mais do que um sussurro, meus olhos baixos em rendição. Era embaraçoso admitir, mas acho que eu não tinha outra escolha; já era tarde demais para prender-se à algo egoísta e vaidoso como o orgulho. Pude ouvi-lo soltar uma risada seca de escárnio.

– Você queria me proteger ao sacrificar meus amigos? Que tipo de pensamento doentio é esse? – seus olhos estavam indignados, julgadores, decepcionados. Eu não conseguia encará-los por muito tempo. Já podia sentir a frustração borbulhando em meu estômago, nublando minha mente.

– O que você queria que eu fizesse? – cuspi de volta, deixando um pouco da raiva colorir minha voz. Por que Jimin não conseguia entender? Por que ele não entendia que tudo que fiz foi por ele? Todas as atitudes impensadas e decisões ruins foram tomadas porque comecei a nutrir sentimentos por ele, porque eu—

– Eu não sei! – Jimin soltara seu aperto contra minha camiseta, afastando-se para dar voltas no mesmo lugar com passadas controladas. – Você poderia ter me contado, ter atendido minhas ligações. Poderia ter me incluído, ao invés de tomar decisões precipitadas sozinho! Olha só a bagunça que você criou. Você poderia ter feito qualquer coisa, menos isso. Menos usar meus amigos, e definitivamente menos me ignorar. – parou seus movimentos, concentrando seu olhar afiado sobre mim. Cada palavra era como um punhal no meu peito, mas eu jamais demonstraria fraqueza.

– Pode falar o que quiser, mas eu não me arrependo de fazer o que fiz. Eu seria capaz de sacrificar qualquer pessoa por você. – falei num tom mais grave que o habitual, certo da veracidade de minhas palavras. Assisti as feições joviais de Jimin contorcerem-se numa carranca de ódio e seu punho ser erguido e puxado para trás, na altura de sua orelha. Antes que eu pudesse entender o que estava acontecendo e desviar do golpe, fui atingido em cheio com um soco na boca. A força do impacto me mandou cambaleando alguns passos para trás, enquanto minha mão automaticamente ia até a ferida, tentando amenizar a dor que deixara todo o meu maxilar entorpecido e meus lábios com gosto de sangue.

– Se você chegar perto de Jungkook ou Taehyung... ou até mesmo de mim, novamente... – sua voz tremia, tamanha sua raiva naquele momento, o que me fez estremecer mais do que a dor latejante no meu rosto. – Pode ter certeza que eu não vou me contentar apenas com um soco. – ameaçou, olhando fundo nos meus olhos incrédulos para certificar-se de que eu levaria suas palavras à sério, antes de sair pela porta da mesma forma que entrou, bufando de raiva e batendo-a com um estrondo atrás de si.

Ainda tentando processar tudo o que acontecera, desabei no chão frio da sala de estar, dobrando os joelhos de encontro ao peito e escondendo o rosto nas mãos, enquanto o peso de suas palavras finalmente clicava em minha mente. O que você fez agora, Min Yoongi?