Hold me Tight
8 Decisões difíceis devem ser tomadas
– Yoongi POV -
Já eram altas horas da madrugada quando fiz meu caminho até Gangnam, a área mais alta classe da cidade, território da gangue de Bang Yongguk. Meu motivo para visitá-los era estritamente profissional. Haviam três gangues com maior influência na cidade: a de Yongguk, a de Zico e a nossa. A nossa era responsável por fabricar, importar e exportar drogas; Zico contrabandeava armas, e Yongguk, sem dúvida o mais rico entre nós, possuía uma rede de cassinos e hotéis e mexia com lavagem de dinheiro. Portanto, a fim de evitar uma guerra entre gangues e atrair uma possível atenção da mídia e consequentemente da polícia, havia um acordo mútuo entre nós. Cada um atuava em seu respectivo território, e uma parcela das devidas mercadorias era fornecida como pagamento para as demais. Deste modo, eu carregava metanfetamina, cocaína e LSD na mochila, caminhando até o costumeiro ponto de troca, a área de serviço de um dos hotéis mais “modestos” que Yongguk possuía na região.
Me dirigi até a área onde o lixo era despejado, nos fundos do prédio; era um beco mal iluminado e imundo, e um de seus capangas mais altos e corpulentos guardava o local, bandana vermelha cobrindo a metade de baixo da face. Imediatamente pude notar o ar de hostilidade que ele adquirira com a minha chegada; de repente era como se eu estivesse sendo observado por inúmeros pares de olhos, mesmo que só houvesse uma pessoa à minha frente. O grandão me encarou por um longo tempo, e por reflexo apalpei a parte de trás da calça, procurando o conforto do cano metálico da arma que eu trazia. Porém, ao invés de procurar briga – que era justamente o que ele parecia querer fazer – ele apenas tirou um walkie-talkie do bolso de trás da calça e apertou o botão de fala.
– A mercadoria está aqui. – informou para alguém do outro lado da linha, desligando antes de obter uma resposta.
Alguns instantes mais tarde, a porta de serviço se abre e por ela passa Youngjae, um dos membros de patente mais alta na gangue e também gerente do hotel, trajando um fino terno italiano e sapatos bem polidos. Ele também me lançava olhares estranhamente hostis, ajeitando o óculos de aro redondo sobre o nariz.
– Eu trouxe a mercadoria, como combinado. – eu disse, já tirando a mochila das costas.
– Nós não pretendemos mais fazer negócios com vocês. – Youngjae me informou, sempre mantendo a boa postura e a calma.
– Que merda é essa que você tá falando? Por que não?
Youngjae soltou uma curta risada, segurando as mãos atrás das costas e usando sua melhor voz de patrão que estava prestes a demitir um funcionário. – Você está ciente de que ameaçou a vida de um de nossos empregados, não é? Será que o senhor Kim Namjoon é tão inocente a ponto de acreditar que Bang Yongguk perdoaria o incidente e continuaria os negócios sem nenhuma retaliação? – ele soltou outra risada. – Vamos lá, Min Yoongi, você costumava ser mais inteligente do que isso.
– Ah, essa foi boa. – ri de forma debochada. – Você só se esqueceu de mencionar que aquele bostinha tava no nosso território né, Youngjae? Da última vez que eu chequei, nós tínhamos um acordo. E quem quebrou esse acordo primeiro foram vocês. – meus pés diminuíram a distância entre nós, nossos rostos separados por meros centímetros enquanto eu sustentava seu olhar de forma desafiadora, cerrando as mãos em punho para não segurá-lo pelo colarinho da camisa. – Na minha opinião, foi o Namjoon que perdoou o Yongguk, não o contrário. Vocês não têm o direito de reclamar de porra nenhuma.
Diante do meu tom ameaçador, Youngjae fez sinal para alguém atrás de si. Pude notar um grande número de capangas que estavam escondidos pelo local se fazerem presentes, tentando me intimidar. De repente, senti que minha nuca estava na mira de muitas armas.
– Eu acho melhor você pegar as suas coisas e ir embora, Yoongi. Aproveite enquanto eu ainda estou pedindo educadamente. Da próxima vez, você não terá tanta sorte.
– Que se foda. – tornei a colocar a mochila nas costas, cansado de ouvir tanta estupidez numa noite só. – São vocês que saem perdendo dessa. Não pense que vir implorando perdão mais tarde vai adiantar. – virei as costas para ir embora, mas, mudando de ideia, me dirigi a Youngjae uma última vez, lançando-o um olhar mortal. – É briga que vocês querem? É briga que vocês terão.
O sol já estava prestes a apontar no horizonte quando cheguei em casa. Espumando de raiva, peguei o celular e mandei uma mensagem curta e direta para o nosso líder.
RM, preciso falar com você. -S
Mal tive tempo de tirar os sapatos quando meu celular vibrou anunciando a resposta.
Estarei no estacionamento. -RM
Após ler a mensagem, bloqueei a tela do celular e o joguei de qualquer jeito sobre o sofá. Cambaleei meio sonolento para o quarto, nem sequer me dando o trabalho de trocar as roupas antes que eu caísse pesadamente na cama e me deixasse envolver pelo sono. Tive sonhos sangrentos naquela noite.
Quando percorri o caminho até o estacionamento, o sol já estava alto no céu, forçando-me a apertar os olhos, irritados devido à claridade excessiva. Tirei um óculos de sol do bolso da jaqueta jeans e coloquei-o, sentindo alivio imediato. Segui até o último pavimento, que servia de terraço, cumprimentando algumas pessoas pelo caminho. Subi as escadas dois degraus por vez, chegando ao destino quase sem fôlego. Definitivamente atividades físicas não eram o meu forte.
Abri a pesada porta de chumbo que levava ao terraço e imediatamente avistei a figura alta de Namjoon de costas para mim, debruçado sobre o parapeito do prédio, observando a paisagem de Seoul. O sol radiante parecia evidenciar sua pele olivada, que já estava empalidecendo de tanto ficar enfurnado num prédio escuro e úmido. Ri ao notar que mesmo num dia quente como esse, Rap Monster não perdia a oportunidade de vestir preto: calças rasgadas nos joelhos, tênis converse, camisa de banda de rock e uma jaqueta de couro, tudo preto. Seus cabelos prateados estavam cuidadosamente estilizados para trás e ele, assim como eu, usava óculos escuros. Me aproximei até ficar ao seu lado, imitando sua posição, enquanto buscava um maço de cigarro no bolso.
– Você tinha algo importante pra me dizer? – ele perguntou, recusando o cigarro que lhe ofereci.
– É, eu tenho uma piada pra te contar. – brinquei, colocando o cigarro na boca e acendendo com um isqueiro. – Yongguk declarou guerra.
– O quê? – Namjoon agora tinha sua atenção totalmente voltada para mim. – Eles disseram isso com essas exatas palavras?
– Não exatamente. – traguei o cigarro, soltando a fumaça pelo nariz. – Quem me deu as boas notícias foi aquele cuzão do Youngjae, e você sabe que ele adora abusar dos eufemismos. “Nós não trataremos mais de negócios com vocês”. – fiz minha melhor imitação debochada da voz do gerente. – Ele até me fez levar a mercadoria de volta.
Namjoon suspirou, passando a mão pelos fios prateados e estragando todo o penteado. – Eu sabia que Yongguk faria algo do tipo.
– Yah, nem adianta me olhar com essa cara. – eu cortei, notando o jeito preocupado e levemente decepcionado que ele me encarava. – Eu não vou me desculpar por defender nosso território, Rapmon. Você sabe muito bem que aqueles cretinos quebraram o acordo ao virem xeretar aqui.
– Eu sei, Suga. – ele concordou, derrotado. – Mas é pedir demais que você lide com as coisas de uma forma mais... democrática?
– Pode apostar que sim, porra. Isso você já é o suficiente por nós dois. – brinquei. – Democracia pra mim é sinônimo de fraqueza. Esses viados precisam de uma figura para temer, e é exatamente pra isso que eu tô aqui. – dei o último trago no cigarro, jogando-o no chão e apagando com a sola do sapato em seguida.
– Vai, continua brincando. – Namjoon me olhou, tentando esconder um sorriso. – Foi numa dessas que você nos arranjou uma guerra, falou? – ele me deu um leve soco no ombro, que eu revidei com chute na canela. Logo ambos estávamos rindo.
– Me agradeça mais tarde. – brinquei, abraçando seus ombros com um braço enquanto o conduzia para dentro do prédio.
Mesmo que estivéssemos em guerra, eu nunca imaginaria que Yongguk fosse agir tão depressa. Algumas horas mais tarde, quando eu saía do prédio de estacionamentos à caminho de casa, notei um carro preto estacionado não muito longe dali. Era um sedã antigo, daqueles bem quadrados e finos. Infelizmente os vidros escurecidos não me deixavam ver quem estava no volante, mas eu sabia que significava problemas. Virei num beco próximo e contornei o quarteirão, sabendo que eu o tinha despistado. Me aproximei do carro agachado, para não ser pego pelo retrovisor. Quando já estava ao lado do carona, abri a porta sem cerimônias, apontando o cano da arma para o motorista.
– Tá precisando de ajuda, boneca? – perguntei ironicamente para o outro, cujo rosto eu não pude identificar por conta da bandana vermelha. Típico. – Sai do carro. – como ele não se moveu, eu destravei a arma e ordenei de novo. – Sai da porra do carro, anda!
Ele saiu cautelosamente, levantando as mãos para o alto em rendição. Contornei o carro sem tirar a mira dele, impedindo-o de fazer alguma burrice. Encostei o cano do revólver na sua nuca e o obriguei a entrar no prédio.
– Yah, Rapmon! – gritei, atraindo a atenção de todos para o intruso sob minha mira. – Olha só quem eu encontrei bisbilhotando aqui.
Namjoon se aproximou de nós, expressão séria no rosto ao reconhecer a bandana vermelha que caracterizava os membros de nossa gangue rival. O líder inspecionou o rosto do sujeito – a parte que era visível, pelo menos – por um momento, mas decidindo que não o conhecia, virou-se para mim. – Leve ele para dentro. – ordenou, indicando uma sala fechada que costumava servir aos vigilantes do prédio. – Seokjin, vá com ele. O resto de vocês, – ele encarou a pequena multidão de membros que se aglomeravam ao redor. – vão para casa. Precisamos tratar de negócios.
Assim que éramos apenas quatro no prédio, Namjoon se juntou a nós na sala. Eu e Seokjin já havíamos prendido o intruso numa cadeira giratória, tomando cuidado para restringir seus pés também. Assentindo, aparentemente satisfeito, Namjoon fechou a porta atrás de si.
– Antes de começarmos – disse Namjoon, retirando a jaqueta de couro e pendurando-a num gancho atrás da porta. – gostaria que você soubesse que eu só faço perguntas uma única vez, e se as respostas não forem do meu agrado, vou deixar você aos cuidados do meu amigo aqui. – o líder mantinha a voz calma e suave, apontando com a cabeça para Seokjin, que estava preparando seus instrumentos cirúrgicos sobre a mesa. – É bom que você tenha em mente que ele já foi estudante de medicina, e sabe bem como usar um bisturi. Então, eu espero que você coopere comigo. – Rapmon mantinha o tom de voz tão sereno que nem parecia uma ameaça. Ele lançou um sorriso de covinhas ao estranho, e só então retirou a bandana que cobria seu rosto. Era um rosto bem ordinário, que nenhum de nós três reconheceu. Mas eu já esperava que Yongguk não ia desperdiçar alguém importante logo de cara.
– Quem é você? – o líder indagou, escolhendo começar pelas perguntas fáceis. O estranho não respondeu. Namjoon deu-lhe um forte tapa na cara, e manteve a voz calma ao repetir a pergunta. – Quem é você?
– Woo... W-Woohyun. – gaguejou. Dava pra ver que ele estava quase borrando as calças, mesmo se esforçando para parecer forte.
– Muito bem. Não foi tão difícil, foi? – Namjoon elogiou. – Foi Yongguk que te mandou aqui, ou você veio por conta própria?
O garoto mordeu os lábios para manter-se quieto, seus olhos ficando arregalados ao ver que Namjoon sinalizava para Seokjin se aproximar. Eu estava prestes a me deliciar com a sua desgraça quando meu celular apitou, indicando uma nova mensagem. Irritado, abri o texto que vinha de um número que eu não tinha salvo, mas sabia exatamente de quem era.
Olá, Suga-ssi! Como vai? ^^
Suspirei alto, ignorando tanto a mensagem quanto os olhares que eu recebia. Fiz um gesto para que prosseguissem. Jin começou o processo de arrancar a unha do dedo mindinho do sujeito. A sala se encheu de gritos.
– Você vai me responder agora? – perguntou o líder, daquela mesma maneira serena que agora, devido à situação, estava ficando perturbadora.
– Foi o Yongguk! – Woohyun exclamou, lágrimas caindo sem parar dos olhos. – Por favor, eu só fiz o que mandaram! Não me matem!
– Tsc, que patético. – eu disse, deixando o desprezo aparecer nas minhas feições. Já não bastava que Yongguk fosse burro o bastante para nos atacar tão cedo, ele ainda tinha que mandar a pessoa mais língua solta do grupo inteiro. Amadores.
Fomos noite à dentro com a nossa pequena brincadeira. Namjoon não parava de lhe fazer perguntas, e quando Woohyun era muito estúpido ou teimoso e ficava quieto, Seokjin lhe arrancava mais uma unha. Pelas minhas contas, ele só tinha três unhas restantes.
– O que mais eles tem planejado pra nós? – indaguei. – Tenho certeza que você só serviu com- — fui cortado no meio da fala por mais um toque do meu celular. Quase rosnando de raiva, abri o texto para ver aquele maldito número de novo.
Ya, Suga-ssi! Não lembra de mim? É o Jimin~ ㅠㅅㅠ
– Recebendo mensagens do namorado? – Jin provocou.
– Cala essa boca. Só fala merda. – rosnei, desligando o celular no processo. Aquela criança tinha um ótimo radar pra me importunar em horas inconvenientes.
– Você devia responder, sabia? Ele falou comigo a semana inteira, perguntando sobre você a cada cinco minutos. – Jin exagerou como sempre. – Estou começando a achar que ele é um solitário sem amigos que nem você.
– Jin, agora não é a hora. – Rap Monster interviu antes que eu pudesse socar a cara do seu querido namorado.
– Ah, você tem razão. Onde estávamos mesmo? – perguntou ele, na voz mais inocente que conseguia fazer, enquanto levava o alicate para uma das últimas unhas que nosso prisioneiro ainda possuía.
Quando o garoto já estava inconsciente e com as mãos completamente ensanguentadas diante de nós, Namjoon olhou de mim para Seokjin e depois para mim de novo, aparentemente sem saber o que fazer.
– O que fazemos com ele? – indagou.
– Você ainda pergunta? Matamos o cara e depois enviamos as mãos para Yongguk, pra ele saber que não pode foder com a gente. – sugeri.
– Yoongi... O que foi que eu disse? – o líder passou as mãos pelo rosto, exausto.
– Eu sei muito bem o que você disse, Namjoon. – enfatizei seu nome, deixando claro que não gostava quando ele usava o meu. – Mas agora é você quem precisa me escutar. Nós estamos em guerra. Yongguk deixou isso bem claro ao mandar esse filho da puta pra cá. Ele não estava apenas no nosso território, ele estava literalmente na nossa porta! – elevei o tom de voz, cansado da forma “democrática” que Rap Monster usava para resolver tudo. – Agora nós não precisamos de um político, nós precisamos de um ditador. Se demonstramos fraqueza agora, Yongguk vai comer nosso rabo com arroz.
– Eu odeio admitir, mas... Eu concordo com o Suga. – disse Seokjin, olhando fundo nos olhos preocupados do namorado. – Eu sei que você detesta ter que recorrer à violência, e sei também que você preza esse grupo mais do que tudo. Mas a merda já está feita, Namjoonie. – ele se aproximou para pousar uma mão no ombro do líder, manchando sua roupa de sangue. – Yongguk já tomou seu posicionamento, e você agora precisa tomar o seu.
– Vocês não tem noção do banho de sangue que essa cidade vai se tornar se eu responder dessa forma. – ele disse, sua voz grave reduzida à quase um sussurro.
– Sim, nós temos. – eu respondi. – Eu também acho isso tudo uma merda, e por mim Yongguk podia engasgar com caviar e morrer, mas a gente precisa revidar, Rapmon. Se a gente ficar parado sem fazer nada, vamos ser massacrados. É isso o que você quer? Cair sem lutar?
– Jamais. – Namjoon me respondeu, seus olhos de repente brilhando de determinação. Soltando um último suspiro, mas já decidido, ele sacou a própria arma e apontou para a cabeça do prisioneiro. – Por mais que eu odeie tomar esse tipo de atitude... O que deve ser feito, será feito. – ele lançou um olhar de confirmação para mim e Jin, e assim que assentimos, disparou o gatilho.
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