Hold me Tight

43 Desbravando novos territórios


— Yoongi POV -

Eu nunca admitiria caso perguntassem, mas passar a tarde trancado no meu apartamento sem a constante presença de Jimin era chato. Terrivelmente chato. Tão chato que passei a acreditar que seria possível um ser humano morrer de tédio, e se fosse esse o caso, só torcia para que o inevitável acontecesse logo e me livrasse desse sofrimento sem fim. Outra coisa que eu jamais admitiria em sã consciência era que a ausência do mais novo havia me transformado numa maldita Drama Queen. Num lapso de caráter, agradeci aos céus por estar sozinho; se Seokjin me visse agora, com certeza não viveria para ver o fim de suas provocações, olhares sabidos e sorrisos maliciosos. A última coisa que precisava era de uma confirmação verbal para o que meu cérebro já sabia, mas se recusava a acreditar.

Park Jimin me deixava fraco.

Mais do que isso, pensei ainda que relutantemente, suspirando com a minha desgraça enquanto fitava o teto da sala de estar. Mais do que fraco, o mais novo me transformara num verdadeiro coração mole, um perdido apaixonado, quase um dependente químico, carente e sentindo sua falta como se estivesse sofrendo de uma maldita crise de abstinência. Contra minha vontade e senso comum, me vi habituado com a estranha rotina que havíamos criado quando ele veio dormir aqui sob o pretexto de cuidar de mim. Agora que a febre havia baixado e meu ombro já não doía mais como antes, fazia total sentido que Jimin voltasse para sua antiga rotina, certo? Eu não precisava mais de seus cuidados, nunca precisei. Mas ainda assim, me vi não só aturando como desejando essa nova dinâmica, o que era ridículo. Se alguém me dissesse meses atrás que hoje estaria carente como o diabo querendo nada mais do que um urso em tamanho real chamado Park Jimin pra abraçar, eu poderia engasgar de tanto rir. Desde quando Min Yoongi tinha medo de ficar sozinho? Porém, infelizmente era a mais pura verdade. Tão verdade que peguei-me xingando mentalmente o garoto dos mais variados tipos de nome, nenhum deles agradável. Jimin só podia ser um feiticeiro, pra me ter envolto ao redor de seus pequenos dedinhos gordinhos dessa maneira. Francamente, ninguém me avisou que se apaixonar seria assim tão difícil.

Suspirei mais uma vez, espreguiçando-me sobre o sofá e sentindo-me cansado mesmo que tivesse acabado de acordar, encontrando uma cama vazia onde só havia um bilhete no lugar onde deveria estar o corpo quente de Jimin: Fui praticar as coreografias com Hoseok-hyung, volto para o jantar, era tudo que dizia. O punhal que senti atravessando meu peito ao ler a mesma sentença repetidas vezes não era ciúmes, longe disso. Min Yoongi não sentia ciúmes, principalmente de tipinhos como Jung Hoseok. Aquelas pontadas no fundo do estômago não passavam de fome; não tinham absolutamente nada a ver com a ira que corroía minhas veias como ácido. Não, eu me recusava a sentir ciúmes de Jung desgraçado-filho-da-puta Hoseok. Não sentiria hoje, não sentiria nunca.

Infelizmente, era muito mais fácil falar do que fazer.

Era muito difícil tentar me ocupar com outras coisas e não pensar tanto na proximidade que Jimin teria do – recentemente tingido – ruivo, os dois praticando coreografias em perfeita sincronia até que seus músculos tremessem pelo esforço, o suor pingando de suas têmporas e escorrendo por suas costas, os cabelos molhados grudados na testa, a respiração ofegante e batimentos desiguais, os sorrisos satisfeitos que trocariam através do enorme espelho que refletia cada mínimo movimento que seus corpos faziam quando se estava tão tremendamente entediado como eu. Como diziam, mente vazia era oficina do diabo, ou algo do tipo. Nunca pensei que pudesse comprovar a veracidade de ditados populares, mas aqui estava. Sozinho, preso no apartamento sem absolutamente nada pra fazer enquanto pensava em Hoseok colocando suas patas imundas no meu Jimin. Meu Sunshine.

Merda, pensei amargamente enquanto alcançava o pequeno caderninho de anotações que tinha esquecido sobre a mesa de centro antes de ficar doente demais pra escrever, era hora de arranjar um hobby. Sempre tive formas muito peculiares de extravasar a raiva, ambas igualmente eficientes: ou atirava em alguma coisa ou escrevia letras de música. Como não podia atirar em nada sem incomodar os vizinhos e inevitavelmente atrair a atenção da polícia, contentei-me em encarar as páginas em branco do caderno que tinha em mãos esperando que um raio de inspiração me atingisse e me colocasse num frenesi alimentado pelos fortes sentimentos que consumiam meu coração aos poucos. Sabia que a velha melancolia poética estava lá, apenas aguardando sua vez, louca para ser posta em ação e sujar páginas e mais páginas com letras dignas de uma verdadeira Drama Queen como eu. Tudo que precisava fazer era deixá-la livre para trabalhar.

Não era a primeira vez que tentava escrever a música que tinha prometido à Jimin, mas nunca ficava satisfeito com nenhum dos resultados. Por algum motivo as letras pareciam vazias e superficiais, como se não fosse capaz de expressar tudo que sentia pelo mais novo num mísero pedaço de papel. Isso acabava me frustrando tremendamente, obrigando-me a rasgar e amassar folha atrás de folha em busca das palavras certas; afinal, nunca tive problemas pra escrever sobre minha própria vida antes, chegando a receber elogios pela profundidade de meus raps, então não entendia qual era a grande dificuldade de falar sobre meros sentimentos agora. Na verdade, estava mentindo. Eu entendia muito bem qual era a dificuldade, mas não queria me dar por vencido ainda. O que tornava tudo mais difícil é que não tinha Jimin ao meu lado para me motivar e me lembrar de que, não importa o que eu escreva, aquela música seria o melhor presente que ganharia na vida inteira. Um pouco exagerado da sua parte, admito, mas era o suficiente pra impedir que a insegurança e medo de errar inundassem minha mente com pensamentos inúteis.

Determinado a escrever até sair algo digno de meus sentimentos pelo mais novo, pensando que seria melhor afundar-me em trabalho ao invés de ficar choramingando pelos cantos e pensando coisas que não devia, preparei-me uma grande xícara de café para ajudar no processo criativo antes de me ajeitar melhor no sofá, procurando ficar o mais confortável possível uma vez que ficaria na mesma posição por no mínimo algumas horas. Deixei que Jimin tomasse conta de meus pensamentos, vendo cada sorriso como se estivesse diante de mim, revivendo cada beijo como se os mesmos estivessem gravados em brasa nas minhas memórias, relembrando cada uma das difíceis situações pelas quais passamos juntos. Antes que pudesse perceber, minha mão trabalhava sozinha enquanto rabiscava palavras soltas no caderno, adquirindo certa fúria quanto mais sentido elas pareciam fazer juntas, preenchendo o papel branco em questão de minutos, xícara de café esquecida na mesa de centro.

Como se não houvesse amanhã

Como se não houvesse uma próxima vez

Agora, em frente aos meus olhos, tudo sem você é uma terrível escuridão

Eu digo isso como um hábito

Nós não daremos certo no final

Mesmo assim, continuo esperançoso

Desde que esteja com você no final, eu estou bem

Uma vez que eu pegara o jeito da coisa, as palavras fluíam de minha mente como numa correnteza, jorrando para o papel como água. Mais uma vez comprovei a teoria sobre o objeto de suas afeições se tornar também sua musa inspiradora, ou muso, nesse caso. Enquanto escrevia, senti como se meu coração fosse posto à mostra, sangrando e vulnerável para quem quisesse ver. O sentimento era tão angustiante, mas ao mesmo tempo tão libertador; era quase como se confessasse meu amor pelo mais novo. Porém, quanto mais escrevia e deixava escancarado o que sentia, menos tinha vontade de vocalizar aqueles sentimentos através do meu rap. Não importava o quanto tentasse, não conseguia me imaginar dando voz àquelas palavras. Sabia que poderia ser chamado de covarde por isso, mas preferia me esconder atrás do anonimato de um mero compositor do que performar aquela música em cima de um palco, pra que dezenas de pessoas pudessem ver as cores reais do meu coração.

Uma casa feita de cartas, e nós, dentro

Mesmo que o fim esteja visível, mesmo que esteja para desabar logo

Uma casa feita de cartas, e nós, como idiotas

Mesmo que seja um sonho vão, fique assim um pouco mais

Quando senti que a letra estava boa o bastante pra deixar de ser meras palavras escritas num papel e talvez virar uma música concreta, deixei a caneta cair ao meu lado e recostei-me no sofá a fim de admirar meu trabalho. Algumas palavras podiam ser trocadas por sinônimos melhores, mas ao todo eu estava satisfeito; finalmente conseguira criar algo de valor, algo que expressasse com clareza os sentimentos conflitantes e confusos que nutria pelo outro já há algum tempo. A letra falava sobre um amor fadado ao fracasso, sobre a inevitabilidade do fim, mas também falava sobre o meu egoísmo ao querer agarrar-me à felicidade enquanto podia. Jimin provavelmente não ficaria nada contente caso parasse pra analisar o significado por trás das palavras, mas eu não podia evitar; afinal era assim que me sentia. Ainda tinha aquela antiga noção de que Jimin era bom demais pra alguém como eu grudada em minha mente, que ele merecia alguém melhor, uma vida melhor. Porém, apesar de ter plena consciência de que seria o certo a se fazer, eu era fraco demais pra deixá-lo ir.

Decidindo pôr um fim ao meu repentino festival de auto-piedade, levantei-me do sofá com o caderno em mãos, erguendo os braços acima da cabeça de forma preguiçosa a fim de livrar meus músculos das cãibras que os assolavam por ficar muito tempo parado numa só posição antes de fazer caminho até o quarto, onde ficava meu laptop. Agora que tinha a letra pronta, já podia imaginar que tipo de melodia a música teria para torná-la simplesmente perfeita; talvez algo lento e sensual, com um instrumental marcante que fosse capaz de invadir a mente das pessoas sem ser convidado e ficar lá por boa parte do dia. Não podia negar que estava mais do que animado para ver a música pronta enquanto abria o programa de edição e mixagem no computador e colocava os fones, dessa forma conseguindo ficar completamente alheio ao mundo ao meu redor. Para mim, tudo que existia agora eram amostras dos mais variados sons e instrumentos musicais, que juntavam-se através do meu comando para formar a música que dedicaria à Jimin, minha mais recente obra-prima, um verdadeiro diamante em estado bruto, pronto pra ser lapidado.

Eu sempre tive o hábito de perder a noção do tempo quando ficava tão imerso no trabalho quanto estava agora, mas isso não me impediu de quase pular na cadeira – e soltar um gritinho nada masculino – quando fui desperto de meu transe por um cutucão no ombro, virando-me com olhos arregalados para encontrar a face sorridente de Jimin encarando-me de volta. Com um sobressalto notei que o quarto estava completamente escuro como se já fosse noite lá fora, e de fato, uma olhada rápida na direção do relógio do laptop confirmara minhas suspeitas: era pouco mais de sete horas da noite, hora do jantar, exatamente quando Jimin disse que voltaria. Sentindo uma estranha mistura de incredulidade e orgulho percebi que estava trabalhando sem parar por mais de cinco horas; dando-me tapinhas nas costas mentalmente, tirei os fones de ouvido para dar ao mais novo minha total atenção.

— Já está de volta? – perguntei, tentando soar casual e nenhum pouco como o marido ciumento que realmente me sentia; só de pensar que, enquanto eu passara mais de cinco horas trabalhando numa música para si, Jimin passara mais de cinco horas fazendo sabe-se lá o que na presença de Hoseok já fazia meu sangue ferver. Entretanto, o mais novo nunca saberia desse vergonhoso fato, não se pudesse evitar.

— Sim, e trouxe comida. – seu sorriso ficara ainda mais largo, se é que fosse possível, enquanto acendia a luz do quarto e corria os olhos curiosos pela tela do notebook à minha frente. – Eu tentei te chamar, mas você não respondeu. Fiquei preocupado por alguns segundos. – comentou, seus olhos ganhando um brilho de reconhecimento e excitação quando pareceu finalmente compreender o que via. – Foi por isso que não me ouviu? Estava trabalhando na minha música?

Não consegui conter um riso curto e seco de escárnio. – “Minha música”, francamente. Um pouco convencido de sua parte, não acha? Mas se quer tanto saber, sim, foi por isso que não te ouvi. Estava ocupado demais trabalhando. – confirmei, dando ênfase à última palavra de propósito, como se quisesse lhe transmitir algum tipo de mensagem escondida. Do tipo que dizia: enquanto trabalhava, você estava se divertindo com Jung-maldito-Hoseok. Desnecessário dizer que a mensagem não fora recebida com sucesso, se o olhar confuso acompanhado por uma tombada de cabeça que Jimin me devolvera fosse algum indício.

— E como está se saindo? Posso ouvir? – pediu, o tom animado ainda presente na voz. Se Park Jimin não era um completo estúpido, ele era um ótimo ator.

— Não sei se você merece o privilégio de ouvi-la antes que todo mundo. – tentei esconder o tom amargurado da minha voz, juro que tentei, mas era simplesmente mais forte do que eu. Novamente fui bombardeado com imagens mentais de Jimin e Hoseok dançando juntos, corpos tão próximos que poderiam ser considerados um crime contra os bons modos. Foi necessária toda minha força de vontade pra não quebrar o fone que ainda estava seguramente preso em minhas mãos.

— Por que não? O que isso quer dizer? – indagou-me, parecendo genuinamente perdido. Quando notou que permaneceria em silêncio, sem respostas na ponta da língua para lhe dar e evitando à todo custo encontrar seus olhos, pude praticamente ouvir o beicinho que puxava seus lábios conforme insistia no assunto. – Por que está sendo tão difícil comigo? O que eu fiz pra merecer isso?

— Nada, Jimin, esquece. – dispensei o assunto com um gesto das mãos, ansioso pra falar sobre outra coisa e não pensar muito no fato de que estava agindo como um chato resmungão no momento. Ou livrar-me dele. O que quer que funcionasse primeiro. – Você não tem outra coisa pra fazer, tipo tomar um banho, sei lá?

— Ah não, já tomei banho na casa do Hoseok. – respondeu de imediato, parecendo não notar a raiva que contorcia meu rosto numa feia carranca até que fosse tarde demais. – ...Espere. É disso que se trata? Está agindo assim comigo por ciúmes? De Hobi-hyung, jura? – o sorriso radiante que abrira parecia totalmente fora de contexto, o que só serviu pra alimentar ainda mais minha raiva. Quem lhe deu o direito de fazer graça dos meus sentimentos?

— Não seja ridículo, Jimin. E não o chame assim, é estranho. – acrescentei de última hora, arrependendo-me assim que as palavras saíram de minha boca.

— Por quê? – indagou, curioso.

— Porque fui eu quem lhe deu o apelido primeiro. – minha resposta era enigmática e nem de longe satisfatória, eu sabia, mas não estava pronto pra elaborar o assunto. Felizmente Jimin pareceu entender, pois não insistiu. – Só... não gosto da ideia de você ser tão próximo dele. Vocês têm um show juntos em algumas semanas e precisam praticar, entendo isso. Sei que ganhou essa oportunidade de forma justa através do seu esforço e talento, mas acredite em mim quando digo que Hoseok não é quem você pensa que é. – falava sério quanto ao que dizia, o aviso não tendo nada a ver com os ciúmes que insistiam em revirar meu estômago. Antes que o mais novo abrisse a boca pra protestar, acrescentei. – E não diga que estou exagerando. Conheço Hoseok há mais tempo do que você, sei o que estou falando.

— Tudo bem. Prometo que vou manter meu relacionamento com Hoseok-hyung estritamente profissional de agora em diante. – disse um pouco rápido demais, com a voz um pouco animada demais pro meu gosto. Por que tinha a sensação de que só dizia aquilo pra aplacar minha raiva? – Agora posso ouvir a música?

— Aish, você é realmente irritante, Park Jimin. – resmunguei, contrariado, sabendo perfeitamente bem que o mais novo brincava comigo. Claramente ele não se afastaria do dançarino mais velho tão fácil, e temia que nada que eu pudesse dizer mudaria esse fato. Porém, mesmo que estivesse com o coração apertado dentro do peito, virei-me para o notebook e apertei play. – Não está concluída ainda. Esse é só o instrumental.

Observei Jimin escutar a melodia atentamente, olhos fixos num ponto qualquer da parede como se quisesse se concentrar apenas no que ouvia. Pude ver cada expressão que passava por seu rosto, desde a surpresa até o orgulho, assistindo cada fase do sorriso que surgia em seus lábios conforme a música chegava ao fim. Assim que o quarto fora novamente preenchido pelo silêncio, observei com um arrepio na espinha aquele sorriso radiante ser direcionado à mim. – Woah, hyung! Só pelo instrumental eu sei que a música vai ser perfeita! – elogiou, trazendo um rubor desnecessário à minha face. – Por acaso você já tem a letra?

— Claro que tenho a letra. Quem você pensa que sou? – rebati, soando ofendido mesmo que o rubor ainda estivesse teimosamente presente. Com um forte sentimento de auto-consciência, estendi-lhe o caderno e sem perceber prendi a respiração enquanto o observava correr os olhos pelo papel à sua frente. É agora ou nunca, pensei nos torturantes segundos que Jimin enrolava pra me dar uma resposta; um elogio, uma crítica, uma risada, qualquer coisa. Qualquer coisa era melhor do que o silêncio acompanhado pela expressão indecifrável que encontrava em seu rosto.

— Yoongi... – começou, tirando forçosamente os olhos do caderno e trazendo-os de volta aos meus. Engoli em seco; não sabia que sua opinião significava tanto pra mim até o momento que estava prestes à ouvi-la. – Isso é tão lindo! Não fazia ideia que fosse capaz de escrever algo assim. Mal posso esperar pra ouvi-la na sua voz. – o entusiasmo do garoto era evidente, o brilho em seus olhos óbvio, o que tornou minha decisão muito mais difícil de lhe comunicar.

— É, então... sobre isso. – comecei, pigarreando para livrar-me da obstrução que tinha na garganta de repente, mais nervoso do que imaginava. – Depois de escrever a letra e trabalhar na melodia, não sei se meus raps encaixariam tão bem na música. Talvez ela ficasse melhor apenas cantada. Geralmente eu pediria pra Seokjin cantá-la pra mim, mas ele ainda não voltou de viagem e... bem... eu estava pensando... – gaguejei, sentindo-me patético antes mesmo de concluir meu raciocínio. – Você estuda dança na universidade, certo? Com certeza deve conhecer alguém no departamento de música, alguém com bons vocais que poderia te fazer um favor.

— Bom, tem o Jungkookie. – disse de imediato, parecendo apenas levemente decepcionado pela minha covardia. – Eu o ouvi cantar uma vez, e sua voz é simplesmente angelical. Ele não está no departamento de música, mas seu sonho era se tornar cantor algum dia.

Estaria mentindo se dissesse que suas palavras não me chocaram nenhum pouco; Jungkook era capaz de cantar? Aí estava uma informação que eu não tinha o menor conhecimento sobre. Me permiti considerar a possibilidade, ignorando totalmente os ciúmes bobos que o apelidinho carinhoso me trazia, até me lembrar que eu e o mais novo não éramos necessariamente amigos. – Acha que ele aceitaria cantar uma música que escrevi pra você? Tem certeza? – perguntei, incrédulo.

— Sei que se eu pedir com jeitinho e explicar o quanto essa música é importante pra mim, ele vai acabar aceitando. Kookie é um ótimo amigo que não consegue negar nada pra ninguém, afinal. – sorriu. Definitivamente, o apelido que Jimin insistia em usar não me trazia um gosto amargo na boca; muito menos o modo afetuoso como falava do mais novo, ou o sorriso que apresentava, nada disso cravava adagas diretamente no meu peito. Min Yoongi não sentia ciúmes. Nunca.

Peguei-me contemplando a ideia de procurar ajuda psicológica enquanto concordava com um resmungo, dizendo que seria ótimo se pudesse convencê-lo a aceitar o convite. Por mais que não estivesse ansioso pra trabalhar com o pirralho, precisava de alguém com vocais minimamente decentes além de Seokjin, e com certeza eu não poderia cantar nem se minha vida dependesse disso. – Ok, combinado. Só precisamos nos reunir no estúdio algum dia pra gravar.

— Você tem um estúdio, hyung? – Jimin perguntou-me com olhos grandes de admiração, como se nunca tivesse lhe ocorrido a ideia.

— Não é bem meu, mas sim de Namjoon. Ele só me deixa roubá-lo de vez em quando. – dei de ombros. – Só não eleve muito suas expectativas, o estúdio não passa de uma caixa de sapato com equipamentos caros dentro.

— Tenho certeza que vou adorar ver vocês trabalhando juntos, não importa o nível de conforto que vou ter durante o processo. – disse, o sorriso mais sincero do que poderia esperar. De repente Jimin estava de pé, expressão extasiada como um filhotinho. – Posso ouvi-la mais uma vez?

Prontamente concordei, virando-me na cadeira pra reproduzir a música – ou pelo menos seu instrumental – mais uma vez, sabendo que não havia nada que Park Jimin me pedisse sorrindo que eu não faria chorando. Dessa vez, o mais novo se balançava de acordo com o ritmo, deixando que seu corpo a absorvesse, assim movendo-se por conta própria. Assisti com olhos fascinados seus movimentos acompanharem cada mudança no tom da música, cada nuance na melodia, executando movimentos pélvicos que só poderiam ser descritos como pecaminosos. Meus olhos ainda estavam vergonhosamente grudados em seu corpo, minha mente em transe pelo que acabara de testemunhar, quando a música parou. O que me despertou foi a risada infantil de Jimin, que parecia se deleitar com a minha reação enquanto piscava os olhos como louco para livrar-me de certas imagens mentais e tentava não babar.

— Pela sua cara, creio que não terei problemas pra impressionar as pessoas quando for me apresentar em cima do palco. – brincou, o sorriso ainda mais largo quando notou meu rubor. Peguei-me pensando em quando exatamente eu havia deixado de ser o caçador pra ser a caça, perseguido e provocado pelo mais novo dessa maneira, quando meu estômago roncou. Não havia comido nada além do almoço, e mesmo aquela única refeição não era nada se comparada aos pratos preparados por Jimin, principalmente devido à minha inabilidade na cozinha. Pude ver o momento exato que Jimin abrira a boca pra me provocar novamente, sorriso tão grande que não cabia dentro da boca, porém fora interrompido por um ronco do próprio estômago, o que só o fez rir mais. Bom, pelo menos eu não era o único morto de fome. – Vamos hyung, tem comida esperando por nós na cozinha. – chamou, liderando o caminho enquanto não me deixava nenhuma escolha senão segui-lo.

Chegando lá notei que de fato, em cima do balcão havia uma sacola com o logo de um restaurante chinês que reconhecia: era o local onde Jimin trabalhava. Ligeiramente intrigado, observei-o retirar duas caixinhas que felizmente pareciam ainda fumegantes e que cheiravam deliciosamente bem enquanto ocupava um lugar na bancada. – Você foi trabalhar hoje?

— Ah não, só fui aproveitar meu privilégio como funcionário pra pegar duas porções grátis de chop suey nas quintas. – esclareceu ao me oferecer uma delas, juntamente com os hashis descartáveis. – Mas assim que me viu, Qian-noona fez questão de me lembrar que minha folga só durava até segunda. – lamentou-se, os lábios puxados num biquinho petulante, antes de encher as bochechas de comida.

— Isso é daqui três dias. – comentei, recebendo um aceno pesaroso de cabeça em resposta. – Então você deve voltar pra casa em breve, não é? – questionei, torcendo para que minha voz não denunciasse a decepção que conseguira se instalar no meu peito. Eu sabia que mais cedo ou mais tarde nossas vidas voltariam a ser o que eram antes, só não estava preparado pra me despedir tão cedo. Chegava a ser patético o quão acostumado ficara com a presença do outro.

— Temo que sim. – respondeu, só então tirando os olhos da comida e arriscando um olhar na minha direção. Eu não deveria ter devolvido aquele olhar, agora sabia disso, mas infelizmente percebi meu erro tarde demais. – Não me olhe desse jeito, hyung. Não torne as coisas mais difíceis do que já são.

— De que jeito estou te olhando? Não diga bobagens, Jimin. – devolvi, sentindo-me extremamente auto-consciente por ter sido pego em flagrante, voltando a atenção para a comida na minha frente mesmo que já tivesse perdido a fome.

— Você parece um cachorrinho que foi abandonado na mudança. – brincou, cutucando minha bochecha com o hashi sujo de molho e arrancando de mim uma careta enojada. – Sei que vai sentir minha falta, mas você pode me ver a hora que quiser.

— Quem disse que vou sentir sua falta? Alguém aqui tem uma noção muito errada de si mesmo. – mais uma vez, eu nunca admitiria caso perguntassem, mas esse velho jogo de provocações era algo que estava habituado, um momento de normalidade que servia perfeitamente bem pra dissipar a tensão esquisita que ameaçava se infiltrar entre nós caso o assunto persistisse por muito tempo. Estava claro, pra nós dois, que Jimin não queria ir embora e nem eu queria que fosse. Mas nenhum de nós estava preparado pra lidar com o que isso realmente significava. Então nos deixamos cair novamente em território conhecido, algo que ambos podíamos apreciar sem medo de estragar tudo. Comer juntos, provocar um ao outro, rir de piadas ruins; isso era bom, era normal. Isso não levantava perguntas complexas que ambos tínhamos medo de descobrir a resposta.

Assim que terminamos o jantar, conversando sobre coisas banais que nenhum de nós tinha realmente interesse, Jimin mais uma vez me arrastou para a sala a fim de procurar algo pra assistir na televisão, alegando que ainda não tinha sono suficiente pra dormir. Se fosse sincero comigo mesmo, eu também não poderia estar mais acordado, mas ninguém nunca saberia que o motivo disso estava aninhado ao meu lado no sofá, trocando canais até encontrar algo de seu agrado. Sobressaltei-me com o guincho que soltou ao passar por um filme hollywoodiano de romance que acabara de começar, aparentemente seu favorito. Quando descobriu que eu jamais tinha sequer ouvido falar de tal peça, o mais novo só faltou soltar fogo pelas ventas, tamanha sua indignação. “Como assim, hyung?! Esse filme é um clássico! Está decidido, vamos vê-lo juntos. Você precisa ter um pouco mais de cultura na sua vida”, foi tudo o que disse ao me obrigar a aturar quase duas horas de um filme meloso e extremamente chato numa língua que nem entendia. Pelo menos tinha legendas.

Mais ou menos na metade do filme, depois de ver os vários infortúnios e desentendimentos entre o casal principal, deparei-me com uma cena um tanto... imprópria pra públicos mais jovens. Eu tinha uma vaga ideia de que os filmes ocidentais em geral eram mais liberais quando se tratava de cenas de sexo, e apesar da cena que desenrolava na TV diante de mim não ser tão explicita e nenhum pouco de mau gosto, ainda era difícil encontrar esse tipo de material fora da internet por aqui. Desnecessário dizer que assistir tal cena ao lado de ninguém menos do que Jimin era ainda pior. Senti a vergonha esquentar minhas bochechas e subir até as orelhas, sem dúvida colorindo-as num forte tom de rosa enquanto tentava manter a máscara de impassibilidade que tinha no rosto. Mesmo que o ato sexual em questão envolvesse um homem e uma mulher, não pude deixar de imaginar eu e Jimin naquela situação. Claro, alguns ajustes deveriam ser feitos, mas se me esforçasse o bastante podia chegar a confundir os gemidos agudos da protagonista com a voz angelical do mais novo. Meus pensamentos impuros estavam me levando pra um território perigoso, sabia disso, mas mesmo assim arrisquei um olhar para o lado; era reconfortante descobrir que Jimin parecia tão embaraçado quanto me sentia, como se não lembrasse que tal cena sequer existia no seu “filme favorito”. Eu sinceramente torcia para que essa alternativa fosse verdadeira, caso contrário o garoto estava me mandando um claro sinal.

Assistimos o restante do filme num silêncio desconfortável, ambos hiper conscientes da presença do outro a meros centímetros de distância, ainda que nossos corpos não se tocassem de forma alguma – não depois do que acabamos de ver. Eu não dava a mínima para o desenvolvimento da relação do casal, sequer lembrava do desfecho da história ao ver os créditos rolarem após o final do filme. Tudo o que tinha em mente era Jimin, Jimin, Jimin. Sua proximidade, apenas a um toque de distância apesar de parecer que tínhamos um abismo entre nós, o leve rubor que insistia em colorir suas bochechas fartas, seu cheiro tão suave e característico, tão Jimin, que podia senti-lo mesmo de longe. Era difícil manter minhas mãos ao lado do corpo quando tudo que queria fazer era alcançar sua cintura e puxá-lo pra mais perto. Quem sabe trocar um beijo ou dois. Porém, antes que pudesse tomar qualquer atitude – pra bem ou pra mal – Jimin levantou-se num salto, assustando-me no processo.

— Eu, e-eu... eu preciso de um banho antes de dormir. – anunciou nervosamente, gaguejando ao redor das palavras antes de se retirar para o banheiro como uma flecha. Ninguém mencionou o fato de que ele já havia tomado um banho e dificilmente precisava de outro, muito menos chamou atenção para o pequeno volume que se formava em sua calça jeans.

Como era de se esperar, tampouco conversamos sobre a tensão sexual que havia entre nós, cada vez mais evidente. A tensão era tanta que chegava a ser palpável, como um pesado cobertor que era jogado sobre nós, nos sufocando com seu peso. Tanto eu quanto Jimin não éramos idiotas, muito menos cegos: sabíamos muito bem o desejo que sentíamos e o efeito que causávamos um no outro. Confesso que no começo havia me assustado, sentindo-me como um canalha que estava se aproveitando da inocência e boa vontade do mais novo, mas depois de alguns dias percebi que meus medos eram infundados. Jimin queria isso tanto quanto eu, se não mais. A mão exploratória que encontrara dentro das minhas calças era prova suficiente.

Queria poder fazer algo a respeito, tomar algum tipo de ação, qualquer coisa que nos tirasse desse mar de suposições e incertezas; sabia que precisava deixar claras minhas intenções e ter certeza se o outro queria o mesmo ou não. A última coisa que faria seria forçar Jimin a ceder aos meus desejos e impulsos, e de alguma maneira achava que o mais novo seria capaz de fazer exatamente isso, só porque era gentil demais pra dizer não. Eu sabia que precisávamos conversar mais cedo ou mais tarde, mas não consegui criar coragem pra tocar no assunto quando o vi sair do banheiro com os cabelos molhados e parecendo ainda mais sem graça do que quando entrara. Apressei-me para entrar no banheiro logo em seguida, rezando para que uma ducha gelada fosse o bastante pra acalmar meus nervos excitados.

Ao deitarmos lado a lado na cama, todas as luzes apagadas nos ajudando a disfarçar a estranheza e banho recém-tomado que de nada adiantara – pelo menos não no meu caso –, arrependi-me de não ter ido dormir no sofá essa noite. Era impossível lembrar do filme e não associá-lo com os desejos carnais que nutria pelo outro, ainda mais num ambiente tão propício para realizar tais fantasias. Mesmo depois de termos trocado desejos de boa noite, mesmo depois de sentir o colchão afundar e se agitar com o movimento que Jimin fazia ao me dar as costas, mesmo caindo na tentação de esgueirar um braço ao redor da sua cintura e puxá-lo protetoramente contra meu peito como fazia quase todas as noites, ouvindo sua respiração ficar cada vez mais leve e constante, era impossível tirar aquelas imagens da minha cabeça.

Sabia que estava brincando com fogo, testanto minha sorte, mas não podia evitar. Park Jimin me deixava fraco, e tê-lo assim tão próximo era tentador demais pra suportar. Fiquei um bom tempo quieto, apenas escutando os fracos sons que escapavam de seus lábios a cada expiração e sentindo o doce aroma do shampoo que usava com o nariz enterrado nos curtos fios de sua nuca, ainda que soubesse que o sono não me tomaria tão cedo – minha mente estava muito agitada pra isso, um milhão de pensamentos disputando atenção ao mesmo tempo: eu devia parar, dormir ao seu lado não foi boa ideia, Jimin é tão quente, seu cheiro é tão bom, eu só queria poder abraçá-lo assim pra sempre, a curva de sua bunda parecia encaixar-se tão bem contra meu corpo, ela deve ser muito boa de apertar, quem sabe eu poderia...

— ...Yoongi? – o chamado, tão fraco que poderia não escutar se não fosse o completo silêncio que envolvia o quarto, fora o suficiente pra interromper minha linha de raciocínio e consequentemente chamar atenção para o vergonhoso problema que se formara dentro da minha cueca, uma ereção completa que sem dúvidas fora o que acordara o outro pra começo de conversa. Durante meus devaneios nada puros, não me dei conta de que apertara ainda mais o corpo do garoto contra o meu, chegando ao ponto de esfregar meu membro contra suas nádegas. Parei o movimento assim que a realização caiu sobre mim, prendendo a respiração e ficando tão imóvel quanto uma estátua, incerto do que fazer a seguir.

— Me perdoe, Jimin. – o pedido fez com que o garoto virasse um pouco em meus braços, olhando-me por cima do ombro; o movimento só fez com que pressionasse ainda mais seu corpo contra o meu, arrancando de mim um silvo baixo que tive que conter ao morder os lábios. – E-eu não sei o que está acontecendo comigo. Não sei porque me sinto assim quando estou com você. É forte demais pra controlar. Eu... e-eu não sei o que fazer. Desculpe. Talvez devesse dormir na sala...

— Yoongi. – interrompeu-me com mais certeza na voz, ainda que pudesse ouvir o tremor escondido sob a superfície, virando-se por completo a fim de ficar de frente pra mim. Notei com o coração acelerado que Jimin não tentara se afastar, muito pelo contrário; suas mãos agora agarravam timidamente a frente de minha camiseta, nossas pernas entrelaçadas. Na verdade, uma de minhas pernas estava enfiada entre as suas, perigosamente perto da área da virilha. – Não precisa se desculpar. Eu me sinto da mesma forma.

Procurei em seus olhos qualquer sinal de hesitação, ainda que a escuridão não me permitisse ver muito além de um vulto. Porém esforcei-me pra encontrar aquelas orbes castanhas, e o brilho que vi ali denunciava timidez, mas não incerteza. Jimin tinha os olhos fixos em mim, provavelmente procurando por algo que aplacasse sua própria insegurança, os lábios carnudos entreabertos que brilhavam com a saliva que espalhara ali momentos antes; sabia que se pudesse vê-lo com clareza encontraria também um rubor em sua face. Um segundo que passamos nos encarando pareceu mais uma eternidade, como se de repente tivéssemos adquirido a habilidade de congelar o tempo com apenas um olhar. Nossos próximos movimentos eram lentos, hesitantes, quase experimentais, como se ambos temêssemos que o outro fugisse caso um de nós desse um passo em falso. Passei o outro braço por baixo de seu corpo, envolvendo-o num abraço enquanto o puxava pra mais perto, de modo que minha coxa ficasse perfeitamente alojada entre as suas e a ereção que agora era mais do que evidente roçasse contra ela; o contato, por mais sutil que fosse, conseguira arrancar um suspiro de Jimin antes que o mais novo selasse nossos lábios num beijo doce, suas mãos tendo encontrado o caminho até minha nuca, onde se pusera a acariciar levemente com as unhas.

Antes que pudesse me dar conta do rumo que estávamos tomando, o beijo que começara doce se tornara quente e profundo, ficando cada vez mais sedento no mesmo passo em que a fricção de seu membro contra minha perna ficava mais insistente. Pequenos ruídos de prazer jorravam dos lábios de Jimin diretamente para os meus, e eu os engolia com maior gosto, deslizando minha língua por entre eles a fim de sentir seu sabor. Não havia luta por dominância, pois Jimin estava completamente vulnerável e submisso sob meus toques, entregando-se à mim de bom grado, apenas tornando-se impaciente quando o ritmo constante que estabelecera parecia não satisfazê-lo mais. O choramingo frustrado que soltou enviava agulhas diretamente ao meu membro, que pulsava dentro da cueca em resposta, ansiando por atenção. O que quer que estava me segurando naquele momento, impedindo-me de me entregar por completo como o mais novo fizera, acabara de desaparecer, pois assim que aquele miado dengoso atingira meus ouvidos meu auto-controle foi pro espaço.

Não consegui conter um rosnado territorialista que eu nem sabia de onde viera ao ouvir sons muito semelhantes ao primeiro serem vocalizados um atrás do outro, crescendo em volume e quantidade conforme seus quadris rolavam contra minha coxa com propósito; a essa altura já havia uma mancha na parte da frente de suas calças, e muito em breve teria um rastro molhado nas minhas. A mera ideia de ter Jimin se esfregando contra mim até gozar enquanto gemia variáveis do meu nome foi o suficiente pra me deixar um pouco insano, prendendo seu lábio inferior entre meus dentes com força suficiente pra sentir gosto de sangue na língua, minhas mãos encontrando o caminho até suas nádegas e apertando-as com vontade enquanto as usava pra ajudar no deslizamento. Entretanto isso não parecia ser o suficiente pro mais novo, pois tão logo os choramingos, suspiros e miados transformaram-se em verdadeiros gemidos, ele nos virou na cama de modo que pudesse cobrir seu corpo com o meu.

Agora que tinha ambas as pernas de Jimin ao redor da minha cintura num aperto de ferro e todo o espaço que precisava pra rolar nossos quadris de encontro um ao outro e dar ao meu membro pulsante a fricção que tanto ansiava, pude entender exatamente o quão perdido o mais novo estava devido às sensações. Se tê-lo roçando contra minha perna já era uma delícia por si só, mais pelo estímulo visual do que qualquer outra coisa, ter nossos membros eretos rolando um contra o outro era simplesmente enlouquecedor. Dediquei o último segundo de sanidade que ainda me restava para agradecer nossas escolhas de roupa, o tecido fino de nossas calças deixando muito pouco espaço pra imaginação, ainda que desejasse que não houvesse barreira alguma entre nós. Mas isso podia esperar. Por agora, minha única preocupação era fazê-lo sentir-se bem enquanto buscava meu próprio prazer.

Não pensei nas consequências enquanto tomava seus lábios para mim num beijo molhado e desleixado, invadindo sua boca a fim de explorar cada centímetro da cavidade quente e úmida, rolando nossas línguas juntas assim como nossos quadris faziam. Não pensei nos desdobramentos de tal ato enquanto deixava meu corpo cair sobre o dele sem medo de sufocá-lo, pois Jimin parecia tão embriagado na sensação de nossos corpos colados quanto eu. Não pensei na estranheza do dia seguinte quando soltei um gemido fraco e entrecortado contra seus lábios inchados e úmidos de saliva – se era minha ou dele, não saberia dizer – ao ver estrelas com um movimento particularmente forte, num ângulo particularmente favorável. Não pensei em nada disso até que fosse tarde demais, até me lembrar que nenhum de nós chegou a conversar sobre o assunto, vocalizar nossos desejos e limitações, ter certeza que estávamos ambos na mesma página antes de pular pra parte boa. Tal realização foi como um balde de água fria contra meu corpo quente, o choque enviando calafrios pela minha espinha e enchendo minha cabeça de dúvidas. Será que Jimin realmente queria o mesmo que eu? Foi ele quem iniciou o beijo, mas poderia ter feito aquilo só pra não me deixar sem graça. Será que não estaria abusando do garoto, como tanto temia? Eram tantos serás circulando minha mente que chegava a ficar tonto, meus movimentos se tornando erráticos enquanto lutava para pôr um fim nessa loucura, apoiando o antebraço no colchão ao lado da cabeça do mais novo na tentativa de colocar alguma distância entre nós e procurar novamente seus olhos atrás de respostas.

Entretanto, estava enganado se achava que Jimin deixaria que me livrasse de si tão cedo. Assim que sentiu o peso do meu corpo se distanciar do seu, o garoto apertou as coxas ao redor da minha cintura, puxando-a pra baixo, ainda mais perto do que acreditava ser possível enquanto trazia as mãos que tinha previamente agarradas às costas de minha camiseta para meus cabelos, afundando-as nos fios descoloridos enquanto envolvia os braços ao redor do meu pescoço, conseguindo enjaular-me com sucesso. Não pude deixar de ficar surpreso ao sentir o mais novo usar a força bruta pra me colocar de volta no lugar onde queria, nossos lábios novamente selados num beijo ardente enquanto rolava os quadris para cima com propósito renovado, retomando o ritmo perdido. – Por favor, hyung, p-por favor... Por f-favor n—ah—não pare.

As súplicas continuaram jorrando de seus lábios sem parar, entrecortadas pela sua respiração ofegante e intercaladas com os suspiros, arquejos e choramingos ao redor do meu nome. Havia um certo limite até onde eu podia aguentar, até onde minha força de vontade sozinha seria capaz de impedir que minha mente sucumbisse ao prazer, e Park Jimin me deixava fraco. Oh, tão fraco. Não demorou muito para que abdicássemos dos beijos trocados em favor dos gemidos obscenos que soltávamos contra os lábios um do outro conforme o prazer se tornava impossível de suportar. Parecia que estava à beira de um abismo, segurando-me por um fio com nada além da vasta escuridão abaixo de mim. Eu queria me segurar, manter os pés plantados em terra firme, mas o sentimento de deixar-se cair era simplesmente indescritível. Não saberia dizer quem chegou ao orgasmo primeiro, mas quando retornei à terra com o coração acelerado, respiração pesada, membro tão sensível que qualquer toque era uma tortura e uma sensação melada e desconfortável dentro da cueca, percebi que não me arrependia de nada.

Jimin grunhiu sob o peso do meu corpo, agora que não tinha mais a excitação e adrenalina pra manter sua mente ocupada com outras coisas mais importantes. Confesso que a exaustão fazia com que meus braços e pernas parecessem feitos de gelatina, e a ideia de dormir ali do jeito que estava aninhado em seu peito não parecia tão ruim assim, porém fiz um esforço pelo garoto e joguei-me sem jeito no espaço vazio ao seu lado, lutando pra recuperar o fôlego enquanto encarava o teto do quarto e tentava processar o que diabos tinha acabado de acontecer. Por um lado estava extático, pois aquilo foi como um sonho tornado realidade, mas por outro eu temia o que viria a seguir. O que nós éramos afinal? Duas pessoas que se beijavam e de vez em quando se roçavam pra obter prazer? Isso parecia muito difícil de explicar pros amigos.

— Acho que realmente estamos fazendo isso, não é? – perguntei, quebrando o silêncio contemplativo que se instalara na escuridão do quarto. – Estamos dando o próximo passo.

Jimin concordou com um murmúrio preguiçoso, um claro sinal de que suas energias não durariam muito tempo, antes de voltar sua atenção para mim. – Acho que estamos.

— Eu não... não te forcei, certo? – deixei escapar antes que pudesse medir as palavras, voz trêmula que denunciava exatamente o quão nervoso e inseguro me sentia. Observei Jimin virar-se por completo na minha direção, apoiando a cabeça no braço dobrado enquanto me encarava com olhos um pouco mais despertos e preocupados.

— Claro que não. O que te faz pensar isso? – seu cenho estava franzido, a ruguinha que sempre formava entre as sobrancelhas fazendo uma aparição. A situação era muito séria e pesada pra me distrair com aquela visão adorável, mas não podia evitar. Antes que percebesse, a sombra de um sorriso afetuoso já puxava meus lábios machucados.

— Não sei. Acho que só estou com medo. – admiti, agradecido pelo fato do ambiente estar escuro o bastante pra esconder minha expressão envergonhada. – Meu desejo por você... eu não consigo controlá-lo. Sempre que estávamos próximos me deparava com um certo... problema. Dormir ao seu lado se provou um verdadeiro teste de paciência. – brinquei, rindo fraco da minha própria piada sem graça. Não podia distinguir muito bem que tipo de expressão o mais novo tinha estampado na face, mas sua palma contra minha bochecha era quente e carinhosa.

— Bem que pensei ter sentido algo me cutucando à noite esses dias todos. – devolveu no mesmo tom brincalhão, conseguindo me deixar ainda mais envergonhado do que já estava. – Foi por isso que estava agindo tão distante comigo aquele dia? Me senti tão mal, achei que tinha feito algo de errado. Por que não me disse antes?

— Se soubesse o motivo de ter agido da forma que agi, você provavelmente não iria querer se aproximar de mim de novo nunca mais. – foi tudo o que disse, franzindo o cenho ao relembrar aquele maldito sonho enquanto Jimin deixava sua mão cair imóvel no colchão entre nós.

— Por que não? – indagou num quase sussurro, como se temesse a resposta. E deveria, pensei amargamente, rindo seco da minha própria perversão inconsciente.

— É melhor você não saber.

— Hyung! – choramingou alto, sobressaltando-me com sua birra repentina. – Você não pode me preocupar desse jeito e não explicar o que quis dizer. Isso não é justo.

— Jimin, não me faça te contar isso. É realmente embaraçoso... – comecei, apenas pra ser interrompido quando o mais novo jogou-se contra mim, apoiando o queixo no meu peito e olhando-me com expectativa nos olhos castanhos. Suspirei, sabendo que essa batalha já estava perdida. – Eu... sonhei com você.

— Ah, eu também sonho com você às vezes. Não tem nada de errado nisso. – comentou, tombando a cabeça para o lado inocentemente, como se não pudesse adivinhar de imediato o teor dos meus sonhos. Mais uma vez, se o garoto não era um completo idiota, então interpretava um ótimo papel.

— Você não entende. Aish. – resmunguei, levando a mão até meus cabelos e bagunçando-os numa tentativa de liberar a frustração. Como alguém poderia ser tão tapado quando se tratava de assuntos desse tipo? – No meu sonho, você usava um vestido de empregada. Cor-de-rosa.

— Oh. – murmurou de maneira estúpida, a expressão em branco, e oh, realmente. Jimin tentou dizer algo mais, abrindo e fechando a boca como um peixe fora d’água, mas não havia nada pra ser dito. Eu era um completo tarado, um pervertido doentio que tinha sonhos eróticos com o garoto usando roupas de garota. Nada que ele pudesse dizer amenizaria esse fato. Pude sentir os olhos de Jimin cavando buracos na minha pele enquanto tentava a todo custo não encontrá-los. Entretanto, meu fraco por Park Jimin já era fato comprovado a essa altura, e não consegui resistir a súbita vontade de arriscar um olhar. Eu poderia não ver, mas sabia que o garoto estava corado até o último fio de cabelo. – S-se é disso que você gosta, nós podemos tentar...?

— Jimin! Mas que porra?! – exclamei, horrorizado, tentando tirá-lo de cima de mim. – É claro que eu não gosto disso, foi só um sonho idiota! O que estava pensando?

— Me desculpe! Eu... e-eu só pensei... – o garoto rapidamente tentou se justificar, mas calou-se resignado quando não encontrou nenhuma desculpa coerente o bastante pra usar. Então, cabeça baixa como se fosse um filhotinho perdido, aninhou-se contra a lateral do meu corpo e começou a desenhar círculos sobre meu estômago com o indicador. – Ao menos fiquei bonito?

— Park Jimin! – o berro mortificado que soltei acompanhado pelas risadinhas travessas do mais novo seria capaz de acordar a vizinhança inteira, tinha certeza. Desnecessário dizer que meu chilique seguido por uma sessão de tapas brincalhões acabaram se transformando em mais beijos e toques suaves. Agora era oficial: Min Yoongi era um verdadeiro fracote.

Algumas horas depois, bem adentro na madrugada, com nossas roupas de baixo trocadas e pernas entrelaçadas, Jimin roncando levemente nos meus braços, peguei-me adormecendo com um único pensamento em mente. Era verdade que não estava acostumado com esse tipo de intimidade, não só no sentido físico mas principalmente no emocional. Era difícil me deixar apegar tanto à alguém, deixar que essa pessoa visse o verdadeiro eu por trás dos muros que havia construído ao meu redor – por inúmeras razões –, então onde encontrava-me agora na minha relação com Jimin era um território totalmente desconhecido. Eu me sentia no escuro, mas por alguma razão isso não me amedrontava mais. Sabia que enquanto tivesse o mais novo ao meu lado, estaria bem. E isso era o bastante.