Hold me Tight
12 Nunca recuse ajuda grátis
Notas iniciais
– Yoongi POV -
Ao deixar o estacionamento esta tarde, meu paladar ansiava pelo gosto forte e característico de uísque. Portanto, ao invés de seguir para casa, liguei o motor do carro e segui o conhecido caminho até meu bar preferido. Eu tamborilava os dedos no volante de acordo com a batida forte de hip-hop que ecoava através dos alto-falantes do carro, enquanto assistia as fábricas e galpões do distrito industrial darem lugar à construções precárias, comércios de esquina e bares duvidosos. O bar que eu procurava não era muito distante do local onde nossa gangue se reunia, e logo eu já podia avistar seu letreiro chamativo piscando em verde néon. Estacionei na pequena área reservada para clientes, constatando que grande parte da clientela ainda não havia chegado; afinal de contas, o sol acabara de se pôr.
Entrei no estabelecimento e fui cumprimentado pelo barman de sempre. Trocando algumas palavras com o homem que já ultrapassara os cinquenta anos, pedi uma dose do melhor uísque irlandês e fui me sentar no lugar costumeiro: na parte mais reclusa do bar, próximo aos banheiros. Apesar de ser um freguês frequente, eu não fizera muitos amigos no local além daquele que me servia as bebidas. O bar era frequentado por todo tipo de gente mau caráter, desde membros de gangues inferiores, até prostitutas e guarda-costas de figurões do mundo político e do crime. O espaço era preenchido por mesas onde os fregueses se reuniam para jogar cartas ou apenas jogar conversa fora sobre um copo de cerveja, uma mesa de sinuca que era muito disputada nas noites de sexta-feira, o bar que agora eu me encontrava e até mesmo um pequeno palco onde músicos desconhecidos se apresentavam nos finais de semana, quase todos cantando o mesmo tipo de canções melancólicas sobre traição e falta de amor.
Horas mais tarde, eu havia perdido a conta de quantas doses de álcool eu ingerira. Eu não chegava a estar completamente bêbado, mas estava alterado o bastante para continuar checando o celular de tempos em tempos, na espera de receber uma nova mensagem. Com o cenho franzido, eu abria a aba que dizia “Park Jimin” apenas para constatar mais uma vez que ele não me contatara desde aquela noite que dividimos uma cerveja, há quase uma semana atrás. Eu não deveria me sentir incomodado por isso, muito pelo contrário, eu deveria estar agradecendo aos céus de joelhos. Mas, por algum motivo ainda desconhecido, eu me tornara inquieto. Eu ponderava todas as possibilidades que explicariam seu sumiço repentino, mas nenhuma delas fazia sentido. Park Jimin era o tipo de pessoa que puxava conversa mesmo quando sabia que não era bem-vindo, como provara pra mim tantas vezes nesse tempo que nos conhecemos. Eu já começava a me preocupar, mas não havia nem a mais remota chance de que eu iniciasse a conversa. Nem fodendo.
De repente, eu fui despertado bruscamente de meus devaneios por uma risada alta e infantil. Irritado, olhei pelo recinto à procura de sua fonte, reparando que o bar estava agora lotado. A risada se repetiu e eu pude descobrir sua localização: não muito longe de onde eu estava sentado, havia um grupo de amigos reunidos em torno de uma mesa tomada por copos cheios e garrafas vazias. Dois deles eram homens grandes, corpulentos e tatuados, que eu pude reconhecer serem membros de uma gangue menor. O outro era um cara magrelo e de aparência doente, todo vestido de negro, que eu não conhecia. A única mulher na mesa possuía cabelos vermelhos como sangue e inúmeros piercings no rosto e orelhas. Por último, estava o dono da risada irritante. Era um garoto alto e magro, com feições de criança e pele levemente bronzeada. Pude notar que ele se vestia como um morador de rua: usava uma camisa de manga longa na cor azul marinho, toda cheia de rasgos, buracos e fios soltos por cima de uma camiseta simples preta, de modo que os buracos não expunham sua pele. Usava uma calça preta larga, feita de um material que parecia moletom, e tênis surrados nos pés. Os cabelos eram rebeldes e ameaçavam lhe cobrir os olhos, tingidos na cor lilás. Um dos caras corpulentos ao seu lado disse algo que lhe arrancou mais uma gargalhada – agora pude notar que era um pouco rouca, apesar de infantil – acompanhada por um estranho sorriso retangular.
Quando o garoto respondeu ao maior, sua voz grave saiu completamente distorcida pelo álcool. Pelo modo como ele falava e ria de tudo, somado com a quantidade absurda de garrafas vazias à sua frente, pude constatar que há muito ele passara do ponto de estar bêbado. Irritado com o garoto que perturbara minha paz, fuzilei-o com os olhos na esperança de fazê-lo desmaiar enquanto o observava retirar o celular do bolso e custar para digitar um número qualquer na tela. Ele esperou impacientemente a pessoa do outro lado da linha atender, e quando ela o fez, as palavras que saíram de sua boca soavam como uma língua alienígena pra mim, de tão embolada que estava sua fala. Em seguida, ele desligou o aparelho e voltou a conversar animadamente com as pessoas ao seu redor.
Voltando minha atenção para o uísque na minha frente, tentei ignorar ao máximo as discussões acaloradas ao meu lado e continuei bebendo num silêncio contemplativo. Fiquei ali por quase uma hora, jogando conversa fora com o barman enquanto este me servia mais duas doses do líquido âmbar que descia queimando pela garganta. Já era tarde quando paguei a conta para ir embora, cansado de todo aquele burburinho à minha volta. Tudo o que meu corpo mais ansiava no momento era um longo banho quente e pelo menos doze horas de sono. Me direcionei até a porta da frente, mas antes que eu pudesse sequer tocar na maçaneta, a porta abriu-se de supetão, me tirando o equilíbrio. Eu estava pronto pra brigar com o idiota que abrira a porta sem aviso, porém o xingamento acabara ficando preso na garganta. Plantado ali à minha frente com surpresa estampada no rosto, espelhando o meu próprio, estava Park Jimin.
– Su... Suga-ssi...? O q-que faz aqui? – perguntou, gaguejando um pouco. Claramente eu era a última pessoa que ele esperava encontrar. Bom, pelo menos o sentimento era mútuo.
– Eu que te pergunto. – cruzei os braços e me pus à analisá-lo da cabeça aos pés. Jimin ainda vestia o uniforme da loja de conveniência em que trabalhava, tinha os cabelos castanhos completamente desarrumados, os óculos de armação grossa estavam porcamente pendurados na ponta do nariz, e suas bochechas gordinhas estavam levemente coradas enquanto ele lutava para recuperar o fôlego. Talvez tivesse percorrido o caminho até aqui correndo, obviamente com pressa. – Não sabia que você costumava frequentar bares.
– Não costumo. – afirmou, olhando atrás de meus ombros como se procurasse alguma coisa. – Vim buscar um amigo. Oh, ali está ele! – quando seus grandes olhos castanhos encontraram o objetivo, Jimin passou por mim como se eu nem estivesse mais ali. Indignado com a sua falta de respeito, me virei na sua direção apenas para ver que ele se dirigia à mesa onde estava aquele garoto vestido de mendigo.
– Jiminie! – gritou o garoto, erguendo os braços em comemoração. – Você demorou. – acrescentou, manhoso, enquanto passava os braços em torno do pescoço do menor, que por sua vez tentava mantê-lo de pé.
– Sinto muito, Tae-Tae. Eu ainda estava trabalhando quando você ligou. – Jimin estava tendo muitas dificuldades para manter o amigo embriagado numa posição ereta. Por mais que eu quisesse me deleitar com a sua desgraça, eu estava cansado e precisava dormir, portanto tomei a decisão mais sensata e prática naquele momento.
– Vamos, meu carro tá estacionado aqui perto. – eu disse, passando um dos braços do garoto bêbado sobre meus ombros, de modo que ele ficasse pendurado entre eu e Jimin. – Eu levo vocês pra casa.
– Quem é você? – perguntou o garoto de cabelos lilases, apertando os olhos como se esforçasse pra me reconhecer, seu hálito de bebida me acertando em cheio no rosto. – Você vai cuidar de mim? – perguntou ele numa voz embargada, soltando risinhos infantis entre soluços, tentando esfregar o nariz no meu pescoço.
– Não precisa! – Jimin foi rápido em recusar, fazendo o máximo que podia para manter o amigo longe de mim. – Eu posso pegar um ônibus.
– Há, essa foi boa. – soltei uma curta risada de deboche. – E como é que você vai conseguir pegar um ônibus carregando esse peso morto sozinho? – indiquei seu amigo com a cabeça, que agora estava completamente apagado.
– Eu dou um jeito, não se preocupe. – insistiu ele, evitando meu olhar. Essa ceninha já estava me dando nos nervos.
– Escuta aqui, eu estou te fazendo o favor de oferecer uma carona, e seria sábio da sua parte não recusar. – rosnei, fuzilando-o com o olhar. Jimin engoliu em seco.
– O-ok. – gaguejou. – Pra que lado vamos?
Nos guiei até o lado de fora, parando brevemente ao lado da porta de trás do carro para abri-la e permitir que Jimin ajeitasse seu amigo no banco. Ele se acomodou logo em seguida, deixando que o garoto deitasse a cabeça em seu colo. Fechei a porta atrás dele e me dirigi até o banco do motorista, ligando o motor e ajeitando o retrovisor no interior do carro para ter uma boa visão de seus olhos.
– Quem é esse ai? – perguntei sem rodeios, encarando-o pelo espelho enquanto tirava o carro da vaga.
– É meu amigo, Taehyung. – respondeu simplesmente. Pude ver que Jimin estava tenso sob meu olhar. Interessante.
– Ele costuma beber muito? – continuei com meu interrogatório.
– Infelizmente, sim. – suspirou. – Esse tipo de situação é frequente, apesar de ser a primeira vez que ele me liga pra buscá-lo. Acho que ele não sabia como voltar pra casa. – adicionou, passando as mãos gordinhas pelos fios lilases do dito Taehyung, que agora roncava em seu colo.
– E onde é que ele mora?
– Comigo. Somos colegas de quarto. – Jimin sorriu ao me dar a informação. De repente me dei conta de que sentia falta daquele sorriso. Oh, merda, pensei, querendo me dar um soco após essa realização. – Você me deu uma carona até lá, lembra? – pude ouvir Jimin arquejar assim que me dirigiu a pergunta, tampando a boca com a mão imediatamente. Nossos olhos se encontraram através do espelho e ambos coramos violentamente. Sim, eu lembrava muito bem daquele dia. E aparentemente ele também.
A fim de evitar uma conversa desnecessária e constrangedora, assenti com um aceno de cabeça e apertei o volante nas mãos, procurando me focar na pista à minha frente. Após algumas voltas passando pelo mesmo posto de gasolina pelo menos três vezes, constatei que estava perdido. Felizmente as ruas à essa hora estavam vazias, então estacionei de qualquer jeito no acostamento e passei as mãos pelo rosto, tentando ficar sóbrio.
– Tá tudo bem? – havia um tom de preocupação evidente na voz de Jimin. Provavelmente ele estava tão perdido quanto eu. Que maravilha.
– Tá, é só que... – suspirei, bagunçando os cabelos com os dedos. – Meu senso de direção não é dos melhores quando eu bebo.
– O que eu posso fazer pra ajudar?
– Nada. – respondi, seco. Um pouco arrependido, acrescentei – Eu só preciso de um tempo pra clarear a cabeça.
Jimin acenou com a cabeça, acanhado demais pra abrir a boca. Ficamos longos e angustiantes minutos imersos num silêncio constrangedor, Jimin olhando nervosamente ao redor à procura de algo enquanto eu encostava a cabeça no volante e envolvia os braços ao redor do mesmo. De repente, cansado daquele clima pesado, levantei o rosto e encarei-o pelo retrovisor do carro. Me sentindo extremamente sociável e ousado – tudo efeito do álcool – pigarreei para chamar sua atenção. – Você sumiu.
– ... Você também. – após o susto inicial provocado pela minha fala repentina, pude ver o pequeno sorrisinho travesso que surgia no canto de seus lábios.
– Não fui eu que reclamei sem parar sobre mensagens não respondidas aquela noite. – provoquei, me deliciando ao vê-lo corar levemente enquanto mordia o lábio inferior.
– Há uma regra que diz que aquele que ignora as mensagens é quem deve puxar assunto na próxima vez. – desviou.
– É mesmo? Não tô sabendo dessa. – me virei no banco do motorista para olhá-lo nos olhos, deixando um sorriso debochado puxar o canto dos meus lábios. – Quais são as outras regras?
– Hm... – observei Jimin vasculhar sua mente por algo. – Por enquanto só tem essa.
– Por enquanto? Isso significa que terão mais futuramente?
– Talvez, quem sabe. Eu vou inventando no caminho. – brincou, mostrando aquele sorriso que escondia seus olhos. Mais do que depressa voltei minha atenção para a pista à minha frente enquanto girava a chave na ignição, já me sentindo completamente desperto.
Agora que o restante do álcool se dissolvia no meu sistema, pude achar o caminho do apartamento de Jimin sem maiores complicações. Percorremos o restante do caminho em silêncio, com apenas os roncos suaves e constantes de Taehyung como trilha sonora. Chegando ao destino, estacionei o carro em frente ao prédio de apartamentos e corri até a porta de trás, pronto para ajudar Jimin a tirar o estorvo do carro.
– Não se preocupe, Suga-ssi. Eu cuido dele daqui pra frente. – revirei os olhos, assistindo Jimin me rejeitar – pela segunda vez no mesmo dia – enquanto se atrapalhava com os braços longos do amigo, tentando mantê-lo de pé sem sucesso.
– Qual é o seu problema? – rosnei, adotando a mesma posição de antes, com o garoto pendurado entre nós, enquanto usava o quadril para fechar a porta do carro. – Você costuma rejeitar as ofertas de ajuda de todo mundo, ou é só comigo?
– Oh, m-me desculpe. Eu não sabia que estava sendo tão rude. – pude ver suas bochechas fartas adquirirem um tom adorável de rosa. – Só não quero te atrapalhar, Suga-ssi.
– Você já me atrapalha desde o dia que entrou na minha vida, moleque. Se eu te ofereço ajuda, é porque quero ajudar. Então pare com essas frescuras, isso me dá raiva. – reclamei enquanto estávamos parados no térreo esperando a chegada do elevador. Jimin apenas acenou positivamente com a cabeça, e assim que as portas do elevador se abriram, entramos no mesmo com certa dificuldade, tendo que arrastar Taehyung entre nós, e o vi apertar o botão para o quinto andar.
A subida fora excruciantemente lenta, tomada por um silêncio constrangedor. Soltei a respiração que não sabia ter prendido, aliviado, quando as portas se abriram novamente no andar solicitado. Fiquei encarregado de sustentar o peso de Taehyung sozinho enquanto Jimin se atrapalhava com a senha da porta de seu apartamento. Quando finalmente conseguiu abri-la, se deparou com um garoto alto, de pele clara e cabelos negros correndo até a porta.
– Jimin-ah, é você...? – ele chamou, preocupado, mas parou no meio do caminho ao me notar, adotando uma posição hostil. – Quem é esse?
– Ahn... – Jimin olhava inquieto entre nós dois. – Jungkookie, esse é o Suga. – relutantemente ele nos apresentou. – Suga-ssi, Jungkook é outro colega de quarto nosso.
– Ah, então esse é o famoso Suga. – o garoto cruzou os braços enquanto me encarava de cima à baixo, voz pingando veneno. Eu faria o mesmo, se não estivesse ocupado com um peso morto nos braços.
– Pena que eu não posso dizer o mesmo sobre você. – desafiei, seguindo Jimin pra dentro do apartamento. O mais baixo tirou os sapatos depressa, sem saber muito bem como agir.
– Você pode deixar o Tae comigo agora. – Jimin tirou Taehyung dos meus braços e seguiu mais do que depressa para onde eu assumia ser o quarto do garoto, deixando-nos sozinhos. Apesar do moleque chamado Jungkook ser mais alto do que eu por uns cinco centímetros, eu sustentava seu olhar sem recuar.
– Ouvi dizer que você lidera uma gangue.
– Ah, não. – ri debochado. – Eu não lidero uma gangue. Sou apenas o braço direito do líder.
– É mesmo? Que pena. – ficamos nos encarando por mais alguns minutos, em silêncio absoluto. De repente, o cenho de Jungkook se franziu mais ainda. – Eu não gosto de você.
– O sentimento é mútuo. – concordei, espelhando sua expressão irritada.
– Suga-ssi, gostaria de alguma coisa? Água, café? Talvez chá? – a voz de Jimin atrás de nós nos sobressaltou um pouco. O baixinho mexia nervosamente na barra da camisa, tentando dissipar o clima tenso que se instalara no ambiente.
– Passo. – disse simplesmente, virando as costas para ir embora; eu não havia nem passado do hall de entrada. – É melhor eu ir pra casa. Boa noite, Jimin. – me despedi, ignorando o outro de propósito.
– Espera! – Jimin chamou atrás de mim, me seguindo para o corredor do lado de fora de seu apartamento. Ele fechou a porta atrás de si, impedindo Jungkook de acompanhá-lo. – Muito obrigado por hoje. Eu realmente não tive intenções de te ofender ao recusar sua ajuda. Eu só não queria atrapalhar e – Jimin cuspia as palavras numa velocidade que me dava dor de cabeça. Fechei os olhos numa careta.
– Tá tudo bem, guri. – afaguei seus cabelos lisos na esperança de assegurá-lo e calá-lo por alguns instantes. Consegui. – Talvez da próxima vez que a gente se encontre não haverá bebidas envolvidas, hm? Isso já está virando um hábito irritante. – permiti que um pequeno sorriso surgisse no canto dos meus lábios enquanto passava os dedos por seus fios castanhos. Jimin ficara completamente sem palavras, olhando estupefato para mim. – A gente se vê. – disse, me afastando dele para apertar o botão do elevador. Quando este abriu as portas, entrei no pequeno cubículo e apertei o botão do térreo. Desejei boa noite novamente enquanto as portas se fechavam e me impediam de ver o menor passar as mãos pelos próprios cabelos e balbuciar um “boa noite” em resposta.
Fale com o autor