Hold me Tight

44 Isso não é um adeus


— Jimin POV -

Me despedir de Yoongi naquela manhã havia se provado uma tarefa mais difícil do que imaginava. Não que o mais velho tivesse tentado me impedir fisicamente de sair ou recorrido à chantagens emocionais – não, nada disso. Seu orgulho era grande demais pra permitir tal demonstração de fraqueza. Mas não pude deixar de notar o brilho triste que havia em seus olhos ao me ver partir, as sobrancelhas juntas numa carranca permanente e, se me esforçasse bastante pra isso, poderia ver a sombra de um bico puxando seus lábios para baixo. Mesmo com a minha promessa de retornar naquela noite Yoongi não pareceu nem um pouco aplacado, pois sabia tão bem quanto eu que aquela seria a última. Afinal, o mais velho certamente não precisava mais dos meus cuidados e eu tinha uma vida me esperando lá fora. Era difícil não pensar naquele “até logo” trocado com um selar de lábios como uma despedida quando tinha aqueles olhos negros encarando minha nuca cheios de angústia, a sensação perdurando mesmo quando já estava fora de seu alcance.

— Jimin.

A música que Yoongi criara pra mim invadia o ambiente através dos alto-falantes do rádio, ainda na sua versão instrumental, mas não precisava de vozes para acompanhar quando já tinha a letra gravada na mente, repetida tantas vezes que já a conhecia de cor. Nunca poderia imaginar que o mais velho pudesse criar algo tão belo – mesmo sendo testemunha do seu talento todos aqueles meses atrás – ainda mais dedicado a alguém como eu. Não conseguia deixar de me questionar se talvez aquelas palavras tivessem algum significado oculto e me identificar entre elas; se não o conhecesse como conheço, poderia até chegar a pensar que Yoongi pretendia confessar seu amor incondicional através daquelas letras. A mera ideia era estúpida, eu sabia, por isso resolvi a deixar de lado, repreendendo-me por permitir que se instalasse na minha mente pra começo de conversa. Meus pés estavam inquietos, ansiosos para se mover no ritmo da música, mas precisava ter paciência.

— ...Jimin?

Mais do que paciência, eu precisava me concentrar. O que se provara bastante difícil uma vez que Yoongi invadia meus pensamentos. Poderia ser chamado de patético o modo como ficava sonhando acordado com o loiro como se fosse uma ingênua adolescente apaixonada, mas era algo que não podia ser evitado, simplesmente porque não sabia como. Uma vez que deixava minha mente vagar livre, mais frequentemente do que gostaria de admitir pegava-me pensando naqueles olhos negros e famintos sobre mim, na maciez de seus lábios contra os meus e no gosto de sua língua que não apresentava mais o tão familiar traço de álcool e nicotina, no toque suave e delicado de seus dedos contra minha pele, na sua respiração ofegante ao pé do meu ouvido enquanto nossos membros se encontravam com a mais necessária e libertadora fricção, o ritmo acelerado que estabelecíamos em poucos instantes me levando ao delírio—

— Jimin! – despertei de meus devaneios nada puros com o susto, a visão de Hoseok estalando os dedos diante dos meus olhos trazendo rubor à minha face pela vergonha. O ruivo tinha uma expressão divertida no rosto e um sorriso sabido nos lábios, como se soubesse exatamente o que consumia minha mente há poucos segundos atrás. – Você parece distraído.

— Desculpe. – pedi, levando o queixo em direção ao peito me sentindo pequeno e envergonhado. Só então notei que a música já não preenchia mais o ambiente, deixando um silêncio estranho e desconfortável no seu lugar; oh Deus, por quanto tempo Hoseok estaria tentando falar comigo sem que lhe desse ouvidos? – O que disse?

— Eu disse – começou, o sorriso ainda mais largo quando reuni coragem suficiente pra encará-lo mais uma vez. – que Yoongi se superou. Quando éramos jovens a música não passava de um passatempo pra si, uma maneira de escapar da realidade. É bom saber que esse interesse se desenvolveu a ponto de se tornar uma paixão. Me sinto orgulhoso.

—Hyung... – sua fala, somada à sua expressão um tanto nostálgica, despertou em mim um interesse antigo, uma curiosidade mórbida que nutria desde o dia em que vi Yoongi sobre o palco pela primeira vez e descobri que os dois já se conheciam previamente. O modo como ambos falavam do passado sem realmente dizer nada servia apenas para me deixar ainda mais intrigado. – O que aconteceu entre vocês?

Hoseok ficou quieto por um tempo; tempo suficiente pra me fazer acreditar que ignoraria a pergunta por completo, rosto fechado numa expressão pensativa e distante, antes de finalmente soltar o ar dos pulmões num suspiro cansado. – Então Yoongi não te contou? – balancei a cabeça negativamente em resposta. A única coisa que sabia era que o mais velho não confiava em Hoseok por alguma razão que ainda desconhecia, o que dava liberdade pra minha mente divagar e fazer diversas suposições; a mais plausível seria uma briga, obviamente, mas o que poderia tê-la causado? Minha cabeça rodava com um enxame de perguntas sem resposta, perguntas que era tímido ou covarde demais pra fazer. – Desculpe, Chim-Chim, mas não serei eu a dar com a língua nos dentes dessa vez. Essa história não é minha pra contar.

— Dessa vez? – repeti, curioso pela escolha de palavras. O que Hobi-hyung – Hoseok, minha mente corrigiu – queria dizer com aquilo?

— Oh—ah—eu—n-não, não quis dizer dessa forma. – gaguejou o ruivo, rindo sem graça e evitando a todo custo encontrar meu olhar. Arqueei uma sobrancelha suspeita diante de tamanha reação. Ok, talvez não entendesse muito bem as motivações de Yoongi por trás de sua desconfiança, mas não podia deixar de acreditar – ou suspeitar, pelo menos – que talvez Hoseok estivesse mesmo escondendo alguma coisa. – Como estão as coisas com Yoongi, aliás? – sabia que a pergunta não era nada mais do que uma forma de me distrair e fugir do assunto, mas pelo sorriso forçado e um tanto suplicante que estampava sua face, ele também sabia que eu sabia. Tomando pena de sua situação precária, resolvi deixar o tópico morrer e adulá-lo um pouco; minhas perguntas podiam esperar.

— Ah, estão bem, acho. – respondi com um encolher de ombros casual, torcendo para o rubor que sempre se fazia presente na minha face com a mera menção de Yoongi não denunciar meu real embaraço. – É só que... eu queria conhecê-lo melhor, entende? Às vezes sinto como se ele me excluísse de boa parte da sua vida e se recusasse a me deixar entrar.

— Mas esse é quem o Yoongi é. – assegurou-me, sua expressão instantaneamente suavizando-se num pequeno sorriso afetuoso. – Desde que nos conhecemos, ele sempre foi o tipo de guardar tudo pra si e deixar que o envenenasse. Tenho certeza que não é nada pessoal, ele precisa de alguma ajuda pra se abrir, é só. Você deve conseguir essa proeza com bastante facilidade, tendo em vista seu relacionamento e tudo mais.

— Ah, não—ele n-não... nós não so-somos... – gaguejei, vermelho como um tomate agora e negando veementemente com a cabeça, querendo corrigi-lo e evitar que houvesse qualquer mal entendido, mas me vi sem palavras antes mesmo de concluir a frase. O que exatamente Yoongi e eu éramos? Ou melhor, não éramos? Essa era uma pergunta bastante capciosa e difícil de responder, e pelo jeito Hoseok conseguia ver isso claramente estampado no meu rosto, pois seu sorriso só aumentou.

— Oficiais? – sugeriu, rindo quando calei-me por completo. – Não se preocupe, Jiminie. A palavra oficial nunca significou muita coisa pra aquele cabeça-dura de qualquer forma. Sei que Yoongi gosta tanto de você quanto gosta dele. A música que acabei de ouvir prova isso, as letras principalmente. – afirmou, agitando a cópia da mesma diante de meus olhos. Hoseok falava com tanta convicção que por um segundo me permiti acreditar em suas palavras, acreditar que talvez o sentimento fosse mútuo e em igual proporção. Yoongi nunca fizera nada pra desacreditar o que demonstrava sentir por mim, mas eu era uma pessoa muito vocal. Talvez fosse egoísta e mesquinho da minha parte, mas não podia evitar de desejar – de ansiar, na verdade – uma confirmação verbal sobre como o loiro realmente se sentia, pois se continuasse livre para supor e especular acabaria ficando louco. – Nunca o vi expressar suas emoções tão abertamente antes, mesmo que tente escondê-las sob versos e rimas. Tudo obra sua, sem dúvida. Yoongi tem sorte de ter alguém como você.

Eu podia ouvir a sinceridade por trás daquelas palavras, tão pura e genuína que não pude deixar de me sentir um pouco autoconsciente, com olhos baixos e bochechas coradas, querendo nada mais do que me esconder em algum buraco e nunca mais sair. Porém, também pude ver uma fina camada de tristeza escondida em seus olhos e atrás do sorriso radiante que parecia colado em seu rosto, quase como se proferir tais palavras o causasse dor. Mas num piscar de olhos a tristeza havia desaparecido como se nunca estivesse lá, então julguei ser coisa da minha cabeça e devolvi um sorriso acanhado. – Não diga coisas assim, hyung. Você me deixa sem graça.

— Aigoo, Jiminie. Por que teve que nascer assim tão fofo? – brincou, apertando minhas bochechas com vontade enquanto fazia um bico exagerado com os lábios como se fosse me beijar. Livrei-me de suas mãos com um tapa e um empurrão brincalhão, rindo enquanto o via virar cambalhota no chão do estúdio de forma dramática. Sabia que tinha prometido à Yoongi não baixar minha guarda quando estivesse próximo do dançarino, mas era impossível quando me sentia tão confortável em sua presença. Minha relação com Hoseok podia até carecer da conexão mental e espiritual que tinha com Taehyung por exemplo, mas não era prejudicada em nada por conta disso. Sempre gostei dessa nossa dinâmica simples e brincalhona, fácil; era fácil me deixar levar pelo ruivo, rir de suas piadas e confiar nele meus segredos e inseguranças. Yoongi dizia que não devia, mas não podia evitar: o outro sempre achava um jeito de penetrar em minhas defesas.

— Pare de enrolar. Nós temos um show pra preparar, esqueceu? – devolvi, empurrando-lhe o ombro mais uma vez apenas para vê-lo cair de bunda antes de ajudá-lo a levantar por completo.

— Você é tão malvado. Como pode, um rosto tão bonito e doce com uma alma tão perversa? – lamentou-se dramaticamente com o maior bico que já vira adornando seus lábios enquanto botava a música de Yoongi pra tocar novamente a fim de começarmos o treino do dia.

A essa altura eu já sabia todas as rotinas e coreografias de cor, tendo passado boa parte da semana treinando-as com Hoseok e adaptando para duas pessoas movimentos que o ruivo costumava executar sozinho. Ele era um grande professor, bastante paciente e compreensivo, mas o fato de sempre ter sido seu fanboy e conhecer todas as danças de show anteriores e vídeos na internet ajudava e muito. Por isso nos focamos mais em escutar a música criada pra mim e montar uma coreografia que apresentaria sozinho no palco, nos atentando a cada nuance no ritmo e trabalhando-os a nosso favor. Esse processo consumiu a manhã inteira e um pedaço da tarde, onde paramos apenas para pedir pizza pro almoço. Quando Hoseok declarou a coreografia pronta e consegui executá-la pelo menos cinco vezes sem cometer erros grotescos, encerrou o treino do dia com um fraco gemido de dor enquanto se jogava no chão de forma descuidada, arfando pelo esforço e falta de fôlego.

— Bom trabalho, Chim-Chim. – disse com a respiração pesada e olhos fechados, apenas aproveitando o frescor do piso frio do estúdio contra suas costas quentes e suadas. Não demorei para desabar ao seu lado, imitando sua postura e suspirando de alívio trazido pelo choque térmico. – Você tem um talento natural pra dança, sabia? Aprende rápido também.

— Obrigado, hyung. Tive um bom professor. – devolvi, sorrindo quando vi o ruivo abrir apenas um olho pra me encarar, devolvendo o sorriso em dobro. Com isso entramos num silêncio confortável, preenchido apenas pelo som de nossas respirações; não precisávamos falar nada pra entender um ao outro, era isso que mais gostava nele. Ser amigo de Hoseok era fácil.

— E então, já sabe com que roupa vai se apresentar? – perguntou depois de algum tempo, despertando-me do meu estado sonolento com um sobressalto. Roupas? Que papo era esse agora?

— Ahn... não? Não sabia que precisava escolher o figurino também. – respondi incerto, começando a sentir um leve desespero se instalando no meu peito e fechando minha garganta. Imediatamente meu cérebro começou a listar todas as roupas que tinha dentro do armário em busca de algo minimamente decente pra ocasião. Desnecessário dizer que acabei de mãos vazias.

A risada que soltou era alta e escandalosa, quase uma ofensa perante meu sofrimento. – Como não? Jiminie, eu sou um dançarino underground, não um idol. Odeio ser aquele cara que dá as más notícias, mas não tenho cabeleireiros, maquiadores e estilistas ao meu dispor.

Oh merda, foi o que pensei, mas o que saiu da minha boca só podia ser descrito como um miado patético. Só faltava mais essa agora. Certamente precisaria fazer compras, pois uma das únicas roupas boas que tinha, usei pra me apresentar na competição de dança de meses atrás e jamais sequer cogitaria a ideia de repetir o figurino. Mordi os lábios pra conter um suspiro frustrado, resignado com o meu destino cruel; gostaria de poder voltar para o apartamento de Yoongi depois do treino, mas agora tinha outra coisa em mente. Precisava encontrar a roupa perfeita pra impressionar os fãs de J-Hope, e conhecia a pessoa certa pra me ajudar.

Para Tae-Tae: Preciso da sua ajuda. Hobi disse que preciso montar um figurino pro show sozinho e não sei o que fazer. ):

De Tae-Tae: Ah, agora você lembra que tem amigos né?? Onde tá seu namorado? Pede pra ele.

Para Tae-Tae: Awww Taehyungie. Não seja assim. Estou desesperado. ;^;

De Tae-Tae: Qual é a palavrinha mágica?

Para Tae-Tae: Eu te pago um sorvete.

De Tae-Tae: E o que mais?

Para Tae-Tae: Aish, seu guloso. E um lanche também.

De Tae-Tae: Te vejo em meia hora. Luv u~ ♥

Não pude deixar de rir com as mensagens, balançando a cabeça de forma afetuosa. Taehyung adorava se fazer de difícil, mas era realmente muito fácil agradá-lo. Tudo que precisei fazer foi suborná-lo com comida para que aceitasse me ajudar – não que pudesse negar algum pedido de ajuda de qualquer forma, o garoto era praticamente um santo: sempre se doando sem esperar receber nada em troca. Mas como me sentia culpado por deixá-lo de lado esses dias todos que passei com Yoongi, resolvi que não faria mal paparicá-lo dessa vez. Peguei emprestado o chuveiro de Hoseok mais uma vez para tirar o suor do corpo e poder trocar-me para roupas limpas antes de me despedir e seguir para o ponto de ônibus. As lojas que eu e Taehyung costumávamos frequentar não ficavam muito distantes da casa do dançarino, localizadas num adorável shopping a céu aberto em Hongdae que descobrimos num de nossos passeios para conhecer melhor a cidade: as marcas eram boas e os preços melhores ainda, por isso sempre íamos para o mesmo lugar quando a necessidade de comprar roupas se tornava muito grande pra ignorar.

Hoseok se prontificou a me acompanhar ou ao menos me dar uma carona assim que soube pra onde estava indo, mas recusei sua oferta educadamente com um sorriso. Tae-Tae provavelmente estava ansioso pra matar as saudades e botar os assuntos em dia, e ter mais alguém conosco poderia estragar seu humor – sabia como o garoto podia ser ciumento e possessivo com seus amigos, então preferi não correr o risco. O ônibus levou-me ao destino em menos de quinze minutos, o que, somado ao tempo que levei pra me banhar e trocar, significava que estava apenas um pouco atrasado para encontrá-lo. Sentei-me num dos bancos que adornavam a entrada do centro comercial sob a copa de uma árvore, rodeado por várias pessoas que entravam e saíam carregadas de sacolas nos braços – nenhuma delas Taehyung – enquanto enviava uma mensagem de texto ao mais novo para notificá-lo de que havia chegado e estava esperando-o.

Não me surpreendi quando, nem dois minutos depois, tive os olhos tampados por duas mãos grandes e quentes ao mesmo tempo que ouvia uma voz grave e melodiosa, tão inconfundível, sussurrar em meu ouvido. – Adivinha quem é~?

— Hm, não sei... deixe-me pensar. – fingi-me de bobo ao tatear cegamente suas mãos, fazendo questão de acariciar o ponto no pulso onde o garoto sentia mais cócegas. Pude ouvir o exato momento em que Taehyung perdera o controle e explodira em risadinhas incontroláveis, tão contagiante que me vi soltando uma risada própria. – Oh, acho que conheço o dono dessa risada! – brinquei ainda sorrindo enquanto segurava suas mãos nas minhas e as afastava de meus olhos, trazendo-as para meu peito ao mesmo tempo que tombava a cabeça pra trás a fim de vê-lo. – Só podia ser Kim Taehyungie.

— Você é tão esperto, Jiminie. Não sei como pensei que pudesse enganá-lo. – devolveu com um de seus sorrisos quadrados, tão radiante quanto o meu. Era tão bom tê-lo por perto. Só agora que o tinha sorrindo diante de mim dei-me conta do quanto sentia sua falta. Não importa o quão bons foram meus dias com Yoongi, não podia negar que sentia falta de voltar pra casa com Taehyung e Jungkook e procrastinar o dia inteiro com meus dois melhores amigos.

— Senti sua falta. – soltei antes que me desse conta de que estava expressando meus sentimentos abertamente em voz alta, corando um pouco sob o brilho que encontrei nos olhos do garoto ao ouvir tais palavras.

— Aigoo, meu Jiminie, o que aconteceu com você? Está doente? Suga-hyung não está te tratando direito? Conte-me, se quiser eu vou até lá cravar outra bala no peito dele. – o tom que usara era de brincadeira, mas havia uma camada de preocupação genuína sob suas palavras. Tudo que fiz foi rir, balançando a cabeça negativamente antes que houvesse um mal entendido.

— Não, não. Está tudo indo bem com Suga-hyung. Eu só senti sua falta, e achei que devia saber. – esclareci.

— Bom, nesse caso, eu também senti sua falta. – disse, envolvendo os braços ao redor do meu pescoço num aperto de ferro, pressionando sua bochecha contra a minha. – Quando você volta pra casa? Jungkookie está impossível de lidar sem você por perto. Não sei por quanto tempo mais posso aturar as mudanças de humor daquele pestinha.

— Amanhã. – respondi, livrando-me do abraço de urso um tanto sem fôlego e levantando-me para caminharmos lado a lado na direção das lojas. Até me dar conta da ausência do mais novo, pelo menos. – Falando nisso, onde está Jungkook? Ele não quis vir?

— Você não pediu por ele. – disse casualmente com um encolher de ombros, parando em seu caminho ao ouvir o Tae! indignado que saíra da minha boca. – O quê? É verdade, você não o convidou. – quando viu que eu ainda não estava convencido, soltou um suspiro fraco, encarando o chão com algo semelhante à vergonha estampando sua face. – Olha, me desculpe, tá bom? Mas eu realmente senti sua falta, e não queria ninguém entre nós hoje. Esse é um encontro exclusivo nosso, como nos velhos tempos. Me deixe ser egoísta só dessa vez, sim?

Eu jamais poderia ficar bravo com Taehyung, muito menos quando ele se recusava a encontrar meu olhar parecendo tão envergonhado e arrependido, mas ao mesmo tempo tão resoluto nas suas decisões. Era uma expressão engraçada, como se estivesse em conflito, mas uma coisa era certa: eu não gostava nem um pouco de ver o modo como sua testa ficava franzida com extrema preocupação e angústia como estava agora, por isso resolvi eliminá-las com um beijo. O mais novo encarou-me com olhos arregalados e incrédulos, imediatamente levando a mão à testa onde o beijei, corando de forma adorável enquanto eu envolvia um braço em seus ombros. A diferença em nossas alturas não permitia que andássemos dessa forma confortavelmente, mas Taehyung não parecia se importar de ter que ficar um pouco curvado por minha causa.

Se achava que estar com Hoseok era fácil, estar com Taehyung era tão natural quanto respirar. Nós podíamos até não ser amigos de infância ou coisa parecida, mas sentia como se nos conhecêssemos desde o nascimento. O mais novo era capaz de fazer uma lista quilométrica com as coisas que eu gostava e desgostava, saberia dizer quando estava triste mas não o suficiente pra mostrar isso no meu rosto, e também sabia exatamente o que dizer ou fazer pra colocar um sorriso de volta nele. Nossa conexão era muito forte, mesmo que o tempo de vida da nossa amizade fosse considerado curto pela grande maioria das pessoas – conheci Taehyung não muitos meses antes de conhecer Yoongi, assim que me mudei pra Seoul e encontrei nele o melhor colega de quarto que alguém poderia ter. Eu sabia o quão sortudo era por ter alguém como ele ao meu lado, sempre me apoiando sem jamais questionar, e sabia também o quão injusto estava sendo nas últimas semanas, por isso estava tão determinado a compensá-lo de alguma forma.

Andamos sem rumo ou compromisso pelo shopping, entrando em várias lojas e nos divertindo enquanto provávamos peças de roupa bregas ou ridiculamente escandalosas, soltando piadas e rindo da aparência um do outro apenas para sair momentos depois sem levar nada. Em outras nós estávamos realmente interessados, e Taehyung era crítico ao me ajudar a escolher algo apropriado para o palco, me forçando a experimentar dezenas de combinações de novo e de novo, para no final não gostar de nenhuma. Demoramos um bocado até encontrar algo que o agradasse, e quando tinha o figurino praticamente pronto e embalado dentro de diversas sacolas, saiu me arrastando shopping afora alegando estar em busca de algo que o tornasse nada menos do que perfeito.

Enquanto vasculhávamos as vitrines atrás de acessórios, parei abruptamente o percurso quando me deparei com uma ótica. Só agora me recordava que havia encomendado um par de óculos novo após ter tragicamente perdido o antigo; eu havia feito a encomenda antes de viajar pra Busan, mas ao voltar pra casa e me deparar com toda aquela situação de Yoongi, acabei me esquecendo completamente desse fato. Entrei na loja sendo recebido por uma vendedora simpática e sorridente, que parecia mais do que feliz em me entregar os óculos que aguardaram tanto tempo para serem retirados. Após efetuar o pagamento e agradecê-la, fui com Taehyung até o banheiro a fim de trocar as lentes por eles, ansioso pra saber como ficariam no meu rosto.

— Woah, é como ter o antigo Jiminie de volta. – comentou maravilhado, olhando-me pelo reflexo do espelho com um sorriso bobo no rosto. – Realmente, você combina mais com esse look de nerd com óculos que ocupam metade da cara. Te deixa mais inocente e fofo. Aposto que Suga-hyung vai adorar.

— Tae-Tae! – exclamei, corando furiosamente. – Não diga coisas assim do nada. É vergonhoso.

— Tanto faz. – retrucou com um revirar de olhos, puxando-me pelo braço no instante seguinte. – O que me diz de pagar um lanche pra mim agora? Estou morto de fome.

Ninguém em sã consciência seria capaz de negar nada à Taehyung, principalmente quando ele tinha aqueles grandes olhos castanhos e pedintes direcionados a você, os lábios projetados num bico manhoso no que seria a sua versão de aegyo. Sendo um homem de palavra, deixei que me conduzisse até o pátio que servia de praça de alimentação, um lugar aconchegante e arborizado, tomado de belas mesinhas de ferro fundido e que sempre cheirava deliciosamente à comida. Tae escolhera o clássico combo de hambúrguer, batata frita e refrigerante enquanto eu optava por uma tigela farta de yakisoba, precisando do sustento extra depois de um longo dia de compras e dança. Desse modo, cada um com sua bandeja em mãos, escolhemos nos sentar numa das mesas mais próximas às árvores, conversando casualmente sobre tudo e nada ao mesmo tempo. Taehyung me perguntara sobre a preparação do show, ao que lhe respondi entusiasticamente que tudo estava indo bem: graças a ele eu tinha o que vestir, Hoseok estava me ajudando muito com as coreografias, mostrando-se um professor natural, e Yoongi tinha até mesmo escrito uma música especialmente pra ocasião. Isso pareceu despertar seu interesse de imediato, pois agora inclinava-se sobre a mesa com olhos curiosos e um sorriso travesso.

— Oh, é mesmo? Conte-me mais sobre isso. – pediu e, ainda que um pouco relutante e corando como uma garotinha, assim o fiz. Contei-lhe tudo sobre meus últimos dias com Yoongi, desde o momento que o encontrei inconsciente no estacionamento rodeado por máquinas, passando pelas dificuldades que tivemos para nos ajustar nos primeiros dias, o dia em que descobri que ficava impossivelmente carente e manhoso quando estava com febre, como ele se prontificara a me ajudar a obter a melhor performance possível ao me dar uma música de sua autoria de presente, até... bem, pra ser sincero contei-lhe quase tudo. Algumas coisas simplesmente não tinha coragem de confessar. Taehyung ouvia tudo atentamente e reagia a cada mínimo detalhe, mas parecia perceber que escondia algo se o modo suspeito como apertava os olhos pra mim podia servir de indicação. – O que não está me contando, Jiminie?

— Ah—hm—n-nada, eu só... quer dizer, nós... é q-que... – enquanto lutava pra completar ao menos um frase sem gaguejar e sentia meu rosto tão quente que parecia a ponto de explodir, observei com certo pânico o mais novo arregalar os olhos e deixar o queixo cair numa expressão perplexa e um tanto acusatória, inclinando-se ainda mais sobre a mesa e erguendo o indicador para cutucar meu peito de forma insistente.

— Não acredito! Vocês dois estão fazendo sexo, não é?! – exclamou, sem freios na língua como sempre, baixando o tom de voz a contragosto quando chiei pedindo silêncio. Podia sentir dezenas de pares de olhos sobre mim, julgadores, causando-me arrepios na pele e náuseas no estômago. – Não acredito que você queria esconder isso de mim, logo eu que sou seu melhor amigo. Estão usando proteção, como te pedi?

— Tae, pare com isso! – supliquei, escondendo o rosto nos braços que tinha dobrado sobre a mesa, sentindo-me sobrecarregado sob os olhares curiosos de outras mesas somado ao tom levemente decepcionado que ouvia na voz do garoto à minha frente. Se era pelo fato de ter sido íntimo com Yoongi ou simplesmente por não ter descoberto antes, não saberia dizer. – Não precisamos de proteção, porque não estamos fazendo sexo. Quer di-dizer, estamos, mas não estamos... não sem roupas, pelo menos. Aish, é complicado. – concluí pateticamente, sem saber o que dizer. O que quer que tivesse sido... aquilo... que fizemos no quarto de Yoongi, poderia ser classificado como sexo? Ou não? Honestamente não sabia.

— Oh, entendi. Okay. Vocês estão se descobrindo. Tudo bem. Isso é bom. – comentou assentindo com a cabeça, rosto contorcido numa expressão engraçada, presa entre o impressionado e levemente enojado. Eu não sabia mais onde enfiar a cara – vermelha e fumegante a essa altura – já que escondê-la nos braços não parecia ser suficiente. Entretanto, mesmo que pudesse esperar algo do tipo vindo de Taehyung e sua natureza inconvenientemente curiosa, nada poderia me preparar pro pedido que ouvi a seguir. – E como foi? Conte-me tudo e não esconda nada.

Engoli em seco, pensando em mil e uma desculpas que poderia usar pra mudar o assunto e evitar de responder aquela pergunta tão invasiva. Não era como se não confiasse em Taehyung pra lhe contar o que aconteceu, eu só não me sentia à vontade pra falar sobre o assunto, ponto. Quando ouvi a familiar melodia de Eyes, Nose, Lips no volume máximo vinda do celular no meu bolso traseiro indicando uma ligação – não uma ligação qualquer, mas uma ligação de Yoongi; sabia porque tinha designado o toque pessoalmente – e obtendo sucesso em fazer meu coração disparar de susto e algo mais que não tinha coragem de admitir, dediquei um segundo para agradecer aos céus pela distração e rapidamente ocupei-me em atendê-la.

— Alô? – tentei soar o mais casual possível, torcendo pra minha voz não tremer com o nervosismo inexplicável que sentia de repente enquanto ignorava as adagas que Taehyung me enviava com o olhar por ter sido ignorado. Mas quando soletrei um mudo Suga acompanhado por um sorriso apologético, sua expressão transformou-se pra uma de malícia no mesmo instante.

Onde você está?— ouvi a voz rouca e levemente arrastada do loiro dizer do outro lado da linha, como sempre indo direto ao ponto. Me senti mal na mesma hora; provavelmente estaria preocupado comigo, já que era noite e ainda não havia voltado nem avisado pra onde tinha ido. Repreendi-me mentalmente pela falta de consideração enquanto tentava não rir de Taehyung, que mandava beijinhos melosos e fazia coraçõezinhos com as mãos.

— Vim fazer compras com Tae-Tae num shopping em Hongdae. Por quê? – indaguei, não querendo parecer submisso e imediatamente pedir desculpas como fora minha primeira reação; eu era um adulto responsável e independente que tinha o direito de passar o dia com o melhor amigo se quisesse, não devia me sentir culpado por isso. Porém esse amigo estava me distraindo, então resolvi pará-lo plantando a mão na sua cara, o que só resultou numa lambida ousada contra minha palma aberta. Rapidamente retirei minha mão, limpando-a no jeans da calça enquanto franzia o cenho pra sua forma desfeita em gargalhadas, enojado.

Posso te buscar?— eu geralmente detestava quando as pessoas respondiam minhas perguntas com outras perguntas, pois isso só servia pra me deixar confuso – o que era exatamente o caso agora.

— Pode, mas... por quê? – repeti, intrigado pelo rumo que a conversa tomara de repente. Pensei que Yoongi ficaria me esperando em casa; será que estava tão preocupado a ponto de se dispor a me buscar apenas pra se certificar de que estaria bem?

Porque quero te ver, ora. Shopping em Hongdae, você disse? Me espere, te ligo quando chegar aí.— foi tudo o que disse antes de desligar na minha cara, deixando-me ainda mais confuso do que antes. Mas não podia negar que no meio de toda aquela confusão havia uma parte de mim que se sentia lisonjeada por Yoongi sair do seu caminho apenas porque sentia saudades.

— Deixe-me adivinhar: Suga-hyung está vindo acabar com o nosso encontro. – Taehyung anunciou com o tom monótono e expressão contrariada, ainda que houvesse um brilho sabido e travesso em seus olhos.

— Desculpe, Tae-Tae. Eu havia prometido que passaria a noite com ele hoje. – devolvi um sorriso acanhado acompanhado por um encolher de ombros, completamente ciente do sorriso malicioso que o mais novo me devolvera pela suposta insinuação de minhas palavras. – Mas ele deve demorar a chegar. Venha, ainda temos tempo pra tomar aquele sorvete.

Com isso saímos da praça, deixando nossas bandejas vazias no lugar designado enquanto fazíamos caminho até um dos quiosques que vendiam sorvete expresso na casquinha – Tae escolheu chocolate enquanto eu preferi baunilha. Satisfeitos com o tempo de qualidade que passamos juntos, ainda que estivesse acabando rápido demais, damos mais algumas voltas pelas lojas a fim de fazer compras de última hora. Quarenta minutos depois, quando recebi outra ligação de Yoongi pra avisar que estava me esperando, eu havia comprado mais roupas e acessórios do que precisava e Taehyung carregava pelo menos três sacolas só de maquiagem. O garoto me acompanhou até onde Yoongi disse que tinha estacionado o carro reclamando durante todo o percurso e me fazendo prometer que no dia seguinte sem falta estaria de volta em casa. Não pude fazer nada além de rir e juntar meu mindinho com o seu, selando a promessa de que sim, na manhã seguinte seria apenas dele e de Jungkook, mais ninguém.

Ao chegarmos no estacionamento do shopping, não foi difícil avistar o carro antigo e escuro do loiro, que se destacava dos demais como uma placa de néon. Pude ver sua figura magra e levemente curvada empoleirada sobre o capô do carro como costumava fazer, todo vestido em preto, até a touca que escondia seus fios loiros e a máscara que tampava metade do rosto. Peguei-me intrigado por toda aquela vestimenta até me lembrar de que Yoongi não devia sair de casa enquanto a polícia ainda estava a sua procura. Ter aparecido aqui fora deveras irresponsável de sua parte, mas a reprimenda podia esperar; agora só conseguia sorrir ao vê-lo ficar de pé e abaixar a máscara até o queixo conforme me aproximava, com um pequeno sorriso próprio estampando a face.

— O que foi, não podia esperar até eu voltar? – brinquei assim que estava à distância de um palmo, próximo o suficiente pra envolver meus braços ao seu redor e afundar meu rosto na curva de seu pescoço, mas me contive. Afinal nós tínhamos uma plateia e precisava respeitá-la.

— Não. O apartamento parecia insuportavelmente vazio sem você por perto. – admitiu sem hesitar, tirando a franja de meus olhos num gesto suave enquanto murmurava apreciativamente. – Está usando óculos novos. Gostei, ficaram bonitos em você.

— Eu te disse. – veio a resposta de Taehyung de seu lugar atrás de mim, onde o garoto pairava numa distância respeitosa de nós dois; não muito perto a fim de não atrapalhar mas também não muito longe pra ser excluído da conversa. O rubor na minha face só piorou e mais uma vez quis tampar sua boca com as mãos para calá-lo, até me lembrar da lambida que recebi e decidi ir contra a ideia. – Olá, Suga-hyung. É bom ver que se recuperou bem.

— Obrigado. – devolveu com uma expressão divertida em sua direção, quase como se tomasse prazer em me ver ser constrangido pelas mãos do meu melhor amigo, e não duvidava nada que fosse esse o caso. – É bom estar de volta também. Vocês já terminaram tudo que tinham pra fazer aqui? Quer uma carona pra casa, guri?

— Nah, tudo bem. Estou indo pro trabalho de qualquer forma. – recusou educadamente, sorrindo aquele sorriso quadrado tão característico. – Falando nisso, você precisa passar lá no bar qualquer hora dessas, hyung. Sinto falta do meu cliente favorito.

Isso conseguiu arrancar uma risada afetuosa de Yoongi, que assentia antes mesmo de abrir a boca pra responder. – Pode deixar, eu apareço. Guarde sua melhor garrafa de uísque pra mim.

— Pedido anotado. – sorriu, puxando-me pra um abraço apertado de despedida. – Até amanhã, Jiminie. E não pense que me esqueci da nossa conversa anterior. – acrescentou com um sussurro contra meu ouvido, baixo o suficiente para que só eu pudesse ouvir. Engoli em seco, concordando com a cabeça uma vez que não havia mais nada a ser dito ou feito; poderia até ter me safado dessa vez, mas não poderia fugir de Taehyung pra sempre.

— Até mais, Suga-hyung. – despediu-se assim que me soltou, estendendo uma mão para que o outro a apertasse. – Trate meu Jiminie direito essa noite, senão serei obrigado a envenenar sua bebida de verdade.

— Ahn... ok...? – o loiro respondeu cautelosamente, incerto de que tipo de resposta o mais novo poderia estar esperando. Porém Taehyung pareceu satisfeito quando virou-se nos calcanhares e saiu andando estacionamento afora em direção ao ponto de ônibus mais próximo sem lhe dar qualquer explicação. Observei-o partir com o rosto queimando: parte em choque e parte em vergonha e vontade de deitar e morrer. Só voltei-me para Yoongi quando ouvi sua risada divertida, encontrando olhos curiosos e uma sobrancelha arqueada em minha direção. – Sobre o que foi tudo isso?

— Ah, n-nada. Não ligue pra ele, Tae-Tae não sabe o que fala. – tentei desconsiderar sua pergunta no tom mais casual que consegui fazer, torcendo para o loiro não notar o nervosismo na minha voz. – Podemos ir agora? – acrescentei, ansioso pra entrar no carro e livrar-me daquela situação desagradável.

— Claro, Sunshine. – sentindo meu desconforto, Yoongi largou o assunto de imediato, inclinando-se para plantar um suave beijo na minha testa enquanto tirava as sacolas da minha mão gentilmente e as colocava no banco traseiro do carro, juntamente com a bolsa de academia que continha as roupas suadas e toalha molhada que usara mais cedo durante o treino com Hoseok. Fiquei petrificado no lugar, pasmo, perguntando-me de onde havia saído todo esse cavalheirismo enquanto o via dar a volta no veículo e abrir a porta do motorista, pausando em seus movimentos assim que viu que não o seguia. – Você não vem?

Isso me colocou em ação, obrigando-me a abrir a porta do carona desajeitadamente e me acomodar no banco ao seu lado. Assim que afivelei o cinto de segurança e arrisquei um olhar em sua direção, não pude ver o sorriso que me direcionava pois Yoongi havia colocado a máscara de volta sobre o nariz, mas o modo como seus pequenos olhos curvaram-se e criaram ruguinhas nos cantos já era o suficiente pra fazer meu coração palpitar. Devolvi um pequeno sorriso envergonhado enquanto sentia o motor tomar vida com um rugido e uma forte vibração, vendo Yoongi retomar sua atenção pra frente enquanto tirava o carro da vaga.

Assisti com leve interesse a paisagem passando como um borrão através da janela conforme deixávamos o shopping pra trás, lojas e clubes e bares, pessoas por todos os lados e mais carros do que conseguia contar na sempre cheia e ocupada Seoul. Só quando a paisagem mudou foi que reparei que não estávamos seguindo na direção do apartamento de Yoongi, mas sim de algum lugar que reconhecia vagamente mas não saberia dizer de onde. – Pra onde vamos?

— Você confia em mim? – lá vinha ele de novo, com sua mania de responder minha pergunta com outra. Mesmo que não soubesse o motivo para aquela indagação repentina, peguei-me assentindo de qualquer forma. Isso pareceu o satisfazer, pois vi seus olhos sorrirem pra mim brevemente mais uma vez. – Estou te levando num encontro. Na verdade, estou retomando aquele encontro que estraguei há algum tempo atrás.

Quando suas palavras finalmente clicaram no meu cérebro, pude entender porque aquele local me parecia tão familiar: Yoongi estava me levando pra sua prévia moradia na cobertura de um antigo hotel abandonado, onde ouvi seu verdadeiro nome pela primeira vez e onde quase trocamos o primeiro beijo. A memória enchia meu peito com uma sensação gostosa de carinho e afeto, mas só de saber que o loiro considerava aquele encontro estragado me dava um pouco de tristeza também. – Por quê? – perguntei quieto, quase num sussurro, curioso mas nem um pouco oposto à ideia de repetir aquele momento especial.

— Porque sim. – respondeu com um encolher de ombros, sem tirar os olhos da rua à frente. – Não estava brincando quando disse que ficar no apartamento era insuportável sem você.

Aquelas palavras tão incomumente honestas de sua parte me deixaram mudo, sem graça e sem saber como responder, então contentei-me em encarar as mãos que tinha pousadas sobre o colo até sentir uma das suas sobre elas, o contraste da palidez de sua pele contra o bronzeado da minha me fazendo corar. Virei uma das mãos com a palma pra cima, deixando que o outro a tomasse e entrelaçasse nossos dedos juntos. Esse gesto poderia ser simples, mas a intimidade por trás dele era algo ainda novo e excitante pra mim, tão diferente do distanciamento inicial que Yoongi parecia se esforçar pra manter, algo que fazia meu coração palpitar e dar cambalhotas dentro do peito. Permanecemos assim, imersos num silêncio confortável, com os dedos entrelaçados a menos que Yoongi precisasse da sua mão para mudar de marcha até estacionar no familiar beco existente entre o hotel e o prédio adjacente.

Desci do carro um pouco a contragosto, porque sinceramente preferia permanecer ali de mãos dadas por mais alguns instantes, enquanto assistia curioso o mais velho abrir a porta de trás e vasculhar o carro por algo antes de emergir com um engradado de cerveja em mãos e um sorriso envergonhado no rosto. Pelo visto Yoongi não mediu esforços ao planejar esse novo encontro, chegando ao ponto de comprar a mesma marca de cerveja de antes. Não pude deixar de me comover diante de tamanha fofura, soltando risadinhas infantis enquanto sentia como se meu peito fosse explodir com toda aquela dedicação. Aceitei a mão estendida de Yoongi enquanto o deixava me guiar pela escada de incêndio acoplada na lateral do prédio que nos levaria diretamente ao local de nosso encontro e também sua antiga residência.

O lugar estava do mesmo jeito que me lembrava, uma tenda improvisada e de aparência frágil servindo de proteção para alguns poucos móveis que constituíam sua “casa”. Fiz-me confortável no sofá enquanto Yoongi deixava o engradado sobre a mesinha de centro feita com caixas de madeira e se colocava a acender os lampiões movidos à pilha, sendo a única fonte de luz do lugar além dos postes que iluminavam a rua abaixo de nós. Depois que o ambiente estava iluminado e suficientemente aconchegante, Yoongi sentou-se ao meu lado e abriu duas latinhas de cerveja, oferecendo uma pra mim enquanto ficava com a outra para si.

— Onde nós paramos da última vez? – indagou em forma de piada, o divertimento evidente na voz.

— Acredito que estávamos prestes a devorar a boca um do outro depois que disse seu nome pela primeira vez. – disse com um sorriso puxando meus lábios, impressionado comigo mesmo por ainda ter a lembrança tão fresca na memória.

— Oh, é verdade. Agora me lembro. Eu estava assim – mexeu-se no sofá enquanto falava, mudando de posição a fim de ficar de frente pra mim, puxando-me pelo braço e me forçando a imitar sua postura em seguida. – e você assim, e aí você disse... – pausou, erguendo uma sobrancelha quando permaneci mudo e rindo sem entender onde ele queria chegar com aquilo, encorajando-me a entrar na brincadeira. – E então você disse o quê?

— Yoongi. – respondi simplesmente, o sorriso tão largo que tinha certeza que meus olhos não passavam de duas fendas acima das bochechas. Yoongi o retribuiu, lábios rosados puxados naquele sorriso gengival que eu tanto adorava, belo e desimpedido. O loiro assentiu, murmurando de forma apreciativa ao lhe dar a resposta certa e inclinando seu corpo em direção ao meu devagar, criando um suspense sufocante até que finalmente pude sentir seus lábios sobre os meus.

O toque fora doce e relaxado, nada parecido com os beijos desesperados e sedentos que estávamos acostumados a trocar ultimamente; nossas bocas se moviam de forma quase preguiçosa, as línguas se encontrando numa carícia suave em meio aos risinhos que soltávamos contra os lábios um do outro. Quando nos separamos em busca de ar, Yoongi plantou uma dezena de selares molhados em meus lábios, conseguindo arrancar ainda mais risadas de mim enquanto dava a impressão de que não estava disposto a se afastar tão depressa.

— Isso mesmo. – disse com a voz baixa e rouca, o sorriso ainda se fazendo presente na face, ainda que lutasse para escondê-lo agora. – Era isso que devia ter feito aquela noite, não fugir como um covarde. – lamentou-se.

— Devia mesmo, mas agora não adianta mais chorar pelo leite derramado, certo? – brinquei, inclinando-me sobre si a fim de plantar mais um selinho rápido em seus lábios antes de me afastar por completo. – Mesmo que não tivesse me beijado daquela vez, o momento que passamos juntos não deixou de ser incrível. Então não se culpe tanto.

— O que eu fiz pra merecer alguém como você, Park Jimin? – indagou com olhos cheios de admiração, suspirando enquanto apoiava a cabeça no punho.

— Alguém como eu? O que quer dizer com isso? – devolvi em tom de brincadeira, olhando-o com suspeita mesmo que soubesse que não havia nenhuma malícia ou sarcasmo em sua fala.

— Um anjo. Meu anjo. Meu Sunshine. – respondeu, pontuando cada frase com um beijo: em minha testa, minha bochecha, meus lábios. Corei profusamente diante do tratamento carinhoso, desacostumado com tamanha atenção e ternura. Tentei esconder o embaraço atrás da cerveja, tomando alguns goles da bebida amarga a fim de me dar um tempo pra respirar normalmente de novo.

— Do que está fa-falando? Não diga bobagens, n-não sou anjo nenhum. – minha tentativa de dispensar suas palavras como se não fossem nada fora um completo fracasso, como qualquer um poderia notar pelo modo como gaguejava e atrapalhava-me todo. Yoongi apenas riu, levando sua mão até meus cabelos castanhos a fim de bagunçá-los enquanto dizia o quão fofo eu era, mas deixou o assunto morrer.

As próximas horas foram gastas com uma conversa casual e descontraída, passando por assuntos triviais do tipo como fora nosso dia, como andava o progresso que fazia nos treinos para o show, quais eram nossas cores favoritas e até mesmo a quais alimentos tínhamos alergia. Eram tantos assuntos a cobrir, tantos detalhes a serem descobertos e mistérios a serem desvendados, que mesmo quando a cerveja acabou eu ainda sentia como se nunca fosse conhecer Yoongi por completo, não importa quanto tempo passasse jogando conversa fora.

Não podia negar que me sentia um pouco tonto enquanto o ouvia falar sobre seu tipo favorito de filme com a cabeça apoiada em seu ombro, apenas aproveitando o calor que emanava de seu corpo ao mesmo tempo que desenhava padrões aleatórios na sua coxa com os dedos. Eu não sabia o que era, mas algo na voz de Yoongi me trazia uma sensação de paz imensa. Me sentia seguro na sua presença. Seguro e contente. Satisfeito. Mas, ao mesmo tempo, apenas isso não era o suficiente. Não importa o quão próximo estivesse dele, eu sempre ansiava por mais. Eu queria senti-lo contra cada pedaço de pele do meu corpo, cada fibra do meu ser. Queria conhecê-lo por completo, tê-lo por completo, ser por completo dele. Talvez fosse esse desejo insaciável que controlasse minhas próximas ações, ou talvez fosse a cerveja finalmente falando mais alto, mas de qualquer forma não consegui sentir vergonha ao acariciar sua coxa com a palma aberta, em movimentos lentos e deliberados, cada vez mais próximos de sua virilha enquanto plantava beijos doces na coluna de seu pescoço.

— Jimin... – chamou num sussurro, interrompendo o que dizia no meio da frase ao soltar um suspiro, a voz tão grave que senti algo fisgando em meu baixo ventre. O modo como ele pareceu ceder momentaneamente, tombando a cabeça pra trás e expondo seu pescoço claro e imaculado pra mim, me incentivou a continuar e apalpar tentativamente a frente de suas calças, onde sabia que um volume estaria prestes a se formar. Entretanto minha diversão durara pouco, pois nem um minuto depois ele segurava meu pulso com firmeza, dando um fim aos meus movimentos enquanto me olhava suplicante. – Jimin, por favor. Não faça isso.

— Por que não? Não quer que eu te toque? – não pude deixar o tom choramingado longe de minha voz, nem se me esforçasse pra isso. Franzi o cenho, já sentindo meus lábios sendo projetados num bico enquanto tinha uma ardência estranha atrás dos olhos, quase como se fossem lágrimas. Mas chorar num momento como esse era ridículo, não era? Não sabia porque me sentia tão triste, ainda mais quando a quantidade elevada de álcool no meu sangue não me deixava pensar direito, mas sabia que tinha aborrecido Yoongi de alguma forma. Por causa da minha incapacidade de me controlar Yoongi estava chateado, e agora a noite fora estragada mais uma vez, só que por culpa minha.

— Não, não! Céus, não. Não é isso. Por favor Jiminie, não chore. – pediu com uma clara preocupação estampada no rosto, e só quando senti seus dedos deslizando gentilmente por minhas bochechas percebi que estava chorando. Agora que tinha consciência disso não conseguia parar de soluçar, deixando que o mais velho me aninhasse contra seu peito e acariciasse minhas costas numa tentativa de me acalmar. – Sunshine, por favor. Você não fez nada de errado. Eu gosto quando me toca, eu quero que me toque... só não nessas circunstâncias. Você já bebeu demais por hoje e sei que não está pensando direito agora. Não quero que faça algo que vá se arrepender depois.

No fundo da minha mente, bem lá no fundo, atrás daquela nuvem de luxúria e frustração, eu sabia que Yoongi estava certo – afinal Yoongi sempre estava certo. Provavelmente atirar-me sobre ele enquanto ainda estava sob efeito do álcool não havia sido uma de minhas ideias mais brilhantes, mas não pude deixar de encolher-me sob o peso da onda de arrependimento e vergonha que havia caído sobre mim de supetão. – Me de-desculpe. – pedi, afundando ainda mais o rosto contra a junção de seu ombro e pescoço enquanto agarrava o tecido da sua camiseta no punho como se minha vida dependesse daquilo.

— Não há motivos pra pedir desculpas, já disse que não fez nada de errado. – assegurou-me, acariciando minhas costas com uma mão e meus cabelos com a outra. – Eu só quero que você esteja em sua plena consciência quando formos íntimos um com o outro. Não vou abusar da sua confiança.

Suas palavras faziam sentido, e seu tom brando somado às carícias constantes conseguiram me acalmar depois de algum tempo. Eu já não chorava mais, mas ainda me agarrava a ele como se pudesse cair sem forças caso o soltasse. Yoongi soltou um leve riso aliviado quando percebeu isso, afastando a franja de minha testa e plantando um beijo ali. Não sabia exatamente que horas eram, mas imaginava que estávamos conversando madrugada adentro, principalmente depois de abrir um longo bocejo e ser incapaz de manter os olhos abertos depois disso.

— Está com sono? – com meu mudo aceno positivo, cansado demais pra usar as palavras, Yoongi deitou-se no sofá e puxou-me pra cima de si de modo que meu tronco ocupasse o espaço vazio entre suas pernas e minha cabeça ficasse apoiada sobre seu peito, usando-o de travesseiro enquanto puxava a manta que tinha dobrada sobre o encosto do mesmo e a usava para cobrir nossos corpos e nos proteger do frio, uma vez que não tínhamos paredes e um teto para tal. Imediatamente mudei de posição a fim de ficar mais confortável, deitando de bruços e envolvendo um braço ao redor do seu tronco para abraçá-lo, suspirando contente assim que consegui o que queria.

— Hyung... conta uma história pra mim? – pedi manhoso, já de olhos fechados, sentindo mais do que ouvindo a risada que recebi em resposta reverberar contra meu ouvido. Yoongi ficou em silêncio por alguns minutos, correndo lentamente os dedos por meus cabelos e parecendo decidir que história seria mais apropriada pro momento. Acabei adormecendo enquanto me contava sobre como conhecera Namjoon e Jin-hyung, ouvindo a rouquidão de sua voz ressoar dentro do peito e misturar-se com as batidas de seu coração, criando assim uma melodia acalentadora impossível de resistir.

Quando acordei no dia seguinte, dolorido e com a cabeça latejando levemente, percebi que o sol havia acabado de nascer, ainda no processo de afastar a escuridão da noite enquanto pintava o céu num tom mais claro de azul. Por ter dormido ao relento, esperava acordar no mínimo tremendo de frio, se não doente e com febre, mas me espantei ao perceber que não era esse o caso. Na verdade, me sentia muito bem aquecido e seguro nos braços de Yoongi. Yoongi. Só então as lembranças da noite anterior caíram sobre mim com um baque, trazendo consigo a vergonha mórbida de quem não sabia onde enfiar a cara. Que patético havia sido, chorando em seus braços porque me sentia sexualmente frustrado. Como poderia olhá-lo nos olhos sem corar violentamente? Eu queria me esconder, então assim o fiz, afundando o rosto em seu peito e torcendo pra conseguir me sufocar no processo. Porém, a figura adormecida de Yoongi interpretou aquilo como frio e envolveu seus braços ao meu redor protetoramente, puxando a manta até quase cobrir minha cabeça por completo, resmungando algo inteligível no sono.

Por mais envergonhado que estivesse, não podia deixar de achar aquele gesto adorável. Não importava o quão ridículo, fraco ou irresponsável tivesse sido, Yoongi sempre estaria ali pra cuidar de mim. Meu peito parecia pequeno para todo o amor e devoção que o preenchia, agora mais do que nunca enquanto levantava meu rosto para observar suas feições serenas. Sempre achei que Yoongi ficava mais bonito quando dormia e esse fato foi confirmado quando tinha feixes de luz solar sobre seu rosto, acariciando suas bochechas e fazendo sua pele clara brilhar. Mais uma vez, não consegui me controlar enquanto distribuía beijos ternos por toda sua face, cobrindo desde sua testa até seus olhos, bochechas, maxilar, nariz e queixo. Quando alcancei seus lábios, sobressaltei-me ao receber uma resposta, deixando que minhas pálpebras se fechassem enquanto nossas bocas se moldavam lentamente ao redor uma da outra, de forma sonolenta e preguiçosa. Ao nos afastarmos, escondi meu rosto contra a curva de seu pescoço e soltei risinhos contra sua pele, sentindo Yoongi apertar-me em seus braços com um suspiro.

— Bom dia. – disse, sua voz três vezes mais rouca e grossa do que o normal devido ao sono. Conforme um arrepio percorria minha espinha, dei-me conta de que essa poderia ser a última vez que ouvia aquela voz ao acordar, pelo menos por um tempo. A vontade de chorar retornara, mas dessa vez eu iria engoli-la. – Dormiu bem?

Assenti com a cabeça, incapaz de confiar na minha própria voz no momento. Eu não queria ter de sair daquela pequena bolha que havíamos criado ao nosso redor e encarar o mundo que me aguardava. Não queria me separar dele, por mais que soubesse que aquele arranjo era apenas temporário e tudo precisasse voltar ao que era antes eventualmente. Estava sendo ridiculamente irracional, eu sabia, pois estava tratando aquilo como uma despedida quando na verdade não era nada tão complicado; no final das contas, nada realmente mudaria. Mas então por que sentia esse aperto no peito? Não consegui conter um suspiro trêmulo ao ter o loiro pressionando-me ainda mais contra si, a ponto de quase fundir nossos corpos num só. Foi aí que percebi uma coisa: Yoongi entendia, e sentia-se do mesmo jeito.

— Vou sentir sua falta. – admiti de forma quieta, a voz um pouco acima de um sussurro, pois temia que se falasse normalmente Yoongi perceberia o tremor que havia nela.

— Vamos descer pra tomar um café, sim? – sugeriu ao acariciar meus cabelos, a voz tão baixa e suave quanto a minha. Com o tempo e convivência aprendi que Yoongi era uma pessoa de gestos ao invés de palavras: o loiro não precisava retribuir o sentimento em voz alta pra saber que a separação seria tão difícil pra ele quanto era pra mim, ainda que uma pequena parte minha gostaria de ser egoísta e ouvir aquelas palavras ao menos uma vez.

Depois que nos levantamos – mesmo que relutantemente – e espreguiçamos, estalando articulações travadas e massageando músculos doloridos depois de dormir por horas numa mesma posição, deixamos o local minimamente arrumado ao retirarmos o lixo antes de nossa saída, descendo as escadas de mãos dadas e apenas desconectando-as quando entramos no carro. Yoongi dirigiu até um pequeno café surpreendentemente charmoso pra região, considerando a má reputação do distrito industrial e tudo mais. Comemos num silêncio confortável e contemplativo, quebrado vez ou outra com conversa fiada e pequenos sorrisos, ambos dispostos a estender esse momento até o seu limite. Depois do que pareceu ser um tempo curto demais estávamos de volta dentro do carro, agora seguindo na direção do apartamento que dividia com Jungkook e Taehyung – minha casa. Estava prestes a pedir que desse meia volta pois tinha esquecido a mochila cheia de roupas no seu apartamento, ansioso por qualquer desculpa pra não ter que me despedir, quando a vi no banco de trás junto com as sacolas de compras do dia anterior. Um nó inexplicável surgiu na minha garganta, obstruindo-a, enquanto me sentia nada menos do que traído; Yoongi era um bastardo traiçoeiro quando queria ser, agindo dessa forma pelas minhas costas.

No tempo que levamos para chegar ao apartamento, eu já estava triste e amuado, lutando para convencer-me a parar de ser idiota e aceitar que essa não seria uma despedida definitiva, que poderíamos nos ver sempre que quiséssemos e ninguém iria morrer. Não sabia porque estava agindo assim, mas sabia que acabara me acostumando mal à presença constante de Yoongi no meu dia-a-dia; dormir e acordar ao seu lado era o que mais sentiria falta, e provavelmente o motivo de estar tão chateado sobre a situação. Quando arrisquei um olhar em sua direção vi que Yoongi não estava muito melhor do que eu, com as mãos agarrando o volante até suas juntas ficarem brancas e o cenho franzido enquanto encarava a pista à sua frente como se tivesse lhe ofendido.

— Não vá. – surpreendi-me ao ouvir o som da sua voz quebrar o silêncio pesado que se instalara dentro do carro, uma súplica que parecia ter sido difícil de pronunciar, se a carranca em sua face era qualquer indicação.

— Preciso ir. Prometi à Tae-Tae. – foi o que disse, mas dentro de mim eu sabia que queria ficar. – Não podemos viver nesse conto de fadas pra sempre, Yoongi, sabe disso. Eu tenho a minha vida e você tem a sua. Além do mais, não é como se nunca mais fôssemos nos ver, certo? – eu mesmo me surpreendi com a maturidade e certeza que dizia aquelas coisas, pois na verdade não me sentia certo de nada, a não ser que queria abraçar Yoongi e não soltá-lo nunca mais.

— Por que tenho a sensação de que tudo que vivemos foi um sonho e agora precisamos acordar pro mundo frio e cruel? – indagou, arrancando-me uma risada curta e cansada. Yoongi e seus eternos questionamentos, porém dessa vez tinha que concordar que me identificava com este. Entretanto, não permitiria que nossa despedida tivesse um tom de melancolia; não, precisava ser forte e manter o sorriso até o final.

— Não diga coisas assim. Não torne isso mais difícil do que já é. – pedi, abrindo um fraco sorriso que sabia que não alcançava meus olhos. – Isso não é um adeus, ok? Nós vamos nos ver sempre, e nos falar por telefone e mensagens e fazer visitas inesperadas. Tá bem?

— Tá bem. – concordou, devolvendo o meu sorriso com um afetuoso.

— Promete? – insisti, inclinando-me sobre a marcha a fim de diminuir a distância entre nós, erguendo o dedo mindinho na altura dos olhos para selar a promessa. Yoongi encarou meu dedo esticado por alguns segundos antes de encontrar-me do meio do caminho, juntando nossos mindinhos e nossos lábios em seguida.

— Prometo.